
Mario Sergio Cortella reflete sobre os caminhos que a humanidade busca pelo equilíbrio entre prazer, dependência e espiritualidade, para fugir do óbvio cotidiano e lidar com a finitude da vida. Em uma conversa sincera e leve com Anita Krepp, diretora de redação da Breeza, o filósofo expõe sua relação com o álcool – consumido sempre com controle e apenas em momentos de felicidade – e explica por que jamais experimentaria maconha: “Se eu usar, vou ter que tragar; e se eu tragar, volto a fumar”.
Ex-fumante de tabaco, hábito que adotou por trinta anos, compartilha a importância de ser “dono de si mesmo” para que o prazer não se transforme em dependência. Cortella também mergulha na conexão histórica entre espiritualidade e o uso de substâncias, presentes em diversas religiões ao longo dos séculos.
Seja no incenso queimado em cultos ou no uso de ervas em rituais de matriz africana, ele observa como essas práticas representam um desejo humano de “descolar da mera corporeidade” e alcançar um estado de elevação. Para o filósofo e educador, a espiritualidade, assim como o lúdico e o prazer, são formas legítimas de buscar alívio para a pena que a existência carrega.
Cortella defende o papel da informação e da educação consciente sobre o uso de drogas, comparando-as com uma faca, da qual a gente não pode afastar os jovens, e por isso mesmo devemos ensiná-los a lidar (como a Breeza faz em ações como o nosso Guia da Boa Breeza). Lembrando sempre que “liberdade não é licença”, Cortella faz questão de reforçar que o equilíbrio vem do conhecimento e da autonomia.
O seu último livro, “Deus nos Livre”, sobre desassossegos ligados à religião, religiosidade e espiritualidade, parte do princípio que cada indivíduo na sua jornada busca compreender a gratuidade da sua própria existência, mesclando virtudes e vícios, desejos e necessidades, em busca da paz de espírito. E aí eu te pergunto, Cortella, a busca espiritual, ela tem raiz parecida com a busca pelas drogas?
Há várias maneiras que a humanidade busca, há séculos e séculos, uma forma de encontrar algum tipo de sossego que permita que ela não tenha um desligamento da realidade, mas uma presença na realidade mais confortável. Há várias coisas que nos trazem conforto. Algumas dessas coisas estão ligadas ao campo do uso de substâncias variadas, a utilização, por exemplo, de plantas dentro do mundo da religião e da religiosidade é histórica, haja visto o quanto que, se a gente olha no Brasil, especialmente, algumas formas religiosas de matriz africana, o banho de folhas, é decisivo. Por outro lado, no mundo judaico-cristão tem a utilização do incenso, a elevação da fumaça. Quando você pega, por exemplo, o livro do Gênesis, na escritura judaica, em que se fala da história de Caim e Abel, uma das coisas que leva à ruptura entre os irmãos e, portanto, ao assassinato de Abel por parte de Caim, é que Caim entende da elevação da fumaça, que ambos queimavam dos produtos que faziam para que chegassem até Deus. E a de Abel estava mais elevada, produzindo, ali, um descompasso.
A utilização de substâncias, a utilização de alimentos, a utilização de forças da natureza, antes que a humanidade tivesse capacidade de processamento sintético, sempre foi recorrente. Não há nas religiões nenhum movimento no qual a ingestão de algum produto da natureza não faça parte. Em algumas delas, isso recebeu um conceito positivo, isto é, como forma de elevação; em outras, foi entendido como privativo de parte das pessoas naquela religião, produtos que eram exclusivos daqueles que atuavam como sacerdotisas ou sacerdotes nessas religiões. A ideia de fazer com que algo em mim me produza uma alteração, de modo que eu saia do meu estado usual para um que seja compreendido como mais elevado e, eventualmente, como dizia, mais confortável, marca a história humana de vários modos. Evidentemente, isso não terá um único caminho, uma única rota, mas é presente, sim, de modo expressivo em todas as culturas.
