
“A cannabis é uma planta linda. E pra mim, a coisa mais louca do mundo é uma planta ser proibida, ou um animal, um fungo, qualquer coisa da natureza, por acaso alguém pode proibir uma montanha?”, provoca Claudia Visoni, uma jornalista de 59 anos e que há quase vinte se dedica à agricultura urbana. No meio dos tomates, das laranjas, das abobrinhas e hortaliças, Claudia bem que queria plantar também alguns pés de maconha, mas, como você sabe, ainda não rola.
“Eu adoraria plantar cannabis, não planto porque não quero problema com a polícia, mas quando for permitido por lei, e espero que isso aconteça logo, passarei a plantar muito feliz porque acho uma planta muito bonita e muita cheirosa.” Quem vê Claudia animada assim pode até pensar que ela é uma ervoafetiva das boas, mas a verdade é que ela nunca foi muito chegada ao fumo, e de nenhum tipo. “A minha substância recreativa é muito mais o vinho, que aliás eu bebo cada vez menos. Não me dou bem com fumaça de jeito nenhum, nem de incenso eu gosto.”
Ora, mas então o que essa agricultora urbana faria com a sua produção? “Daria para quem quisesse, sempre distribuo os excedentes de colheita, a partilha dos excedentes é um dos princípios da permacultura”, explica. E quem é que não adoraria experimentar a colheita de uma agricultura experiente, possuidora dos talentos necessários para fazer vingar sementes e mudinhas até muito mais complexas do que as de maconha?
Ambientalista raiz
Nascida e criada em São Paulo, Claudia iniciou os estudos sobre produção de alimento em pequena escala, inicialmente para aplicar os conhecimentos que ia adquirindo no seu próprio jardim. Mas pouco tempo depois já estava ela movimentando a cena da cidade, reunindo pessoas com ideais parecidos para criar hortas urbanas – ou seriam pequenos paraísos? – na maior megalópole da América Latina.
“Sou ambientalista desde criança e num dado momento percebi que aquela competência das nossas avós e bisavós, de produzir uma parte dos alimentos no quintal, voltaria a ser muito necessária, e passei a dedicar a minha vida a aprender a plantar comida e a disseminar essa ideia de agricultura agroecológica, de produzir parte dos alimentos, se aproximar e apoiar pequenos agricultores que produzem alimento regenerando a natureza.”
Se você mora em São Paulo e tem algum interesse por esse assunto, é provável que tenha se deparado com o Hortelões Urbanos, uma comunidade que agrega 85 mil pessoas na página do grupo no Facebook, e que inspirou diversas iniciativas de hortas urbanas pela cidade, incluindo a horta das corujas, primeira horta comunitária aberta em espaço público na capital, inaugurada com a ajuda de Claudia, em 2012.
Barrada no agrobaile
“A gente tá vivendo um urbanismo muito árido, as cidades estão inóspitas, com muita poluição, muito estresse, barulho, asfalto, as pessoas obrigadas a fazer longos deslocamentos, e a gente precisa de uns cantinhos na cidade pra respirar”, diz Claudia, traduzindo uma sensação perene entre aqueles que vivem nas grandes cidades. E se aparecesse, nesses lugares de respiro, alguma mudinha de maconha? “Infelizmente, teríamos que remover por ainda não ser permitido”, lamenta.
Isso aconteceu só uma vez, numa época em que Claudia trabalhava como voluntária na Horta do Ciclista, na Avenida Paulista. “Chegamos lá pra um mutirão e tinham plantado cannabis. A gente precisou remover e deu pra uma pessoa que queria, porque plantio de cannabis em horta comunitária, nos dias de hoje, pode inviabilizar a horta inteira. Às vezes as pessoas acham que tão fazendo um grande favor pra horta, mas melhor não plantar, ou, no mínimo, conversar com as pessoas que cuidam daquela horta.”
Enquanto o sonho de levar a cannabis para dentro dos pequenos paraísos urbanos está em suspenso, aguardando os avanços legislativos necessários para que a planta seja liberada, Claudia não perde tempo e segue ampliando as possibilidades de paraíso com o que sim, já é possível. Durante a pandemia, ela fundou a Frente Alimenta, uma iniciativa que abastece cozinhas comunitárias com alimentos livres de agrotóxicos. “Atuamos nas periferias, como Cidade Tiradentes, Itaquera, Jardim Ângela, ajudando a estruturar tanto as cozinhas comunitárias quanto as roças dos agricultores.”
Entendendo a necessidade de ampliar a consciência sobre plantio, alimentação e sustentabilidade para além das zonas ricas da cidade, no começo deste ano, a ambientalista lançou o Instituto Pequenos Paraísos, que oferece financiamento e presta consultoria para grupos que tenham por objetivo criar oásis urbanos principalmente nas periferias. Será que um dia a cannabis vai entrar nesses paraísos?
Anita Krepp