
“Você conhece a cracolândia pelas notícias da mídia burguesa e conservadora, uma visão enlatada sobre a região e as pessoas que ali vivem”, brada Iolanda Depizzol, diretora da série documental Território em Fluxo – que estreou ontem em cinco episódios disponibilizados no Youtube –, e conta, através de um recorte humanizado, histórias de vida dos moradores da região a partir de uma narrativa mais humana e menos conservadora.
Iolanda é uma jornalista natural de Minas Gerais que em 2015 foi morar em São Paulo, mais especificamente, num apartamento entre as ruas Barão de Limeira e Duque de Caxias, no coração da região que acostumamos chamar de cracolândia. “Vir presencialmente me fez enxergar a realidade de quem mora na rua e é usuário, me fez questionar a visão pré-fabricada que se tem sobre esse lugar.”
Andar à noite pela cracolândia é algo a ser evitado. “Será?”, perguntou-se Iolanda, que para responder a sua própria dúvida, se aventurou pelas noites da região, “que tem uma realidade muito parecida a outros lugares da cidade”, e encontrou pessoas em situação de rua que também se sentem ameaçadas e como qualquer pessoa, também sentem necessidade de segurança e têm medo do desconhecido.
Afinal de contas, são seres humanos
Antes mesmo de surgir a ideia do documentário, Iolanda se interessou em conhecer de perto o seu entorno. “Em vez de fingir que não estou vendo isso, decidi olhar de verdade para o ser humano, afinal de contas eles são pessoas. Então comecei a fazer contato visual, dar bom dia, boa noite. Se eu vejo que a pessoa tá precisando desabafar, eu paro e converso pra entender o contexto da situação”, que Iolanda conta ter piorado muito após a pandemia, com o fechamento de casas de acolhida e o desaparecimento dos pequenos trabalhos que garantiam alguma renda a pessoas em extrema vulnerabilidade.
Nas suas incursões ao longo de anos pelo Fluxo – termo usado pelos moradores para definir o território conhecido como Cracolândia, Iolanda notou que a balança que equilibra a vida de quem mora na região pesa para o uso de drogas quando faltam condições dignas de vida e acolhimento. “A droga não é o motivo de morarem na rua, a droga é só uma ferramenta para sobreviver na rua. E ao contrário do que as pessoas pensam, não é só o crack, mas principalmente o álcool, que é a droga mais usada.”
Desde os primeiros contatos com essa realidade, Iolanda sacou que a guerra às drogas é, na verdade, uma guerra contra os usuários. “Que não faz sentido algum, porque essas pessoas estão simplesmente tentando sobreviver e fazer uso de uma substância, assim como todas as pessoas na sociedade que também fazem uso de substâncias que apenas variam de pessoa pra pessoa.”
Dinheiro público para o bem público
A visão crítica sobre o seu entorno e o interesse sobre os aspectos que moldam a realidade da cracolândia há mais de três décadas prepararam Iolanda para o desafio de dirigir a série documental com cinco episódios que além de produção cinematográfica, também vai ganhar uma versão em podcast com estreia prevista para as próximas semanas.
Trabalhando como repórter do Brasil de Fato, Iolanda recebeu a proposta para rodar a série quando o gabinete de Eduardo Suplicy propôs ao canal uma parceria para a criação de material audiovisual financiado por emenda do deputado, e topou na hora o desafio de abordar uma realidade mal retratada, a base de estigmas e preconceito. A partir daí, intensificou os momentos de escuta, onde se apresentava, conhecia as pessoas e criava relações de confiança antes de chegar direto com a câmara.
Iolanda, que é usuária recreativa de maconha e também trata a ansiedade com óleo de CBD, conta que a erva é vista na região sob a perspectiva da redução de danos. “A maconha aqui é vista como tratamento, medicina mesmo, e tem programas de experimentação com usuários da cracolândia para combater a dependência de outras drogas”, diz ela, que acredita não haver droga mais ou menos perigosa.
“O perigo da sociedade, na verdade, é a visão capitalista das coisas, que adoece todo mundo e nos leva a situações extremas, como morar na rua e não ter mais sonhos nem perspectiva na vida”, revolta-se, concluindo que “existem outras questões que merecem atenção e a primeira delas é a moradia.”
Anita Krepp