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Observatório da Planta

A maior traficante de drogas do planeta

Por Murilo Nicolau

Apoio: Murilo Nicolau & Associados

Não é de hoje que a balança de comércio entre países é alvo de estratégias horrendas, como vem tentando fazer Donald Trump com o Brasil e diversas outras nações.

No século XIX a briga era outra: os ingleses importavam muito chá dos chineses, que por outro lado não compravam tantos produtos ingleses para seu mercado. A balança pendia em desfavor dos ingleses, que gastavam mais do que lucravam com a relação comercial.

Foi então que a Rainha Vitória, monarca inglesa, entrou em cena. A estratégia do império britânico foi simples e devastadora: passou a financiar a produção de ópio na Índia e exportá-lo em larga escala para a China, provocando um surto nacional de dependência química e colapso social. 

A comercialização do ópio gerava altos lucros para a Coroa e reequilibrava artificialmente a balança comercial com os chineses. Em outras palavras, o Império Britânico invadiu o mercado chinês com drogas, não por acidente, mas por política de Estado.

O impacto foi tão brutal que o governo chinês tentou proibir a entrada do produto, que acabou em duas guerras contra a China, conhecidas como Guerras do Ópio. Em ambas, os britânicos venceram e impuseram tratados humilhantes, como a cessão de Hong Kong e a legalização forçada do comércio de ópio, impondo ainda mais presença inglesa em território chinês. Pela via diplomática e armada, a droga virou moeda de poder.

Na atualidade as coisas não mudaram muito. Enquanto países do Norte Global avançam com a regulação da cannabis, transformando a planta em ativo econômico, produto farmacêutico e commodity agrícola, o Sul Global ainda assiste à criminalização dos seus próprios saberes, cultivos e população. A planta que aqui é criminalizada, lá fora é patenteada. 

A mesma lógica colonial que permitiu à Inglaterra lucrar com o vício alheio reaparece, com outros nomes, na geopolítica contemporânea da cannabis. Não é coincidência que o Brasil importe derivados de cannabis a preços altíssimos, sob forte lobby farmacêutico, enquanto segue criminalizando o cultivo nacional. A dependência não é mais química, é comercial, regulatória e geopolítica.

Lá atrás essa briga produziu a maior traficante de drogas da história, a Rainha Vitória. Ela era o próprio cartel, legitimado pelo trono e pelas armas. Já hoje o discurso da guerra às drogas continua servindo aos mesmos interesses: controlar corpos, territórios e mercados.

A história do ópio é mais do que uma anedota imperial. É um espelho incômodo sobre quem pode lucrar com drogas e quem será sempre punido por usá-las.

Tem dúvidas jurídicas sobre a planta? Responderei às perguntas enviadas pela comunidade breezer. Envie DM pelo Instagram da @breeza_revista. Ou pelo meu, o @omurilonicolau.