
Prem Baba sente que se reencontrou com a ayahuasca nesta encarnação, e fala pela primeira vez sobre a sua caminhada há mais de três décadas conectada à substância. Sete anos após o período mais controverso de sua trajetória pública, o líder religioso de famosos e poderosos bateu um papo com Anita Krepp, editora da Breeza, sobre cannabis, psicodélicos e substâncias sintéticas.
Prem Baba não se furtou a comentar o que chama de “provação espiritual”, período mais difícil de sua vida, sobre uma acusação de assédio que classifica como mentirosa. O episódio está no seu novo livro “A autobiografia de um yogue brasileiro” e foi o detonador para o seu recolhimento.
A entrevista toca em temas estruturais da jornada espiritual que ele defende: o papel dos psicodélicos como ferramentas de cura, a importância da preparação e da intenção, e sua própria história com substâncias naturais como ayahuasca, São Pedro, cannabis e, mais recentemente, o CBD. “Remédio bom é o que cura”, afirma. Mas reforça que lidar com as substâncias exige responsabilidade, formação e contexto.
O senhor tá lançando a Autobiografia de um Yogue Brasileiro, e eu queria saber como é que foi o processo de preparação e escrita desse livro durante esses sete anos em que o senhor ficou mais recluso.
Sim, eu fui visualizando a chegada dos meus 60 anos, e dentro da tradição védica e associado também à tradição antroposófica, é um período bastante significativo, é um momento de balanço, onde eu estou me preparando para me mover em direção a uma renúncia daquilo que eu pude fazer até aqui. E foi aí que eu comecei a olhar para esse meu tempo de serviço, eu comecei muito cedo. E aí eu fui vendo que a minha história estava permeada de grandes e interessantes aventuras e muitos aprendizados. E sempre que eu me sentava com os meus alunos e contava algumas passagens, todos ficavam muito encantados, e recebiam com muita alegria esses aprendizados. E foi daí que começou a nascer essa ideia de eu, então, compartilhar com o mundo essa minha história. Eu pude mergulhar mais fundo ao longo desse último ano, 2024, pude revisar as gavetas das minhas memórias e fazer um recorte de muitas experiências. O mais difícil foi escolher o que contar, mas acredito que consegui fazer uma boa síntese, estou entregando para o mundo não só um compartilhamento de memórias, mas de experiências e de muito aprendizado. E, obviamente, que todo o meu foco está no processo de autodesenvolvimento, de autotransformação, de autorealização. Como superar crises, como lidar com os desafios da vida, como transformar problemas em oportunidades de crescimento, como utilizar as situações da vida como prática espiritual, como possibilidade de transcendência. Eu sinto que esse é o caminho que eu utilizei para escrever esse livro, e sempre atrelado a esse mundo moderno, onde se faz necessário até uma atualização da tradição védica, do yoga, que é o meu principal instrumento.
Eu queria que o senhor elaborasse um pouco mais a respeito dessa “renúncia” do que o senhor foi até aqui. Elabora pra gente?
Renúncia ainda é um termo muito pouco utilizado aqui no Brasil, aqui no Ocidente. É algo muito próprio da minha tradição. Eu vou dizer que é o final de um ciclo de serviço. É o momento para se fazer um balanço, para olhar o que eu acertei, o que eu errei, o que funcionou, o que não funcionou. Tem alguma questão aberta ainda que precisa ser olhada? Então, é disso que se trata. É um balanço desses 60 anos para que eu possa começar esse novo ciclo mais leve, tranquilo, e para que seja mesmo um ciclo completamente novo.
Durante esse tempo que o senhor esteve afastado dos holofotes, veio algum entendimento propiciado justamente por esse zoom out que o senhor não tinha acessado antes?
Foram muitos aprendizados. Durante essa fase do meu trabalho, porque a minha vida foi se manifestando em ciclos. Um ciclo importante aconteceu ali desde 2008 até 2013, depois de 2013 até 2018, que foram ciclos onde eu fui para o mundo. De 2008 até 2013, eu recebi a bênção do meu mestre para ensinar essa filosofia de vida para o mundo todo. E aí, quando chegou lá em 2013, isso cresceu tanto que precisava se organizar. E ali a gente criou, então, um movimento, que foi o Awaken Love. Aí eu fui para a mídia e acabei chegando no mainstream e me tornei capa de revista e capa de jornal e me associei a celebridades e dialoguei com diversos poderes desse mundo. Então foi uma fase de expansão e de exposição também, importante, necessária. Mas aí, já, quando o meu mestre estava para deixar o corpo, isso foi ali já em julho de 2011, ele me disse assim, agora foque na qualidade, não na quantidade, e isso teve um significado muito profundo para mim, foi como uma mudança de eixo. Ele está pedindo agora para eu diminuir, puxar o freio de mão.
