Saindo da estufa

Paulo Henriques Britto: “Escrevi muita coisa sob efeito de ácido, mas nada interessante”

Paulo Henriques Britto, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras, chega à ABL carregando não apenas a maestria das palavras, mas também suas experiências com LSD nos anos 1970, quando uma viagem psicodélica resultou não em epifanias místicas, mas em uma confirmação irônica de seu materialismo radical. 

Enquanto prepara o discurso de posse e o fardão, ele revela que, na Califórnia daquela época, era quase impossível escapar dos psicodélicos, mas que suas criações sob efeito do ácido ficaram mais para o lado documental do que literário. Hoje, o poeta recorre a outro aliado, o THC, para combater a insônia, um hábito que, segundo ele, funciona melhor do que remédios tradicionais, sem deixar rastros de ressaca no dia seguinte. 

Entre um mergulho no passado lisérgico e na raíz de sua produção literária, Britto também reflete sobre os tempos modernos. Em meio à crise das livrarias e à ascensão das redes sociais, ele vê seus alunos de letras trocarem páginas de livros por scrolls infinitos no celular. Ainda assim, guarda um fio de esperança: talvez, entre mensagens de texto e leituras de timeline, algum interesse pela palavra escrita sobreviva. 

Para ele, a poesia não é um acaso, mas uma busca obstinada, como provam os versos que surgem em sonhos ou os livros que ganham vida quando um editor cobra prazo. Da poesia marginal pós-AI-5 ao primeiro livro infanto-juvenil inspirado nos netos, Britto transita entre gêneros seja como tradutor de Pynchon, seja como palhaço involuntário em suas aventuras psicodélicas, ele mantém uma certeza: a poesia está lá, esperando para ser caçada. E, no fim das contas, é essa caça que mantém viva a chama da criação, como ele mostra na entrevista a seguir para Anita Krepp, editora da Breeza.

Paulo, você é o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras, então, conta pra gente, como é ser imortal?

Olha, por enquanto ainda não deu pra provar a tal da imortalidade, porque eu ainda não fui empossado. E por uma questão de mil comprometimentos profissionais, eu ainda não consegui ir a nenhuma reunião. Eu já posso participar como ouvinte, a primeira que eu vou é nesta quinta-feira. Eu tenho que agora preparar um discurso de posse, tenho que providenciar um fardão, e se tudo correr bem, imagino que no final de agosto ou início de setembro, eu vou poder já marcar a minha posse e eu vou conseguir finalmente participar bonitinho como realmente um membro da Academia. Foi tudo decidido muito em cima do laço. Eu não tinha um longo projeto, mas fui estimulado até por pessoas lá dentro, foi muito legal, me deram o mapa da mina, fiz tudo certinho, mandei tudo o que tinha que mandar. Então foi assim que, de uma hora para outra, eu me vi já eleito para a Academia. 

O senhor tem alguma ideia do que você vai trazer nesse seu discurso de posse? Tem alguma coisa, por exemplo, sobre o reconhecimento de um poeta que dificilmente acontece na vida de um poeta?

O que eu vou falar vai ser o seguinte, tenho uma pista muito boa. Uma das coisas que sou obrigado a falar é de todos os meus antecessores, com ênfase para a última. A última foi a Heloísa Teixeira, entre os mil ângulos que a gente pode falar dela, eu queria focar num especificamente, dela como antologista. Ela publicou, em 1976, uma ontologia que é seminal, que marca a separação entre as duas eras da poesia brasileira, antes e depois do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, quando acaba tudo. Acaba a Tropicália, que é uma vanguarda centrada na música popular e na arte plástica, mas também teve ligações com a poesia. Então, todo mundo vai para o exílio, todas as atividades culturais são paralisadas. Acaba a Tropicália, acaba tudo. Então, nesse momento, nós temos um hiato entre 68 e 76. O que estava acontecendo? Era justamente o surgimento da poesia marginal, centrada aqui no Rio de Janeiro, mas também com ecos importantes em Brasília, em São Paulo, em Minas. O que foi a poesia marginal? Uma reação a tudo. Primeiro, uma reação à polarização entre vanguardas e aos neoconservadores. Uma reação, obviamente, à ditadura e ao silêncio cultural que começa com o AI-5 e as pessoas desistem completamente de procurar editora, de publicar. O que as pessoas fazem? Xerocam ou rodam em mimeógrafos, o mimeógrafo não era muito usado, poeminhas de forma livre, e vão vender ou dar de presente para as pessoas em filas de cinemas de arte, teatros e espetáculos de música popular. Em 1976, com a publicação dessa antologia, ela faz realmente essa revelação, a gente vê o que está acontecendo na poesia. Ela vai reunir os poetas em antologia. Então, eu vou aproveitar esse gancho e vou falar sobre a minha pesquisa. O que eu posso trazer para a academia é isso, as minhas pesquisas, que eu vim desenvolvendo nos últimos 20, 30 anos na PUC, sobre forma poética, tradução de poesia e poesia brasileira contemporânea e vou dizer que a noção do que é poesia brasileira contemporânea hoje é o que começa justamente após o fim do AI-5.

