Saindo da estufa

Marçal Aquino: “Estou interessado no THC, senão não tem graça. Não quero gotinhas para dormir”

Marçal Aquino, escritor e autor do livro que detém o título mais sexy dentre os livros, “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, começou a fumar maconha bem jovem, mas, aos 19 anos, parou tão logo percebeu que isso estava interferindo negativamente na sua escrita. 

Aos 40 anos, o também roteirista de produções como “O Cheiro do Ralo” e “O Invasor” retomou o uso repentinamente quando encontrou no cinzeiro de casa uma ponta que um amigo tinha deixado para trás. Por quê não experimentar um pouco depois de tanto tempo? Nesse mesmo dia, Aquino conseguiu destravar um bloqueio de escrita que o preocupava já havia um tempo. A partir daí, virou sua companheira diária até que, recentemente, após uma operação nas cordas vocais, Aquino se viu obrigado pelos médicos a interromper o fumo, de que ele, aliás, sente saudade.

Nesta conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, o escritor analisou a influência da maconha em dois momentos distintos da vida, contou sobre seus processos criativos e suas vivências dentro de uma bolha progressista onde até o policial que trabalhava nas suas produções era maconheiro. “O cara acendia um baseado e passava pra gente.”

Marçal, como foi a sua transição de carreira, do jornalismo para a literatura?

Eu estudei jornalismo, trabalhei com a imprensa, trabalhei no Estado de São Paulo, trabalhei na Gazeta Esportiva, trabalhei no Jornal da Tarde. Em 90, olha, vidas passadas, né?, eu saí do jornalismo diário porque comecei a achar que a coisa estava virando, e acho que até detectei na hora certa o jornal que eu trabalhava, que eu adorava, que era o Jornal da Tarde, ele começou a mudar, a tentar não ser mais aquele, não queria mais ser aquele jornal que era e fui trabalhar de redator avulso. E aí, como eu publicava livros e etc., eu realmente sou escritor, eu queria ser escritor, o jornalismo era uma sobrevivência, para eu não precisar… Porque é aquela coisa, eu sempre tive claro que eu não podia viver de literatura. Para não me angustiar, eu arrumei uma profissão, que é o jornalismo, que eu adorava fazer, fui repórter, foi importante porque eu fui repórter policial, contaminou a minha literatura e tal, mas num certo momento eu entendo que eu sou escritor.

Em que momento foi esse entendimento?

Desde cedo, eu com 15 anos eu queria ser escritor. Quando eu comecei a contar histórias e a ler, sobretudo ler, eu acho que entendi que queria ser escritor, mas eu logo entendi que também não era uma profissão estável.

Mas agora você vive de literatura… e não é de agora.

Eu vivo de roteiro porque eu fui andando. Veja que as coisas foram acontecendo comigo meio sem eu procurar, por exemplo, eu sempre gostei de cinema, mas eu nunca quis trabalhar com cinema, porque eu acho que em matéria de atividade economicamente inviável já bastava literatura, mas o cinema veio atrás de mim, porque um diretor me procurou para adaptar umas histórias, eu cedi as histórias para ele, ele não ficou satisfeito com o resultado do trabalho do roteirista dele, me chamou para escrever os roteiros, eu tinha uma vaga noção de roteiro, porque como sempre gostei de cinema, nunca tinha escrito um roteiro, mas sabia o que era um roteiro, e aí fiz o roteiro com ele, do primeiro filme dele, o Beto Brant, “Os Matadores”, e aí foi uma sequência, nós fizemos acho que dez longas juntos, temos uma parceria, e aí me transformei num roteirista. De novo, não era uma coisa que eu fazia naquele momento, era o momento da retomada do cinema, final da década de 90 e entendi que Ok, eu continuava fazendo freelancer como redator, fazia roteiro, até que quando eu estava com 50 anos, que eu já estava pensando em ir embora da festa e não em chegar na festa, eu fui trabalhar na Globo. Fui contratado como roteirista da Globo para fazer séries policiais, em parceria com o Fernando Bonassi, e o que aconteceu foi que a gente foi inicialmente com o plano de ficar seis meses, e ficamos quinze anos. Você vê que a minha vida é meio acidental, eu não procurei, pelo contrário, eu tinha sido convidado duas outras vezes pela Globo, mas não tinha fechado o negócio, porque eram projetos que não me interessaram, um deles envolvia novela, eu não sei fazer novela, adoraria saber fazer novela.

