
Alice Carvalho, com sua aura de artista multidisciplinar e nordestina de raiz, abre o jogo sobre sua relação com a maconha e os psicodélicos, revelando uma conexão que vai muito além do recreativo. A Dinorah de “Cangaço Novo”, série no streaming, e que agora se prepara para voltar ao ar na novela global “Guerreiros do Sol”, em abril, já superou tabus e abraçou a planta como parte do seu estilo de vida.
A atriz compara o cuidado que tem com o uso da maconha ao mesmo zelo que dedica à alimentação, onde o equilíbrio é a palavra-chave. O óleo de CBD e THC, manipulado sob medida para suas necessidades, é companheiro no controle da ansiedade e do TDAH, enquanto o baseado ao final do dia é praquele momento de descompressão, um ritual de autocuidado.
No universo da atuação, Alice adapta o uso da maconha conforme as demandas do trabalho. Em períodos de gravações intensas, prioriza o óleo para manter o foco; mas não nega que, em algumas cenas, a maconha foi sua cúmplice na hora de destravar a criatividade. Conta, com um sorriso, de uma cena musical em que, após uns tragos, conseguiu tocar sanfona com uma precisão que surpreendeu até ela mesma.
Nesta conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, a atriz falou também sobre suas experiências com cogumelos e LSD, que tomou sempre em doses mínimas e em contextos específicos, como em festivais. “Nunca fui de visual forte, de ver coisas derretendo”, confessa, preferindo substâncias que proporcionam uma brisa leve e alegre, sem comprometer sua produtividade. Bem-vindo ao universo da Alice, onde a maconha e os psicodélicos são apenas mais algumas das cores que ela usa para colorir o caminho.
Você acaba de fazer um feat com Baiana System e Anitta e essa é a terceira vez que você trabalha com o Baiana, das outras você tanto participou com a voz quanto como roteirista, diretora, atriz. Então eu queria saber um pouco mais desse seu rolê com o Baiana.
A minha parceria com o Baiana já acontece desde 2018 com o primeiro vídeo manifesto que eu escrevi em parceria com Filipe (Cartaxo) baita músico e também letrista, e aí Russo e os meninos estavam indo para Natal para fazer um show lá no festival muito massa que tem em Natal, e aí eu acho que ele estava chegando no dia seguinte depois de eu ter soltado o manifesto, e aí foi replicado pela mídia independente, pela mídia alternativa, que tem um papel fundamental em replicar a contra-cultura, e aí ele sacou o vídeo e já me mandou uma mensagem falando que queria abrir o show de amanhã em Natal, e tinha um texto muito forte de discurso antifascista. Naquela época, 2018, antes de acontecer o que aconteceu no nosso país, e esse vídeo que era para acontecer numa abertura de show, estava ali, pelo segundo turno das eleições, e ele terminou acompanhando a banda durante os quatro anos de resistência. Nesse meio tempo a gente ficou muito próximo, eu e Russo, acho que a gente descobriu que a gente é irmão de mãe separada, inclusive com o mesmo sobrenome, e começou a criar muita coisa junto. Então eu participei bastante dos debates conceituais do “Futuro Não Demora”, que é um disco de estúdio, de muito trabalho deles, e eu queria dirigir um clipe, porque eu já estava nessa pira do audiovisual há bastante tempo e aí assim surgiu um projeto de vídeo-álbum que só veio sair depois, quando a gente criou “Navio”, que é um vídeo-álbum que pega quatro faixas do “Futuro Não Demora”. E no meio disso veio essa pandemia, e aí na pandemia o Baiana fez um disco sobre a pandemia, que eu também participei bastante da criação conceitual da coisa e tomei conta do visual de uma música chamada “A Vida É Curta Para Viver Depois”, peguei para dirigir e terminei atuando… que era pandemia, não tinha o que fazer. Quando chegou 2022 e o horizonte voltou a brilhar, a gente entendeu que já estava na hora de dar uma renovada naquele manifesto e trazer um novo manifesto pegando contexto político cultural, novas insurgências na cena musical, na cena artística de um modo geral, no audiovisual também. Eu já tava fazendo o trabalho dentro da Globo, e toda a dificuldade de ser atriz nordestina, artista nordestina, de chegar numa grande mídia, sobre o que é que a gente vai falar? E aí veio esse manifesto que virou parte da música Balacobaco. Mas era um manifesto sobre “eu cheguei aqui agora, vou permanecer, e vou trazer outras pessoas junto”, que faz muito parte de um discurso de sobrevivência do Baiana System, que querendo ou não também é meu, que já passei para fazer sete anos dessa caminhada com os meninos. Então é uma coisa que faz muito parte da minha correria também falar sobre ser nordestina, ocupar outros lugares e falar que prefiro cachaça a gim e integrar os discursos políticos dentro de um texto manifesto que viria a ser musical e aí desembarca nessa parceria, que a Anitta já tava numa troca com o Russo, ela admira muito o Baiana System e eu conheci ela também por causa do “Cangaço Novo”, no ano passado, e ela queria fazer alguma coisa com o Baiana, mas dentro da praia deles, aí o Russo então peraí, então vamos pegar as mina aqui e juntar com o som da gente, fazer esse manifesto que fala do bairro, de uma região, de um país, e quando chega Anitta, fala para o mundo.