Eu tenho notado que os livros estão voltando a ser objeto de desejo dos brasileiros. Tem surgido clubes de livros por todos os lados, as feiras literárias também estão em um ótimo momento. Mas, ao mesmo tempo, uma pesquisa recente disse que o número de leitores no Brasil caiu ainda mais. Como é que você tem sentido esses movimentos, está melhor do que nunca ou pior do que nunca?

Está ruim. Uma coisa triste que aconteceu com a pandemia foi que muitas livrarias fecharam e tem uma tendência a comprar livro pela internet. Eu compro muito livro pela internet, mas eu sinto falta de livrarias. Você vai na livraria, fuça aqui, fuça ali, e encontra livros que você não pediria. Os livros que eu quero, que eu sei que existem, eu peço direto pela internet, mas é uma função da livraria apresentar livros. Às vezes, pela capa, você me atrai. Mas o momento está ruim. Os livros não estão vendendo muito. Eu desconfio que muita coisa que vende não é bem livro. São livros de colorir, livros didáticos… Mas o livro, livro mesmo, acho que a tendência das pessoas é, cada vez mais, usar o tempo que seria usado em leitura em coisas como redes sociais.

“O momento está ruim. Os livros não estão vendendo muito. Eu desconfio que muita coisa que vende não é bem livro. São livros de colorir, livros didáticos… Mas o livro, livro mesmo, acho que a tendência das pessoas é, cada vez mais, usar o tempo que seria usado em leitura em coisas como redes sociais”

Eu busquei você nas redes e não encontrei. Você não tem rede social?

Eu tenho o Facebook, e uso quando eu publico um livro ou quando nasce um neto meu. Tirando esses casos, jamais entro no Facebook, porque eu não tenho tempo, porque eu preciso ler. A única hora que eu tenho para ler é à noite, quando eu chego do trabalho, se eu ficar perdendo tempo no Facebook, que horas eu vou ler? Eu acho que é uma incompatibilidade de tempo. Os facebooks da vida estão tirando o tempo que seria dedicado à leitura em outras épocas.

Como a gente faz para recuperar esse tempo da leitura, não de timeline, mas de livro?

Não sei o que fazer. Eu dou curso de literatura, dou uma oficina de escrita poética lá na PUC, e eu nunca vi os alunos faltarem tanto, entregarem tão pouco trabalho, e passarem tanto tempo em sala de aula olhando para o celular em vez de prestar atenção na aula. É desesperador. Tem um lado bom, o único lado bom que eu vejo nisso é que, mal ou bem, as pessoas que usam o Facebook acabam lendo alguma coisa. Quem sabe alguns deles vão se interessar pela palavra escrita ao mandar mensagem. Agora, as pessoas mandam mais até mensagens gravadas, sonoras.

Mas dá um mínimo de interação com a escrita que na era do telefone não havia. Então, as pessoas, pelo menos, escrevem alguma coisa e lêem alguma coisa. Mas eu realmente sinto que meus alunos, que são alunos da área de letras, estão lendo cada vez menos. E eu não sei o que fazer.

