
Bruna Lombardi fala com a serenidade de quem trilha há décadas o caminho do autoconhecimento — tema que, para ela, é o farol essencial da existência. Em entrevista com Anita Krepp, editora da Breeza, a artista e escritora que acaba de lançar o livro “Filmes Proibidos” fala sobre suas experiências com ayahuasca e outros psicodélicos, que ela considera ferramentas sagradas de expansão da consciência.
Bruna foi desde sempre uma defensora da liberdade da maconha, afinal, que sentido faz proibir uma planta? E conta pra gente que chegou a presentear amigos com cannabis medicinal, coisa que ela comprava no supermercado nos EUA. Apesar de favorável a todos os usos da erva, ela considera fundamental prestar atenção para que o uso recreativo não vire uma fuga das dores cotidianas.
Nesse papo, Bruna também mergulhou em aspectos da vida cotidiana e falou sobre a decisão de ter apenas um filho e sobre como transformar a teoria do feminismo em prática cotidiana, coisa que ela faz há décadas.
Bruna, você é uma mulher vivida, sábia, e eu queria ouvir de você sobre a sua maior verdade na vida.
Eu acho que as verdades, ou nem são verdades, mas buscas, eu acho que o caminho mais claro pra qualquer uma de nós ou qualquer um de nós, é o da busca. A gente tá sempre em busca. Cada um tem sua busca e essas buscas vão variando conforme o estado de espírito que as pessoas estão vivendo ou aquela situação que a pessoa tá enfrentando. Mas existe, em alguns de nós, uma busca permanente que é quase um farol que te guia. Se eu tivesse que escolher uma busca nesse momento pra todos nós e como uma busca essencial, eu diria que essa busca é o autoconhecimento, porque não adianta nada você querer encontrar, seja Deus, seja quem for, se você não busca, primeiro dentro de você, o divino. O autoconhecimento é, de fato, o grande caminho.
Você já pensou em fazer algum livro de conselhos nessa vibe?
Eu fiz recentemente esse livro aqui, que é o “Manual para Corações Solitários”. E esse livro, ele tem essa vibe de pegar temas, grandes temas, que vão desde a relação até temas maiores, o que nos machuca, o que a gente busca na vida, por que o mundo está assim, a maldade, a violência, esses grandes questões que nos afligem, nos fascinam, ou nos divertem, elas estão em formato de crônicas sobre esses grandes temas.
Mas agora você tá lançando um outro livro, o “Filme Proibidos”, cuja personagem principal é uma mulher de 30 anos que se apaixona por um cara que meio que enrola ela, que é uma coisa bem oposta ao que você viveu na sua vida com o Riccelli. Onde você foi buscar essa referência para criar uma personagem com uma vivência tão diferente da sua?
Eu acho que, em primeiro lugar, nós carregamos dentro de nós, pelo menos se a gente presta atenção e tem esse mergulho para dentro, a gente carrega dentro de nós todas as histórias. Porque nós conhecemos elas todas, tendo vivido ou não. De alguma maneira, a gente já viveu coisas parecidas. Todo o autor se encontra nos seus livros, pelo menos muitos dos que eu conheço, eles estão dentro das histórias que eles criam, sempre é uma amálgama dessas histórias todas, mas eles vivenciam, eles são atravessados por essas histórias inevitavelmente. Então, essa personagem sou eu, porque não tem como você não ser aquilo que você escreve.
Mesmo não tendo passado por isso?
Eu não vou dizer que eu nunca passei, porque eu acho que todas nós já tivemos coisas complexas nas relações, e eu acho que não é possível uma mulher ter se apaixonado e não ter caído em mil ciladas. Não é dessa vida, entendeu? A menos que realmente a vida dela não tenha ido para lugares ainda. Mas se não, eu acho que todas nós já nos apaixonamos, já caímos em ciladas, já sofremos por amor, e, sobretudo, acima de tudo, a gente já teve muita vontade de rir disso tudo. E eu acho que o humor é a grande salvação, a gente não se afoga dentro desses oceanos de sentimentos e de loucuras porque a gente tem humor.
“O humor é a grande salvação, a gente não se afoga dentro desses oceanos de sentimentos e de loucuras porque a gente tem humor“
O livro fala também de uma era pré-algorítmica, você sente falta dessa época?