O que muda em questão de roteiro de uma novela para um filme?

A linguagem é totalmente diferente, principalmente hoje, que quando a gente chega na Globo, a gente, de certa maneira, ajuda a implantar lá a linguagem de séries, que é muito diferente um capítulo de uma série de um capítulo de novela, evidentemente, a começar pelo tamanho, um capítulo de novela pode ter setenta laudas num dia, então se escreve de uma forma diferente, de olho no público, eventualmente o público pode interferir no andamento do personagem, a série a gente chegava com ela pronta, era um projeto novo da Globo, e ele durou até 2022, quando a Globo desistiu de fazer série.

Eu tenho sentido que cada vez mais as novelas da Globo têm imprimido essa atmosfera das séries…

Eu não sou um grande assíduo espectador de novela, eu não poderia falar, mas a minha experiência lá dentro da Globo, conversando com pessoas, conversando com o espectador, eles tinham duas coisas, notar essa mudança de linguagem e também tinha a questão dos equipamentos digitais, que mudaram a velocidade do filme, da série, aquela coisa de 24 quadros não é mais, então o espectador demora um pouco para perceber o que está acontecendo, mas de fato a novela hoje, eu acho que ela é tributária da linguagem de séries, assim como o cinema, que tem uma influência hoje na linguagem das séries, você vê filmes aí. Hoje em dia é muito difícil você encontrar um filme de uma hora e meia, ninguém consegue contar uma história em uma hora e meia, o cara começa a contar uma história com duas, duas horas e meia, por quê? Isso é um pouco herança dessa forma de criar a série, porque a série você tem que criar todo um arcabouço, é isso, então eu tenho a impressão que, sim, as séries, elas hoje, na minha opinião, cumprem o papel que as novelas tiveram no passado recente, a série é a novela do passado, as pessoas assistem séries, consomem séries como se assistissem novelas, com a diferença de que hoje em dia você tem o poder de eventualmente assistir tudo de uma vez só, né?, fazer uma maratona, coisa que na novela você não tinha, então de fato as séries, elas têm uma influência hoje de linguagem muito forte no produto audiovisual como um filme, novela, filmes e por aí vai.

“A série é a novela do passado, as pessoas assistem séries, consomem séries como se assistissem novelas, com a diferença de que hoje em dia você tem o poder de eventualmente assistir tudo de uma vez só”

E Marçal, eu sei que você foi um bom maconheiro, conta pra gente?

Eu, quando muito jovem, fumei dos 14 aos 19 anos, e teve um momento que eu achei que estava atrapalhando, porque eu estava tentando escrever e aquilo me pareceu, e eu simplesmente parei de fumar, não tinha nenhum problema, nenhuma relação com vício, não acredito em nada disso. Sabe, eu como bom usuário poderia falar tranquilamente, essa história de vício, desculpa, isso carece de fundamento. Tá, o cara gostar de fumar é uma coisa, o cara entrar em neuras, fissuras, eu nunca tive esse problema.

Quando você quis parar, você parou?

