
Quem tem entre seus 30 e 40 anos, deve lembrar de Barbara Gancia de programas de TV como o Saia Justa, ou debatendo futebol com o Silvio Luis na Band, ou das colunas na Folha de S. Paulo. Quem é mais jovem, talvez recorde das brigas mais recentes que ela teve no Twitter com bolsonaristas, inclusive com o próprio Jair Bolsonaro. Mas aqui na Breeza viemos falar de assunto mais íntimo, e tão relevante para nosso público: dependência química e alcoolismo. Da experiência dramática dela com a bebida e de como enfrenta a dependência.
A leitura de seu livro “A Saideira” toca, mexe com várias sensações, principalmente pra quem já teve o problema em casa ou sabe de quem enfrenta o alcoolismo. E no país em que reinam a cerveja e a cachaça, isso afeta muitos lares. Se não é com você, não conhece alguém?
O livro, que teve uma nova edição que saiu agorinha pela editora Matrix, é uma autobiografia da relação de Gancia com a bebida, com momentos de dar risada, com figuras como Jô Soares, Tim Maia e ex-namoradas, e outros de refletir e preocupar. A nova edição traz um capítulo em que ela fala do impacto que teve o sucesso da peça baseada em seu livro. A peça, “Bárbara”, é um monólogo de Marisa Orth e terá uma curta temporada em São Paulo agora em maio.
A conversa com Barbara é como ela: tem humor, inteligência, traz lições. Ela fala com franqueza dos problemas com o álcool; conta que com outras drogas, como haxixe, cogumelo e gominhas de maconha, é outra história; e demonstra interesse em experimentar LSD. Também diz como descobriu sua espiritualidade no processo de luta contra a dependência e compartilha sua preocupação com a Bancada da Bebida no Congresso.
Barbara, a leitura do seu livro desperta várias sensações, tem uns momentos que são uns causos que fazem rir, super divertidos, noutros fazem pensar, refletir, pois vai para assuntos sérios e importantes. E também é uma autobiografia tua com a bebida. Fiquei na dúvida: o que você quer despertar no leitor com essa leitura?
Então, esse livro… você sabe que esse negócio de doze passos (dos Alcoólicos Anônimos, o AA), para você conseguir, o grande problema é que a maioria das pessoas recai, né? Você parar de beber é super fácil, você voltar a beber é mais fácil ainda. Pra você conseguir ficar parado de beber e não voltar, tem toda uma programação, muita gente faz, tem gente que procura a religião, tem quem procura o esporte, não é meu caso, tem quem procura fazer cerâmica, cada um procura sua maneira. Eu me encontrei bem naquele negócio dos doze passos do Alcoólicos Anônimos, porque é um sistema bem interessante, mistura um pouco de tudo. Que é o que hoje em dia cabe no bolso de todo mundo, um pouco de budismo, um pouco de Freud, um pouco de terapia ocupacional, sabe? Você faz um pouco de tudo. No caso, aí, meu pai e minha já tinham morrido e eu decidi escrever o livro, que é o décimo segundo passo, que é você ajudar os outros pra se ajudar. Porque você ajudando os outros, você lembra das cagadas que você fez e você fica constantemente atento a não voltar. Uma das coisas que acontece é você se acomodar e falar “não, não vou beber; nossa, olha como eu tô bem”. E aí você volta. Então eu resolvi escrever esse livro pra fazer com que outras pessoas… eu, se tivesse tido esse tipo de informação, talvez algo tivesse me despertado a parar antes do que parei. Já tinha dado muita palestra quando escrevi esse livro, muitas palestras para jovens, todas as categorias de pessoas que você pode imaginar. E se você chegar lá, se você moraliza, ninguém… já é muito difícil convencer as pessoas que elas têm de parar de beber para sobreviver, e a minha ideia era escrever um livro falando “Olha, dá pra você não morrer de tédio, dá pra você ficar feliz, ainda se divertir, transar com uma pessoa que você nunca transou antes, ir pra uma festa, dar risada”. E pra você atrair os malucos, você tem de tirar um sarro, tem de contar uma história que eles se identifiquem, tem de cativar o cara e contar umas histórias engraçadas e coisas que ele fale “Puta, eu já fiz isso”. Foi mais ou menos por isso que escreveu o livro. Não é pra contar história sensacionalista. Porque tem um monte de coisas que podem parecer sensacionalistas. Quer dizer, é sensacional. A maioria das pessoas não faz aquelas coisas, né?
