Na Breeza

Raízes e antenas

Idealizador do Attooxxá e produtor de músicas de Anitta, Céu e Ludmilla, o baiano Rafa Dias curte fumar um para escutar suas produções com outro ouvido

“Os discos mais fodas do É o Tchan, Babado Novo, Olodum, Carlinhos Brown foram gravados aqui, é o puro suco da Bahia, e quando eu tô na frequência certa, tudo isso tá aqui comigo”, acredita Rafa Dias, produtor musical dos mais requisitados do momento, que falou com a Breeza diretamente do WR, lendário estúdio de gravação de Salvador, frequentado por todos os baianos ilustres, incluindo Caetano Veloso e Ivete Sangalo, principalmente entre os anos 80 e 2000. 

A frequência certa para Rafa tem a ver com fumar unzinho, mas sem meter o pé na jaca. O objetivo é sempre um estado intermediário. “Não gosto de fumar muito pra não ficar aéreo demais”, diz ele, que tem um ritualzinho de sempre chegar no estúdio, acender um baseado, dar dois pegas e deixar ali no cinzeiro, esperando o fim do expediente – ou da mixagem, o que vier primeiro. “Tem toda a parte técnica de mix, master, produção, que você tem que editar muito, quando eu termino essa parte, eu fumo pra escutar com outro ouvido, abre muito a percepção.”

O baiano, natural de Paulo Afonso, a quase 500 km de distância de Salvador, estava, aliás, num desses momentos mágicos de conexão, em plena produção de um disco de Rachel Reis, numa tranquilidade tal, que me fez perguntar se esse era seu estado natural ou se ele tinha dado um tapinha. “Eu sou tranquilo na vida… mas fumei, sim”, conta, rindo, ele, que é usuário há duas décadas. “Não recomendo, mas a primeira vez que fumei eu tinha 13 anos, era muito guri, não sabia muito sobre a parada. Hoje eu utilizo muito mais para ativar um pouco mais a minha percepção e também pra insônia.”

Na adolescência em Paulo Afonso, ele lembra, foi criado à base de Manga Rosa, soltinha da melhor qualidade e, pela proximidade com o polígono da maconha, a erva era acessível a um preço inacreditável. “R$ 5 por 50 gramas, o clássico do clássico, que nem chegava a Salvador.”

DE PAULO AFONSO AO GRAMMY

Autodenominado nerd da música, ele cunhou seu próprio espaço na cena baiana há mais de 10 anos, e se você ainda não ligou o nome à pessoa, se ligue: Rafa é o idealizador e hoje também o cantor do fenômeno Attooxxá, que além de cair no gosto de geral e dominar as paradas de sucesso do carnaval há pelo menos sete anos, caiu nas graças também dos gringos e foi nomeado ao Grammy Latino, em 2023, na categoria “melhor interpretação urbana em língua portuguesa”.

“Quando criei o Attooxxá, em 2014, a minha ideia era basicamente transformar música baiana em música de pista, música eletrônica. Em 2017 montei a banda com os meninos e no DNA a gente tentou dar uma alteradinha, sair da pista e dialogar um pouco mais com a música pop a partir do que a gente queria comunicar, e fomos adequando a estética a um ideal nosso do que seria a música pop na Bahia.”

Se no estúdio ele tem hora para fumar e hora para concentrar, no palco a coisa é mais relaxada e o beck é bem-vindo “antes, na hora e depois”, inclusive para desbaratinar aquela ansiedade que às vezes bate no pré-show. Repressão? Nunca sofreu. “É foda, mas a repressão tem uma cor, um bairro, ela é seletiva”, constata. “Você vai na praia e tá todo mundo fumando, no show todo mundo fuma, você tá em qualquer lugar com espaço aberto e tá todo mundo fumando. Às vezes até em lugar fechado.”

Mesmo sendo usuário frequente, Rafa controla a quantidade e acha que até fuma pouco, comparando, por exemplo, com os amigos. “A dose é o que faz a parada aflorar em você no limite exato, quando a coisa fica gostosa. Se você acerta esse lugar sempre, não é tão difícil, todo mundo sabe qual é o seu limite. E até onde vai o meu limitezinho da ganja, tudo é muito bom, eu me concentro bem, consigo trazer toda a minha arte”.

AGORA, CANTOR

Neste momento, o músico está se preparando para enfrentar outra maratona de apresentações, daquelas típicas do Carnaval, com dez shows em seis dias, no circuito soteropolitano da folia. E desta vez será a primeira experiência à frente do Attooxxá como cantor. Até então, em cima do palco ele era apenas o DJ e, desde outubro passado, com a renovação da banda, assumiu os vocais. 

A voz, a propósito, tem sido seu novo objeto de estudo e prática, não apenas na banda, mas também num voo solo que empreende, ainda em estúdio, e logo mais nos tocadores, com o lançamento de seu primeiro disco solo ainda no 1ª semestre de 2025, a ser intitulado “Pimenta” ou “Tempero Forte”. “Um desses dois porque a ideia é que se tá com molho, tá com groove, muito relacionado ao balanço, e vai ser misturando música da Bahia com afrobeat, música jamaicana, angolana, kuduro, do mundo inteiro.”

Se tem uma coisa que ninguém duvida é do molho de Rafa Dias, que vem temperando diversos cardápios da música brasileira, em trabalhos com Ludmilla, Rael da Rima, Karol Conká, Céu, Larissa Luz, Silva; e até Anitta com Cardi B, na música “Me Gusta” – “apenas” a estreia do rapaz, lá em 2020, como produtor convidado.

Tá bom ou quer mais? Olha, já que se perguntou, Rafa não se aguenta de vontade de produzir Carlinhos Brown e de dar uma voltinha pelo rock, começando com a conterrânea Pitty e os oitentosos Paralamas do Sucesso. “Apesar da galera me identificar no som, eu ainda tenho 300 milhões de ideias para dar.”

Anita Krepp