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Observatório da Planta

A Amazônia virou blunt, mas só na gringa

Por Murilo Nicolau

No início deste ano, a empresa norte-americana RAW lançou no mercado dos Estados Unidos o Guarana Wraps, um blunt fabricado com folhas de guaraná (Paullinia cupana), planta nativa da Amazônia. A proposta do produto é substituir as tradicionais folhas de tabaco, oferecendo uma alternativa natural, sem nicotina e sem aditivos artificiais.

Ao contrário do que muitos imaginam, um blunt não é uma seda comum. Enquanto a seda é um papel fino, utilizado para enrolar pequenas quantidades de cannabis, o blunt é uma folha mais espessa, geralmente feita de tabaco, que proporciona uma queima lenta e prolongada. Seu uso se popularizou especialmente nos Estados Unidos, associado à cultura hip hop e à estética de baseados robustos.

O diferencial do produto anunciado pela RAW está justamente na composição. Tradicionalmente, os blunts são feitos de tabaco e, portanto, carregam nicotina, uma substância psicoativa e altamente viciante. No caso do Guarana Wraps, a proposta é oferecer uma folha composta pelos princípios ativos do guaraná: cafeína, teofilina e teobromina. Três estimulantes naturais presentes na planta amazônica que, segundo a própria fabricante, proporcionam uma experiência distinta da entrega clássica do blunt com nicotina.

O lançamento foi feito exclusivamente nos Estados Unidos e, até agora, não há previsão de comercialização em outros países, muito menos no Brasil, país de origem da planta utilizada no produto.

O episódio não é isolado. Ele se soma a uma longa lista de exemplos em que a biodiversidade brasileira é transformada em insumo para inovação estrangeira, sem que o mercado nacional participe ativamente dos benefícios econômicos, tecnológicos ou culturais desse processo. Casos semelhantes já ocorreram com produtos derivados de açaí, copaíba, jambu, ayahuasca, entre tantos outros.

Ao mesmo tempo, o contraste é evidente. Enquanto nos Estados Unidos a indústria da cannabis avança a ponto de desenvolver blunt wraps à base de espécies amazônicas, no Brasil, o mercado da cannabis segue criminalizado, fragmentado e dependente de judicializações constantes. A mesma planta que serve de insumo para a inovação de empresas estrangeiras não pode ser cultivada, processada ou utilizada legalmente dentro do território brasileiro.

Não se trata apenas de debater a regulação da cannabis. Trata-se de compreender um fenômeno mais amplo: a incapacidade histórica do Brasil em transformar sua biodiversidade em desenvolvimento econômico soberano, ao mesmo tempo que entrega de bandeja para empresas estrangeiras.

O lançamento do Guarana Wraps evidencia, mais uma vez, um paradoxo que se repete na história brasileira. O conhecimento, os ativos e a matéria-prima são nacionais; mas os lucros, as patentes e os produtos seguem sendo estrangeiros.

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