
“Fazia 18 anos que toda a minha socialização e a minha personalidade giravam em torno de bebida, drogas e excessos, e eu precisava reverter isso”, conta Mateo Ugarte, diretamente de Santiago de Compostela, destino final de uma caminhada de 34 dias que ele começou a empreender no mês passado, com o objetivo principal de encontrar uma maneira de socializar novamente sem o apoio de qualquer substância, e, no caminho, encontrar uma nova identidade para o seu novo momento de vida.
Mateo é integrante da banda Francisco, el Hombre, que depois de 12 anos decidiu dar um tempo nas atividades e, nos últimos meses, rodou o Brasil com uma turnê de despedida que foi encerrada com algumas apresentações na Europa. “Foi uma despedida muito emotiva, eu dediquei os últimos 13 anos da minha vida na construção da banda, minhas melhores amizades eu construí nessa banda.”
Aproveitando o momento de encerramento de ciclos, e o lugar, o músico sentiu que era hora de trilhar o Caminho de Compostela, um desejo que nascera dois anos antes, quando também durante uma turnê com a banda pela Espanha, pôde observar a chegada de peregrinos à catedral de Compostela. “Eles tinham um olhar de vitória e de alegria, mas uma alegria difícil de descrever porque era misturada com cansaço, com muito esforço físico e mental, isso me tocou porque já fazia anos que eu não sentia alegria vinda de mim, só da bebida e do palco. Então me prometi que ia fazer esse caminho, só não sabia bem quando.”
E lá foi ele, que escolheu o caminho francês, mais tradicional e popular, “que não gira em torno das festas, como, por exemplo, li que acontece no caminho português”, e iniciou a caminhada em Saint-Jean-Pied-de-Port, passando, depois, pelo País Basco, Cantábria e Astúrias, até finalmente chegar à Galícia. “Você entra num regime quase que de monge, onde você todo dia tem uma rotina igual: de acordar cedíssimo, tomar uma café da manhã leve, andar quilômetros e quilômetros, parar pra tomar um segundo café da manhã e andar mais até chegar na cidade seguinte.”
A força que nasce da vulnerabilidade
O músico optou pela modalidade mais low-cost possível, ao longo dos mais de 800km que rodou, dormiu em albergues municipais ou paroquiais, que funcionam por donativos, e onde é possível lavar suas próprias roupas, carregar o celular, comer alguma coisa e cair morto de cansaço para no dia seguinte começar tudo outra vez. “Nessa vida nômade onde você tem apenas o básico, você se acostuma com isso, e o que te alimenta são as conversas e relações com quem você encontra pelo caminho. Acaba sendo uma ótima maneira de criar uma espaço pra repensar e recriar a sua vida.”
E não é que o Caminho foi mesmo inspirador? Durante pouco mais de um mês, Mateo conseguiu visualizar com clareza o seu próximo passo artístico, em carreira solo, a ser lançada ainda este mês, com o primeiro álbum intitulado “NEURODIVERGENTE” (assim mesmo, em maiúsculas), que traz oito canções inéditas compostas durante internações em clínicas de reabilitação para dependentes químicos. “Elas foram saindo como um vômito, uma atrás da outra. Tenho 70 músicas guardadas, mas essas evoluíram de forma tão intensa e com uma coesão tão grande que percebi que eu tinha que lançar isso antes de qualquer coisa”.
É a primeira vez que Mateo fala publicamente sobre dependência química, comportamento aditivo, depressão e bipolaridade, as neurodivergências com que ele lida desde sempre, mas que só agora conseguiu compreender, e de certa maneira, se empoderar. “Eu vinha escondendo isso porque sempre achava que tinha outras coisas mais importantes para falar, mas agora que botei essas vulnerabilidades pra fora, sinto que comecei a encontrar na vulnerabilidade a minha força. Falar sobre minha saúde mental me deu força e decidi que essa será a primeira bandeira que levanto nessa carreira solista”, confessa o artista, dando um spoiler: “é um disco extremamente denso, duro, com letras muito pesadas que eu precisava botar pra fora”.
Mateo foi usuário de quase todas as substâncias que você puder imaginar. Cocaína, crack, LSD, MDMA, cetamina, mas considera o álcool a pior delas, a verdadeira porta de entrada. “Com 13 anos comecei a tomar cachaça, aos 15, eu baforava diretamente da mangueira do botijao de gás, aos 17 conheci a cocaína. Quando consegui parar com a cocaína e o crack, me viciei em tarja preta, misturando sempre muitas coisas. A grande parada era misturar e aguentar tudo, tendo comas alcoólicos e continuar aguentando. E a depressão sempre de mãos dadas com tudo isso”, lembra ele, enfatizando que seu comportamento não tinha tanto a ver com as substâncias, em si, mas com uma confusão identitária. “Era como se eu tivesse que provar que eu era relevante e a minha relevância vinha através das substâncias.”
De volta pro meu aconchego
Há pouco mais de dois anos, ele topou a sua primeira internação porque “o plano de finalizar minha vida tava muito concreto, dali pra acabar com tudo tava muito próximo”. Foi só então que contou para amigos e familiares o drama que vivia. “A banda foi o melhor grupo de suporte que eu poderia imaginar na minha vida, mudaram completamente a postura no camarim, pararam de beber na minha frente e pausaram a carreira de todo mundo pra que eu tivesse um momento necessário de reabilitação, o que não é pouca coisa pra uma banda que depende de shows.”
Depois de conseguir ficar cinco meses limpo, houve a recaída. Mas, desta vez, os amigos que antes o acompanhavam no uso, não estavam mais dispostos a curtir juntos um momento que eles sabiam, não era de curtição, mas nesse caso, um hábito de autodestruição. Mateo, então, passou a consumir sozinho, e a substância que fazia sentido nesse uso solitário era a cetamina, um anestésico poderoso. “Tive uma quase overdose de cetamina dentro de uma banheira e quase morri afogado de forma semi proposital. Mas isso não significa, de forma alguma, que a cetamina e outras substâncias não possam ser utilizadas por muita gente com efeitos positivos.”
Mateo entende que uma personalidade aditiva vai muito além das substâncias: “a adição é genética, assim como a depressão, e no meu caso, uma se soma à outra”, e a única solução, pra ele, é falar a respeito nas salas de aula, nas mesas de jantar, sem estigma nem preconceito, que só fazem atrasar a chegada de ajuda.
Nos próximos dias ele retornará ao Brasil com seu CBD na mala – substância que faz parte do seu tratamento contra a depressão, bipolaridade e os sintomas da fibromialgia, que finalmente entraram em equilíbrio – e muita saudade “dos melhores amigos do mundo e da melhor companheira do universo”, diz, referindo-se à namorada Luê, a também musicista com quem vai se mudar para Belém nas próximas semanas. “Nosso relacionamento no último ano e meio esteve muito em torno a mim, então chegamos à conclusão de que é hora de ficar mais perto da família dela, e quero aproveitar para me aprofundar na musicalidade do Pará.”
Anita Krepp