Eu não achei sensacionalismo, pra mim, mas sensacional, sim. Porém, como você tocou no assunto do sensacionalismo, teve gente que se incomodou? Teve pessoa que não gostou de ser citada? Você cita muita gente lá.
Não, ninguém se incomodou. A única pessoa que se incomodou não foi nominalmente citada e é a tal da namorada que eu chamo de Nadia no livro. Na verdade se chama Tal e Tal, mora em Tal e Tal Lugar, CPF número Tal… não, tô brincando (risos). Mas essa pessoa ficou chateadíssima, falando “Nossa, que injustiça e tal”. Mas fora essa, ninguém, ninguém.
Voltando ao tema da dependência, ao eixo. O assunto pra quem vem aqui pra Breeza é muito importante, pois são pessoas que já têm ou procuram algum tipo de relação aberta com algum tipo de droga. São pessoas que querem ouvir sobre isso. E aí você vê que há várias formas de relações com drogas. Tem a relação recreativa, divertida. Tem a religiosa, como com a ayahuasca. Tem a medicinal, que tem cannabis e com as drogas de farmácia. Tem vários tipos de relação. Como é que você, estando nesse lugar, que se identifica como dependente, tem uma hora que fala bonito disso no livro, como você vê quando o seu uso passa do limite do saudável e vira dependência? O que falaria pra quem tá com essa dúvida?
É difícil de identificar, você próprio que tem de chegar a essa conclusão. Se a coisa começa a te trazer prejuízos e se você não consegue mais ter limite, se começa a afetar sua vida profissional, sua vida familiar, se você não consegue e fala “vou usar tanto”, e você ultrapassa o limite toda santa vez, usa mais vezes por semana, aí você provavelmente tem um problema. E quando você já tem um problema, quer dizer que a sua compulsividade já fez o seu sistema nervoso, as suas células adquirirem uma marca indelével, seu metabolismo. Você sabe que o corpo humano trabalha sempre no modo econômico? Produzir endorfina, ocitocina e dopamina custa muito pro sistema. É um hormônio que o corpo prefere produzir o mínimo possível. Se o cérebro e as suas células percebem que está vindo de fora a euforia, para de produzir. E aí se você consome com regularidade grandes quantidades, na hora que você para, cai numa puta angústia. Esse é o problema. O problema é quando você fica extremamente angustiado e por isso é obrigado a consumir mais, e sempre numa quantidade que faça você ter o mesmo efeito da última vez que consumiu. Então é uma coisa que vai aumentando, a sua tolerância vai aumentando. Então é uma, é realmente um Ardil 22, é um negócio que você se mete numa encrenca. E você mesmo percebe isso. Ou você percebe, mas não quer se dar conta, e aí alguém tem de chamar atenção, ou a vida vai te chamar atenção porque você vai chegar no tal fundo do poço e isso é inevitável. E tem mil maneiras de você sair do fundo do poço. Tem a religião.
No livro eu cito a carta do Bill e do Bob, que são esses dois caras que fizeram o AA. Começou com duas pessoas conversando e eles notaram que quando ficavam falando desses problemas deles, paravam de beber. Foi um médico e um broker que perdeu tudo na (quebra da) Bolsa (de Nova York) de (19)29. E eles começaram a conversar, e como um era médico, começou a trazer pacientes dele. E eles ouviram falar de um cara chamado Carl Jung que estava tendo ótimos resultados com epifanias, e eram epifanias espirituais, e esse cara, escreveram pra ele, e ele falou que não é à toa que bebidas chamam spirits. Que bebida destilada chama spirits (em inglês). Pois te traz uma mudança de espírito.
