Na Breeza

Reciclagem por dentro e por fora

A epopeia de Anne Caroline Barbosa, catadora que viveu nas ruas, abusou das drogas e hoje ensina a arte da reciclagem

“Crack, álcool, maconha, cocaína, o que viesse era lucro.” Essa era a lógica de Anne Caroline Barbosa, uma jovem sul-matogrossense que em 2017 migrou a São Paulo com o sonho de trabalhar como designer gráfica, mas deu de cara com a dura poesia concreta da megalópole. 

“Eu queria respirar essa vibe cult de SP, interagir, me misturar e, no final, não foi nada daquilo, me deparei com o primeiro preconceito do mercado de trabalho com morador de casa de acolhida, pelo estigma de pessoas em vulnerabilidade”, conta ela, que passava as manhãs em um cibercafé enviando currículos. “Mas quando a pessoa ligava atrás de mim e atendiam o telefone dizendo casa de acolhida, acabava as minhas chances.”

Quando deixou a sua cidade natal, Corumbá, no Mato Grosso do Sul, Anne não tinha vícios. “A única coisa que eu fazia era fumar um baseado de vez em quando. Nunca gostei de beber, porque a minha mãe já era alcoólatra e passei coisas pesadas com ela, por isso bebida e cigarro nunca me atraíram.” Mas, logo na sua chega a São Paulo, foi apresentada à cocaína por uma mulher, mãe de duas crianças, que vivia no albergue. “No dia seguinte que eu conheci a cocaína, perdi a vergonha e comecei a pedir dinheiro na rua para sustentar o vício”, que mais tarde, ela constataria ser a sua adição mais pesada.

Meses depois, ainda sem emprego e quase sem esperanças de que a vida na cidade grande fosse prosperar, Anne foi flechada pelo cupido. “Quando vi meu marido pela primeira vez, sentado na porta do albergue, ouvi dentro da minha cabeça que ia ter um filho com ele.” E pra quem não acredita em amor à primeira vista, “uma semana depois a gente tava praticamente namorando.”

A arte da reciclagem

Foi o novo namorado que ensinou a Anne a arte da reciclagem, um trabalho fundamental na separação das toneladas de lixo descartadas diariamente pela sociedade – em geral, de maneira inapropriada –, mas que apesar disso ainda é carregado de estigmas. “Tratam a gente como lixo invisível, tentam esconder a gente da sociedade, porque a maior parte dos catadores vive na rua e é usuário de drogas”, conta ela, que em poucos meses entrou para as estatísticas. “A princípio, eu não sabia que ele usava crack, mas logo passamos a usar juntos, e quando o vício chegou num estágio que a gente não podia mais ficar no albergue, fomos para a rua.”

Vivendo essa nova situação, Anne se deu conta de que o nosso pior inimigo somos nós mesmos. “Porque a gente carrega tudo o que viveu. Muita gente chega na rua fugindo das violências de dentro de casa. Na rua, a droga é fuga, entretenimento. Escuta e empatia são o primeiro passo para a libertação dessas pessoas. A cura vem da escuta, não de nenhum remédio ou internação compulsória”, reflete.

Apesar da vida dura e desestruturada que levava Anne, então com 25 anos, e o marido, com 19, nasceu no casal o desejo de ter um filho, quase que como uma esperança de viver uma vida melhor. “Sempre tive um apego muito forte com Deus, e foi nessa época que tive mais força na minha vida, eu conversava com Deus todos os dias. Um dia falei pra Ele tirar a gente dessa situação, que nos permitisse realizar o sonho de ter um filho, mas só se fosse pra gente sair dessa vida.”

Um belo dia, Anne acordou vomitando, e seguiu assim até a hora de dormir. “Não precisava nem de teste.” Mas ela foi ao posto de saúde mesmo assim. “O dia que eu peguei meu resultado de positivo e tive consciência que havia um ser dentro de mim que não tinha nada a ver com aquilo que eu tava fazendo, ali eu já parei com tudo.” O seu companheiro, e agora pai, demorou mais um mês pra conseguir abandonar o crack. “Para mim, foi mais fácil deixar o crack, porque meu vício, mesmo, era em cocaína”, explica Anne, que cortou um dobrado pra dar conta de aguentar a fissura da coca, mas que firme no propósito, conseguiu. Nessa época, ela deu um basta inclusive no baseado.

Maconha como equilíbrio

Com a ajuda da família do marido, o casal pôde, enfim, alugar uma casa e sair das ruas, mas sem rejeitar os aprendizados do capítulo sem teto de suas vidas. “Morar na rua, ao contrário do que as pessoas pensam, pra mim não foi ruim, foi um bom aprendizado, como se eu tivesse vivendo uma aventura, uma realidade paralela, onde conheci pessoas e histórias novas, me senti um Caco Barcellos no meu Profissão Repórter.”

Durante a pandemia, com os ferros-velho fechados e a impossibilidade de continuar trabalhando para sustentar Melissa Luz, a filha do casal que naquela altura já tinha dois anos, Anne começou a criar conteúdo para as redes sociais, “porque as pessoas precisam saber que a nossa classe existe e que a gente precisa ser respeitado, que fazemos um trabalho fundamental para a sociedade, que a sociedade depende do nosso trabalho.”

Hoje, o perfil Anne Catadora, tem mais de 300 mil seguidores no Instagram, que acompanham o seu dia a dia e ainda recebem dicas práticas de reciclagem. Mas é claro que isso não aconteceu do dia para a noite. “Comecei com 200 seguidores, que eram basicamente parentes e amigos de Corumbá, e pra mim era uma vergonha mostrar que não tive sucesso na carreira de designer e que tinha virado catadora de lixo. Mas até eu poder ensinar, eu tive que aprender muita coisa, e hoje sou muito orgulhosa de poder levar essa informação, que é tão crucial.”

Mesmo com a ascensão nas redes e as parcerias esporádicas com marcas, o que ocasionalmente faz pingar uma graninha extra, Anne segue trabalhando na rua, de sol a sol, e sente o reflexo desse esforço no corpo. “Tem dia que não consigo nem levantar da cama de tanta dor nas articulações.” Para lidar com elas, no ano passado Anne voltou ao velho hábito da maconha. “O dia a dia de trabalhar com reciclagem é muito pesado e quando eu fumo, me alivia demais para conseguir fazer força. A maconha pra mim é um remédio relaxante, e ainda me dá criatividade.”

Anita Krepp