Reportagens

A controvérsia da receita

Uns acham que facilitou demais o processo do medicinal no que chamam de "vendas de prescrições”; outros defendem o acesso simples, barato e rápido à erva. Acendemos um alerta: esse cabo de guerra pode gerar mais ruído e tirar o foco do principal, que é legalizar todos os usos

Um esclarecimento antes de mergulharmos num debate que parece que não só pode inflamar cada vez mais, como tem potencial de prejudicar o mercado e a cena. Na Breeza, somos a favor da legalização do uso e do cultivo, além da inserção dos tratamentos médicos à base de cannabis no SUS, onde as consultas são, obviamente, gratuitas. Assim como defendemos o livre mercado e que há espaço para todos as boas ideias e empreendimentos, pois sempre existirão aqueles que podem pagar mais por serviços, produtos e medicamentos caros; só que não podemos jamais deixar de fora quem não pode arcar com isso (ou quem quer usar por motivos espirituais, para relaxar, para se divertir… para qual razão que for). 

– Feito esse alinhamento com nossos e nossas breezers, seguimos –

A história começa quando a Breeza foi contatada pela Cannect, empresa fundada em 2021 e que desde então recebeu aportes multimilionários para criar e impulsionar sua plataforma que conecta médicos e pacientes para, depois de receita emitida, comercializar os medicamentos de cannabis medicinal. Pode-se dizer que ela foi uma das pioneiras, no Brasil, dessa lógica que dominou o cenário.

Na mensagem que recebemos, apontaram que parte dessa concorrência que surgiu desde então estaria adotando a prática de “vendas de prescrições”, ou seja, os médicos de seus apps e sites fariam as consultas visando tão somente a venda final dos produtos, supostamente sem se importarem em realmente avaliar as necessidades dos pacientes. Será?

Questionamos Allan Paiotti, CEO da Cannect, e ele disse:  “Não chamamos de denúncia, mas, sim, querer chamar atenção para aquilo que consideramos práticas potencialmente perigosas que colocam em risco a segurança do paciente”. Para ele, haveria elementos na jornada do paciente que seriam “dogmáticos”. “Patologias crônicas não podem prescindir de uma análise profunda e sistemática por um médico capacitado”.

O executivo opina que “na ânsia de facilitar o processo, tem empresas (os fundadores destas) que estão vindo do mercado de tecnologia, mas sem conhecer de saúde”. Ele se indigna com consultas via aplicativos de trocas de mensagens, como o WhatsApp. “Viram pro paciente e dizem ‘o que quer que eu prescreva?’”, complementa.

Ao falar das consultas por meio de trocas de mensagens, Paiotti defende que “nada garante que é mesmo aquela pessoa (o médico) que te atendeu na interação”. Ele então imagina também uma cena de um médico no banheiro, fazendo suas necessidades enquanto responde aos pacientes no celular, e opina: “Tem de ter o mínimo de interação, por vídeo, para olhar o paciente, a fisionomia dele. E o paciente precisa também olhar o médico, que tem de estar em um ambiente adequado para ter uma interação de qualidade”. A Cannect não recua na hora de apontar o dedo para a concorrência, destacando que a crítica estaria direcionada a empresas como a Click Cannabis e a Blis.

Conversamos com Marcela Machado, co-fundadora da Blis, levando a questão a ela: “Vender prescrição é totalmente errado, assim como é errado pagar comissão ou até induzir um médico a prescrever qualquer tipo de medicamento (…) seguimos 100% as recomendações da Anvisa, o nosso objetivo é justamente quebrar o preconceito em torno da cannabis medicinal, isso que deveria ser a real discussão”.

O preço da erva

Enquanto uma consulta na Cannect tem custo a partir de 199 reais (para não dizer 200, né?), mas com opções de médicos que vão muito além no preço (é comum achar valores como 500, 600, 700…), na Blis é menos de 100 reais e a Click Cannabis promete por 30.

Para chegar a preços menores, a Blis conta que utiliza os espaços vagos na agenda dos médicos para marcar as consultas. Assim garante que sempre há um profissional para atender, mas também consegue negociar valores mais baixos, visto que seria um tempo ocioso. “Qualquer ideia disruptiva pode causar desconforto. Mas a gente acredita muito também na união dos players do mercado, tem espaço para todo mundo”.

A Cannect se incomoda com essas cifras menores. “Tem um limite, se puxar mais para baixo, compromete a qualidade”, diz Allan Paiotti. Para o executivo, com consultas a 30 reais “o médico não sobrevive”, antes de fazer uma analogia: “Tem uma relação de equilíbrio. É como falar que queria o combo número 1 do McDonald’s a R$ 19,90. Vai comer a mesma qualidade de hambúrguer”. Será que a comparação com hambúrgueres tem a ver? 

“Infelizmente o mercado ainda é assim, se preocupa mais com o aspecto comercial do que o cultural e social do tema. E isso, sim, é um erro”, posiciona-se Marcela Machado, da Blis. Ela compartilha que a história da Blis começou de “uma dor real minha e de meus sócios, pois cada um buscava a cannabis para uma condição diferente”. Uns eram para insônia, outros para ansiedade, estresse. Marcela diz que no caso dela se tratava de procurar por uma melhor performance esportiva, ajudando na recuperação muscular.

“São problemas muitas vezes banalizados e que afetam a qualidade de vida de milhares de pessoas. Após uma noite péssima de sono, a pessoa acorda no dia seguinte mal, perde o foco, tem menos disposição”, exemplifica ela. Nesses casos, que não são de doenças crônicas ou tidos por médicos como graves, as consultas rápidas e mais baratas podem se mostrar mais práticas? Sim, é uma pergunta, direcionada a você, leitor. O que acha?