Alice, você, nesse começo de carreira, já sabe quais são os espaços que pretende ocupar com a sua arte?
Engraçado, porque eu nunca dividi muito as coisas em caixinhas, mesmo entendendo que sempre foi necessário para mim enquanto sobrevivência, então eu tenho um teste de elenco, vai chamar as atrizes e eu vou no bolo, como atriz. Aí tem uma chamada de residência para artista visual e eu vou dentro da performance. Acho que desde pequena sempre fui multidisciplinar, comecei muito jovem a fazer teatro, mas não só, sempre muito conectada com a música, comecei a estudar música muito nova também, toco guitarra, toco violão, arranho um pouco de percussão, então essa multidisciplinaridade sempre teve dentro de mim, e acho que agora, mais do que nunca, estou sendo convidada a descompartimentar, muito provocada pelos meus amigos, que são de meu convívio, que estão no meu entorno, meu entorno sempre me contamina muito. Isso tem ocupado cada vez mais espaços interessantíssimos dentro da televisão, então é gostoso de aproveitar, gosto de experimentar, estar na televisão, experimentar novos públicos, chegar em 20 milhões de pessoas todo dia de noite é uma maluquice, mas a minha grande paixão de fato é a performance, e aí a performance vai se manifestar em diversos lugares, seja na música, seja domesticando um pouco para virar linguagem dentro do audiovisual. Por exemplo, eu fazendo “Cangaço Novo”, com uma equipe de 200 pessoas assistindo, eu sempre vou com a alma de performance contemporânea. Eu vou fazer alguma coisa aqui que a galera vai ficar de cara, vou fazer alguma coisa maluca que ninguém vai tá sabendo, que não tá no roteiro, então eu tenho essa alma de performance dentro de mim seja para o set, seja para a audiência geral. Meu desejo de verdade só é que eu sempre seja muito fiel à verdade do que eu vou fazer, que a última das coisas que me prenda para investir em uma empreitada nova artística seja grana, seja visibilidade, porque realmente, para mim não faz diferença estar apresentando para cinco pessoas ou para 5 mil, ou tá na televisão para 20 milhões. Faz a diferença em ser chamada para outros trabalhos e ser conhecida por produtores e ter mais ofertas de coisas legais, isso faz a diferença.
E essa alma performer também aparece na vida pessoal?
Não. É pior, sou a pessoa mais tímida do mundo. Vai me procurar na festinha e geralmente eu tô meio lá atrás com um cigarrinho. Na hora que o eu extrovertida vem é quando tem a licença poética da coisa, na festinha eu sou mais encostada na parede ou dançando, uma rodinha mais no canto, sou mais tímida mesmo, e relacionamento nem se fala.
“Uma tendência natural do mercado é fazer isso com o nordestino, com o nortista, com preto, com LGBT, mulheres trans, homens trans, então existe bastante essa tendência dentro do mercado (de estereotipar atrizes e atores)”
Você sente uma tendência de que os seus papéis sejam todos no entorno rural ou no Nordeste, mais ou menos como acontecia com atores negros que antes eram sempre destinados a personagens repetitivos de um universo específico?