Não, eu não sinto falta do passado, nunca senti falta do que passou, até porque eu vivi. Então, você vive aquilo, já tem uma evolução, tem uma intensidade enquanto você vivencia, e depois você parte para uma evolução. Mas eu acho muito interessante poder retratar essa época dessa maneira para quem nunca vivenciou, porque a personagem é uma mulher, uma garota de 30 anos, então esse público que hoje tem 30 anos possivelmente não teve essa experiência de ter um telefone público ou um telefone fixo, uma secretária eletrônica, um walking man. E essa dificuldade de se comunicar quando as pessoas viajavam, mandar uma carta, um cartão postal, um telegrama, avisa fulano, liga interurbano, que é caríssimo… hoje você liga grátis, é maravilhoso, então não dá para sentir saudade de nada. Mas é muito interessante também ver esse contraponto porque o que acontece hoje, aquilo que nos faz tão bem, que é essa agilidade de comunicação, essa facilidade de movimento, de você estar aqui e agora e fazer mil coisas ao mesmo tempo, falar com gente do mundo inteiro, essa maravilha que é a conexão, por um lado, ela é a melhor coisa que pode existir, por outro lado, ela pode ser muito escravizante. É legal também a gente prestar atenção nesse equilíbrio.
Quais são suas estratégias para buscar um equilíbrio nesse mundo de respostas imediatas e um monte de conexões?
Eu tenho infinitas estratégias, eu faço muita palestra sobre isso, o meu livro anterior, esse manual que eu te mostrei, ele fala muito sobre isso, sobre como a gente tem que buscar equilíbrio, como a gente tem que buscar dentro de nós para viver no caos, dentro, a desordem é uma coisa natural da vida, você deixa uma coisa assim, logo uma desordem se forma, seja fisicamente em volta de você, seja emocionalmente dentro de você, seja nas relações, a desordem, ela é a natureza da vida. Então, você está sempre tendo que trabalhar a desordem dentro de você e aquela que te cerca.
Há pouco você até falou do autoconhecimento, e eu já tinha ouvido você falar que a felicidade é o autoconhecimento. Você considera que os psicodélicos são boas ferramentas na busca pelo autoconhecimento?
Olha, psicodélicos são excelentes ferramentas de autoconhecimento e eles foram descobertos assim. O primeiro uso deles foi exatamente isso, uma descoberta de ajudar a psiquiatria, a psicologia, ajudar essa cura. É óbvio que tudo o que a gente, a sociedade descobre, tudo que está, todas as ferramentas, sejam ferramentas físicas, sejam ferramentas químicas, sejam coisas que, enfim, digitais, tudo que nós temos ao nosso alcance, o que faz o veneno é a dose. Então, tudo que você pode usar pode ser muito mal usado, e pode ser muito bem usado, a diferença está onde? Exatamente no autoconhecimento, está na sua conscientização daquilo que você está fazendo. Então, se uma pessoa é despreparada, nunca teve a menor ideia do que seria um autoconhecimento, uma busca interior para entender e ordenar os próprios sentimentos e compreender para onde quer ir, quais os caminhos que você quer trilhar, e você vai ser exposta a qualquer tipo de psicoativo, a qualquer tipo de coisa que pode mexer com o seu sistema, pode ser muito perigoso, por quê? Porque você tem zero preparo, você não sabe o que fazer com aquilo, e esse é, obviamente, um problema, mas não é tudo. São tantas as camadas do que a gente precisa alcançar, e uma delas é, sem dúvida, esse preparo físico, mental, espiritual, emocional, para qualquer tipo de experimento.
“Tudo que você pode usar pode ser muito mal usado, e pode ser muito bem usado, a diferença está onde? Exatamente no autoconhecimento, está na sua conscientização daquilo que você está fazendo”
Você tem uma história com a ayahuasca, né?