Eu aos 19 anos parei, fui atrás da vida e tal, e curiosamente eu volto a estar, quer dizer, maconha teve muito próxima, muita gente fumava e eu não fumava, eu estava noutra, e quando eu estava envolvido com o pessoal do cinema, eu estava muito próximo, ali era uma coisa, mesmo assim, eu me lembro precisamente o dia que eu resolvi voltar a fumar, foi em 99, eu já estava com 40 anos. Aconteceu uma coisa curiosa, eu me lembro que estava escrevendo um livro e estava com muita dificuldade para terminar um conto, eu tinha o conto, eu gostava do conto, ele estava parado no meio e eu não sabia para que lado ir, já fazia, acho, que uns meses que eu estava com aquilo. Por coincidência, à tarde eu tinha trabalhado com os meus parceiros de cinema na minha casa e alguém deixou uma ponta num cinzeiro, e eu me lembro ter chegado de viagem à noite, olhei aquilo e falei “ué, por que não?” Eu fumei e aconteceu uma coisa curiosa, eu destravei o conto, acho que aquilo me liberou para encontrar o caminho do conto e consegui conciliar então a escrita com fumar. Eu tenho uma relação boa com álcool, eu bebo muito pouco, bebo uísque, então bebo pouco, hoje em dia eu bebo mínimo, não bebi mais na juventude, frequentava muito bar, tem uma época da minha vida que ia duas, três vezes por semana no bar, encontrava os amigos, e hoje eu estou muito afastado. E eu vim com a cannabis tranquilamente até esse ano, quando eu tive um problema de cordas vocais, uma rouquidão que me levou ao otorrino, descobri uma formação nas cordas vocais e, claro, procuravam um câncer, felizmente não tinha nada, mas eu tive que fazer uma cirurgia e estou me recuperando. Minha voz ainda está em processo de recuperação, e uma coisa terminante que o meu otorrino disse, são duas coisas, porque esse problema na garganta pode estar ligado aos meus 30 anos como tabagista, faz 18 anos que eu parei de fumar, tenho que parar de fumar, e aquela coisa de álcool, que são as duas grandes coisas que são levantadas como passíveis de causar câncer na garganta, na laringe e etc. Então hoje estou proibido de fumar. Tenho muita amizade com os amigos que mexem com o cannabidiol, um deles vai me arrumar as gotinhas para testar e ver. Normalmente não gosto de nenhuma forma de consumo que não seja combustão, porque o que me dá prazer de fato é fumar, mas se eu não posso, eu não posso, eu fico numa boa, não tem problema nenhum, eu vou cuidar da vida. Mas é uma perda, eu preferia, por exemplo, que o médico me dissesse você nunca mais vai botar álcool na boca, mas pode fumar. Para mim ainda é uma questão em processo.

‘Normalmente não gosto de nenhuma forma de consumo que não seja combustão, porque o que me dá prazer de fato é fumar, mas se eu não posso, eu não posso, eu fico numa boa, não tem problema nenhum, eu vou cuidar da vida”

Quanto tempo faz que você não tá fumando e como tá sendo esse tempo sem fumar maconha?

Faz uns dois meses e tá tudo bem, de certa maneira, eu acho mistificação a história de que o cara é viciadão, não sei o que. Pessoas gostam de consumir substâncias chamadas ilegais desde sempre, a relação que cada um estabelece com aquela droga, eu sempre tive para mim, assim, como eu disse, gosto de álcool, gostei mais de álcool já, mas a minha droga era maconha e fumada. Mas mesmo assim, eu viajava, não tinha nenhum problema, ficava temporada sem fumar, não acredito na ideia do cara viciadão, claro que isso é cada um, é a compulsão de cada um. As pessoas se viciam em coisas que a gente ficaria espantado se soubesse a verdade, mas eu não tenho vontade de fumar, se você perguntar se eu gostaria de fumar, claro que sim, como eu disse, eu tenho uma boa relação com a cannabis, mas não podendo fumar, vida que segue, eu vou inventar outra forma de me iludir com o invisível.

E aí, nesses últimos anos, na sua retomada, você usava cannabis para relaxar ou também para aguçar a criatividade?

As duas coisas, eu acho que tinha momentos que fazia no fim da noite para relaxar. Nunca gostei de fumar para dormir, acho que agitava muito o sono, ou às vezes, na hora da criação, a minha experiência diz isso, você solta todos os seus demônios, você fica sem entrave, e esse é o ideal, para o trabalho do dia a dia, principalmente a feitura de roteiro, escrita de roteiro, imagine, você passa seis horas escrevendo roteiro por dia, o trabalho em si da escrita não me agradava fumar, porque me dava, às vezes, preguiça, porque a maconha tem isso, às vezes ela relaxa demais, você fica preguiçoso, fica indolente, começa a procrastinar as coisas, então eu tomava cuidado com isso, porque eu tinha prazos para entrega e tal, agora, na hora daquele processo de você sentar com o roteirista, para ver o que nós vamos fazer, para onde vai isso, é maravilhoso, eu não conheci nenhuma outra droga parecida.

E aí você falou da cannabis medicinal, as gotinhas e tal, tem chamado a sua atenção?