Uma tendência natural do mercado é fazer isso com o nordestino, com o nortista, com preto, com LGBT, mulheres trans, homens trans, então existe bastante essa tendência dentro do mercado, mas eu tenho uma sorte de trabalhar com uma equipe muito maravilhosa, e que por ser uma coisa que acontece há muitos anos e com carreira de várias atrizes que vieram antes de mim e que abriram caminho para mim, meio que já cheguei num primeiro grande projeto, que foi o “Cangaço Novo”, tendo consciência de que depois desse tempo quero fazer outra coisa. Eu tenho uma inquietação, quase um toc, de não pegar um trabalho parecido com o anterior logo na sequência, aí fui para um outro lugar interno emocionalmente falando, enfim, vou fazer uma personagem que era uma mana, que morava na praia, em um outro contexto, outra vibe a personagem LGBT num outro lugar, que era muito aguerrida também, mas com outro temperamento. Daí desse fui fazer a novela, quando, aí sim, voltei para um contexto rural em algum lugar, mas a personagem pegou porque tinha uma leitura de ser mãe e isso eu nunca tinha feito uma mãe nesse contexto. Aí eu fiz botando tudo que tinha para fazer, no meio disso tudo fiz “O Agente Secreto”, uma professora num outro lugar, de uma intelectual. Agora eu tenho dois trabalhos para este ano, que naturalmente não posso falar aqui, mas que são num outro lugar completamente diferente de uma coisa mega urbana, super contemporâneo. E uma outra que eu vou filmar no Norte do país, outro contexto, uma coisa que ninguém me viu num registro parecido como esse, também vou mudando muito de caracterização. Quem pode não aceitar certos papéis, podendo financeiramente recusar determinados papéis, é pensar “puxa vida, eu posso não fazer isso, eu posso fazer uma outra coisa”. Não por nada, mas se me chamaram porque já me viram fazendo esse papel aqui em um outro projeto não faz sentido eu fazer essa mesma personagem no projeto, de uma outra eu vou tá inclusive sendo egoísta pra caralho. Tenho também essa coisa de falar não para certos projetos pensando em meus pais, mas também pensando em quem tá me convidando porque você não quer que eu faça a mesma coisa que você já viu, né?; e eu sou um ser humano, posso facilmente cair num limbo de repetição que não vai ser bom para ninguém.
Em “Renascer”, que foi ao ar no ano passado, e em “Guerreiros do Sol”, uma novela que deve estrear agora em abril, em ambas você vive romance com mulheres. Isso é por acaso ou você acha que te escolheram por saberem da sua bissexualidade?
Eu acredito que o convite de Papinha veio com uma proximidade que a gente tem com a filha do Papinha, que é uma diretora e produtora e uma mulher LGBT, que fala muito sobre isso e a gente se conhece, acho que ele assistindo trabalhos prévios meus e uma série que eu criei em 2016 também tem essa temática. Ele confiou esse lugar em mim pensando na troca com uma atriz muito experiente, ele precisava de uma atriz mais nova numa troca com uma atriz muito experiente e que trouxesse química e verdade para a coisa. Acho que foi, claro, bastante influenciado por um lugar de representatividade, mas também e sabendo que dentro de uma televisão, dentro de uma janela de milhares e milhares de brasileiros assistindo, eu não me sentiria em algum lugar, ou inexperiente dentro desse tipo de dramaturgia. Eu já conhecia, já tinha uma vivência pessoal como também profissional.
Falando de “Sépto”, uma websérie de sua autoria, que teve boa recepção de audiência e crítica. Como foi que surgiu essa ideia?