E de fato até hoje você vê que as igrejas conseguem grandes resultados com gente que bebe. O cara tem uma epifania, como as coincidências, você começa a ter umas sincronicidades lá, que você vê alguma coisa acontecendo. Te conto só uma história se você me permitir. A primeira vez que eu fui no AA. Na primeira reunião de AA, num lugar que eu sempre soube que eu ia acabar sentada, numa cadeira do AA, primeira reunião, que é um lugar que vai de livre e espontânea vontade. Só vai maluco, obviamente. Pra você ir só tem de estar com vontade de parar de beber. Eu cheguei lá e levantou um cara, ele parecia bem desgastado, era jovem mas estava bem acabado, e ele falou “Hoje é 26 de maio, de (19)88”, acho, 88, 87. “E em 26 de maio de 81 eu tava dirigindo minha Kombi e eu tive uma porrada de automóvel e minha sobrinha morreu no acidente. E eu tava embriagado”. E daí eu falei “O que fui fazer nesse lugar, eu não tenho nada a ver com isso”. O cara tava louco, matou a sobrinha, tô fora. E eu tava com o motorista da minha mãe nessa reunião, eu tava junto com ele. E quando eu olhei pro lado, o motorista da minha mãe tava assim (com cara de espanto). E aí eu falei “Puta vida, o que foi, qual é, o que deu?” E ele falou assim “Você não lembra? No dia 26 de maio de 81, você passou o farol vermelho na Avenida Paulista, bateu o carro”. Eu bati e naquela época o pessoal não usava cinto de segurança. Eu sai pra fora do vidro da frente do carro, arranquei o espelhinho retrovisor. Aqui, eu perdi a visão do olho direito. Então eu tava julgado o camarada lá, que fez essa coisa, que bebeu e matou a sobrinha, quer dizer a sobrinha morreu em decorrência dele. E eu fiz exatamente a mesma coisa, perdi meu olho, podia ter matado alguém. E tava lá julgando ele como se fosse. E esse tipo de ocorrência, quando você começa a querer parar de beber, você começa a se dar conta de um monte de coisas parecidas, e pode ser que você chegue à conclusão de que Deus está querendo fazer parar de beber. É uma das coisas que ocorre.
E você chegou a alguma espiritualidade assim?
Sim. A pouca espiritualidade que eu tenho vem daí. Eu não tinha nenhuma antes. Eu era fã de Bertrand Russell, que escreveu aquele livro “Porque eu não sou cristão”, e eu era muito fã de todos esses pensamentos racionais e bem cética com a religião. E hoje em dia, claro, conforme vai ficando mais velha, vai ficando mais religiosa, porque vai apertando o esfincter anal e você vai evidentemente ficando mais religioso. É uma coisa natural, mas, sim, a experiência de parar de beber me fez despertar para alguma coisa assim. Que tem alguma coisa que une a todos nós, e que há uma força amorosa e que você precisa despertar para isso. Acho que as drogas fazem também muito isso. Fazem a gente despertar pra alguma coisa além da gente. Tem drogas que eu até não experimentei, que eu gostaria de experimentar, e que talvez façam a gente perceber uma outra dimensão.
“A experiência de parar de beber me fez despertar para (…) alguma coisa que une a todos nós (…) as drogas fazem também muito isso. Fazem a gente despertar pra alguma coisa além da gente. Tem drogas que eu até não experimentei, que eu gostaria, e que talvez façam a gente perceber outra dimensão”
Você falou de drogas e aí tem uma hora no livro que você fala de um baseado no cinzeiro, tem outra hora que cita narcóticos, e agora está citando novamente. Você tem ou teve relação com outras drogas, de alguma forma? Você cita que teve com o tabaco, mas como foi com outras?