Duas coisas, eu acho que é uma coisa séria, que hoje está sendo pesquisado, mas as pessoas tem medo, né? Ficam meio assombradas com isso, já há estudos sérios que acompanho e acho que pode trazer benefícios. No meu caso, estou interessado também no lado do THC, não tem dúvida, não quero gotinha para dormir, não preciso de gotinha para dormir, eu durmo sem gotinha, mas a verdade é a seguinte, eu acredito muito no potencial medicinal e na desmistificação dessa coisa, eu sei que é difícil, porque aqui nós estamos em um país muito conservador e as pessoas, você vê gente teorizando sobre o assunto, gente completamente ignorante, felizmente você tem figuras hoje que estão aí interessadas de fato. Você conversa com médicos, gente que tenta trazer o assunto para um lado sério, sem medo do preconceito, e eu creio que nós vamos avançar, agora é uma luta difícil, porque a maioria das pessoas fala sem conhecimento de causa. A pessoa acha que maconha é como se fosse um tabu e eu espero que, brevemente, porque os benefícios são comprovados, crianças com dependência aí, com handicap, estão sendo tratadas, eu tenho amigos que têm filhos que reagiram muito bem ao tratamento, então eu estou muito interessado nisso nesse momento. Mas eu te digo, meu interesse eu não posso esconder, é que contenha THC, senão não tem graça.

Você vive numa faceta bastante progressiva da sociedade, como a maconha é vista aí dentro dessa bolha?

Pessoas fumam e eu vejo, e é aquela coisa, quando você não fuma maconha, você não entende muito bem o processo, e eu vejo, as pessoas fumam abertamente aqui. É meio hipócrita a ideia de criminalizar o uso da maconha, porque as pessoas fumam, eu conheço autoridades que fumam, eu trabalhei com autoridades que fumavam. Me lembro de agentes policiais, que nos ajudavam na época das séries policiais, o cara acendia um baseado e passava para a gente, então eu acho que tem muita mistificação, e nada. Qualquer tipo de processo que está cercado por lendas, por mistificação, por ignorância, quando você devassa isso de verdade, com fundamento, a tendência é você ganhar alguma coisa.

“É meio hipócrita a ideia de criminalizar o uso da maconha, porque as pessoas fumam, eu conheço autoridades que fumam, eu trabalhei com autoridades que fumavam. Me lembro de agentes policiais”

E aí você que tem toda essa experiência com séries policiais e tal, a temática dessa coisa policial sempre está ali envolvida com droga, né? Como é que é para você escrever a respeito disso e abordar a questão sem repetir os preconceitos que a gente, como sociedade, já tem?

Veja, uma coisa curiosa, a gente, eu e o Bonassi, viemos do cinema, onde você tem uma liberdade temática muito maior, diferente. O nosso seriado era visto por 28 milhões de pessoas, estávamos conversando com pessoas de um espectro muito grande, ideológico, político, moral, então a gente tratava a questão num plano muito tranquilo. Não era uma coisa presente para nós falar de droga. A droga estava presente como crime, tráfico, sobretudo cocaína e tal. A gente nunca teve medo de fazer apologia de nada, porque eu sempre disse, eu acho que tem coisas que estão no plano pessoal de cada um, na vida pessoal de cada um, como você conduz a sua vida não interessa para ninguém, não está atrapalhando ninguém, você não está, sei lá, invadindo a privacidade de pessoas. Então eu gosto muito dessa coisa do particular, de que você, no seu plano pessoal, faz aquilo que acha melhor para você. Somos adultos, não somos crianças, então eu nunca tive esse tipo de problema na hora de escrever. A gente estava mais preocupado em contar boas histórias, quando cabia, elas tinham relação com droga, mas eu acho que o espectro do crime é muito amplo.

Então se você pensar que a gente ficou lá quinze anos fazendo série policial, a gente tratou de tudo quanto é tema. A gente tem uma coisa que está mais atual do que nunca, que é que num certo momento a gente criou uma série só voltada para criminosos que fugiam da Europa e vinham se esconder no Brasil. Mafiosos italianos, chineses, o pessoal do leste europeu. Porque o Rio de Janeiro, de fato, vira e mexe a polícia prende alguém que está escondido no Rio. Mas a trama é o que me move. 