Pensei em fazer uma oportunidade para que eu mesma pudesse atuar, associando a isso eu naquela idade e já, enfim, com super entendimento de que era uma mulher LGBT, da minha sexualidade, tudo muito claro na minha cabeça, eu sentia uma sub-representação muito grande assim não só para mulheres. Mulheres se relacionam com mulheres de um modo geral, mas isso dentro de um contexto nordestino, de um contexto urbano-nordestino, então eu tinha um protótipo dessa história para ser um curta-metragem e eu queria muitíssimo atuar nele. E aí os colegas que hoje são meus meus super parceiros no Instituto Acaboura Audiovisual estavam começando uma pesquisa com o mercado de web séries justamente porque é uma janela de exibição muito mais democrática, no sentido de quando você não tem distribuição, quando você não tem financiamento, você solta na internet e hoje é o que é o mercado de web séries, mas isso era em 2015 e aí eu fiz uma adaptação, chamei outros colegas para escreverem comigo, a gente foi atrás de material bibliográfico na gringa, e aí a gente foi fazendo a adaptação do arco de dramaturgia para um formato de 8 minutos. A primeira temporada, se você somar tudo, tem 44 minutos. Daí a gente lançou a coisa do crowdfunding e logo de cara em parceria com o Brasileiríssimos, que era um grande portal de voz contra-cultura na internet naquele tempo. Soltamos um teaser pedindo uma grana para poder fazer 15 mil reais, meu irmão, a comunidade abraçou, foi inacreditável, e justamente por causa da sub-representação. Na terceira temporada já chegou o Itaú Cultural patrocinando com dez vezes o valor da primeira temporada, vamos fazer um portfólio geral já que o cinema do Rio Grande do Norte está se regando agora é uma equipe gigantesca, que abriu muitas portas, inclusive para mim.
“Tô investindo meu rico dinheirinho, meu pouco dinheirinho, eu tô investindo em adquirir direitos de boas histórias”
Você tá crescendo como artista, e seu patrimônio naturalmente acompanhando. No que você tá investindo o seu dinheiro?
Em colchão bom e televisão (risos). Me mudei recentemente e tô no numa fase de lua de mel com a casa, sabe quando você consegue enfim ter uma casa e não quer sair de casa? Ultimamente eu adquiri direitos de livros para adaptação para o audiovisual, uma coisa que eu sempre quis fazer, tenho uma sala de roteiro hoje que tá no primeiro tratamento de uma história que é minha, que já existe desde 2017, mas é um projeto que eu tô fazendo bem devagar, eu quero que o roteiro fique bem criativo, eu quero que não tenha previsão mesmo. E o outro que tá rolando é um livro que eu sou produtora associada dele e não dá para falar ainda qual é esse livro, mas é um livro que esse ano tá na lista dos best-sellers, é uma autora mulher nordestina que eu sou apaixonada por ela, e quem tá adaptando é uma grande diretora de cinema, então a gente tá nessa fase de pesquisa e até o fim do ano a gente deve tá com um tratamento super avançado, já pensando em rodar de repente no ano que vem ou no final do ano que vem. E tem um outro que eu comprei do Aramis, que eu sou apaixonada por ele, conheci ele numa feira literária em São Paulo e aí uma fã me deu o livro dele porque falou que era a minha cara, e tem tudo a ver com o meu estilo de escrita e aí eu li e falei “meu Deus, que elogio!”, porque o cara é dez vezes melhor e a gente começou a trocar uma ideia na internet. Eu li esse livro dele, juntei com uma outra mana aqui que tá de sócia nesse outro projeto de longa-metragem comigo, e aí vamos ver o que que a gente faz, se a gente vai fazer uma série, se a gente vai fazer um livro com um multinarrador, uma onda com multinarrativas, nisso que eu tô investindo meu rico dinheirinho, meu pouco dinheirinho, eu tô investindo em adquirir direitos de boas histórias.
Alice, eu sei que você toma o óleozinho de maconha para ansiedade e queria entender como é que se deu.