“A ideia de fazer com que algo em mim me produza uma alteração, de modo que eu saia do meu estado usual para um que seja compreendido como mais elevado e, eventualmente, como dizia, mais confortável, marca a história humana de vários modos (…) é presente, sim, de modo expressivo em todas as culturas”
Eu sei que as drogas não são muito a sua praia, então é na espiritualidade que o senhor busca a paz de espírito?
Eu não tenho nenhuma familiaridade com o tema das drogas. Acho que, inclusive, de maneira geral, eu nem sempre opino sobre isso, é preciso que a gente tenha cautela para não ter uma visão superficial, epidérmica, de algo que é muito sério e que pode auxiliar muitas pessoas ou prejudicar muitas pessoas a depender do caminho que se pode tomar num acordo coletivo. No entanto, claro, a espiritualidade tem, sim, essa marca de se buscar algo que saia fora, o êxtase, no sentido técnico e histórico do termo, não a denominação de um dos produtos resistentes, o êxtase, aquele que faz com que você ou eu, a partir da presença no lugar, da ingestão de uma substância, da inalação de algo que é próximo a mim na natureza ou até, mais ressentimento daquilo que é a possibilidade sintética, com a química, que isso faça com que haja, sim, uma forma de eu descolar-me da mera materialidade. Afinal de contas, se a gente entende a ideia de espírito no sentido original, aquilo que faz com que a vida em mim esteja, os gregos usavam um termo, que mais tarde os latinos vão chamar de alma, de ânima, em latim. No grego antigo é pneuma, pneuma da onde vem pneumonia, pneu, ar, a ideia de ar mesmo. É claro que a ideia de algo que, fazendo com que eu descole da minha mera materialidade, do meu estado presente de consciência, produz em mim uma sensação de levitação ou de elevação ou de um entorpecimento, que é positivo, evidentemente, e isso faz com que a religiosidade e algumas religiões tenham nisso o seu movimento.
Se você observar, uma parcela dos cultos de algumas religiões tem sim um esfumaçamento do ambiente que faz com que se tenha ali não só aromas diversificados vindos do incenso em geral, ou no caso de cultos cristãos variados, o turíbulo, que é balançado o tempo todo em volta do altar, a possibilidade de ingestão de algumas substâncias que levem a fazer com que eu entenda, e aqui é que é a chave, que eu não sou mera corporidade químico-biológica, isto é, que existe em mim algo que se descola. Por isso, a perda eventual da consciência pode ser procurada como uma forma também de recusa à mera corporeidade, portanto, um não à somatização excessiva, que a nós é imposta pela natureza, como pode também ser uma escolha de mera diversão. Você se lembra o quanto que na nossa adolescência, coisa que no meu caso é bastante distante (ele tem 70 anos de idade), a ideia de sair num final de semana e perder a consciência, a palavra era um pouco mais expressiva, ela era perder a cabeça, sair de si, era algo que parecia divertido. Porque sair do usual, sair do óbvio cotidiano, afastar-se um pouco daquilo que é o que se entende como um aprisionamento que a nossa corporeidade produz, pode ser prazeroso. Por outro lado, tem uma contradição nisso. Aquilo que, como substância, por mim, pode ser ingerida, inalada, injetada, de qualquer natureza, que faz com que eu escolha um pouco do meu corpo, só é possível porque corpo tenho, não haveria nenhuma possibilidade de eu ter acesso a essa condição, se aquilo que eu quero afastar um pouco não tivesse uma presença contínua. Nesse sentido, esse movimento, que a gente chama em filosofia de dualismo corpo-espírito, matéria-alma, vários são os nomes, é muito presente.