Olha, eu acho muito interessante todas essas coisas que, primeiro, têm rituais, porque os rituais são a nossa ancestralidade, portanto, você está mexendo num campo magnético de extraordinária potência, se você tem respeito por isso, e quem está realizando isso, está realizando com muito respeito também, esse campo magnético se torna imediatamente um lugar harmônico, porque eu sou uma pessoa que acredito que tudo é energia, a nossa matéria é a energia de uma forma sólida, se a gente compreendesse, soubesse lidar de fato com isso, nós poderíamos estar atravessando paredes, nós poderíamos estar nos teletransportando, entendeu? E isso não é uma ficção científica, isso é apenas a nossa ignorância. Então, muitas vezes, a ciência, que eu respeito demais, porque a ciência é que nos fez evoluir, assim como a tecnologia nos faz evoluir, todos os estudos matemáticos, todos os teoremas resolvidos, nos fizeram evoluir como sociedade, porém o campo espiritual que deveria estar acompanhando, não acompanhou na mesma proporção. É como se você estivesse dando instrumentos para pessoas que não têm a menor ideia do que fazer com aquilo. E, de fato, isso acontece, são poucos os que conseguem manejar qualquer substância ou qualquer ferramenta. Pegando o exemplo da ayahuasca, eu tenho um enorme respeito, experimentei algumas vezes, e eu acho que é uma planta sagrada, precisa ter uma cerimônia, você precisa fazer com povos originários que sabem como usar aquilo e que fazem aquilo com uma dignidade e um respeito extraordinário, e aí sim você pode ter uma compreensão de coisas. E muitas vezes, quando eu experimentei ayahuasca, eu estava em lugares magníficos na natureza, porque toda a minha conexão sempre será na natureza. Embora eu seja uma pessoa urbana, e eu gosto da humanidade também, eu acho a humanidade interessante, eu acho interessante a cidade, as pessoas, as conexões urbanas me interessam muito, sim, mas a natureza é onde eu me equilibro, é onde eu busco a essência. Eu me perguntava será que isso que estou vendo aqui, magnífico, deslumbrante, que estou vendo com a ayahuasca, será que isso está aqui o tempo inteiro, e eu não tenho elementos para ver? Porque os meus canais sensoriais estão fechados, estão embutidos, por uma série de circunstâncias da vida chamada real que a gente leva. Então, na verdade, tudo isso é coligado, a vida real que você leva, que muitas vezes é necessária, obrigatória, não tem saída, você precisa trabalhar para comer, para sobreviver, mas ela, obviamente, sem um autocuidado, sem um olhar, ela pode te massificar, ela pode te embutir de uma tal maneira que você para de enxergar o encantamento do mundo. E a hora que você para de enxergar isso, você se desconecta com essa força maior, com esse poder maior, e, obviamente, você se desconecta com você mesmo. Você para de enxergar os milagres de todos os dias, porque todos os dias existem pequenos e grandes milagres, você para de enxergar a extraordinária beleza da criação e você para de exercer a criação, essa conexão com a criação, que é onde a pessoa escreve, toca, canta, pensa, enfim, traz à tona a sua busca e, provavelmente, o seu melhor.
Nessa sua primeira experiência com a ayahuasca, você lembra como foi o contexto, o que você sentiu, qual foi a sensação mais clara para você naquele então?
Lembro perfeitamente, ficou muito claro para mim que eu tenho dois caminhos quase missionários. Tenho um caminho de deslumbramento com a beleza das coisas, da criação, eu tenho um amor extraordinário pelas pessoas, porque a gente fez um grupo e, realmente, a quantidade de amor é overwhelming, é um fluxo gigante. E, ao mesmo tempo, eu sou uma pessoa cuidadora, eu cuido das pessoas, eu quero que as pessoas em volta de mim estejam bem, estejam felizes, mesmo pessoas que eu não conhecia, porque eu estava na minha casa, na praia, na natureza, na mata, tinha pessoas que vieram do mundo inteiro, pessoas da França, pessoas que eu não conhecia, inclusive, e passei a conhecer aquele dia, mas eu, realmente, queria saber se elas estavam bem, se elas estavam sentindo frio, se elas precisavam de um cobertor, se elas estavam confortáveis, se elas tinham sede ou fome, enfim, esse meu cuidado com o que me cerca é uma característica muito profunda em mim e, provavelmente, é desse impulso que nasceu a Rede Felicidade, as minhas redes sociais, tudo que eu faço nas redes sociais para ajudar as pessoas, para trazer conexões e campanhas sobre assuntos relevantes e, enfim, todo o meu trabalho o tempo todo.