Como que faz isso estando tão no meio do furacão?
Exatamente. E aí, na verdade, não consegui parar. Eu fui parado (risos). Estou brincando agora, estou rindo agora, mas claro, que bom que agora é possível rir. Mas essa parada não foi simples. Bom, mas o ponto é que o principal aprendizado é que para aprofundar, mesmo com os meus alunos, eu precisava desse recolhimento. Eu precisava desse redirecionamento, até para ganhar em qualidade e profundidade. Então eu pude me dedicar a fazer um trabalho mais fino, uma sintonia fina, de aprofundamento e eu sinto que é isso que está me movendo agora. É esse trabalho mais fino de aprofundamento com aquelas pessoas que estão compreendendo a minha proposta e estão abertas para receber o que eu tenho para oferecer.
A proposta de agora continua incluindo os retiros no seu ashram na Índia, por exemplo?
A forma é muito parecida. Eu tenho o meu Ashram na Índia e até ampliou, porque eu tenho um centro também, agora, lá nos Estados Unidos, na Califórnia, e temos um em Bali. Eu viajo, ficando um período em cada um desses lugares. O que mudou é que, agora, eu estou realmente fazendo um filtro maior para quem quer participar dos retiros. É importante que a pessoa esteja mais preparada, que ela já tenha feito uma caminhada, que ela já tenha alguma experiência. Então, se a pessoa quer conhecer melhor, ela chega. Se ela está no início, ela pode conhecer minha mensagem através dos livros, através dos vídeos, através da academia que eu tenho online, que eu me encontro regularmente, todos os meses, com os estudantes, sempre com um tema importante, um tema atual, falando das necessidades do buscador nesses tempos tão doidos em que vivemos.
O senhor estava dizendo que agora ri, mas que não foi sempre assim, nesses últimos sete anos. E eu queria saber se o senhor chegou a entrar em depressão, estado depressivo após as denúncias de assédio que envolveram o seu nome e o de uma seguidora sua?
Eu não deprimi, graças a Deus. Mas eu precisei me aprofundar muito na minha prática espiritual. Eu ampliei tremendamente o meu tempo de imersão. Então, como eu falei na fase anterior, eu estava bastante para fora, eu precisei ir bastante para dentro, muitas horas de meditação, muitas horas de serviço, focado mesmo ali na conexão com o meu ser, com a minha egrégora, para poder atravessar e aprender com tudo aquilo que estava se manifestando.
Eu queria ouvir do senhor, que sofreu um cancelamento, se o cancelamento serve de algo para a sociedade ou para o sujeito cancelado?
Eu sinto que isso é uma das patologias do nosso tempo, uma disfunção criada pelas redes sociais, pelo tribunal das redes sociais, que está dando voz para muitos que não se conhecem e que não tiveram um lugar de expressão e que agora encontraram um lugar de expressão. Mas é interessante a gente compreender que o cancelamento vem de pessoas que não sabem absolutamente nada do que se passou com aquele que está sendo cancelado. São interpretações de interpretação de quem não sabe de nada, se cria uma narrativa e acaba fantasiando algo a respeito da vida de uma pessoa, algo que não tem lastro com a realidade, mas isso é propagado de uma maneira onde isso é tomado como verdade. É uma situação que eu considero muito perigosa para nós enquanto sociedade humana. Porque isso gera feridas não só na pessoa, mas na comunidade, no pensamento coletivo. Porque o pensamento coletivo fica com uma informação completamente equivocada a respeito da realidade e perde-se muitas oportunidades.