“Sair do usual, sair do óbvio cotidiano, afastar-se um pouco daquilo que é o que se entende como um aprisionamento que a nossa corporeidade produz, pode ser prazeroso”
Em última instância, a grande questão é “eu não sou só corporeidade?”. Não quero ser só corporeidade, porque essa corporeidade é finita, material sendo, ela apodrece, mas eu preciso dessa corporeidade para minha presença no mundo e, por isso, é necessário que eu tenha alguns mecanismos, algumas plataformas de acesso a outras realidades, e isso é feito dentro de uma forma de religiosidade, ou dentro daquilo que é o espírito lúdico ou de recriação, e, é claro, no caso, tudo que possa nos apoiar. Por isso, o apoio que vem na religião, o apoio que pode vir na recreação, o apoio que pode vir nos cuidados de saúde, tudo que nos envolve. A gente acha que há outros modos de ser, que não é a mera existência. Por último, dentro disso, vou usar um termo muito técnico em filosofia, mas que vale, você compreende bem. Há uma diferença, a gente brinca em filosofia, usando a etimologia, entre você ser para dentro, que é insistir, e ser para fora, que é existir. Existência seria algo que se dá de dentro para fora, insistência de fora para dentro. Até há algumas décadas, a gente imaginava que nós seríamos o único, o único dos animais, especialmente entre os mamíferos, e mais ainda, entre aqueles que têm toda a estrutura cerebral, que éramos capazes de buscar substâncias que, ao serem por nós ingeridas, nos dariam não só prazer, como, além de tudo, uma possibilidade de serenar parte da turbulência que o existir traz.
E, portanto, que os outros animais, exceto o nosso, seriam todos marcados pela insistência. Hoje não mais. Hoje a gente já sabe, você provavelmente estuda isso, que a busca da natureza com outras finalidades, além da alimentação, do curativo, também pode trazer ali a chance do prazeroso. Nós sempre buscamos coisas que façam a vida valer a pena. Porque na expressão valer a pena tem um suposto de que há uma pena, suplício, há um sofrimento, e aí não há possibilidade. A gente faz isso de vários modos. A gente faz isso com a arte, a gente faz com filosofia, a gente faz como você aí em Barcelona pode contemplar, coisas absolutamente malucas no campo da arquitetura, da produção, de uma catedral infinda que vai se elevando, elevando, elevando e nunca termina. O que a gente quer mesmo é que a pena tenha validade.
Um dos seus filhos diz que a chave para ele ter tido sempre uma relação saudável com as drogas foi um conselho seu, de que ele só consumisse algum tipo de substância quando estivesse feliz. Qual é a lógica por trás desse seu conselho?
Porque uma das coisas mais fortes na sociedade ocidental, especialmente aquela que vivemos e aquela que foi ocidentalizada, como uma parcela do mundo asiático, a ideia de que bebida alcoólica é medicamento para relaxamento ou é medicamento para curar dificuldades de natureza psicológica ou de atuação. E eu sempre dizia aos meus filhos e filhas, e sempre falo aos meus netos e netas, que se eles me encontrarem algum dia, por exemplo, tomando um copo de vinho, de cachaça, ou de whisky, ou de cerveja, é porque eu estou bem. Porque aquele tipo de produto, para mim, ele não é um medicamento. Eu recuso aquilo que pareça uma saída falsificada. O que é medicamento, para mim, é medicamento. Por exemplo, eu fui fumante, consumidor de tabaco, durante trinta anos. Portanto, eu não tinha prazer no cigarro, haja vista que eu não conseguia deixá-lo.
Mas o que te fazia fumar, se você não tinha esse prazer, por tantas décadas?