“Ayahuasca não é recreativo, é maior, é místico e é mítico”
E aí você não quis seguir com a Ayahuasca, foram algumas experimentações?
A vida vai me levando, eu sou muito um pouco eu e um pouco a vida, eu tenho uma certa direção que eu me coloco e sei qual é e, ao mesmo tempo, eu tenho um lado de deixar fluir, sabe? O meu fluxo é estar disponível para a vida, estar disponível para a criação, melhor ainda do que estar disponível, estar a serviço, sabe? Eu me sinto a serviço, no sentido mais budista do termo. O sentido de servir, de estar diante de uma coisa maior e se entregar a ela, que é o curso da vida.
E você ficou receosa a respeito dos efeitos da ayahuasca?
Não, porque eu já tinha conhecimento. Nunca fiquei receosa, não sou uma pessoa de medo, o medo não é meu guia. Sempre me jogo nas coisas que eu acredito, que eu percebo que tem alguma relação, que tem alguma coisa que mereça o meu respeito.
Além da ayahuasca, você já provou os cogumelos ou algum outro psicodélico?
Já. É a mesma viagem, minhas viagens são muito parecidas, porque elas são dentro dessa minha proposta. Eu nunca tive uma bad trip, porque eu acho que a proposta é tão conectada com o todo, é tamanha, tem uma situação tão harmônica com o que me cerca, que é só um abrir-se, a coisa abrindo para mim, a beleza do mundo, o que eu fico mesmo em estado de êxtase é o quanto as coisas são bonitas e eu quase que não tenho capacidade de absorver tanta beleza.
E toda essa beleza vira massa criativa, artística?
Com certeza, com certeza. A ayahuasca é uma absorção, que faz parte, passa a fazer parte dessa coisa maior, que é esse fluxo criativo que cada vez se enriquece mais, porque eu acho que a nossa busca de enriquecimento, ela não é uma busca material, como muita gente acha. Claro, você tem que ter uma possibilidade material de se entregar a essa liberdade, sem dúvida nenhuma. Então, ter uma coisa material que te dê segurança e conforto é importantíssimo. Em alguns casos, onde a pessoa está lutando pela sobrevivência, realmente isso é vital, não tem nem como discutir. Aí entra para um outro canal, o canal da política, o canal do que os países estão oferecendo para os seus cidadãos, o que as pessoas precisam e não têm, que vai desde saneamento básico, estabilidade, saúde, e passa por tudo aquilo que a gente sabe. Mas dentro desse reino, vamos dizer, que é uma coisa mais conectada com o invisível, ele se alimenta, mas ele já está lá, e eu acho que pelo fato de ele estar lá tão grandioso, é que o que vem se demonstra também tão respeitoso.
E você já se encontrou com seres não humanos que te marcaram nessas experiências?
Eu já encontrei com guardiões gigantes, muito grandes, muito luminosos e tal, que eu até perguntei, eu preciso ter medo disso? Eu fiz a pergunta serena: eu tenho que ter medo de vocês? E a resposta foi também imediata, falou “não, não, de jeito nenhum, nós somos guardiões, nós estamos aqui como guardiões”, e eu passei a respeitar mais ainda, porque eu acho que essa coisa do respeito pelo ritual é importantíssima. O que eu quero dizer é o seguinte, ayahuasca não é recreativo, é maior, é místico e é mítico. E se você usa recreativamente, você está jogando uma grande coisa fora, e aí você está meio à mercê até dos deuses inferiores, das camadas inferiores dos campos maiores.
Você viveu um tempo em Los Angeles, um lugar onde o uso da cannabis está normalizado. Como foi a sua experiência lá, você aproveitou esse acesso facilitado para experimentar subprodutos da planta?