“Mas é interessante a gente compreender que o cancelamento vem de pessoas que não sabem absolutamente nada do que se passou com aquele que está sendo cancelado”
Eu estava trazendo uma mensagem muito importante, levando autoconhecimento para todas as camadas da sociedade, especialmente lutando para que isso chegasse na educação, no ensino público, na política, levando meditação, levando a ciência da autorrealização, como remover o sofrimento da equação humana, como encontrar o ponto de equilíbrio entre matéria e espírito, como superar a ansiedade, como lidar com emoção, como lidar com a sua negatividade, como lidar com os seus ciúmes, com a sua raiva. E eu sinto que essa mensagem, de certa forma, foi truncada ali, pelo menos para um segmento, para um público que acabou acreditando nessa narrativa que foi construída e, com isso, deixaram de receber. Então, olha só, realmente, a dimensão do efeito nocivo que o cancelamento traz. Esse é um exemplo de algo que se passou comigo, mas claro que eu estou vendo isso acontecer com muita gente, em diferentes segmentos. Essa é uma questão delicada que nós temos que discutir muito, isso precisa ser melhor entendido, para que possamos encontrar caminhos para evitar que isso aconteça novamente. Eu sei que é quase impossível evitar que isso aconteça novamente, mas isso precisa ser pelo menos discutido, isso precisa ser conversado, precisamos encontrar meios para minimizar os efeitos disso que transforma a verdade na mentira e se acredita na mentira como verdade. É um momento bastante delicado e complexo esse que vivemos na nossa sociedade, tem um capítulo inteiro no meu livro onde eu falo como é viver nessa era da pós-verdade, como é que a gente lida com essa situação, como é que a gente atravessa esse ciclo de provação. Eu considero que seja um ciclo de provação para nós enquanto sociedade humana. Estamos diante de uma revolução de consciência, e nós precisamos encontrar caminhos para seguirmos evoluindo, para que não sejamos sucumbidos. E aí, junto a isso, que se tornou tão comum, o cancelamento, tem uma série de outros fenômenos bizarros acontecendo no nosso mundo, na nossa sociedade, que diz respeito também a esse distanciamento de si mesmo, que mostra essa disfunção emocional, que mostra essa disfunção do ego num nível tão profundo.
E o senhor falou dessa ferida que causa não só na sociedade, mas também na própria pessoa, obviamente, que foi cancelada. Como o senhor lidou com isso?
Naquele momento, eu dei uma balançada, né? Porque eu fiquei indignado com o que estavam falando sobre mim, nada disso é verdade, mas chegou um momento que eu comecei a duvidar de mim. Poxa, será então que tem alguma coisa errada dentro de mim que eu não estou vendo? Será que… Onde foi que eu errei? Comecei uma reavaliação das minhas escolhas, das minhas decisões. Será que eu sou mesmo o professor que eu acho que eu sou? Se eu tenho aqui alunos meus me criticando, puxa vida, onde foi que eu errei? E a partir daí eu fui encontrar dentro de mim a certeza do meu propósito. Não, eu estou onde eu preciso estar, eu estou fazendo aquilo que eu vim para fazer e está tudo certo. Essa convicção, a consciência do propósito foi o que me segurou naquele momento. E aí, na sequência, eu fui procurar ajuda com amigos, com os meus irmãos espirituais, os meus irmãos maiores. Eu fui buscar conforto e até ter deles também essa comprovação das minhas convicções. Foi importante, foi muito importante eu receber deles essa comprovação de que realmente eu estava numa provação espiritual. Eu estava precisando aprender a lidar mesmo com esse mundo em níveis que eu não tinha ainda vivido, não tinha ainda aprendido. Eu não tinha conhecido essa perversidade, esse lado da maldade humana, não nesse grau. Embora que, até ali, eu já fosse um professor que trabalhava com a sombra. Então, durante muito tempo, no caminho do coração, um dos focos principais era o trabalho com a sombra. Então eu tinha, sim, o conhecimento da maldade humana, mas não nesse grau, não nesse nível. Ali foi um doutorado. Eu estava numa provação e recebi essa confirmação dos meus irmãos maiores e que me recomendaram um recolhimento. Meu guru já não estava mais no corpo, então recorri a alguns irmãos e ao meu upaguru, que é um guru assistente do meu mestre, que me recomendou “Prem Baba, se recolha. Se recolha e amplie o seu tempo de sadhana, de prática espiritual”. E eu fiz isso. Aí que eu fui aos poucos alquimizando, transformando o veneno em néctar. Porque foi isso, foi uma alquimia do veneno em néctar. Alquimia do ódio em compreensão, em perdão, em amor. Eu diria que foi uma das alquimias mais difíceis que eu fiz na minha encarnação. Porque como você vai ver no meu livro, foram muitos episódios de subidas e descidas, de encontros e desencontros. Minha vida foi permeada de momentos desafiadores onde eu precisei fazer essa alquimia. Mas ali, em 2018, foi a maior. Eu lidei com um ódio que eu não conhecia. Eu era, naquele momento, muito bem aceito e tinha uma aparente unanimidade, e de repente, isso tudo virou. E toda aquela admiração, todo aquele amor se transformou em ódio. E eram rajadas, eram haters por todos os lados. Pra poder realmente eu fechar o campo praquilo não me dizimar, eu precisei desse recolhimento e desse aprofundamento na minha prática espiritual. Aí, aos poucos, eu fui realmente transmutando esse veneno.