Antes do óleo, veio a planta. Eu não sei com quantos anos eu comecei a fumar maconha, mas no final da minha adolescência, começo da adulta, comecei a fumar maconha também por causa do lance da ansiedade, também foi um grande aliado. Ao longo dos anos eu entendi que o efeito da planta na minha ansiedade, com a planta seria potencializado se eu tomasse um óleo manipulado. Aí eu tenho uma amiga muito próxima, Adriana Martini, que é uma pesquisadora do Instituto do Cérebro, e foi quem começou a abrir as portas da pesquisa dela do cultivo dela e da extração que ela já fazia, então eu comecei a refinar a minha relação com maconha. Quando eu tinha menos grana, a qualidade do que eu comprava era inferior, e durante um tempo passou a não bater bem. Quando fui amadurecendo e entendendo melhor o que é que iria funcionar melhor para mim, se indica ou se sativa, qual tipo de manipulação ou qual tipo de óleo eu compraria… A relação que eu tenho hoje com a maconha é completamente fora do armário, mas mais presente na minha vida mesmo dentro do meu cotidiano é o óleo. Eu tenho TDAH e existem os episódios de ansiedade que foram muito fortes em alguns momentos da minha vida e que se não fosse pelo óleo teria sido muito difícil. Hoje eu faço o uso de uma porcentagem equilibrada entre CBD e THC, passei muito tempo usando só o óleo de CBD e hoje eu uso uma porcentagem que é manipulada para mim diante da minha necessidade de CBD e de THC. Eu tive que fazer vários estudos para entender o que é que daria conta do meu TDAH, mas também não me deixaria em um lugar que seria improdutivo porque aí isso me deixaria com ansiedade. Foi um bom tempo de ajuste. Mas eu fumo maconha recreativamente, não tanto como quando eu era mais nova, mas no fim do dia, quando fecho o computador, sento embaixo do meu projetor e vou fumar uma tronca, essa é a minha relação com maconha hoje. Mas tive períodos de muita oscilação, fumava muita maconha, e períodos que eu estava trabalhando, que eu não fumava nada, e aí hoje eu tenho uma relação equilibrada, no sentido de que eu posso fumar maconha quando eu quiser porque justamente eu me eduquei sobre.
“Quando tinha menos grana, a qualidade do que comprava era inferior, e durante um tempo passou a não bater bem. Quando fui amadurecendo e entendendo melhor o que é que iria funcionar melhor para mim (…) a relação que tenho hoje com a maconha é completamente fora do armário (…) equilibrada, no sentido de que posso fumar quando quiser, justamente porque me eduquei sobre”
E você parava pra trabalhar por que te afetava?
Eu sempre fui muito da correria, sempre trabalhei muito, tive mil trampos, e como a maconha tinha uma coisa de relaxamento, quando eu entrava nesses picos de correria, picos de temporada, de um lado para o outro de busão e carregando as coisas dentro do busão, então eu entendo que naquela época era muito uma visão de jovem começando a vida adulta e eu pensava “pô, a maconha vai ser um uma recompensa, vou segurar aqui, vou fazer meu corre”. Então eu sempre tive muito essa coisa, e tenho um pouco na minha vida até hoje, de querer me focar.
A maconha no Rio Grande do Norte é muito diferente da maconha no Rio de Janeiro?
A qualidade da maconha no Rio Grande do Norte é incrível e o valor é inacreditável. Acho que a primeira coisa que senti quando cheguei no Rio e fui comprar o que eu precisava pro mês e era quatro vezes mais para você fumar alguma coisa de qualidade, porque realmente eu não faço mais uma parada que eu não sei de onde vem, que não é bom. Mas em Natal meus amigos todos são muito maconheiros, então todo mundo tem o uso muito sem nenhum pudor. Querendo ou não eu vivo uma bolha lá e aqui eu sinto mais de fumar em casa, no Rio eu sinto mais de fumar num lugar mais seguro, eu acho que tem um pouco mais disso, sendo uma mulher preta, tá ligado? Enquanto pessoa pública eu faço uso muito reservado, mesmo todo mundo sabendo.
E além de botar o projetor e fumar um, que mais você curte pra esse momento?
Final de semana e acordar, ter um baseado e fazer um rango é uma parada que eu faço sempre. Agora onde eu tô não uso, nem antes de entrar em cena, não rola mesmo, às vezes eu passo grandes períodos, a depender do personagem, sem fumar, pela concentração.
“Enquanto pessoa pública eu faço uso muito reservado, mesmo todo mundo sabendo”
Você tem uma noção de redução de danos bem importante. Você pratica redução de danos ativamente?