Exato, bom, eu acho que cannabis é… Assim, eu sempre achei muito esquisito proibir uma planta, como pode proibir planta? Não pode proibir planta, você pode proibir o químico que é feito daquela planta, você pode proibir, mas a papoula você não pode proibir, ela é maravilhosa, você pode proibir todo o processo químico que faz a papoula um produto que pode ser nocivo, aí é outro mundo, né? Mas a planta em si é uma coisa… Como todo o resto da natureza, é um presente de Deus, e a cannabis, além de fazer hemp, roupas, e ter todo um uso fabuloso, é imensa a gama de produtos que podem sair dessa pequena folha, mas também os Estados Unidos abriram essas farmácias de CBD e outros derivados que não têm o psicoativo, ao mesmo tempo, ele é muito bom para pessoas que precisam de um paliativo para dores, coisas desse tipo. Mas, hoje em dia, até essas grandes coisas que eram todas cuidadosas, precisava o documento para entrar e tal, já não precisa mais, porque hoje os produtos de CBD estão em todos os supermercados, já entrou massificado. Eu fiquei 30 anos convivendo com essa sociedade, ainda vou bastante, e tem coisas muito ruins, como toda sociedade, mas nesse ponto de seriedade, controle, de percepção, de como cuidar e tal, é bastante correto.
Você chegou a usar recreativamente, ou era mais as gotinhas?
Eu sou uma pessoa que uso muito pouco qualquer coisa, praticamente nunca tomo nenhum remédio, sabe? Eu tinha filho pequeno, eu brincava e dizia assim, puxa, eu viajo sem uma bolsinha de band-aid sequer (risos). A gente busca sempre a saúde e nunca pensa muito nessas possibilidades. Mas eu acho que é legal para pessoas que precisam, tenho amigos que sentiam dores e tal, comprei e dei de presente, acho que ajudou muita gente.
“Como todo o resto da natureza, é um presente de Deus, e a cannabis, além de fazer hemp, roupas, e ter todo um uso fabuloso, é imensa a gama de produtos que podem sair dessa pequena folha“
Você fala abertamente sobre cannabis há pelo menos 20 anos. Como foi evoluindo o seu pensamento sobre essa planta ao longo das décadas?
As pessoas têm uma má interpretação disso tudo gigante. E talvez tenha também uma grande camada que tem um mau uso, né? Porque aí vem as duas coisas juntas, a má interpretação aliada ao mau uso. E também uma terceira coisa que é a falsificação, a mistura, aquela coisa toda que foge ao controle. Mas a gente vive uma sociedade que busca aditivos, anfetaminas e pílulas, isso e aquilo, de uma maneira indiscriminada e muitas vezes perigosa mesmo, porque vai pela quantidade, não pela qualidade, não tem a menor ideia do que está tomando, vai para a balada e engole as coisas e tal. Isso está muito nesse livro. Esse livro tem muita balada, tem muita gente, a própria protagonista, mas tem muita gente que entra em canais de busca de coisas, mas na verdade, meio errado. E porque tem um certo olhar para essa parte da sociedade, que confunde recreativo com esquecimento, com não quero pensar, não quero lembrar, não quero saber, no fundo, é o disfarce de uma dor, né? Que é muito o caso de vários personagens desse livro.
E por que você quis trazer isso nos personagens?
Porque isso é retrato de sociedade do nosso tempo. Então, se você escreve livros da atualidade, aqui, agora. Como eu trabalho muito com a juventude, com a coisa urbana, moderna, aqui, agora e tal, isso é muito presente.
Bruna, eu estou com uma baby de um ano e meio, e vem aquele dilema do segundo filho. E aí, quando eu vejo mulheres que tiveram um único filho, me dá uma curiosidade de saber como é que foi essa decisão.
Bom, para mim foi imediata. Eu sabia que eu queria um filho. Eu não tinha a menor dúvida, a menor dúvida que eu ia ter um filho. Porque eu tenho uma vida atribulada, eu trabalho em excesso, eu sou uma pessoa multifacetada, com múltiplos trabalhos e muita organização para conseguir dar conta de tudo, fora a casa, fora a vida pessoal, fora a relação, fora os pais, enfim, família, toda aquela coisa que qualquer mulher carrega nas costas e precisa ter mais mãos do que qualquer polvo para saber lidar com aquilo tudo, a quantidade de multitarefas que nós temos é inacreditável. Mas eu queria ser mãe, eu queria muito ser mãe, sempre quis. E eu falei assim, eu vou cuidar muito bem de uma educação, vou saber direitinho e ter sentimento, e estar próximo, e dar conta, enfim, vai dar certo, mas não vou saber ser múltipla aqui e múltipla ali também. Daí, a minha opção foi essa.