Um problema antigo

Fato é que o preço de uma consulta não determina a qualidade de um médico, de seu tratamento, do atendimento. Estão aí muitos e muitos excelentes médicos do SUS como provas. Sim, o nosso SUS, que é tido como o melhor Sistema Único de Saúde do planeta, com atendimento gratuito e universal. “É muito difícil definir o que é melhor ou pior para cada um. Quem define se é bom ou ruim é o próprio paciente, nos resultados que obtém na resolução de seus problemas”, comenta Marcela. 

E se há mesmo médicos por aí “vendendo prescrições”, será que esse é um problema realmente germinado e instigado pelo mercado da cannabis medicinal? A médica Carolina Nocetti, referência na área, defende que não: “Isso é muito velho na indústria farmacêutica, que tem institutos e programas de paciente que já fazem a facilitação do acesso a consultas médicas para a Big Pharma vender seus produtos”.

Para ela, não se trata de um desafio empresarial ou comercial, mas, sim, dos médicos que “estão sendo corrompidos pela indústria”. Afinal, “um médico que faz a prescrição para um paciente que não precisa do remédio, ele está indo contra a ética médica e a empresa não pode obrigar ele a fazer isso”. 

Sabe-se que é prática comum as Big Pharmas, digamos assim, agradarem médicos com mimos, viagens, ou mesmo porcentagens em cima de vendas de produtos por meio de receitas assinadas por eles. “É uma questão de ética médica, de corrupção do sistema de saúde. Não é um desafio para o setor da cannabis, em si”, comenta Carolina Nocetti.

A médica ainda defende que não deveria haver necessidade de receita médica para a cannabis, “pelo menos para os produtos ricos em CBD e com baixo THC; deveriam ser vendidos em farmácia, sem prescrição, como é em dezenas de países pelo mundo, como nos Estados Unidos, no Canadá e em nações da Europa”. 

Ressalta ainda que “tem muito remédio que é vendido na farmácia, sem prescrição, e que é muito mais danoso, com mais riscos do que qualquer canabinoide”. Como exemplo, ela cita o paracetamol, que quando misturado com bebidas alcoólicas, por exemplo, pode até levar à morte.

A discussão errada?

Ana Júlia Kiss, CEO da Humora, se situa em um outro lugar da conversa: sua empresa justamente vende os produtos à base de cannabis que são prescritos por médicos e comercializados nos apps e sites. Para ela, o rumo do debate está equivocado. 

“Essa treta gera descrédito entre todos. A pessoa entra (no app) e fala ‘Por que esse médico cobra 800, esse 100, esse 30?’. Ninguém explica”, defende. As diferenças muitas vezes se dão por um ser um médico especialista, outro ser um generalista, outro usar também métodos de autoatendimento. 

Na prática é preciso separar os usuários de maconha. Há os com doenças crônicas e graves, mas além de serem minoria da população, esses inevitavelmente vão precisar e procurar por tratamentos médicos mais prolongados, consultas com especialistas e outros caminhos que exigem mais tempo e dinheiro – e por isso que todo o SUS deveria o mais rápido abraçar a terapia canábica; felizmente, também há a alternativa das associações e do cultivo com habeas corpus. 

Só que também tem aqueles que procuram para aliviar dores do dia a dia, insônia, TPM, para desempenhar melhor no esporte, enfim, para o bem-estar. “Hoje é imposto que essas pessoas têm de passar por um médico. Por quê?”, comenta a CEO da Humora. E, convenhamos, realmente… por quê?

E não menos importante, também tem quem recorre para relaxar, se divertir, em momentos de lazer. Um hábito que apenas no ano passado foi descriminalizado no Brasil, um avanço significativo, mas ainda distante do cenário real, o da legalização total.

“Temos de discutir a legislação”, opina Ana Júlia Kiss. “Por que alguns não aceitam as mudanças?”. Destaca ainda como hoje a cannabis medicinal tem sido inacessível à maior parte da população brasileira, que ganha menos de 5 mil reais e que não teria como investir algo como um quinto disso por mês em consultas e tratamentos. A esses vão relegar o prensado e a ilegalidade? Justamente àqueles que lutam pela causa faz muito mais tempo, coisa de séculos quando consideramos seus ancestrais, batalham pela cultura canábica e que foram marginalizados, presos e excluídos com a farsa da Guerra às Drogas. “Esse teto (de valores altos para consultas e medicamentos) que querem dar é por preciosismo, ego ou lucro”, pensa Ana.

Antes de encerrar a conversa, é preciso lembrar que se trata de uma planta. E não uma erva qualquer, mas uma que já é usada faz milênios pela humanidade para muitos fins, sejam eles industriais, religiosos, medicinais ou recreativos. Qualquer um deveria poder plantar a semente em casa e cultivar a ganja, como se pode fazer com maracujá, camomila ou café. Sim, alguns precisam de auxílio médico, mas esses são minoria e a eles deve ser dada a devida atenção. Para a maioria, o utópico seria se investisíssemos em educação e em espalhar conhecimento para possibilitar o uso consciente e responsável. E sempre sem esquecer que alguns só querem mesmo é dar um dois para aproveitar a brisa (uma escolha não só faz muito bem para uns, como deveria ser de direito de todos nós). 

ATUALIZAÇÃO: Após a publicação da nossa reportagem, a Cannect compartilhou com a Breeza um texto do Cannalize (site apresentado como “plataforma de informação do grupo Cannect”) sobre o tema, com médicos defendendo posicionamentos similares à da empresa. Se quiser ler, pode ajudar a compreender a divisão da área médica: https://cannalize.com.br/medicos-criticam-a-venda-de-prescricao-de-cannabis/.

Filipe Vilicic