“Eu lidei com um ódio que eu não conhecia. Eu era, naquele momento, muito bem aceito e tinha uma aparente unanimidade, e de repente, isso tudo virou. E toda aquela admiração, todo aquele amor se transformou em ódio”
Acho que o mais difícil é transmutar o próprio veneno, com a indignação.
Exato. Exato, porque esse é o ponto. Porque essa indignação que tava abrindo a porta pra isso de fora entrar. Quando eu compreendi que aquilo também estava vindo a serviço de algo maior, de uma compreensão mais profunda, de ensinamentos mais profundos, de oportunidades de um crescimento ainda maior, de eu poder, então, redirecionar o meu trabalho. Era uma atualização do meu propósito. Quando eu pude ampliar a visão e enxergar a figura de cima, foi aí que eu pude, então, fechar essa porta que eu tinha aberto, que foi a indignação.
O senhor sempre teve muita gente ao redor fascinada pelo senhor, algumas pessoas até chegam a um nível de fanatismo. Como é que o senhor lida hoje, depois de experimentar o amor e ódio, com esse fanatismo?
Eu me dei conta de que, naquela fase, eu tinha mesmo, perto de mim, pessoas com um grau de fanatismo. E que, até aquele momento, eu estava trabalhando com o entendimento que o amor cura tudo. Então, em dado momento, o amor vai aparar as arestas e vai trazer o que precisa e a pessoa vai chegar onde ela precisa chegar. Mas foi aí que eu também revi esse meu método e essa minha escolha. Então, hoje, eu estou muito mais atento a isso, estou fazendo um filtro bem maior. Quando eu percebo que a pessoa começa a passar do limite, eu já devolvo pra ela. Olha, presta atenção, ame a Deus, agradeça a mim. Recebo só gratidão, mas a devoção foca em Deus.
“Encontrei na ayahuasca muitas respostas para as minhas perguntas, foi um ponto de virada na minha jornada”
Existe uma discussão cada vez mais comum sobre o uso de psicodélicos para a expansão ou, em alguns casos, até o reconhecimento de uma espiritualidade. Qual a sua opinião sobre essas ferramentas ancestrais?
Eu penso que os psicodélicos são medicinas espirituais. E que podem ser aliados divinos na jornada de cura, na jornada de autotransformação, na jornada de transcendência. Eu considero que remédio bom é aquele que cura. Então, é importante essa abertura e, ao mesmo tempo, também fazer com seriedade, com clareza. Hoje, houve uma abertura muito grande, que eu entendo que era necessária, porque estava muito fechado e muito escondido. E agora é importante encontrar o equilíbrio, o caminho do meio, para que os psicodélicos sejam utilizados como ferramentas, para que sejam utilizados como medicinas mesmo, e de preferência por pessoas capacitadas, que estejam sabendo mesmo utilizar tais ferramentas.
O senhor tem uma história longa com a ayahuasca, que começou lá nos anos 80. Conta pra gente.
Pois é. Ali foi o início de uma fase importante da minha busca pela verdade. Encontrei na ayahuasca, no Vegetal, no Santo Daime, que é a mesma medicina, porém com egrégoras espirituais diferentes, com cerimônias rituais diferentes, eu encontrei muitas respostas para as minhas perguntas, foi um ponto de virada na minha jornada. Eu tenho essa medicina como, realmente, um aliado divino, como um enviado mesmo do supremo para auxiliar os mortais dessa terra a encontrarem um pouquinho de amor, um pouquinho de fé, um pouquinho de clareza do porquê estar aqui, nesse mundo. Eu não falei sobre isso até hoje, em respeito a um aspecto dessa tradição que diz para não fazermos propaganda, para não divulgarmos, porque é importante que as pessoas sejam chamadas para esse trabalho espiritualmente. O chamado tem que vir de dentro. Então, em algum momento, a pessoa se sente chamada e ela chega. E hoje eu estou falando claramente dessa minha experiência, que foram décadas de experiência, porque eu não estou mais à frente dos trabalhos regulares, não tenho a possibilidade disso ser usado como uma propaganda, como um chamariz, mas é uma forma de eu contribuir com essa minha experiência, é uma forma de eu contribuir com os meus aprendizados, para esclarecer os prós, os contras. Sinto que a minha experiência é importante, eu acho que eu tenho uma contribuição importante a fazer, nessa minha relação com a ayahuasca, nessa minha relação com o Daime.