Eu continuo tendo relação com drogas porque o meu problema é o álcool. No começo eu passei dez anos sem fumar um baseado, mas eu gosto muito de haxixe. Quando eu vou pra fora do Brasil, se eu to na Europa especialmente, tento fumar haxixe, pois acho uma droga extremamente civilizada e eu gosto muito. Casa muito com a minha personalidade, acho que é uma droga que tira algo bom de mim, uma droga que me faz. Eu não gosto de skank e não gosto muito de maconha porque me faz ficar muito paranoica e acho que depois que você fica mais velho, a maconha é muito forte. Depois que você já fumou muito, você precisa de uma quantidade maior pra ficar maluco e ela me faz ficar paranoica, e depois tenho uma vontade de comer até meu cachorro, de repente com um pouco de pomarola, assim, eu comeria o cachorro. Então não é conveniente fumar maconha. E hoje em dia eu tenho essa escolha pois eu não tenho mais essa necessidade, entende? Eventualmente, se eu vou pra Nova York, eu como uma daquelas balinhas de goma, digamos que de maconha, sei lá. Eu sou uma pessoa altamente medicada, eu tomo Zoloft, eu tomo Wellbutrin pra manter a compulsividade e tal, né? Pra ficar um pouquinho mais… sossega leão, sabe como é?, senão eu fico brava, então tem de ter umas coisas pra dar uma baixada de bola (risos). Eu sou bem medicadona.
E você falou aí, Barbara, de curiosidade por outras drogas que despertam talvez para outros estados de consciência.
Sim.
Quais são essas outras drogas?
Essa droga, não ayahuasca, mas essa outra que você toma em… LSD mesmo.
Microdose, essas coisas assim, acho bem interessante. Mind blowing, como é que chama?, essas… essa coisa de Timothy Leary. Eu até conheci o Timothy Leary. Eu conheci até quando ele tava foragido, ele tava fugindo do FBI. Eu era menina ainda, eu tinha uns 12 ou 13 anos, ele tava na Suíça e ele namorava uma amiga dos meus pais. E eu conheci ele, e aí eu entrevistei ele aqui no Brasil quando veio com a mulher dele. A mulher dele acabou ficando com um amigo meu, e morou aqui muitos anos, a Barbara Leary. Eu fiz uma entrevista muito divertida com ele e que ficou muito boa. Eu tinha esse fascínio, já conhecia ele bem. De ter lido, de ter estudado um pouco ele, sabe? E eu acho uma pena que a gente tenha, esse estudo, que eles fizeram em Harvard, sobre LSD, sobre drogas que expandem a mente, tenha sido usado pelos Estados Unidos como algo que o Nixon chamou de Caça às Drogas, porque as drogas eram o grande problema nessa época, e não era bem isso. E se fosse controlado de uma outra maneira, a gente teria outro resultado hoje em dia. E não cadeias cheias de pessoas… que é… esse cartel, o PCC, mandando. Talvez fosse de outra forma.
Você falou dos prejuízos das drogas, inclusive do seu acidente, e de como perdeu a visão de um dos olhos. E outros prejuízos, muitas perdas de memória, que parecem cômicas pra quem lê, mas que são drásticas.
São, são. Muito drásticas.
“As pessoas que bebem na festa se sentem super incomodadas que você não está bebendo. Até hoje os meus amigos que bebem ficam putos da vida. Isso perturba eles tremendamente”
O que a dependência te trouxe de pior, de maior prejuízo?
Foi talvez na minha reputação, na minha credibilidade, na minha vida profissional, na minha vida… por exemplo, só pra te dar um exemplo. Eu optei por não ter filhos jovem, hoje em dia não me faz a menor falta, mas, eu optei por não ter filhos porque eu achava que não tinha a responsabilidade suficiente na época para lidar com esse assunto. E efetivamente não tinha mesmo, não é que eu achava. Uma pessoa que bebe e que faz horrores depois que bebe, porque eu não era exatamente uma pessoa que bebia e ficava quieta, então realmente eu não tinha condição. Mas eu não tive filho, e eu tenho certeza que depois que eu parei de beber, a minha vida profissional fez assim (faz um sinal com a mão como se fosse uma linha ascendente), então eu provavelmente prejudiquei. Eu não fui pra faculdade, porque meu objetivo na vida era jogar golfe e beber. Minha vida teria sido outra, mas teria também sido bem menos divertida. Isso sem dúvida alguma, eu não teria conhecido metade das pessoas que eu conheci. Metade da pessoa que eu sou é porque eu sou uma pessoa divertida nesse sentido. Então, não dá pra dizer.
