Na Breeza

O amor também é feminizado

A funkeira Marieh ama mulheres e sabe que a erva é apoio no processo de descobrimento e aceitação

Carioca, funkeira e sapatona, Marieh é celebrada e admirada por suas contribuições na cena musical do funk e por viver abertamente sua identidade lésbica. Nesse mês do orgulho LGBTQIAP+, a artista fala sobre identidade sapatão, conservadorismo e redução de danos. Entre palhinhas e um papo de peito aberto, Marieh promete continuar cantando sobre sexo, drogas e sobre como é amar outras mulheres, mantendo assim sua força e presença em uma cena majoritariamente masculina e heteronormativa.

Desde o seu hit de estreia, “Gosto muito”, lançado no Dia da Visibilidade Lésbica, em 2021, Marieh ganha cada vez mais espaço na cena, inspirada diretamente pelas suas vivências sáficas, com uma pitada de tempero da nossa planta favorita. Sua relação com mulheres está em tudo o que ela faz: durante a entrevista, Marieh compartilha com prazer uma curiosidade sobre a faixa “Não tem em qualquer lugar”, do seu primeiro álbum, “Cocota”. “É sobre uma ex crush que sumiu e reapareceu depois de 5 ou 6 anos, mas eu não resisti. A gente fumava uma maconha muito boa e fazíamos sexo gostoso”. Uma sapatona emocionada, de fato.

Que a ganja e boas trocas sáficas dão um grau no processo criativo, a gente já sabe e Marieh confirma. Mas, apesar da verdinha contribuir positivamente pra muita coisa, a funkeira faz questão de manter a sua independência, e escolhe os momentos de fumar. Ela, inclusive, evita compor músicas chapada, uma autoconsciência fruto de um processo de amadurecimento que começou antes ainda de começar a fumar maconha, quando ainda era o que se considera conservadora – resultado de ter crescido com uma mãe tabagista, e um pai alcoólatra. Tudo isso fez com que ela atravessasse a adolescência sem um golinho de álcool sequer, e prometesse a si mesma só fumar maconha depois de passar na universidade.

Não demorou para que a Marieh iniciasse os estudos em artes na Universidade Federal Fluminense. E, como prometido, deu um dois no beck só naquele então. E não deu outra, ela se apaixonou e após alguns meses de uso, acabou desenvolvendo uma relação complicada com a planta e com o álcool. Ela conta que ficava muito chapada e perdia várias aulas da faculdade, mas era aluna nota 10.

Sofrer na Europa é sinal que alguma coisa tá errada

Foi por meio do conhecimento da abordagem da redução de danos, através da diminuição do consumo da ganja e do álcool, além da priorização da saúde, que Marieh recuperou as esperanças. Hoje, não consome outra droga além da cannabis, ligada diretamente ao seu tratamento de saúde mental. Marieh está focada em parar de beber e conta que muita gente ainda não entende sua escolha. “E ainda me oferece bebida de 10 vezes na mesma noite.” A funkeira conta que sua relação com o álcool foi o que motivou a decisão de dar uma pausa na bebedeira. “O álcool me deixava muito suscetível. Quando bebia, já não sabia mais o que poderia consumir depois, e além do mais, ele mexia com a minha ansiedade.”

A redução do consumo do álcool tem impacto direto no seu tratamento. Decisão da qual afirma que pode reconsiderar, mas é decisiva por ora. A funkeira está atualmente em processo de recuperação de uma depressão, ocorrida no ano passado, durante sua primeira Eurotour. “Chorei em todos os países em que me apresentei e isso era muito confuso pra mim porque eu estava fazendo minha primeira turnê internacional. Como eu vou ficar mal assim? Acabei de conquistar coisas incríveis.”

A artista relembra, com pesar, que chegou a abrir mão dos cuidados com a sua saúde mental por conta do estigma que rondava seu diagnóstico: “Neguei a bipolaridade por muito tempo, não queria ser vista como problemática. Eu tinha sonhos e queria ser eu mesma. Só que depois percebi que deveria ter seguido o tratamento corretamente (…) Passei por tudo isso sozinha, sem contar pra ninguém. Não recomendo”. 

Resistir para existir

Hoje, Marieh vê uma nova chance de recomeço com a cannabis, depois de ser exposta a tratamentos pesados desde muito jovem. “A indústria farmacêutica me afastou de fazer o tratamento certo. Aos 8 anos eu tomava de 5 a 6 remédios por dia, inclusive Ritalina. Tinha vezes que eu não conseguia sair da cama.”

A mudança na sua relação com as substâncias também reflete na forma que a artista vê a política antidrogas no Brasil. Marieh é 100% a favor da legalização de todas as drogas e defende que uma postura antiproibicionista impacta positivamente na saúde pública. A artista afirma que a atual política corrobora com o genocídio da população negra e impede avanços científicos sobre o tema. “O dinheiro das drogas não está sendo utilizado para combater o avanço do número de pessoas viciadas. Neste exato momento, uma pessoa pode estar tendo uma overdose, seja na cobertura da sua casa em Higienópolis ou na rua.” 

Ao mesmo tempo em que defende a legalização, Marieh reconhece que “A liberdade também está em conseguir ficar sem fumar” e, depois de finalizar uma Eurotour e ter comprado seu haxixe de forma “chique” em um coffeeshop, em Amsterdã, conheceu uma galera que deixou de fumar maconha. Para ela, o uso de qualquer substância deve ser feito de forma responsável e consciente. “O consumo da cannabis por pessoas que já estão mal, com problemas de ansiedade ou outras questões, pode agravar. Muitas pessoas LGBTQIAP+ acabam buscando nas drogas uma forma de apoio. O mundo não é feito para a gente: a padaria, a academia, o mercado, tudo é pensado para os héteros. São poucos os espaços onde podemos existir.”

Danielly Monteiro