
“Vou explorar todas as políticas progressistas e inovadoras em relação ao uso da cannabis, da psilocibina e até da ayahuasca”, abre os planos Rose Gracie, que pode se tornar a primeira mulher à frente da Confederação Brasileira de MMA, a partir de fevereiro. Pelo sobrenome, você deve ter notado que ela não está para brincadeira, Rose faz parte do clã mais famoso das lutas de combate. Filha de Rorion Gracie (criador do UFC), neta de Hélio Gracie (responsável pela difusão do Jiu Jitsu no Brasil) e bisneta de Carlos Gracie (um dos idealizadores do Jiu Jitsu) – sim, sua mãe e seu pai são primos –, Rose não foge à luta. “Eu tenho meio que um sangue vampiro Gracie”, brinca.
Depois de viver trinta anos nos EUA, decidiu viver o novo sonho americano, “que é sair dos EUA”, diz, dando uma gargalhada. De volta ao Brasil, encontrou um cenário de abandono, com arbitragens erradas, lutadores mal pagos e abusos dos mais variados. Com a popularização da luta, os profissionais de maior destaque acabam saindo do Brasil, o que contribuiu para que o esporte no país tenha sido largado às traças. Mas isso está para mudar. “Eu falei ‘pô, se alguém pode fazer alguma coisa sobre isso, sou eu, que tenho facilidade de poder ajudar esses caras de uma maneira que muitas outras pessoas não têm’.”
Desde pequena Rose vive o ambiente da luta, de modo que foi um caminho natural até que ela se tornasse uma empreendedora de sucesso no meio: gerenciou escolas do gênero, lançou a sua própria rede de academias, abriu uma fundação de apoio aos atletas e até mudou regras de luta, quando criou o movimento submission only, que teve seu impacto no jiu-jitsu competitivo. “Minha experiência e meu compromisso em criar uma organização de nível mundial para fazer com que o Brasil sirva de exemplo para o mundo todo me levaram a aceitar esse desafio.”
CONEXÃO CEREBRAL
O mandato da presidência da Confederação é válido por três anos com possibilidade de renovação por mais três, mas para essa mulher visionária e determinada, a hora da mudança é já. “Meu objetivo é educar a nossa comunidade da luta sobre os benefícios desses tratamentos [com cannabis e psicodélicos] até para que possam lidar com questões que eles enfrentam no dia a dia, como a encefalopatia traumática crônica, as dores e também a recuperação do pós luta.”
Rose nunca considerou maconha uma droga, mas também não tinha uma relação próxima com a planta ou outras substâncias psicoativas. Conhecia, sim, a faceta wellness da cannabis, através de produtos de CBD, categorizados como suplemento nos EUA – comercializados no mercado, na farmácia e em postos de gasolina. Mas se aprofundou no tema quando observou de perto os efeitos positivos que a cannabis e alguns psicodélicos produzem na recuperação do cérebro de lutadores que sofrem com concussão.
“Me tornei uma pessoa muito conectada ao cérebro dos atletas, essa virou a minha luta, então descobri que a melhor coisa para recuperar o cérebro é a planta da cannabis”, conta ela, que trabalha ativamente para que tanto os atletas quanto as suas famílias tenham acesso aos melhores tratamentos. “Eu tenho uma responsabilidade social perante a minha comunidade, de promover o bem estar dos atletas e explorar todas as opções disponíveis pra melhorar a vida deles dentro e fora do octógono ou do tatame”, defende.
Ouvindo relatos de gente próxima que vinha experimentando a maconha e estudando mais a fundo o assunto, a empresária percebeu que se tratava de uma alternativa poderosa e com praticamente nenhum efeito colateral, muito menos se comparada a medicamentos alopáticos. “E também ao álcool, que infelizmente muitos dos atletas usam como opção, por ser uma coisa barata e de fácil acesso.”
MMA NA VANGUARDA
A empresária acredita que somente a educação será capaz de reduzir o estigma sobre a planta e por isso pretende implementar um programa de informação e conscientização a respeito dos benefícios das substâncias e das próprias regras antidoping do esporte, afinal, muito atletas ainda não sabem, por exemplo, que o CBD pode ser usado até 24 horas antes da luta.
Em seguida, Rose planeja estabelecer parcerias e se associar ao maior número de pesquisas clínicas possivel, organizar seminários com especialistas e “eventualmente incorporar tratamento a base de cannabis e psilocibina como um protocolo na recuperação dos atletas”. Achou muito ousado? Alguém sempre tem que abrir os caminhos.
Ao passo que outros esportes seguem tratando a maconha como tabu, as lutas e o basquete, principalmente, têm mostrado o que é ter capacidade de se adaptar aos novos tempos, ainda mais para priorizar a saúde dos atletas. “Eu quero fazer com que a nossa comunidade da luta seja um ponto norte para outros esportes nos seguirem como um exemplo do que tem que ser feito, estudado e usado, porque é imperativo que essa ignorância não exista dentro da comunidade.”
E o machismo, hein? Ainda não tinha aparecido na conversa. Não porque não exista, claro. Esse óbvio ululante taí no dia a dia, desde pequenininha. Mas porque Rose é tão realizadora que fica sem tempo pra bobagem. “Apesar de ter o machismo acontecendo constantemente, eu sou uma pessoa bem segura, sei do meu lugar e falo na lata. Não vem com esse machismo pra cima de mim, não, que não me afeta.”
Anita Krepp