Essa parte da diversão é bem ressaltada na leitura e são muitos causos, têm Ruy Castro, Jô Soares, Tim Maia, ex-namoradas, muitos e muitos causos. Por que trazer essa leveza pro livro?
Pra atrair o cliente, pra que as pessoas se identifiquem, inclusive pra que a família do dependente veja que não é só ele. Que tem muita gente funcional, que tem muita gente que pode ser engraçada, divertida, que continua empregada. Que não é aquele cara que bebe, e acorda, e bebe e é aquele cara fracassado. É gente que você acha maluca, mas você acha divertida, que é a alegria da festa. Quando eu parei de beber as pessoas falaram “É, mas não vai beber?”. As pessoas que bebem na festa se sentem super incomodadas que você não está bebendo. Até hoje os meus amigos que bebem ficam putos da vida. Isso perturba eles tremendamente, tremendamente.
Mas até hoje, após o livro? Como ele reagiram ao livro.
Dezoito anos depois. Faz dezoito anos que eu não bebo. E antes disso, nos vinte anos que eu bebi, no fundo bebi dez. Pois eu parava dois anos, voltava três, parava um, voltava no outro. Eu acho que tô aqui por causa disso. Porque eu efetivamente não acabei com meu fígado. Eu não tenho problema nenhum no fígado, nenhum, nenhum. O que é um milagre! Por que do jeito que eu bebi, sabe?, eu dei cinco perdas totais em automóveis. Cinco! Podia ter… eu me meti em cada encrenca que você não tem ideia. É impressionante que eu esteja aqui. Tinha uma amiga que falava que eu ia ser uma pessoa que ia morrer e ia ter o caixão lacrado, porque não daria pra mostrar o corpo, porque ia ser mutilada de alguma forma, com facada, atropelamento, alguma merda, entendeu?
Quando você fala do cenário do uso, da bebida, ou até quando começa a falar de outras drogas, é um cenário muito de elite, que é onde você nasceu, onde você anda, convive. Você vê que talvez, na sua visão, seria ou não diferente a situação para uma pessoa que é pobre, da favela, e tá na dependência? Ou não?
Não. Muito pelo contrário, a bebida é uma coisa muito democrática, que inclusive eu conheci a favela por conta da bebida, por conta da fuzarca. Porque você acaba sempre cruzando… eu fui fazer uma matéria uma vez naquele presídio feminio de Tremembé. Eu cheguei lá e comecei a conversar com as presas, porque eu tava fazendo a matéria e tal. Aí eu fui conversar com duas delas e a gente se deu super bem. E eu falei “mas eu te conheço de algum lugar”. E elas falaram “Também te conheço, você é a Gancia”. “Sou, sou”. “Você não lembra daquele lugar e tal”. Aí a gente começou a conversar porque a gente tinha gente em comum. E a diretora do presídio olhando a gente. Aí quando parei de conversar com elas, a diretora do presídio veio e falou… eu falei “Nossa, simpáticas, né?”. A mulher “É, essas duas que você tava conversando são as duas detentas mais perigosas que eu tenho aqui”. E elas eram minhas amigas (risos). Pra você ver, eu conheço gente de todas as idades, de todas as esferas. Eu falo de igual pra igual com gente de todos os mundos. Nesse sentido é muito democrática, a dependência faz você transitar por todos os mundos. Vai comprar droga na favela, acaba no boteco de qualquer lugar, você não sabe onde você tá. Sei lá, eu, onde, né?
“Nesse sentido é muito democrática, a dependência faz você transitar por todos os mundos. Vai comprar droga na favela, acaba no boteco de qualquer lugar, você não sabe onde você tá. Sei lá, eu, onde, né?”