Hoje a gente fala muito em storytelling, que é justamente essa coisa de construir a trama. O que para as pessoas que vão ouvir a gente, vão ler essa entrevista e estão querendo melhorar a sua capacidade de escrever boas histórias, o que você sugere para essa gente fazer ou praticar?

Tudo o que eu aprendi, eu aprendi nos livros. Eu não acredito em gente que escreve e que não lê. Eu sempre digo, quem não lê, não escreve. Não existe autogênese. Eu já escutei escritor dizer “não leio ninguém para não influenciar”. Mas é conversa mole. É óbvio que leu. Qualquer escritor, quando ele começa a pensar em escrever, ele vai tentar descobrir a voz dele. E a voz dele é formada pelas vozes dos escritores que ele gostou. Tem um momento que ele encontra algo, ou não encontra. Encontra algo original, algo que só ele pode dizer. Alguém que vai escrever tem que estar aberto a tudo. Tem que ver cinema, tem que ver filme ruim, até para saber o que não fazer. Eu não acredito em alguém que vai escrever, mesmo o roteiro, e não leia e para além da questão da linguagem, que é o que a gente busca quando lê. O escritor, quando lê, está mais interessado na linguagem do outro do que propriamente nas tramas. Mas para você chegar nas tramas, você precisa de linguagem, e linguagem se aprende lendo. Então o conselho que eu dou para qualquer pessoa que queira escrever, queira começar ou já esteja: tem que ler. Tem que ler de tudo, tem que ler sem preconceito. Imaginem, eu sou prosador, mas eu leio muita poesia. Eu gosto muito de poesia. Eu acho que é uma coisa, assim, pela síntese que a poesia impõe, agora eu não tenho interesse nem capacidade para escrever poesia, sou apenas um leitor. 

“O conselho que eu dou para qualquer pessoa que queira escrever, queira começar ou já esteja: tem que ler. Tem que ler de tudo, tem que ler sem preconceito”

Já tentou? 

Já cometi essa bobagem. O primeiro livro que eu publiquei era um livro de poemas. Então eu vi que não era. Por quê? Quando eu parei para realmente ler aquilo, você acha que você está fazendo um poema, mas eu ia ler aquilo e eu dizia “não, mas tem personagem, tem trama”. Isso aqui é prosa, então entendi que era prosador. E nesse momento foi um ponto de inflexão muito importante, porque não há na história da literatura mundial nenhum caso de um escritor que tenha conseguido os mesmos resultados na prosa e na poesia. Ou ele é prosador ou ele é poeta. O Shakespeare é uma exceção, e talvez ele nem tenha existido. Mas eu pego, por exemplo, Drummond. O Drummond foi, para mim, o maior poeta brasileiro. O Drummond tem prosa, tem crônicas, tem contos. Mas perto da poesia dele, vale o mesmo para o Guimarães Rosa, que publicou um livrinho de poemas. Vale para o Borges. O Borges tem uns poemas, até acho bonito. Tem poemas para a mulher dele, para a Elza, que são lindos. Agora, o Borges, no juízo final, ele vai estar na fila dos prosadores. Eu não tenho dúvida disso. Acho que a literatura, ela tem um esforço, ela exige uma dedicação, que só dá para você ir em um caminho. Não dá para ficar apoiando o pé em duas canoas. Então, todo o meu esforço, a partir do momento que eu entendi que eu era prosador, foi na direção da prosa. O que não me impediu, evidentemente, de continuar lendo poemas, com muito prazer, muito gosto, um deleite. Agora, o meu negócio é escrever prosa, é contar histórias.

A literatura tem um pouco essa coisa de você captar o extraordinário, de você captar alguma coisa que as outras pessoas não estão captando e que, para mim, tem muito a ver também com as substâncias. Você também vê assim?