Aproveitando que a gente está nessa seara mais íntima, Bruna, eu queria que você desse uma dica para quando é hora de acertar os ponteiros numa relação amorosa, quando está tudo indo por água abaixo. O que pode salvar um casal desconectado?
Diálogo. É a única, não existe outra coisa. Muitas vezes o homem acredita “ah, eu vou transar, aí vai ficar tudo bem, vamos resolver na cama”. Ok, nada contra. Mas assim, não se resolve sem muitas palavras. E ninguém gosta daquela coisa muito chata que chama balanço de relação, que é uma coisa que está no livro. Estou aqui vendendo o livro, mas realmente fala do balanço da relação, dela com o cara, e ela fala assim, essa coisa chata que é o balanço da relação, porque a vida é acumulativa e cotidianamente mal resolvida. Então, você tem que dar um update de tudo, especialmente porque aquilo que a gente sente é fundamental, tem que ser explícito. A mulher tem uma tendência à sutileza, a mulher acha que, sei lá, se ela ficar quieta, meio emburrada num canto, o cara vai sacar na hora. Ou se ela, sei lá, fizer barulho na cozinha, ele vai perceber, óbvio, não é verdade. Ele só vai achar que ela está fazendo barulho na cozinha e que ela está emburrada, que ela é uma louca, que não tem muita razão. Se ela não sentar e falar, vou desenhar para você, ó, seguinte, estou sentindo isso, aquela hora que você falou isso, eu senti isso, quando você estava ali, papapá. A partir da claridade, quando você tem clareza nesse diálogo, aí o que vai rolar aí é de cada um. Se o cara não capta ou também não está nem aí com tudo isso, aí também milagre não se faz. Mas se ele tiver clareza do que você está sentindo, assim como você tiver clareza do que ele está sentindo e pensando, os caminhos se abrem.
Tem uma entrevista clássica sua com o Bon Jovi, que já mostrava uma Bruna que se posicionava com uma postura feminista, mas eu queria saber se você tinha noção de que aquilo era feminismo, se esse era um conceito familiar para você ou se você foi captando o significado ao longo das décadas.
Eu tinha total noção, e eu sabia 100%, toda vez, por exemplo, que me ofereciam um papel num filme, que já me ofereceram muitos papéis, imensos, a maioria dos filmes nessa época me ofereciam para fazer a protagonista do filme, e todos os papéis que eu sentia que tinham um cunho machista, que a posição da mulher era uma posição que me envergonhava, eu não aceitava, então eu rejeitei centenas, literalmente, de papéis femininos, por ser uma feminista na alma, porque eu cresci já com esse conceito. E esse conceito não é um conceito moderno, talvez naquele momento poucas pessoas tinham as duas coisas, a teoria e a prática, porque às vezes, até hoje, você vê muita mulher tendo a teoria, perfeitamente, eu conheço feministas maravilhosas, que eu admiro muito tudo que elas dizem, mas que na vida pessoal, eu até converso com algumas sobre isso, na vida pessoal elas não souberam, não conseguiram, por outras razões, aplicar esses conceitos. Então, você tem a teoria, você sabe como é, mas chega lá na prática, de alguma maneira, a manipulação te enfraquece.
Como você conseguiu botar a teoria em prática?
Sempre fui uma garota muito feroz, muito brava, não tinha vez para mim, porque eu era brava, brava mesmo, essa leoa que você viu con o Bon Jovi, era isso no meu dia a dia, não dava para brincar, não, sempre fui brava. Mas eu entendo muito bem também, quando as mulheres têm pontos de fraqueza, por “N” razões. Você precisa não só viver de uma teoria, de um feminismo, mas você precisa de um caminho de autoconhecimento, para poder fazer aquilo seu e poder aplicar aquilo, e poder fazer daquilo sua vida, seu espaço e sua posição no mundo. A mulher não vai conseguir ser respeitada só por uma teoria, ela vai conseguir ser respeitada por uma postura na vida, e essa postura na vida não é fácil, ela paga um preço também, você precisa falar, estou disposta a pagar esse preço, não vou me dobrar fácil.