Eu nem pensava sobre esse nome, redução de danos. Assim, talvez eu até faça mesmo a redução de danos, mas é porque se meu corpo é o meu trabalho, meu corpo, minha mente é tudo uma coisa só e para mim meu trabalho infelizmente, ou felizmente, é a coisa mais importante da minha vida, uma parada pela qual eu vivo, por essa vida ativa que eu tenho dentro das minhas criações artísticas, dos projetos que sou convidada. Então, o mesmo cuidado que eu tenho com a minha alimentação, também tenho no meu uso de maconha. Tenho cuidado muito grande com tá sempre fazendo exercícios aeróbicos para a compensação das coisas que eu faço, injeção de fumaça, tem uma temporada que eu vou fazer uma apresentação cantando, vou gravar alguma coisa cantando, personagem que canta, aí eu passo um tempo sem fumar e faço uso apenas do óleo com THC. A maconha tá dentro do meu estilo de vida e vai se adaptando a isso como pode.
Além de maconha, você já experimentou psicodélicos?
Experimentei, mas eu vou te falar a parada que eu acho que eu mais me dei bem até agora foi o cogumelo. Nunca aconteceu uma bad. Sempre usei muito pouco, é claro, em momentos específicos no Carnaval, onde eu provei a primeira vez e fiz uso várias vezes. É uma parada que tá super difundida agora, deu uma popularizada e a coisa de ser natural, de no outro dia eu acordar bem, de boa, de saber procedência e tal. LSD eu já usei e que usaria outras vezes, dentro do meu estilo de vida, acho que faz mais sentido para mim usar as paradas mais naturais.
“A parada que eu acho que eu mais me dei bem até agora foi o cogumelo. Nunca aconteceu uma bad”
O que você encontra quando toma substâncias psicodélicas?
Nunca fui muito de usar nenhum tipo de substância que desse muito visual que eu vi se as coisas derreteram, se movendo… Nunca foi a minha onda, porque eu imagino que eu vou ficar um pouco agoniada se eu vir um abajour derretendo na minha frente. Todas as vezes que eu usei LSD e também êxtase, eram micro proporções e de dar uma alegria no sono, e eu que sou a pessoa que fico no canto da parede tomando meu drinquezinho, olhando todo mundo dançar, é quando corta para descendo na boquinha da garrafa. Esse é o tipo de escolha que eu faço (risos). Esse doce aqui ele vai me fazer dançar na boquinha da garrafa, sim, vamos fazer uma proporçãozinha , mas sempre muito nesse contexto, e para falar a verdade, nem lembro qual foi a última vez que eu tomei.
Lembra de alguma brisa divertida?
Eu falei que eu nunca fumo quando vou trabalhar, né?, mas aí teve uma personagem que era permitido fumar enquanto estava aqui, eu me permitia fumar enquanto estava gravando, porque era uma personagem mais relaxada, e eu tava gravando num calor absurdo, e aí eu e um colega de elenco, a gente fumava junto, e a coisa mais divertida de ter fumado dentro desse contexto de trabalho é porque eu tava aprendendo a tocar sanfona, e eu sou muito exigente comigo mesmo, principalmente nessa coisa relacionada à música, porque eu também tenho uma vivência com música desde menina. Sanfona é muito difícil, sim, eu tenho uma noção de baixo, eu tenho uma noção de piano, mas aí quando você vai juntar as duas coisas às vezes ficam duas mãos esquerdas, é muito difícil, e aí a gente ia tocar essa música ao vivo porque não tem playback, e eu estava muito, muito travada, tava sem coordenação motora nenhuma, o estresse altíssimo, calor também. Eu fumei meu beck, dei uns três pegas e a música saiu perfeita, saiu linda, não precisou dublar nada e foi incrível, eu consegui fazer um solo. Você vai olhar para o meu olho, você vai ver que eu tava chapada, mas foi uma coisa que me destravou, então na verdade foi medicinal.
Dentro da sua casa teve alguma questão com aceitar a sua faceta maconheira?
Nunca teve uma repressão porque eu acho que também eles nunca sentiram que precisavam conversar comigo sobre isso, tanto os meus avós quanto a minha mãe, zero questões, nenhum problema com isso porque eu sempre também fui uma pessoa muito responsável, então acho que a minha responsabilidade foi uma parada que garantiu sempre a minha liberdade diante de tudo. Dentro de casa nunca nem precisou ter uma conversa sobre isso e eles sabem que eu fumo maconha até hoje, inclusive.