Paulo, dizem que quem escreve poesia dificilmente consegue fazer outro tipo de literatura. Mas está você aqui provando o contrário, escrevendo seus contos de ficção e não ficção. Como é para você transitar por gêneros literários distintos?

No fundo, no fundo, o que eu sempre quis ser foi ficcionista. O autor predileto para mim realmente é Kafka. Kafka é o autor que eu mais li e reli na minha vida, e que é um prosador. E também o Machado Assis, um escritor importantíssimo na minha formação. Mas, a partir de uma certa idade, dos 12, 10 anos de idade, eu comecei a ler. Eu já lia muito desde menino pequeno. Mas foi só a partir dos 12 anos que eu começo a ler poesia séria. De lá para cá, eu venho lendo muita poesia. Mas o meu projeto era de escrever prosa. Eu fiquei um ano e meio na Califórnia estudando cinema e o que eu fazia era ir às aulas de cinema, assistir a filmes e o que eu fazia em casa era escrever contos. E cheguei no Brasil com uma bagagem de 30 contos. A maior parte dos meus contos publicados eu venho retrabalhando desde essa estada na Califórnia, 50 anos atrás. Aos poucos, fui descobrindo a poesia, me interessando por poesia, por forma poética, e comecei a escrever poesia também. Agora estou escrevendo o meu primeiro livro infanto-juvenil.

E isso aconteceu por conta dos netos?

Por conta do meu neto mais velho e por conta da pandemia. Ele passava muito tempo comigo aqui em casa, e eu adorava, porque eu não tinha vida social mais, e a minha única vida social era o meu filho menor, que vinha aqui e trazia o meu neto, e deixava ele comigo alguns dias, e aí eu criei uma rotina com ele de toda noite, quando eu lia histórias clássicas para ele, e depois que eu apagava a luz, eu tinha que inventar uma história. Toda noite, ele dormia e eu ficava contando essa história. E aos poucos, foi surgindo uma galeria de personagens.

O seu processo criativo, eu imagino que tenha mudado com o tempo, ao longo das décadas. Como foi e como é hoje?

Não muito, a escrita de poesia parte sempre de estímulos aleatórios. O mais importante seria a leitura de outros textos, principalmente poemas, mas às vezes prosa. Às vezes é um som que eu ouço, um ritmo que eu ouço, às vezes uma frase que eu ouço. O meu neto me deu um verso praticamente inteiro alguns meses atrás. Muito raramente acontece o que aconteceu uns meses atrás, de eu acordar com um verso na cabeça. Eu sonhei com o verso, anotei e escrevi um poema em cima desse verso. O meu novo livro que vai sair ano que vem, se tudo correr bem, vai ter um poema que foi parcialmente sonhado.

“Eu tomei LSD algumas vezes, quando eu era bem jovem, tinha em torno de 20 anos. Mas não vi nenhuma ligação entre essas experiências e a escrita, não”

Aqui na Breeza, a gente já conversou com outro imortal, o Krenak, que nos contou sobre a relação dele com a ayahuasca, e eu queria saber se você também já teve algum contato com a ayahuasca ou outro psicodélico?

Eu tomei LSD algumas vezes, quando eu era bem jovem, tinha em torno de 20 anos. Mas não vi nenhuma ligação entre essas experiências e a escrita, não. Escrevi muita coisa sobre efeitos do ácido, sobre o impacto do ácido, mas nada particularmente interessante.

Conta pra gente um pouquinho dessas suas experiências com LSD?

Não foram muitas viagens, uma ou duas mais intensas. A única coisa interessante que tem nessas viagens é que todo mundo que eu conhecia, que viajava, tinha intuições místicas sobre uma fusão com o mundo, com o todo, com Deus. E eu, que sou uma pessoa radicalmente materialista, não tive a menor experiência mística. O momento mais intenso, da viagem mais intensa que eu tive, foi eu me sentir como milhões de células expulsando ao mesmo tempo uma criatura extremamente vulnerável e totalmente separada do que estava em volta. Ou seja, uma anti-epifania mística, foi uma epifania materialista (risos). E não foi uma experiência parcialmente agradável, mas também não foi uma bad trip, não. Eu estava decepcionado, porque estava esperando alguma coisa dos autores que eu lia, sei lá, do Aldous Huxley, do Alan Ginsberg, todo esse pessoal que tem um lado místico. Meu lado místico é zero, realmente, e nesse momento se comprovou a minha completa, absoluta ausência de qualquer tipo de espiritualidade. Na Califórnia de 1972 não tinha como evitar os psicodélicos. (risos)

Naquela época o senhor também fumava maconha?