Como foi esse seu chamado quando o senhor chegou na Ayahuasca?
Naquela época, eu fazia parte de um grupo gnóstico, eu era um estudante gnóstico, e uma das áreas do gnosticismo era elementoterapia. Então o nosso mestre, mestre Samael, ele falava sobre ayahuasca, que ela nos ajudaria nesse trabalho de elementoterapia, que é a cura através dos elementais da natureza, etc. Nós íamos para a mata, para colher as ervas, para colher as plantas, para fazer as medicinas naturais, é um trabalho muito espiritual, muito alto, com os elementais da natureza. E ele falava que Ayahuasca era uma planta professora, que nos ajudaria muito, e tinha lá a receita da Ayahuasca. E os nossos professores, na época, conseguiram, o cipó, a folha, fizeram o chá, não aconteceu nada. E aí um dos professores ficou sabendo que em São Paulo tinha dois centros ayahuasqueiros, um era da União do Vegetal, e outro era do Santo Daime, que estava começando em São Paulo, era o primeiro centro do Santo Daime em São Paulo, isso em 1988. E fomos lá conhecer essa medicina para poder usar dentro dos nossos rituais, dos rituais gnósticos, da alimentoterapia. Mas, quando eu realmente conheci, foi tão forte, foi tão profundo. Foi sempre uma experiência inesquecível, inenarrável. Eu acessei contas abertas com passado, eu pude olhar para minhas feridas emocionais, eu pude entrar em contato com sentimentos guardados, eu tive experiências místicas muito preciosas..
O senhor fazia parte de um grupo gnóstico, aí chega num ritual da UDV ou do Daime, completamente católico, rolou um preconceito?
Eu já tinha isso comigo, sabe? Eu sempre tive essa qualidade de olhar a essência das coisas. Então, eu nunca olhava seu envelope, eu olhava na essência, sabe? E quando eu olhei a essência, eu falei puxa, tem uma verdade aqui que transcende tudo que eu já estudei até hoje. Então, é isso que eu quero. E aí, eu mergulhei fundo.
O senhor continua fazendo uso da ayahuasca?
Eu guardo isso no meu coração, então, tem momentos específicos no ano, que são datas específicas, comemorativas, aonde eu vou ali comungar para manter a minha conexão com a egrégora.
E já fez alguma incursão pela psilocibina ou pelo LSD?
Os químicos, eu não tive a curiosidade. Mas os naturais, eu experimentei acho que todos que tinham disponíveis durante essa minha juventude. Eu conheci todos.
“Os químicos, eu não tive a curiosidade. Mas os naturais, eu experimentei acho que todos que tinham disponíveis durante essa minha juventude“
Como o senhor definiria o caráter espiritual dos psicodélicos? Muda de substância para substância?
São diferentes, são bem diferentes. Agora, assim, em dado momento, eu acabei também compreendendo que uma vida, uma encarnação, é pouco para fazer esse estudo múltiplo. E aí eu precisei me aprofundar num. Então, por exemplo, eu fiz uma experiência com São Pedro, isso lá, quando eu tinha 20 e poucos anos de idade. Eu já usava ayahuasca, mas fiz a experiência com São Pedro, e foi tão maravilhoso, tão maravilhoso, que eu quase larguei a ayahuasca para ficar com São Pedro. Mas aí o próprio São Pedro me disse assim, olha, uma encarnação é muito pouco para você diversificar. Escolha um e fique. E foi aí que eu escolhi realmente estudar a ayahuasca. Eu pesquisei, estudei, e a psilocibina, por exemplo, ela é muito especial para a cura de determinados distúrbios psíquicos. Hoje em dia existem psiquiatras se aprofundando no estudo da psilocibina para determinados distúrbios psíquicos. Embora a ayahuasca seja também utilizada em alguns casos de depressão, ela é eminentemente espiritual. Já a psilocibina, assim como a cannabis, embora possa proporcionar vislumbres desse espiritual, eu considero que elas estejam mais para curar determinadas doenças, determinados quadrantes da consciência. Já ayahuasca ela expande. Ela vai além.