Isto é o que é o vício, o vício é a incapacidade de você se libertar de algo que está acima da tua força de vontade imediata. Uma pessoa alcoólatra, ela não tem prazer na bebida, ela tem dependência. Alguém como eu, que usava o tabaco, três maços de cigarro por dia, embora como professor, eu mais os acendia e deixava na mão do que, de fato, os tragava, ainda assim, a dependência é diferente do prazer. Eu tenho prazer no vinho que, eventualmente, tomo, porque eu não preciso tomá-lo e eu consigo interromper. Eu preciso ter um uso cauteloso daquilo que me dá prazer para que não se torne, de fato, primeiro, uma dependência e, segundo, uma distração no mau sentido, isto é, aquilo que faz com que eu fique desatento. Não sei se você é consumidora de cerveja, por exemplo, a cerveja é muito prazerosa, vez ou outra, quando eu a ingiro, ela é muito prazerosa até o terceiro copo. No terceiro chope, você passa a ser um intermediário entre a garrafa e o vaso sanitário, você não tem mais nenhum tipo de expressão prazerosa. Há um entorpecimento trazido pelo uísque que eu, eventualmente, consumo, ou a cachaça, que eu acho gostoso, desde que ele não crie pra mim a impossibilidade de eu ter o comando. Millôr Fernandes, que eu cito sempre, dizia “o importante é ter sem que o ter te tenha”. A bebida não é, de maneira alguma, curativa, portanto, só beba se feliz estiver.
“Preciso ter um uso cauteloso daquilo que me dá prazer para que não se torne, de fato, primeiro, uma dependência e, segundo, uma distração no mau sentido”
O senhor foi secretário municipal de educação em São Paulo, professor da PUC por mais de três décadas. Se tem alguém que conhece bem o poder da educação, esse alguém é o senhor. Desse modo, os adolescentes deveriam ou não receber uma educação a respeito das drogas?
Toda pessoa tem que ser formada pela família, pelo poder público, pela mídia, pela escolarização, pela igreja, pelo grupo de amigos, isto é, onde ela estiver em sociedade, ela precisa ser formada para ela poder tomar decisões autônomas e conscientes em relação àquilo que vai fazer. Qualquer coisa que você coloque em você, no campo material ou não, e que possa ser danosa, tem que fazer o preparo. Assim como eu tive que ajudar meus filhos e filhas a saberem usar uma faca. E uma faca é um instrumento poderoso para auxiliar nossa vida ou para produzir dano em mim ou em outras pessoas. Eu não os afastei da faca quando eles tinham já idade para poder aprender a manuseá-la. Quando você tem um filho de um ano, dois, você deixa as facas na gaveta superior ou você usa uma forma de trancá-las, porque ele poderá pegar aquilo sem querer, mas depois que tem capacidade de aprender a lidar, eu não posso afastá-lo da faca, eu tenho que colocá-lo a aprender a lidar com a faca. É claro que a educação escolar, como uma das estruturas de formação, não pode deixar de lado o tema do uso de drogas como forma livre, como forma consciente, como forma socialmente combinada em relação àquilo que é correto. Não pode, porque isso seria fazer com que a criança ou o jovem fosse retirado de um movimento que é necessário. O que não significa, de maneira alguma, que liberdade é licença. Eu sou livre, isso não significa que eu tenho autorização para fazê-lo. Eu sou livre para dirigir um carro após ter tomado um litro de uísque, mas eu não tenho autorização para fazer isso. Eu que assumo a responsabilidade.
“É claro que a educação escolar, como uma das estruturas de formação, não pode deixar de lado o tema do uso de drogas como forma livre, como forma consciente, como forma socialmente combinada em relação àquilo que é correto”
A versão da minha mãe era liberdade sem libertinagem.