Sim, sim. Sim. Mas basicamente, quando eu era bem jovem, eu tinha o hábito de fumar regularmente. Era regular. Eu chegava em casa da escola, do trabalho. Era uma coisa de se fazer antes de dormir para ouvir música e para pegar no sono melhor, porque eu sempre tive insônia. É um excelente remédio contra a insônia. Mas depois eu casei e tudo, e aí fui largando.

“O momento mais intenso, da viagem mais intensa que eu tive, foi eu me sentir como milhões de células expulsando ao mesmo tempo uma criatura extremamente vulnerável e totalmente separada do que estava em volta. Ou seja, uma anti-epifania mística, foi uma epifania materialista”

O senhor fazia uso medicinal disfarçado de uso recreativo, né? E hoje em dia, o senhor usa o óleo?

Eu estou usando para dormir, sim. Eu faço tratamento com psiquiatra já há muito tempo, basicamente por causa de depressão e insônia. Mas o problema pior realmente é a insônia. E agora eu estou usando o THC e está funcionando bem. Eu não uso todo dia. Eu tenho um antidepressivo que eu tomo todo dia que me ajuda a dormir. Quando eu sinto que estou muito elétrico, que estou com muita coisa na cabeça, aí eu tomo o THC algumas horas antes de dormir e garante um sono muito suave, muito tranquilo, sem nenhuma rebordosa, sem nada no dia seguinte. Quando eu estou muito mal, eu tenho que tomar remédio para dormir mesmo. Mas é chato que dá aquele efeito colateral. No dia seguinte você acorda com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca, aquelas coisas. O THC é uma coisa limpa, muito bom como sonífero. Mas o efeito demora, eu tenho que tomar às sete da noite para realmente ficar bom. 

“Quando eu sinto que estou muito elétrico, que estou com muita coisa na cabeça, aí eu tomo o THC algumas horas antes de dormir e garante um sono muito suave, muito tranquilo, sem nenhuma rebordosa, sem nada no dia seguinte”

Quais foram os poemas que o senhor escreveu sob efeito de LSD?

Olha, sob efeito não tem nenhum, durante o efeito nunca consegui escrever nada, ou o que eu escrevi nunca era aproveitado. Valeu só por um efeito documental, mas eu escrevi muita coisa que eu não aproveitei. É uma série de três poeminhas chamados Três Epifanias. E um outro, em inglês, sobre a consciência como uma espécie de dor de dente. E o Aqualouco, que é o mais direto. O Aqualouco é exatamente um poema sobre você ver o que foi a experiência psicodélica depois dela.

Quer ler para a gente?

O Aqualouco. A verdadeira diferença só se sente depois do frio. Antes é só um salto, um mergulho imprudente, como se a eternidade fosse água gelada, como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis. Eternidade, etc. Vira acima. Fica só o fundamental, o vômito, o medo, o adeus. A vontade de assassinar todos os recém-nascidos de Egito, como se alguém tivesse culpa de uma coisa que afinal foi você mesmo quem escolheu. Depois você é obrigado a aceitar. Não adianta a pressa. Não há mais compromissos, promessas, fiado, fé. Não. É só um entregar-se às circunstâncias, submeter-se às exigências da matéria, dos elementos, causalidade, aceitação, etc., como antes e sempre.

Bem anti-místico mesmo…

Total, mas essa coisa do antes e depois do salto é a ideia da pessoa que tomou a ação como um aqualouco, que era o cara que fazia piruetas, caía de cabeça, caía todo troncho. Aqualouco era isso, essa ideia da loucura, e a comparação com a experiência lisérgica. Só que o aqualouco sabe o que está fazendo, ele é um palhaço, mas é também um excelente mergulhador. E a imagem aqui é da pessoa que está realmente fazendo uma coisa nova, sem saber se a experiência é breve, sem ter a menor ideia do que vai dar.