Escrevendo, aqui no meu escritório, estou muito isolado do mundo. A minha filha morou comigo quinze anos e a minha filha falava “você está noutro planeta”. E era um pouco isso aí, você entrar num outro lugar. Como é que você chega nesse lugar? É de cada um, às vezes, você está andando na rua, passeando com seu cachorro e ocorre algo para você. Estou contando nesse momento a história desse título aqui (pega o livro e mostra), “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”. E eu resolvi contar a história do título, porque eu vou publicar uma edição de vinte anos desse livro e eu vou fazer um texto adicional contando como surgiu o título. Eu estava saindo de um bar e me ocorreu isso. Da mesma maneira, eu acordei um dia, um domingo, e pensei, vou escrever um livro chamado “O Invasor”. Agora, o que é o invasor? Eu fui descobrir. A forma de acesso a esses lugares, a ver uma frase na rua, alguém diz uma frase, às vezes uma música, às vezes um filme, às vezes uma experiência pessoal. Eu acho que a melhor definição para isso que nós estamos falando aqui, quem deu foi o William Faulkner. Ele dizia que literatura é imaginação, observação e experiência. Esse trinômio explica tudo, na minha opinião. Porque, de fato, é isso. Tem escritores que preferem viver a experiência pessoal, não conseguem escrever se não forem lá e viverem a coisa. Tem escritor que nunca saiu de dentro de casa e escreve sobre mundos distantes. Essa maravilha que é a capacidade da criação, ela não tem muita explicação. Eu sempre digo que o meu medo é entender por que eu escrevo o que eu escrevo. O meu medo é que, eu entendendo, eu pare de escrever. Então, não saber o que você está fazendo é muito bem-vindo quando se trata da criação.

Esse livro é a sua Ana Júlia, né?

(risos) Espero que os Los Hermanos não te escutem. Meu livro vende muito até hoje. Curiosamente, é um livro que faz muito sucesso com mulheres. Tem mais leitoras mulheres do que homens. Não que os homens não gostem, não é isso. Quando você termina um livro, você sabe tudo sobre aquele livro, mas não sabe sobre o próximo. Eu terminei esse livro e não sabia direito o que ia acontecer, mas lembro que todo mundo não gostava do título. É uma coisa curiosa, porque depois todo mundo diz que o título é bom. Todo mundo se apaixona pelo título e tal. A revista Playboy, no ano de lançamento, elegeu como o título mais sexy do ano. Nós sentamos com um produtor de cinema que, supostamente, ia aportar dinheiro no filme, e a primeira coisa que ele falou foi o seguinte… Vocês vão mexer no nome? Se alterar o título, eu saio da reunião agora. Então, são coisas misteriosas. Para mim, era uma história que eu queria contar e já tinha o título dois anos antes. O título tinha me ocorrido e eu anotei no meu caderno. Deixei lá. Falei “uma hora eu vou fazer alguma coisa com isso”. Quando eu comecei a escrever a história de um fotógrafo que vai para o Pará e encontra uma mulher que tira um pouco a estabilidade, aliás, tira muito a estabilidade dele e a crença dele. Eu lembrei do título e achei perfeito. Agora, é um livro que foi se construindo muito no gosto do leitor, nunca foi um best-seller. Ele vendeu, até hoje, 60 mil exemplares. Não é necessariamente o meu livro mais vendido. Eu tenho livro juvenil que vendeu mais de um milhão de exemplares. Mas o meu livro adulto de maior sucesso é o meu livro mais conhecido. Eu vejo que as gerações vão lendo. O livro já tem 20 anos. Tem gente que não tinha nascido e tem gente que está lendo agora e gostando, e isso é maravilhoso. Você poder conversar com gerações diferentes, contando, acima de tudo, na minha opinião, uma história de amor. E isso, para mim, basta. Eu não procuro entender muito bem, não. Evidentemente, para mim, é um livro que eu já fiz. Eu hoje tenho interesse em outras coisas. Alguém me perguntou se eu não tinha interesse em fazer uma continuação, uma segunda temporada. Não, não. Para isso, bastam as séries.

E qual é a sua relação com os psicodélicos?

Eu me lembro de ter muito pouco uso de droga. De cara, por exemplo, quando eu era moleque, eu não tive uma boa relação com cocaína, por exemplo. Nunca gostei de cocaína. E a cocaína, em um certo momento, ela está muito presente no meio que eu frequento. Sobretudo no começo dos anos 80. Era uma droga da moda. Eu não tinha nenhum interesse naquilo. Eu via o que acontecia, não me interessei. Uma vez tomei um LSD. Uma vez, numa festa. Agora, não é uma coisa para mim. Como eu disse a você, a minha droga é a cannabis. Eu tive isso muito claro. Agora, eu acho que as pessoas, eu digo, a forma de acesso àquilo que os outros mundos, é de cada um. Cada um encontra a sua ferramenta de entrada, digamos assim. Cada um tem a sua chave. Eu tenho a minha, claramente. No momento, eu não estou podendo abrir a porta, mas eu tenho a chave. 

