Na Breeza

Barriga solidária

Contamos a história de como o casal de doulas, que engravidou para doar o bebê a outra família, lidou com a cannabis na gravidez

“Eu queria gestar e parir, não queria ficar com o bebê”, conta Gabi Gavioli, que já era mãe de duas crianças do seu casamento anterior, quando em fevereiro do ano passado decidiu que engravidaria novamente para ajudar um casal que vinha tentando há 16 anos. Gabi, na verdade, não considerou isso como uma ajuda, mas como um “alinhamento de sonhos”, já que ela também tinha vontade de passar novamente pela experiência da gravidez e do parto, só que não tinha estrutura nem vontade de ser mãe novamente.

“Sempre quis ser barriga solidária, era uma certeza que eu tinha dentro do meu coração. Lembro que na adolescência eu já falava pra uma amiga, que tinha pavor de ter filho, que eu poderia gestar pra ela sem problemas. Depois que eu tive filho, essa vontade virou certeza”, conta Gabi, que é doula, e desde 2019 é casada com a também doula Thaís Olardi, com quem divide o perfil Das Nenas, no Instagram, onde compartilham o caos diário de uma família nada tradicional.

Hoje, as duas moram no Ceará, pra onde se mudaram em 2023, fugidas do estresse que viviam em São Paulo, e dos primeiros sintomas de burnout que Thaís experimentava. “Foi nesse período que conhecemos o CBD, procurei uma médica que prescrevesse e comecei a tomar, mas ficava muito enjoada e não consegui prosseguir o tratamento”, explica. 

O jeito foi arrumar as malas e partir para uma das regiões mais ensolaradas do país, onde, por meio de uma amiga em comum, conheceram o casal de tentantes. Thaís nunca teve vontade de ser mãe, mas o útero de Gabi seguia coçando. “Depois da gravidez do meu segundo filho é que eu fui me curar da depressão pós-parto do primeiro, que tinha sido cesárea. Foi muito gostoso parir normal no segundo e eu queria passar de novo por essa experiência, mas não era uma coisa que faríamos por nós.” 

Doulando a sua própria mulher

Quando a amiga conectou Gabi e Thaís com o casal, sentaram para conversar e entender exatamente como seria, já que as referências de gestações solidárias que elas tinham eram horríveis. “Uma empresa, junto com um grande hospital de São Paulo, visita comunidades periféricas, como Carapicuíba, Barueri, e conversam com essas mulheres que precisam de dinheiro para ser barriga solidária. Pagam um valor irrisório e é bizarro, porque teoricamente não se pode receber pra isso, mas a gente sabe que muitas vezes é assim que funciona”.

Logo na primeira conversa, Gabi e Thaís quiseram saber se tinha alguma chance do casal tentante desistir no meio do processo. “Eles falaram que chance nenhuma, e as coisas super se afinaram, eu queria gestar e ela queria, mas não podia”; e não podia mesmo, ela tinha o diagnóstico real de infertilidade. No Brasil, a barriga solidária só é permitida em casos de impossibilidade física ou psiquiátrica; jamais por motivos estéticos, por exemplo.

“Por mais que tivesse contrato, e os contratos são fundamentais mesmo entre amigos ou conhecidos, era fundamental que a Thaís topasse, e que meus filhos estivessem confortáveis com isso. Eles viviam pedindo um irmãozinho, e precisavam entender que a gente não ia dar mais um irmão pra eles, mas que o bebê ia viver com outra família”, lembra Gabi sobre a fase mais delicada de todo o processo que, no geral, correu muito bem. 

Das três gravidezes, “Essa foi a mais tranquila por não ter o peso e a preocupação de criar uma criança depois. Não tive preocupações para além de comer bem e estar plena”, reflete Gabi, que deu à luz há três meses, em um parto natural rápido, com Thaís fazendo a sua doulagem.

O corpo é meu, mas o bebê, não

A família do bebê esteve com elas o tempo todo. “Quando tava nascendo, a mãe pegou o bebê e foi uma cena muito linda. Eu não via a hora de ver ela pegando o bebezinho dela no colo e foi a coisa mais linda do mundo, porque a mãe não acreditava que ia dar certo depois de 16 anos de medo”, se emociona Gabi, que não teve depressão pós parto, ao contrário do que acontece com, em média, 30% das mulheres recém-paridas no Brasil.

Gabi e Thaís são usuárias recreativas e esporádicas da erva – em momentos de celebração e longe dos filhos. Quando, por exemplo, um amigo americano chegou ao Brasil com a mala repleta de gummies (aquelas balinhas com THC), deu de presente a elas. “A gente achou que não tinha batido e tomamos a outra metade. Esse foi o erro. Ficamos imprestáveis. Até o dia seguinte a gente ficou meio molenga, viramos a própria gummie.”

Mas durante a gravidez deram um tempo no consumo. “Não usei cannabis na gestação e nem no pós-parto porque como não era um bebê nosso, o cuidado foi muito além, até em coisas simples, tipo não usar protetor solar comum”, explica ela, que no meio da gravidez passou inclusive por um exame toxicológico, exigido no processo de barriga solidária.

“Como doulas, já acompanhamos mulheres que usam cannabis durante a gestação e o parto, e nunca foi um tabu pra gente. Não tem estudo que afirma que faz mal ou que não faz mal, então fica a critério da mulher. Como trabalhamos com parto humanizado, a escolha da mulher é o mais importante.”

Anita Krepp