Na Breeza

O CEO psicodélico

Depois de 35 anos à frente de multinacionais, Alexandre Fontoura embarcou numa viagem de dissolução do ego com ajuda da ayahuasca e agora promove rituais para que outros executivos vivam essa experiência

Chefe gente boa até existe, mas há boa probabilidade de que o seu seja controlador, indelicado e às vezes até grosseiro. E isso normalmente não tem a ver só com o poder que, inebriante como é, acaba subindo à cabeça de 9 entre 10 pessoas, mas com um combo que inclui também uma pressão inédita na História por resultados e a insegurança de assumir umas responsas grandes. 

“A ayahuasca veio como uma ferramenta de questionamento a respeito do comportamento que eu tinha, foi ela que disse pra eu ter mais humildade, pra baixar um pouco a bola”, conta Alexandre Fontoura, que tem 60 anos, e 35 deles à frente de grandes empresas do agrobusiness. “Os funcionários reclamavam que eu era muito direto e que essa sinceridade acabava machucando as pessoas”, conta ele, que até então só havia observado o lado bom de seu caráter pragmático, tantas vezes reconhecido por seus superiores.

Nessa busca por se tornar um melhor líder, o empresário também logrou maior clareza para tomar decisões acertadas quanto ao rumo dos negócios e, naturalmente, sobre o rumo da sua própria vida. “Antes eu era um cara extremamente voltado ao material, workaholic, capricorniano raiz. Isso obviamente me trouxe dividendos, perdi meu primeiro casamento, tive problemas de relacionamento com a minhas filhas, que me cobram até hoje que não participei da adolescência delas porque trabalhava compulsivamente 17, 18 horas por dia no escritório.”

Vivendo intensamente o mundo corporativo, faltava tempo para cuidar das relações pessoais, do corpo e do espírito, um ritmo disfuncional que aos 54 anos ele sentiu a necessidade de transformar. Começando por reservar um tempo para o estudo da própria espiritualidade, “não necessariamente religioso, mas trabalhar a conexão com algo superior, que é fundamental para evoluir como ser humano”.

O AMOR ABRE CAMINHOS

Foi durante a busca pelo resgate da sua espiritualidade que Fontoura se permitiu experimentar as medicinas da floresta – para além da ayahuasca: com rapé, kambo, cacau, sananga, mel de tabaco –, e a vida, indicando que ele estava no caminho certo, lhe presenteou com um novo amor, a médium Laura Graffe, que já consagrava a ayahuasca com uma tribo indígena de Sergipe, para onde levou Fontoura a viver a sua primeira experiência com a bebida amarga de aspecto terroso utilizada principalmente para expandir a consciência. 

“A 1ª experiencia que tive foi muito mais de combate, de luta, fazendo força para controlar minha mente e não deixando a entidade trabalhar”, lembra ele, que a partir da 2ª vez diz ter tido viagens maravilhosas de descobrimentos e respostas. “Afinal, se estou me propondo a tomar, então que tome direito.”

As cerimônias aconteciam no meio da floresta, com os indígenas todos pintados. “Uma experiência bem diferente pra quem trabalha e vive numa megalópole como São Paulo. Você entra e mergulha na antítese do que você vivia, viajar para a floresta e ficar com os indígenas conversando sobre natureza, lua, sol, rio, árvore, plantas, deus, vento, fogo… A partir daí comecei a ter relação com a rainha da floresta, a ayahuasca”, diz ele, que durante a vivência na aldeia no interior do Sergipe, ouviu do cacique e do pajé do grupo que tinham vontade de divulgar e disseminar, de forma responsável, as medicinas que aprenderam com os seus ancestrais.

As peregrinações do casal que viajava à aldeia para vivenciar processos de cura logo viraram excursões que levavam de trinta a quarenta pessoas por vez, em viagens a cada dois ou três meses. “Nessa época eu estava como presidente de uma multinacional e convidei alguns funcionários e colaboradores para expandir a consciência e viver o derretimento do ego. Alguns deles ainda hoje frequentam, acabaram virando discípulos da ayahuasca, digamos assim.”

Conscientes de que era fundamental desenvolver uma relação de troca com a comunidade indígena, e não apenas usufruir do que lhes fora oferecido, Fontoura e Laura destinaram os recursos angariados com os grupos aos indígenas, que com o dinheiro conseguiram levar infraestrutura para a aldeia. Construíram casas, banheiros e cozinhas coletivos e levaram energia elétrica para que os parentes, pudessem, enfim, conservar seus alimentos.

AYAHUASCA S/A

“Percebi o quão potente essa medicina é e me guiei pelas mensagens que eu recebia da ayahuasca, da potencialidade que existia para as empresas, dando respostas para problemas do mundo corporativo”, conta Fontoura, com um exemplo concreto. “É preciso compreender que estamos numa empresa, mas que não somos a empresa, e que todos somos substituíveis. Você pode estar muito bem, mas por uma questão externa à corporação as coisas podem mudar e você tomar um baque e, se não estiver preparado, sofrer muito com isso.”

Sabendo do envolvimento de Fontoura com as práticas xamânicas – coisa que ele não espalhava aos quatro ventos, mas que tampouco escondia –, vários funcionários e colegas de outras empresas, muitos deles ocupando cargos de diretoria, manifestaram o desejo de consagrar a bebida, mas tinha um porém, viajar até Sergipe exigia uma logística complexa. 

Por isso, no início de 2024 fizeram um convênio com o Instituto Alpha, localizado em Guarujá, no litoral paulista, e desde então realizam sessões quinzenais no espaço. Antes, porém, fizeram questão de treinar um casal de amigos para que dessem continuidade ao trabalho que vinham realizando na aldeia indígena em Sergipe. 

Uma das únicas condições para participar do grupo em Guarujá ou em Sergipe é que todos os convidados passem por uma entrevista para conhecer seus histórico de uso de ansiolíticos ou psicotrópicos. “A gente sabe que algumas combinações de ansiolíticos podem potencializar a ayahuasca e a pessoa pode ter uma convulção, por exemplo.” Se tiver tudo certo, qualquer pessoa, tanto faz se executivo ou não, é bem-vindo nas sessões de exploração psicodélicas, e “perceber que a psicodelia não é nada além do que você se permitir se conhecer um pouco mais e tentar, de forma disruptiva, buscar um pouco mais de criatividade e assertividade nos problemas pessoais ou corporativos”.

Anita Krepp