Qual é o ideal de legalização pra você?
A gente tem exemplo mundo afora de como sociedades estão tentando reparar as injustiças seculares, por que qual é a população que está encarcerada em massa pelo porte e pelo uso de maconha? Também acho que a gente tem que se espelhar nos países de Primeiro Mundo que já, para além de descriminalizar, já legalizaram. Imagina você ir comprar num lugar que você sabe a procedência, você consegue fazer o uso seguro das substâncias? E não falo só de maconha, não, falo de outras substâncias também, porque eu acho que o investimento ele tem que ser também, como você falou muito sabiamente ainda agora, na redução de danos, porque as pessoas vão usar o que elas quiserem usar, sendo liberado ou não. E acho que mesmo com uma conquista há pouco tempo com a descriminalização, eu acho que a gente tem que seguir lutando para que o avanço aconteça, porque a gente tem percebido a onda de conservadorismo e os neofascistas indo e voltando, como aconteceu nos Estados Unidos, uma coisa que facilmente pode acontecer aqui no nosso país se a gente não tiver atento e vigilante. Essa é uma coisa que, para além de ser um discurso de quem é usuário, tem que ser um discurso de quem é progressista. E quem é que não fuma maconha e não usa nenhum tipo de substância?
“A gente tem exemplo mundo afora de como sociedades estão tentando reparar as injustiças seculares, por que qual é a população que está encarcerada em massa pelo porte e pelo uso de maconha?”
Pra terminar, queria falar contigo sobre o conceito de beleza, porque ali quando começou o remake de “Renascer”, você no papel da Joaninha que outra hora foi ocupada por uma mulher branca, e no remake rendeu umas críticas à sua beleza. Mas beleza, como a gente sabe, é um conceito relativo. Então, me conta, o que é a beleza para você?
Olha, foi uma coisa que eu enfrentei tão bem nessa época. Eu lembro que foi uma grande comoção nos jornais, nas coisas todas, e foi muito legal ver as pessoas me defendendo. Mas eu acho que eu até enfrentei isso muito melhor do que eu achei que enfrentaria. Eu nunca fui uma mulher que não gostaria de ter a autoestima lá no alto, não sei o que. De fato tem a ver com o marcador social e tem a ver com o fato de eu ser uma mulher negra. Sempre fui muito preterida, tenho esse recorte na minha vida e acho que quando aconteceu esse lance em “Renascer”, eu já esperava as comparações. Mas o meu medo, na verdade, eram das comparações artísticas, porque Tereza Saimblitz é uma grande atriz. Então tava “caralho, tomara que eu consiga fazer um trabalho tão espetacular quanto o dela”. Quando vem uma comparação diante da minha aparência física e estética, para mim ficou “caralho, ótimo, porque pelo menos daí eu sei de onde vem”. Eu sei de que monstro interno dentro das pessoas isso aí tá vindo. Eu sei que isso vem do contexto de racismo. Acho que isso vem também no contexto de xenofobia, por eu ser de fato uma mulher nordestina. Agora nos últimos anos eu comecei a desenvolver um trabalho muito próximo da moda. E devo isso muito a meu escritório, mas principalmente a uma das minhas melhores amigas e que hoje assina o meu styling, e acho que por ela me conhecer tão profundamente, ela começou a me apresentar a uma moda possível. E isso envolve o todo, desde a forma como eu me apresento para o mundo, como vou me sentir bonita e que eu posso me sentir bonita. Não sei se é um resgate de autoestima. Porque a gente resgata algo que a gente já teve, mas nesse processo que eu já estou há muitos anos de ir construindo e fortalecendo a minha autoestima, e de estar bem comigo, que eu acho que é o mais importante. Então acho que o meu me sentir bonita é quando estou bem comigo. E devo isso muito a Jaira Fontes, uma mulher do sertão de Caicó. Então eu tenho muito orgulho de dizer que esse momento que eu estou vivendo na minha vida agora, é um processo solitário, mas ele é muito compartilhado com as pessoas que estão na minha confiança.