Isso, é que a ideia de libertinagem estava meio ligada à sexualidade, uma parte das mães e pais tomavam conta (risos). Mas a ideia do Eric Fromm de liberdade não é licença, ela vale no mundo digital, vale em relação à convivência social, vale em relação ao conjunto de produtos e processos aos quais nós estamos colocados no cotidiano e é claro que a escola não pode deixar isso de lado. Nem pode abordar a temática, por exemplo, do consumo de drogas de modo catastrófico, nem pode fazê-lo de modo triunfalista. Afinal, aprender a lidar com aquilo reduz ao máximo qualquer dano à própria pessoa ou à comunidade na qual ela está colocada. Evidentemente que como a história não é fixa, a gente tem movimentos. Coisas que até algumas décadas tinham uma presença liberada no cotidiano, deixaram de sê-lo e vice-versa. Nós podíamos, sem nenhuma dificuldade, até há pouco tempo, utilizar amianto nos nossos telhados e lugares, ou, como foi famoso nos anos 80, panelas de teflon sem nenhuma cautela. E outras coisas. Não esqueçamos nunca, como dizia minha avó Rosária, que toda vez que a gente ia mexer em alguma coisa, ela dizia tudo que não souber desligar, não ligue.
Mas aí tem a questão do recreativo, porque você também pode aprender a se relacionar com isso, sem que seja danoso.
Então, como é que a gente faz? Não existe um único modo. Nós, como diz a ciência, fervemos em temperaturas diferentes. A minha experiência como professor há décadas, há 50 anos que sou professor, é que nunca o ar-condicionado estará no local exato que atenda as 50 pessoas que ali estão. O que isso significa? Que cada um é um, cada uma é uma. Isso significa, então, que não tem critério? Tem. É aquele que possa cuidar para que as especificidades sejam lidadas. Eu não posso imaginar que, por exemplo, o álcool, que é uma droga legal, legal agora e ilegal em outros lugares, e incentivado em algumas comunidades e reprimido em outras, não posso dizer que ele tenha o mesmo efeito sobre todas as pessoas. Nem sobre as mesmas culturas ele tem. A depender do tipo de genótipo que se tenha, o álcool tem um impacto maior ou menor. Também em relação ao masculino e feminino, em relação ao clima e assim por diante. Isso vale para todas as outras coisas. O uso recreativo de qualquer substância, que haja um alerta, porque ela pode, não é que ela vai, mas ela pode ser danosa. Eu, Cortella, detestaria, de modo recreativo, imaginar que eu vou, com isso, causar em mim um risco muito forte.
Você tem uma relação com o álcool, mas escolheu nunca ter essa relação, por exemplo, com a maconha. Por quê?
É questão de gosto. Eu tenho clareza em relação aos danos do álcool e tenho uma vantagem. Eu nunca bebo durante a semana, jamais. Isso há décadas. Eu só o faço num final de semana e num ambiente em que eu esteja controlado. Também não dirijo, não tenho nem carteira de motorista, o que, portanto, é altamente favorecedor da minha possibilidade de ser um consumidor eventual de álcool. E eu passo meses sem tomar nada alcoólico. Agora, neste momento, enquanto eu converso com você, eu acho que no ano que em breve termina, eu devo ter tomado alguma coisa alcoólica quatro vezes, isso foi uma decisão minha. No ano passado, foram 60. No ano retrasado, 10. Em relação a drogas como a maconha, é uma questão de presença em relação a ter apreciação ou não. Eu não gosto. As duas vezes que tive a possibilidade de ter algum experimento, um mais adolescente, o outro já mais tardio, não grudou. Tal como eu, por exemplo, sou avesso a algumas bebidas alcoólicas ou a alguns alimentos. Não gosto.
“Em relação a drogas como a maconha, é uma questão de presença em relação a ter apreciação ou não. Eu não gosto. As duas vezes que tive a possibilidade de ter algum experimento, um mais adolescente, o outro já mais tardio, não grudou“
Se é coisa ligada a prazer, a palavra não gosto é marcante. Afinal de contas, prazer está ligado a gosto. Se eu tiver que consumir no campo medicamentoso, eu não tenho a menor dúvida em fazê-lo. Não tenho a menor dúvida, aliás, em defender que se possa fazê-lo, toda substância que puder auxiliar passa a ser benévola. Se ela tem efeitos malévolos, como tudo pode ter, afinal, como diz a clássica frase grega, a diferença entre o veneno e o remédio é a dose, a noção mais séria é, pra recreação eu tenho outras coisas. Eu vou usar o termo que eu gosto, não me encanta. Não me encanta. Se me encantasse, talvez eu fizesse uso. Será que se eu começar a usar, eu vou gostar? Eu jamais vou fumar maconha por uma razão que não tem a ver com a maconha, mas com o cigarro, porque se eu usar maconha, eu vou ter que tragar. E se eu tragar, eu vou voltar a fumar cigarro. E como eu não quero fazê-lo, e como eu não vou fazê-lo, então eu fico privado da maconha, do cachimbo, do charuto, da cigarrilha. Posso eu usar de outros modos? Posso eu pegar a substância que não me lembra? Posso, mas de novo, não me encanta.