Falando da sua faceta tradutor, como é a relação de confiança que se estabelece entre autor e tradutor? Dá muito problema entre essas duas figuras durante o processo de tradução?

Olha, varia. Atualmente eu tenho pedido para traduzir mais clássicos. E aí é bom porque ninguém vai atrapalhar você, porque às vezes o autor atrapalha muito. E tem a vantagem de uma obra que já tem uma fortuna crítica, traduções antigas. Mas durante muito tempo, até hoje, de vez em quando, eu traduzo autores novos, e aí depende. Tem autores que ajudam muito, autores que não ajudam nada e autores que atrapalham. Por sorte, o autor mais difícil que eu já traduzi, que vai voltar a escrever um livro, que eu devo traduzir agora, que é o Thomas Pynchon, e é extremamente prestativo, resolve todos os problemas, responde todas as minhas mensagens, é uma pessoa excelente de lidar. Mas normalmente nem é o autor, mas o agente que atrapalha. Eu já tive agentes que bloqueiam acesso. Poxa, estou traduzindo essa pessoa para um público potencial de 200 milhões de pessoas. Pelo amor de Deus! Custava responder? A pior figura é o agente que quer “proteger” o autor, é muito desagradável. Eu já tive embates com dois ou três agentes muito chatos. Já o Pynchon não. O Pynchon não me dá trabalho. É um prazer trabalhar com ele, porque os livros dele são muito difíceis, e, no entanto, ele ajuda porque sabe que isso é difícil, ele quer que o trabalho fique bem feito.

Você coordenou a tradução do Ulysses, do James Joyce, feita pelo Galindo…

Não, não coordenei nada. Eu só fiz uma revisão ultra leve que o texto já estava absolutamente pronto. Achei uma ou duas coisinhas aqui e ali. O texto dele é maravilhoso. Eu entrei como coordenador editorial, mas o que eu fiz foi dar uma leitura, uma última leitura, e dar umas duas ou três sugestões. O texto já estava maravilhosamente pronto. O Caetano é extraordinário, ele fez uma tese sobre o Joyce e, como apêndice, ele fez uma nova tradução do Ulysses, uma coisa absurda. O neto do Joyce era uma pessoa insuportável, infernizava a vida de tradutores, biógrafos, pesquisadores. Mas caiu em domínio público, e aí o Caetano, que é meu amigo, me procurou, e a gente releu o livro, linha por linha. Foi muito legal, mas já estava perfeitamente publicável. O texto dele é maravilhoso e ele é a pessoa que mais entende Joyce no Brasil.

Pra finalizar, Paulo, como é que a gente faz para encontrar poesia no dia a dia?

Comigo é uma coisa que acontece esporadicamente. Se eu estou fechando um livro, o livro está na editora e estou dando forma ao livro, isso acho que é a coisa que mais me inspira. Nessa fase que supostamente estou fechando o livro e ordenando os poemas, eu produzo muita coisa. Por outro lado, quando o livro está fechado, aí realmente cai a minha produção de uma maneira absurda. Há uma coisa de quando estou procurando, eu acho. E quando acho que não vou ter tempo de fazer outra coisa, eu não acho. Então, tem um lado que é espontâneo e tem um lado que eu realmente vou atrás. Eu sempre gosto de citar o Cole Porter, que perguntado sobre qual era a sua principal fonte de inspiração, respondeu: “um telefonema do produtor”. Risos. Infelizmente, não existe produtor de poesia, o mais próximo disso é editor dizendo, vamos fechar outro livro. Nessa hora, não só começa a mexer, quando começa a escrever mais. Um bom conselho para a gente achar a poesia é procurar a poesia, sair correndo atrás dela. Se você quer escrever poesia, determina, vou escrever um livro. Já tenho esse poema. Quero fazer um poema para acompanhar esse livro. Quero um poema que case com esse poema. É uma bobagem, mas é o que mais funciona.