
Ele começou relativamente tarde. Na década de 1990, aos 25 anos de idade, Paulo Consentino fazia uma residência artística na Alemanha quando experimentou maconha pela 1ª vez. “Depois de um jantar de confraternização com gente de vários países, fizeram um bong de lata de cerveja e mangueira de gás, foram duas bongadas e tava todo mundo conversando e se entendendo como se falasse a mesma língua”, lembra o artista plástico, que durante a juventude também foi atleta, o que atrasou o seu encontro com a ganja, “porque como atleta, fumar seria um problema”.
Uma vez apresentado à erva, Paulo não desgrudou mais do que ele considera a sua grande medicina, e ao longo das últimas três décadas consumiu de maneira equilibrada, com fases de maior ou menor uso intercaladas com pequenas pausas estratégicas. “A fase atual tá bem mais calma, eu tenho fumado em momentos especiais, quando termino o meu dia e dou aquela relaxada. Às vezes tem wake and bake, mas é mais raro”, conta ele, que não sente influência direta na criatividade, mas sim na sua liberdade criativa. “Como artista, sempre acreditei que dava pra fazer coisas impossíveis, talvez a inspiração venha da maconha.”
O bem-estar proporcionado pela erva motiva Paulo e inspira uma vida cheia de projetos artísticos como na Fundação Léo Messi, em Rosário; escola Luiz Suarez, em Montevideo, Fundação Johan Cruyff, em Amsterdam; The Haus, em Berlin e a lista segue. “Mas eu não trabalho quando eu fumo, é quase uma regra minha de não fumar no trabalho quando eu tô em campo.”
De volta ao Brasil
Depois de viver longas temporadas na Espanha, Alemanha, em África e, mais recentemente, na Bahia – onde construiu um oásis repleto de cachorros, cavalos e outros bichos que o Paulo ama ter por perto –, ele está de volta a Santos (no litoral paulista), a sua cidade natal, onde deve ficar, no mínimo, pelos próximos três meses trabalhando na 3ª versão de um projeto muito especial: pintar murais na fachada do Santos Futebol Clube com ídolos do time.
“A gente volta pro Brasil e retrocede em relação à legislação, à maneira como o consumo é visto. A cultura canábica aqui é totalmente underground, bem diferente de você poder comprar num dispensário oficial um produto que você sabe o que é. Acessar uma coisa ilegal no Brasil deixa a gente com o pé atrás, por isso diminuí meu consumo numa adaptação forçada”, lamenta, ao mesmo tempo em que reconhece o pequeno passo recente pela descriminalização do porte e plantio, mas que não desarraigou os nossos preconceitos. “De gente que associa a cannabis à vagabundagem e ao crime, sendo que é uma planta natural, não precisa eu vir aqui dizer isso, mas a gente sente o retrocesso quando vem pra cá.”
Esses preconceitos todos que a gente conhece bem, fizeram Paulo entrar em parafuso há cerca de dez anos, sem entender direito de que maneira abordaria com a filha que chegava à adolescência, o fato de ser um usuário recreativo de maconha. “Até que a gente conversou sobre isso, ela falou que já tinha provado, sem drama. Conversamos sobre as questões de uso na adolescência, questões legais e das implicâncias no Brasil. Nunca escondi o que eu achava do assunto, mas não fumava na frente dela”, conta o artista, que fez seu maior break durante a infância da filha por não saber como lidar com a situação.
“A gente foi encontrando o caminho, e nos abrimos de uma maneira que nos permitiu no futuro fumar juntos um baseado.” Mas, isso, bem depois, quando Paulo vivia em Barcelona e a filha, que é modelo do 1º escalão de marcas internacionais e figura requisitada em praticamente todas as semanas de moda no mundo todo, de tempos em tempos, vinha visitar.
Maconheiro pacífico, uma redundância
Na trajetória de Paulo, a maconha está presente em muitos níveis. Além dos baseados esporádicos que compartilhou com a filha, foi também nessa planta que ele e a família depositaram as esperanças de melhora no tratamento de seu pai, Ítalo, que conviveu com o Parkinson durante os seus últimos anos que viveu com maior qualidade de vida graças aos medicamentos à base da erva. “Canabidiol também é bom pra caramba, e as pessoas precisam entender que a cannabis não é nenhum bicho de sete cabeças, tanto no uso medicinal quanto no uso recreativo.”
O movimento social gerado em torno da erva, a cultura canábica, “que está enfronhada no meio artístico” e os avanços científicos e econômicos das nações legalizadas enamoram Paulo desde sempre. Mas, mesmo reconhecendo todas as benesses da maconha, o artista tinha uma questão com o hábito de fumar. “Foi difícil aceitar que eu era um fumante, agora entendo essa situação um pouco melhor”, mas só agora, quando, ironicamente, começou também a explorar outras vias de uso.
Usuário com décadas de experiências canábicas, Paulo aguarda ansiosamente pelo avanço da legislação para que os brasileiros possam, enfim, ter a mesma liberdade de que desfrutam, por exemplo, os alemães e os uruguaios. “A maconha é um caminho e uma escolha de pessoas pacíficas. Eu mesmo sou muito mais pacífico do que se usasse álcool.”
Anita Krepp