Um dia eu tava dançando com um cara lá num boteco da São João. Num lugar que chamava, como chamava aquele lugar?, eu não me lembro mais. E eu tava com um brinco de ouro, que era um brinco assim e tal (com as mãos, desenha um brinco grande), e quando eu vi o cara tava assim (imita alguém tentando morder a orelha dela). Ele tava tentando engolir o meu brinco (risadas). Pra roubar o meu brinco enquanto a gente tava dançando, ele tava tentando roubar meu brinco. Quer dizer, então, não era exatamente gente de primeira categoria que eu frequentava, percebe?
E ele conseguiu engolir o brinco?
Eu dei uma porrada nele. Entendeu? (risos)
Aí passou, deu certo?
Aí nessa noite, porque eu dei a porrada nele, começou a dar uns tiros dentro desse lugar.
É uma noite que você lembra.
É uma das noites que eu lembro, é. Eu lembro do tiro, pá pá pá, “Valeu, ó, nóis vai embora”.
Quando a gente fala aqui de drogas e bebidas, tem esse lado que a gente tá rindo, da curtição. Que também tem, a curtição. E o lado das escolhas erradas, que impactam quem está ao nosso redor, além de nós mesmos. Mas é possível achar equilíbrio? Tem gente que consegue?
Olha, o que eu fazia não era nem um pouco equilibrado. Eu não vejo equilíbrio nenhum possível no meu comportamento. Ali não existia nenhuma forma, nenhum equilíbrio possível, não dá pra dizer. Que tem muita gente da minha, do meu grupo que morreu. Muitos lá. Alguns dos mais capazes, dos mais inteligentes, dos mais queridos. Então eu não vejo possibilidade de combinar esse tipo de comportamento com um futuro próspero e saudável, mas ao mesmo tempo tinha gente que ia junto e não fazia uso de drogas e de bebida. E eu não me dava conta que isso tava acontecendo. Eu achava, quando ia nessas baladas, que todo mundo tava tão louco quanto eu. Quanto eu tava, achava que todo mundo tava. Depois que eu parei que eu fui ver que metade das pessoas não tava. Só depois que eu parei que percebi isso. E isso é muito significativo. Porque você tá nessa roda viva e realmente não se dá conta de muita coisa, e isso é muito perigoso. Eu vivia uma vida muito perigosa. Se eu contasse pra minha irmã agora o que eu acabei de contar pra você, que eu fui pra um lugar que deu tiro e não sei o quê, ela ficaria em pânico. Ela não quis assistir minha peça, ou ler o meu livro, nem ela nem meu irmão, por muito tempo. Porque pra eles foi um transtorno o que eles passaram comigo. Realmente era barra pesada. Porque meu pai acordava eles no meio da noite e falava “Você vai pro IML e você vai pras Clínicas”. Sabe? Pra ir me procurar. Então não era uma coisa simples, era muito barra pesada. E às vezes eu penso em coisas que aconteceram e me dá um frio na espinha. Eu consegui me safar. Mas eu já tive arma apontada pra minha cara, já. Não é pouca coisa. Não tem essa coisa de elite, muito. Já me meti com a polícia, já fui presa na fronteira dos Estados Unidos. Não é simples assim.
Mas eu tenho essas sequelas de ter um humor assim, sabe?, que às vezes eu fico puta da vida com alguém. Eu sempre fui muito justiceira. Se tem alguma coisa acontecendo, e tal coisa, que é muito típico do comportamento de alcoólatra, porque ele muito, é o mártir, o cara que mata o morro, o cara das grandes causas. É um clássico da literatura do alcoolismo sempre, que o cara acha que é superior, que ele é inviolável, que nada vai acontecer com ele, que ele é o cara que vai. E isso é uma coisa que ainda está na minha personalidade, é uma coisa que tenho de melhorar, porque se eu vejo alguma coisa acontecendo, eu tô aqui, vejo alguma coisa acontecendo ali, eu vou ali, falar “vai”, fazer, corrigir. Numa dessas eu tô sendo processada por Bolsonaro, criminalmente, por conta de algo que convém a ele politicamente. É uma cagada, obviamente eu não fiz nada, mas em sigilo de Justiça, por uma esperteza desse filho da puta, entendeu?
