Na Breeza

Medicina de altitude

Como João Normanha, médico prescritor de cannabis e praticante de trekking e escalada, utiliza da medicina endocanabinoide para vencer os desafios nas alturas

Frio, chuva, fome e cansaço extremo são desafios rotineiros na vida de quem se dedica às caminhadas nas alturas, prática adotada pelo médico prescritor de cannabis, João Normanha, há mais ou menos dez anos, quando foi levado por um amigo para explorar pela primeira vez a Serra da Mantiqueira. De lá pra cá, João subiu seis dos picos mais altos do Brasil, incluindo a Serra Fina. “O trekking mais difícil do Brasil, quatro dias carregando todo o equipamento de camping e comida numa mochila de dezoito quilos”, conta.

Para melhor lidar com os desafios desse tipo de aventura, o médico não se faz de rogado, e lança mão do seu vasto conhecimento sobre a terapêutica dos canabinoides para fazer das jornadas algo mais leve. “Eu tenho como um kit de performance, um kit essencial que levo nas viagens de montanha e escalada, que são os canabinoides em conjunto com alguns cogumelos e outros suplementos.” 

Na necessaire do João não pode faltar uma mescla de cogumelos funcionais com cordyceps, juba de leão e reishi; as cápsulas de piperina e curcumina, que são canabimiméticos – plantas que atuam no nosso organismo de forma semelhante à cannabis, agindo sobre o sistema endocanabinoide –, além, é claro, de subprodutos da nossa planta sagrada.

“Nessa última viagem eu utilizei o CBG como antinflamatório, em forma de comprimido, usei o CBN como indutor de sono, e o óleo de CBD, que é broncodilatador, com o THC, para poder regular o sistema canabinoide”, revela João, sobre a estratégia escolhida para encarar os desafios de uma excursão de alta montanha no Peru, para onde viajou no final do ano passado.

MONTANHA É CULTURA

Apesar de superpreparado para os desafios da altitude, João não conseguiu evitar uma gripe daquelas que o agarrou depois de um dia intenso de caminhada debaixo de chuva. Foi preciso recorrer à sabedoria popular dos peruanos e lá foi ele atrás dos locais para entender como eles se tratavam, copiou as estratégias, que incluíam a utilização de subprodutos da coca, extensamente utilizada entre as populações andinas, por suas propriedades reconhecidamente úteis especialmente em regiões de elevada altitude.

“A vida nos dá a oportunidade de aprender, então, a cultura local pode nos ensinar muito, principalmente a respeito da medicina tradicional de todos os povos”, reflete o médico. “A gente precisa ter esse aspecto de esponja pra poder absorver o máximo possível quando se está diante de uma cultura diferente.”

E escaladas e caminhadas também é cultura, “apesar de não ser a cultura de um povo, é um estilo de vida, um modo de ver e lidar com as questões do dia a dia, ela te dá uma resiliência mental, engrossa a nossa casca para os desafios e para a maioria dos obstáculos que a gente enfrenta, que são quase sempre de ordem mental.” Os desafios de alta montanha preparam João para os da cotidianidade, que ele enfrenta com o máximo de atenção e foco aprendidos no caminho e apreciados no alto de cada cume.

“Não tem tem como subir pensando em problemas, não tem como escalar pensando na vida financeira, nos problemas com família, o esporte te exige atenção plena ao presente, principalmente o esporte realizado ao ar livre, que é sempre sujeito ao clima e às adversidades aleatórias”, sintetiza ele, que tem na prática de trekking uma forma de manter acesa aquela chama que a gente leva dentro e que nos ajuda a viver a vida com vontade.

PRÓXIMO DESTINO: ACONCÁGUA

Além de prescritor de cannabis, João é diretor do Instituto de Medicina Orgânica e coordenador geral dos seis cursos de pós-graduação em cannabis da Unyleya, (instituição de ensino à distância que conta com o selo do MEC). Com a agenda cheia de compromissos que exigem da sua multidisciplinaridade diante dos mais variados desafios, ele é categórico sobre o impacto que o montanhismo exerce também sobre na sua vida profissional. 

“Quando a gente pratica um esporte que faz com que a gente esteja diante de adversidades voluntariamente, de maneira espontânea e feliz, você leva isso para o seu dia a dia.” E bota adversidade – e frustração – nisso. Essa foi a segunda vez que o João tentava escalar a montanha no Peru da qual falamos antes. Em 2023, ele tinha tentado a escalada da sua primeira montanha nevada, e acima de 5 mil metros, mas não rolou. “Pegamos menos 15 de temperatura, não deu. Mas assim que voltei, já comecei a focar no treinamento para tentar de novo no ano seguinte.”

A resiliência, nos ensina João, dá resultado. Ter logrado chegar ao cume de uma montanha nevada pela primeira vez expandiu seu horizonte onírico. “Quando começamos a ter um olhar diferenciado para montanhas, não tem como desviar do Everest.” Mas o que dificulta é o fator financeiro. 

Hoje, são quase 50 mil dólares pra chegar, com o mínimo necessário, no cume da montanha mais alta do planeta, que está localizada nas cadeias do Himalaia, entre Nepal e Tibet. “Hoje estou nessa extenuante prática para chegar nas montanhas de 8 mil metros, mas antes disso vem o Aconcágua”, que está acima dos 6 mil metros, o pico mais alto da Cordilheira dos Andes. Vai com tudo, João.

Anita Krepp