
Por Anita Krepp
“A maconha bate diferente em cada ser humano, e acho que depende muito do mapa astral. O meu beck, por exemplo, é bem fraquinho. Não gosto de fumar skunk poderosão, como sou muito terra, gosto de moderação em tudo”, teoriza Edu Conte, astrólogo capricorniano com ascendente em virgem e lua em touro, que ganhou projeção nacional durante a pandemia, época em que apresentava quadros nos programas Se Joga, na Globo, e De Perto Ninguém É Normal, no GNT.
De astrólogo de programas na maior emissora de TV do país foi um pulo até virar o queridinho de celebridades como Ísis Valverde, Fernanda Gentil, Tainá Muller e Maria Ribeiro, conta ele, verborrágico e vivo, muito vivo. Com olhos azuis arregalados e brilhantes, Edu fala com empolgação sobre a importância que a maconha tem na sua vida e sobre como quer se posicionar nesse universo. “Eu quero ser a cara da cannabis no Brasil, quero ser um símbolo. Quando as pessoas pensarem em cannabis eu quero que associem ao Edu Conte”, conta ele, que tem por objetivo principal promover acesso à maconha em todos os seus usos.
A paixão quase devocional que ele nutre pela planta nasceu com a percepção de que a ganja foi uma das pontes de acesso ao mundo espiritual. “Por isso que os xamãs faziam isso, por isso que Bob, Jah, toda a Jamaica gritava para o mundo, olha, isso aqui é espiritual, e de fato, a cannabis é uma planta, e planta é natureza, uma energia feminina, de acolhimento, de carinho”, sintetiza, e completa. “O futuro é feminino, ecológico e espiritual. Não tem outro caminho.”
Edu, este soldado na luta pela normalização da maconha, tem planos ousados, alguns diriam que até utópicos, de trabalhar com a erva. “No futuro, eu vou abrir um lugar chamado Becks N´Bossa em Ipanema, que vai ser só musiquinha levinha, bossa nova rolando com becks maravilhosos passando, e comidinhas de larica: bifezinho com batata frita, picadinho, pudim, mousse de chocolate, vai ser só comidinha de chapado.”
Música e maconha na veia
O despertar espiritual de Edu, propiciado pela erva, aconteceu em 2012, quando ele atuava como advogado corporativo e se deu conta que estava muito longe do seu sonho de infância, que era fazer música. “Quando a Matrix cai, eu me dou conta, caralho, meu propósito não é esse. O que eu vou fazer da minha vida?”, se perguntava enquanto navegava uma tristeza profunda. “Se tivesse um botão pra eu apertar e poder ir embora daqui sem sujeira, sem sangue, eu apertava e zarpava.”
Salvo pela arte, ele criou um show ao vivo pela internet, coisa que naquela época não existia, e lançou Edu Conte e a Banda de Apartamento, que imediatamente bombou no Rio Grande do Sul, sua terra natal. “O meu primeiro clipe tem uma menina fumando maconha, ou seja, lá em 2012, mesmo eu não aparecendo em público fumando, eu já entendia e normalizava a cannabis”, lembra ele, que chegou a abrir shows de João Bosco, Nando Reis, Zélia Duncan, Los Hermanos e Jota Quest – que inclusive gravou músicas suas.
É claro que Edu, acostumado a fumar o seu beckzinho antes de subir no palco, tem boas histórias dessa época. “Num desses shows de abertura do meu herói, João Bosco, num teatro lotado, subi pra fumar nas escadas, e quando eu fumei lá em cima, toda a brisa desceu pra plateia e ficou uma nuvem de maconha na porra do teatro, no camarim do João Bosco. Eu impregnei de maconha todo o teatro. Nunca vou me esquecer desse beck, porque eu falei, cara, consegui chapar o João Bosco por tabela”, diverte-se.
Uns anos depois, no Planeta Atlântida – o épico festival dos verões do Sul do Brasil –, Edu acompanhava o Jota Quest, banda famosa pelas lendárias festas de camarim, e decidiu dar um upgrade nesses encontros. “Tinha uma luz branca horrorosa, aí consegui um banheiro num canto, coloquei uma lâmpada vermelha, fechei a porta e criei um maconhódromo. Cara, quando vi, duas horas depois, estava lá o Paralamas misturado com o Jota Quest, misturado com o Gabriel Pensador”, conta Edu, rindo, que acabou virando “o Edu da maconha”. “Meu Deus, eu ia ser juiz, eu pensava… E agora sou conhecido como o cara da maconha.”
Ter previsto a pandemia não faz dele um guru
A rotina de músico, com viagens e turnês, mostrou a Edu um lado que ele não havia considerado quando tudo ainda era apenas um sonho. Assim, quando a esposa engravidou da filha do casal, hoje com 7 anos, ele percebeu que aquele estilo de vida não seria sustentável, e foi aí que encarou uma nova guinada profissional, desta vez, rumo à astrologia. “Eu não queria viajar, não queria entrar numa van, não é pra mim, então decidi: vou virar o novo Paulo Coelho, vou ser o novo astrólogo mais famoso do Brasil. E era assim que a Fernanda Gentil me anunciava na Globo: tá vindo aí o mais famoso bruxo do Brasil.”
Cocriação, a arte de construir a própria realidade, é uma ferramenta poderosa – e Edu é prova disso. Meses depois de mergulhar de cabeça na astrologia, ele assumiu o novo personagem e se tornou um dos astrólogos mais pop do Brasil. Não foi tanto pela longa barba branca que lhe dá um ar de feiticeiro, mas por ter previsto a pandemia em rede nacional, um ano antes de acontecer. “Embora me tirem para guru, eu sou o anti-guru, sou humano, demasiadamente humano. Eu bato punheta, como açúcar, como carne vermelha, tenho muita raiva do juiz quando roubam do meu time lá no Rio Grande do Sul.”
Edu pode até não ser um guru, mas carrega um poder enorme de materializar e transformar o próprio caminho, e tudo ao seu redor. É com essa energia que as ideias para revolucionar o status da maconha no Brasil pipocam sem parar na sua cabeça. “Sabe aquele programa Ensaio (da TV Cultura) em preto e branco? Eu queria dar ¼ de ácido pro Lulu Santos e pra banda dele, num sítio, e gravar o cara brisadaço contando como criou as suas músicas”, diz, compartilhando mais uma de suas ideias.
E o melhor de tudo é que as ideias que fervilham na cabeça do Edu vêm acompanhadas de muita consciência. Porque a gente sabe que sem consciência, a revolução no entendimento da maconha no Brasil corre o risco de virar só mais um produto do capitalismo. “A coragem que eu tenho de sair na rua fumando maconha na Zona Sul vem desse infeliz privilégio que eu tenho, depois do meu despertar, tudo fez ainda mais sentido. Hoje tenho plena certeza de que a proibição é uma ferramenta de opressão racial para manter a desigualdade social no nosso país”, que esse soldado da erva vai seguir combatendo com ideias luminosas e brilho no olho.