“Eu tô aqui, vejo alguma coisa acontecendo ali, eu vou ali, falar “vai”, fazer, corrigir. Numa dessas eu tô sendo processada por Bolsonaro, criminalmente, por conta de algo que convém a ele politicamente“
Eu lembro desse caso com Bolsonaro. E você tava sob efeito?
Não.
Não, né? Já passava muito tempo…
18 anos que eu não bebo.
Tô fazendo a conta e não bate.
Não, foi absolutamente consciente e foi depois que esse filho da puta falou que pintou um clima quando ele falou que pintou um clima, quando ele viu duas crianças, uma de 12 e uma de 15. Aí eu falei, a filha dele, se fosse na frente de um velho tarado, imbrochável, como ele se diz, como ele –ele deve ser impotente –, a filha dele também poderia ser considerada uma puta. Foi o que falei. Aí ele tá me processando, dizendo que eu chamei a filha dele de puta. É só saber interpretar um texto que você vê que não. E ele convenientemente veio dizer que uma jornalista da Folha e da Globo, coisa que eu não era mais, que eu já estava aposentada há quase 3 anos, ele veio e falou isso pra vir na eleição e falar isso publicamente
É…
É…
Tá aí a figura ainda, é respirar fundo. Agora, pra quem não tem uma rede de apoio como a sua, porque você narrou aqui uma rede de apoio, e uma rede de apoio muito qualificada, que é familiar também, gente que tá realmente te amando naquele momento. Mas tem muita gente que não tem essa rede de apoio. Pra quem se identifica agora como dependente, como procurar ajuda? Pois tem quem nem sabe o próximo passo.
É super fácil. Em toda igreja, praticamente do planeta. As igrejas fazem isso porque, como não pagam impostos, cedem o espaço para reuniões de AA, NA, pra reunião da família, se chamam Al-Anon, e tem também online. Tem até em navio de cruzeiro, tem onde você quiser. Obviamente que é AA, é pra você ir e preservar a sua anonimidade. Ninguém ali fala sobre você ter ido, ninguém divulga seu nome, você está absolutamente protegido. E você vai lá, basta você estar sóbrio, não ter bebido naquele dia e ter vontade de parar de beber. Aí você procura no seu bairro, você entra na internet e vê onde é que tem uma reunião de AA mais próxima, tem em todas as igrejas. Então aqui perto da minha casa, eu moro no Itaim (em São Paulo, capital), tem na rua Sampaio Vidal, tem na Frei Caneca, tem nessa igreja do Sumaré. Em todo lugar tem uma reunião de AA, duas vezes ao dia. E é super simples. É só você chegar, que você vai ser a pessoa mais importante da sala naquele dia. Todo mundo vai querer te dar o telefone e falar “Me liga que, se você ficar com vontade de beber, me liga que eu vou te encontrar, vou conversar com você, você vai ter meu apoio”. E é isso que eu tive nos últimos dezoito anos, e daí eles te dão inclusive o telefone de pessoas recuperadas que são médicos. A gente não fala curado porque se eu beber hoje eu tô ferrada, vai dar aquela angústia que eu te falei. Se eu beber uma quantidade grande de álcool, vou ficar com aquela angústia porque as células vão falar “Oba, tá vindo de fora de novo, não vou produzir nenhuma endorfina”.E no dia seguinte você acorda dizendo “Ai, meu deus, a vida é uma merda”, porque você não tá produzindo nenhum hormônio da felicidade.
Agora tá pra voltar em cartaz a peça, a “Bárbara”, com a Marisa Orth , sucesso enorme de público, dezenas de milhares de pessoas foram ver.
Que é baseada no meu livro.