A ciência vem dizendo que a maconha funciona melhor com o passar dos anos, quando vamos ganhando idade. Você que nunca foi maconheiro, tem pensado, estaria aberto para experimentar como produto terapêutico, pra saúde?
Eu não tenho pensado. Eu tenho certeza de que, se for necessário pra mim, farei. Não vou usar a maconha de modo recreativo porque esse não é o meu encantamento. Mas eu tenho absoluta certeza que, se for um indicativo, em relação, por exemplo, a algum tipo de perturbação neurológica, alguma forma de patologia que chegue e que eu tenha necessidade do cannabidiol, eu vou fazê-lo. Por que não? Eu não tenho nenhuma dificuldade quando passo por um processo anestésico de consumir alguns produtos que têm origem na base. Eu não tenho dificuldade de tomar morfina. Aliás, eu prefiro, em situações de dor grave, extensa, que a morfina seja dada. Eu, por exemplo, te dou um exemplo concreto. Há algum tempo fui submetido a uma colocação de prótese no joelho direito. E aí, ela traz um desconforto relativo no pós-operatório e um dos medicamentos que é utilizado para reduzir muito a dor é a oxicodona. Ia fazer uma viagem uma semana depois da cirurgia e precisava fazê-la de carro para fazer uma conferência. E eu ia viajar por três, quatro horas. Por isso, foi recomendado, dentro daquilo que é normatizado, o uso de oxicodona. Eu tomei na ida.
Na volta, não quis de jeito nenhum. Por quê? Porque ela me deu um bem-estar tão profundo, me deu uma capacidade de prazer tão grande que eu queria de novo. E não era eu só que queria de novo. Era eu com aquilo que em mim não estava dentro da minha autonomia. Aí, eu disse não. Por quê? Porque aquilo que eu tenho como valor para mim é a possibilidade de eu ser dono de mim mesmo. Ao ser dono de mim mesmo, decido se consumo ou não. Não tenho a menor dúvida que no momento que tiver que fazê-lo, vou fazê-lo, isso não é petulância. O nome disso é liberdade.
O senhor conviveu com o professor Paulo Freire, foi inclusive orientado por ele no seu doutorado. Nesse tempo vocês chegaram a conversar sobre drogas ou sobre maconha em algum momento?
Não conversamos sobre isso, mas ele foi secretário de educação na capital dois anos e eu era o adjunto, portanto, nós convivemos como gestores públicos. Sim, havia um projeto que era coordenado no campo da sexualidade pela, na época, apenas psicóloga e sexóloga Marta Suplicy, e o outro que lidava com a prevenção do uso de drogas ilegais. Esses dois projetos seguiam o curso dentro do que se chama de atividades complementares, de projetos pedagógicos. Não havia uma disciplina, uma matéria que tratava do tema, mas havia, sim, toda uma formação e orientação, inclusive porque, na cidade de São Paulo, na qual ele era secretário, e depois eu, a questão central da droga é menos o uso em si, mas mais o crime e mais a questão do tráfico. A cidade de São Paulo tem uma periferia social, que não é só geográfica, é uma periferia social muito, muito extensa. Portanto, a temática da drogadição é muito marcante nesse campo. Ademais, enquanto Paulo Freire era secretário e depois eu, nós tivemos a eclosão da epidemia de HIV circulando, e como uma parcela da contaminação era advinda do uso de drogas injetáveis, é claro que tudo isso teve que ser ligado. E havia um projeto chamado EducAids, que trabalhava com as duas coisas em relação à utilização, por exemplo, de seringa descartável, ou até a recusa, o uso de drogas injetáveis, ou até a cautela em relação ao tipo de convivência que se teria.