E quando você começou a fumar, como foi isso em Amparo, interior de SP?

Nós tínhamos pouco conhecimento do negócio. Sabia que existia, estava ali. Eventualmente, vi alguém fumando. Mas é uma cidade pequena, onde é muito mais vigiado. E a turma com quem eu andava, num certo momento, todo mundo aderiu.

Eu me lembro dos meus irmãos, por exemplo. Eu acho que, com exceção do meu irmão mais velho, todos os meus irmãos estavam usando. Então, era uma coisa curiosa, uma curiosidade natural. E a minha turma, a turma com quem eu andava, continuou fumando. Então, nós continuamos fumando. Eu estava começando a escrever. Estava começando a escrever as minhas primeiras coisas. Estava muito interessado na escrita. Num certo momento, achei que a cannabis podia ajudar, mas não era. Num certo momento, ela também atrapalhou, porque eu não tinha disciplina para escrever. Eu pensava “vou continuar aquela história”. Aí, fumava, ficava ouvindo música. Ficava vagabundeando. Então, eu entendi que estava atrapalhando. E eu dei um corte. Foi tranquilo, foi uma relação boa. Mas lá era complicado. Porque, numa cidade pequena, qualquer comportamento fora da manada, você é vigiado. E aí, eu não sabia, mas eu tinha uma fama terrível. Eu não sabia, eu estava desatento, até o dia que eu fui namorar uma garota, e ela estava preocupada porque a mãe dela disse, “você sabe que ele é maconheiro?”. E eu, “eu?” Eu nem sabia que isso estava na esfera pública. Risos. Mas lá era porque a cidade era pequena, e aquilo sempre me incomodou. Porque se tem uma coisa que eu prezo, é a vida pessoal de cada um. Cada um faz o que quer. 

Você consegue comparar a primeira fase, ainda adolescente, pra segunda, com você já adulto? Teve muita diferença?

Lá no começo, a maconha me controlava, porque eu deixava de fazer coisas. A partir de um certo momento, eu tive o controle da maconha. Eu usava ela como eu queria, na hora que eu queria. Nós vamos fazer um brainstorm para criar não sei o quê. Acho que tem a maneira como você usa e qual é o controle. Na minha opinião, na primeira fase, eu não tinha o controle. De certa maneira, ela me controlava. Mas a partir da volta, era comigo. Eu dizia, posso ou não posso? Tanto que aquele negócio que eu falo, vou ficar sem fumar uma temporada, porque vou viajar, não quero me preocupar com isso. Não fazia falta. Eu não sou aquele cara fissurado. Eu, na verdade, não gosto de nada que tenha a tendência de me dominar.

Quais são as características que você considera que um bom escritor tem que ter e, se não tiver, tem que trabalhar para ter.

A primeira delas é essa coisa da leitura, tem que ler. Ler mesmo. Ler para valer. Reler. Entender o que escritores fazem. A segunda coisa, andar pelas ruas. Ouvir as pessoas. Estar atento às falas. No mínimo, você vai melhorar seus diálogos. Sabe? Você tem que estar atento ao outro. Afinal, você escreve para o outro. Num primeiro momento, você pode escrever para você. Mas, se você publica, você dá destino aos outros. Então, você tem que saber quem é esse outro. Ter interesse pelo seu semelhante. É assim que nascem as grandes histórias. Existe um mundo muito grande dentro de cada escritor. Mas o mundo fora é maior, e você tem que estar aberto a isso. Tem que conhecer gente, tem que viajar, tem que andar. Hoje, eu acredito nisso. Tem que ter curiosidade pelas coisas da vida. Se você vai escrever sobre elas, você tem que ter curiosidade por elas. No fundo, no fundo, a gente não inventa nada, né? Então, tem essa magia de você ir a lugares que você não pertence. Tem que escrever sobre mundos aos quais você não pertence. Acho que são boas características para alguém que queira escrever.