Na nova edição agora (do livro) você fala da importância da peça, da surpresa que teve no início, do sucesso, você compartilha no livro. Aí me veio aqui, por que acha que teve esse público tão enorme? Que foi pro teatro ver esse assunto, essa peça, teatro não é uma coisa que no Brasil, mesmo com global, atrai tanto, com tantas temporadas, tanto sucesso. Tem a ver com a proximidade que o brasileiro parece ter com o tema do alcoolismo? Todo mundo se não tem o problema em casa, parece conhecer alguém que tem.
Ah eu acho que as pessoas nem sabem que é sobre isso. Acho que as pessoas vão pela Marisa Orth e porque foi premiada, tal coisa. E é o primeiro monólogo que ela faz, sabe? E é uma hora e pouco de peça, só. O pessoal chega lá e de fato tem uma graça, ela faz rir, porque minha história é engraçada, e ela tem um pedaço que ela fala dela também. Mas chega uma hora da peça que crau, as pessoas tomam aquele susto porque fica brava a história, né? E eu tenho de ir nas peças porque as pessoas gostam de me ver no final. Quando chega nessa hora do crau, vou tomar um cafezinho porque eu nao aguento estar lá toda santa vez e ver as cagadas que eu fiz. Eu pego e saio, daí eu volto. É fogo, né? Mas é bom que tem esse fato que as pessoas só se lembram das coisas que acontecem mais pro finalzinho. Quando elas lembram da experiência, elas lembram mais da parte final do que qualquer coisa. Então eu fico feliz.
“Já tomei cogumelo e acho uma merda. Mas MDMA acho muito interessante porque você fica com um tesão absurdo e pra beijar é uma droga ótima“
Tem uma tendência nova que a gente vê com estudos e a gente já fez reportagem na Breeza sobre isso, que as novas gerações estão bebendo menos, fumando menos tabaco, mas fumando mais maconha, cogumelos, essas novas descobertas. Está tendo muito esse desbalanceamento, tem muitos disso nos Estados Unidos, e estão surgindo dados do Brasil. Como você vê essa mudança de tendência? Você que vivenciou muito esse mundo, que é o mundo das drogas, que agora está mudando os atores, talvez.
Olha, eu já tomei cogumelo e acho uma merda. Mas MDMA acho muito interessante porque você fica com um tesão absurdo e pra beijar é uma droga ótima. Quanto ao negócio da bebida, tem um fato que eu acho muito ruim que são essas influencers, que aparecem no Instagram falando de estilo, de vida e tal, e elas falam pra mulherada tomar gin, porque gin tem pouca caloria. E aí você vê muita mulherada que é inclusive muito magra e tal, e aí começa a tomar jarra de dry martini. Eu nunca tomei gin na minha vida porque gin é mortal, quase absinto. Aí você vê gente que nunca bebeu, bebeu cerveja e tal, e parte pro gin. É demencial, porque se você bebe gin com 20 e poucos anos e começa a beber muito gin, você vai pra onde? E mulher tem muito mais chance de virar alcoólatra do que homem. Se um homem leva dez anos pra virar alcoólatra, mulher leva cinco, por causa da quantidade de água e gordura que tem no corpo, versus músculos, sei lá, tem toda uma conta aí que não me lembro agora. Então eu acho que esse negócio dos gin bars, um monte de bares de gin, o pessoal fala de gin com sabedoria, o pessoal gosta de beber gin, é um negócio maluco isso, isso me preocupa bastante. Eu faço voto que as pessoas não bebam, e não bebam porra nenhuma. Porra nenhuma. Se voce pensar no lobby que tem a Ambev nesse país, é terrível (ocorre um problema de áudio de catorze segundos). Porque a Ambev, quando a Petrobras, na Lava Jato, deixou de ser a maior empresa do país, virou a Ambev, não a Companhia Siderúrgica Nacional. Foi a Ambev que virou a companhia mais importante do país. Então isso me deixa bastante preocupada também porque a gente tem uma bancada grande no Congresso que é a bancada Bebida. As pessoas não se dão conta disso. Elas falam do Boi, da Bíblia, da Bala e não falam do outro B, sabe?