Na Breeza

Qual bloqueio criativo resiste aos psicodélicos?

A inspiração que o grafiteiro Alex Kaleb foi buscar (e encontrou) na ayahuasca, na psilocibina e na maconha
09|01|25

É fato, todo artista, uma hora ou outra, vai viver aquele momento em que nenhuma ideia suficientemente convincente aparece, em que nada de interessante surge e bate o receio de que a criatividade talvez esteja bloqueada para sempre. Esse momento chegou para o grafiteiro Alex Kaleb em 2016, quando já vinha de uma carreira de oito anos. “Eu sentia que precisava de algum tipo de expansão, mas nao sabia do quê, era como se tivesse um muro na minha frente”, lembra o artista que nasceu em SP.

Nos anos anteriores, Kaleb vinha satisfeito com o desenvolvimento da sua arte e produzia muito, porque fumava muita maconha. “Tem gente que fuma e fica de boa, vai ver filme, fica tranquilo, mas eu, não, eu dava um pega e saía igual um canhão em direção ao ateliê, a um caderno, a uma tela, eu precisava produzir, precisava entrar naquele lugar que a maconha me levava, de expansão, de estímulo e liberação de energia.” 

Em meio ao marasmo criativo, Kaleb foi resgatado pelo amigo e companheiro de grafitti, Enivo, que chegou com um convite instigante para tomar um certo chá, convite esse que foi recebido como um chamado. Tinha chegado a hora. Dizem que o chá é para todos, mas nem todos são para o chá, por isso sentir que chegou a hora de experimentar a ayahuasca é sentir uma inquietação certeira, medo que vira bússola.

ENCONTRO COM CASTANEDA

Kaleb aterrissou na Comuníndios, uma comunidade que pratica os seus rituais com ayahuasca durante o dia, uma experiência que o marcou profundamente. “A maioria dos trabalhos de ayahuasca que fiz foi de dia num sitio no meio da natureza, ao ar livre, e isso foi uma coisa fantástica”, agradece aos céus esse artista, que não só adicionou camadas de complexidade às suas obras, com fractais e degrade, como também se abriu para a possibilidade de enxergar o universo sob novos prismas, em especial pelo da natureza.

“A minha relação com a natureza ali já começou a mudar imediatamente, comecei a entender a grandiosidade, a potência, o misterioso, o indizível, as cores, camadas, e aí eu comecei a pesquisar mais a medicina sagrada, comecei a fazer rapé, ayahuasca e seguia fumando maconha”, conta, observando que a conexão com o chá foi sentida como uma reconexão com algum elo perdido que desde jovem sentia ter com o xamanismo. “Na adolescência, enquanto meu irmão colocava pôster do Rambo na parede, eu colocava de uns xamãs indígenas.”

Na sua busca por conhecimento sobre a medicina das plantas, o grafiteiro chegou à obra de Carlos Castaneda – um clássico da literatura mística desde a década de 1960 – que despertou fortes emoções, tantas e tão profundas, que só em 2024, seis anos depois do encontrar o autor, foram digeridas e transformadas em arte, na exposição “Uma Estranha Realidade” (que deve voltar em cartaz em 2025).

Homônima de um livro de Carlos Castaneda, as obras que compõem a exposição trazem cenários psicodélicos e distópicos, onde figuras humanoides, xamãs enigmáticos e seres fragmentados sem rostos atravessam desertos emocionais, apontam uma perspectiva melancólica do futuro, mas deixam entrever o brilho de esperança de um pós-apocalíptico utópico.

COGUMELO: QUERIDO POR 10 ENTRE 10

Em meados de 2020, alta da pandemia, a psicodelia tava num volume muito alto, atrapalhando as outras estações da rádio-mente de Kaleb. Ele decidiu que era o momento de parar de consagrar a ayahuasca e também de abandonar o universo de Castaneda. “Eu precisava resolver coisas muito terrenas, mundanas, práticas, mesmo, e ficava meio desconectado e percebi que precisava dar um tempo pra voltar um pouco pra Terra”, reconhece. “Foram ensinamentos importantíssimos, mas queria dar um tempo porque é muita informação. A ayahuasca é muito forte, eu fui pra portais que falei ‘cara, não tenho tanto conhecimento pra lidar com isso’.”

Uns meses de detox e aquela vontadezinha de voltar para a psicodelia foi batendo, mas dessa vez Kaleb queria algo mais leve. “Vi que muitas pessoas estavam fazendo microdose e comecei a pesquisar a psilocibina”, diz ele, que comprou cogumelos “mágicos” pela internet e começou a fazer testes com 1 grama por sessão. “Me senti pronto pra voltar pra esse universo, para obter mais informação e passar por novos portais. Comecei a gostar porque achei que fazer mais leve foi muito bom, porque eu queria sentir aquela potência, mas de maneira sutil.”

Quem olha para o trabalho de Kaleb não tem dúvidas da enorme influência que os psicodélicos exerceram sobre ele, e o próprio artista concorda. “A minha arte mudou totalmente depois disso. A coisa se tornou bem mais complexa, aquela mesma vida se tornou rica, viva, bonita, interessante de novo.” Mas o que ninguém sabia é que as substâncias psicodélicas tiveram papel central na construção da autoestima do grafiteiro, que conseguiu através dessa conexão mística com as plantas, encarar as suas diferenças como fortalezas. “As ervas me ajudaram a entender e assumir o meu traço.”

Anita Krepp