Por isso, o uso da droga, legal ou não, no mundo de uma cidade imensa, de uma metrópole, se conectada como um negócio ao campo da economia do crime, ela tem que ser trabalhada dentro do processo da escola. Com o professor Paulo Freire nunca sentamos para falar disso, porque não era um tema nosso no dia a dia. Mas sentamos, vez ou outra, para tomar uma taça de vinho (risos).
Muitos dos meus, os seus, os nossos ídolos se drogaram em algum momento da vida, na música. Você acha que é coincidência ou você entende que, sim, a maconha pode exercer influência sobre a criatividade?
Olha, eu não sei dizer. Eu não sei dizer porque, como não sou consumidor, e sou absolutamente criativo, dizem alguns (risos). Imagino que o mundo da arte tem aqueles que consomem e aqueles que não. E eu fico imaginando o quanto a obra do Mozart, que tem 626 peças que ele fez. Claro, eu adoro Janis Joplin, porque fez parte da minha geração, Jim Morrison, Jimi Hendrix. Eu tive entristecimento quando Amy Winehouse morreu, porque ela seria uma nova Billie Holiday. Portanto, ela teria a capacidade de continuar nos encantando. Não sei se isso elevaria a criatividade. Eu tenho uma experiência como alguém que viaja o tempo todo fazendo palestras, isto é, o roadshow que a gente faz na área de palestras e eventos. Quase todos os dias, estou em uma cidade diferente com Cláudia (sua esposa), e se eu não estivesse com ela, se eu tivesse um movimento mais solitário, se eu estivesse em momentos em que, depois de você diante de 3 mil pessoas, ou, no caso de um artista, de 10 mil pessoas, você tem aquela energia, aquela emoção, aquele tesão circulando para todo lado, e aí você vai para um canto quieto, sozinho, em que aquilo ainda reverbera, pode ser que eu procurasse companhia nisso. O grande, o genial Keith Richards acaba de fazer 82 anos. Quantos Keith Richards nós temos? Ele vale de exemplo. Ele é a negação da ciência. Tudo que a ciência afirma sobre o consumo de drogas, ele nega permanecendo vivo, certo?
Não tenho dúvida de que o campo da arte pode sedimentar da criatividade. Não tenho dúvida de que uma parcela daquilo que sou capaz de criar, porque essa é a minha tarefa, o LSD auxiliaria um pouco a eu ter percepções que não tenho. Mas não quero passar por essa percepção porque eu ficarei muito entristecido se eu consumindo, por exemplo, um ácido, eu ficar melhor com o ácido, achar que eu sou melhor só por causa do ácido. Isso vai abalar a minha autoestima. Prefiro não provar-me desse modo. Prefiro ainda imaginar que eu tenho autoria daquilo que faço e que essa autoria não é impulsionada por alguma coisa que não é da minha produção. Eu prefiro minha cortisona de um lado e meu cortisol de outro para mexer com isso, por enquanto. Mas, aos 70 para 71, como disse Umberto Eco, a vida que é uma obra aberta, também eu sou. No momento, não. A única frase que vale para seres humanos é ainda não.
Você é pisciano, como eu, e sempre tive curiosidade de saber sua opinião sobre a astrologia.
Você sabe que nós, de peixes, não acreditamos em horóscopos, especialmente quem é do segundo decanato não acredita em horóscopos. Eu não sou supersticioso porque eu acho que dá azar (risos).