Quem chega a se conectar com psicodélicos nessa vida, de alguma maneira já vem com essa experiência de outras vidas?
Eu acho que pode ser uma coisa nova. Mas tem aqueles, com certeza, que já conheceram isso em vidas passadas. Não tem dúvida. Porque é um reencontro. É um reencontro que acontece com muita clareza. No meu caso foi um reencontro, eu não tenho dúvida disso.
“Usei cannabis na minha juventude, e foi uma experiência muito importante, mas percebi também ali um perigo de viciar, então parei”
Como é a sua trajetória com a cannabis?
Eu fiz uso de cannabis na minha juventude. E foi pra mim uma experiência muito importante, de abertura, de compreender o valor medicinal dela. Mas eu percebi também que tinha ali um perigo de viciar, e quando eu percebi isso, eu parei. Eu falei, eu não posso correr esse risco. Porque eu já tinha o yoga muito forte dentro de mim, e o yoga era muito claro com relação a isso. Não utilize nenhum instrumento que gere vício. Ali eu parei. Hoje em dia eu tenho tido curiosidade com relação ao uso terapêutico do CBD. Então cheguei até a utilizar uma vez pra poder testar, pra ver como que era. Achei muito interessante.
Qual é o papel de um líder religioso hoje no Brasil?
Oh menina, que pergunta. Risos. Depende muito até do que estamos chamando de religião. Porque existe aquela religião que é uma criação da mente humana pra atender uma necessidade humana. É um fenômeno social que eu chamo de religião horizontal. Onde essas lideranças estão a serviço de encontrar caminhos pra paz, encontrar caminho pra união, encontrar caminho pra desenvolver valores humanos, pra fazer o ser humano se tornar melhor. E existe aquela religião que é o religare, que é a religação da alma individual com o supremo, que é o caminho da autorrealização. Então, por exemplo, o cristianismo. Tem aqueles que estão a serviço, então, desse fenômeno social pra atender uma necessidade social e tem aqueles que seguem os evangelhos, que seguem os ensinamentos de Jesus. São coisas diferentes, compreende? O que eu posso dizer para todos aqueles que estão trilhando um caminho espiritual, ou um caminho religioso, é pra poder, então, se firmar na verdade e contribuir para que o ser humano possa ir além dos dogmas, possa ir além do preconceito, possa ir além de tudo aquilo que gera separação. Pra ir além de tudo aquilo que cria conflito, que cria disputa, que cria inimizade. Porque é um tempo que precisamos criar união. Nós precisamos reunificar a família humana. Nós precisamos criar condições pra nos reconhecermos como irmãos e darmos as mãos um para o outro e nos ajudarmos. Precisamos conseguir criar maneiras de derrubar essa polarização tão aguda que existe no mundo todo, mas especialmente aqui no Brasil, isso está tão forte e as pessoas disputando dentro de casa, na sala de jantar, as famílias brigando por conta de política, por conta de religião, enquanto que, na verdade, Deus é um. A verdade é uma. O amor é um. Independentemente da casca, a essência, somos um só. E nós precisamos encontrar isso. Encontrar unidade. Então, eu sinto que os líderes espirituais, os líderes religiosos precisam se dedicar a promover o caminho da unidade.
Pra finalizar o nosso papo, Prem Baba, como é que o sexo e a espiritualidade podem coexistir de modo saudável?
O sexo é eminentemente sagrado. Agora, claro que por falta de autoconhecimento, o sexo pode ser canal da sombra, canal do ego distorcido, canal da luxúria, onde usa o sexo pra dominar o outro, pra exercer poder, possessividade, ciúmes. Então, o sexo ocupa esse lugar de sagrado quando existe suficiente autoconhecimento. E o sexo é utilizado pra potencializar a união, pra potencializar a expansão da consciência, pra potencializar este encontro profundo consigo mesmo através dessa alquimia que é movida por amor. É uma qualidade do amor que é vivenciado através da sexualidade sagrada. Então, isso potencializa inclusive até a meditação. Em algum momento a sexualidade sagrada vai evocar a meditação. Mas, isso só é possível se houver autoconhecimento, se houver a purificação das mazelas da personalidade, se tiver a condição de uma cura emocional pra evitar usar o sexo como arma pra machucar a si mesmo e o outro.