Na Breeza

Encontrar-se com o sagrado

Marco Algorta, empresário na cannabis e nos psicodélicos, conta em 1ª pessoa como foi se deparar recentemente com o sagrado da ganja
12|12|24

por Marco Algorta*

Querido leitor, o mais importante é encontrar aquilo que você não está buscando.


No caminho do empreendedorismo em substâncias controladas, uma ferramenta essencial a ser desenvolvida é a tolerância às frustrações. Eu estava no corredor de um evento de psicodélicos, sob luzes que pareciam invadir o espaço, tão distantes das visões verdadeiras que me acompanham em cerimônias. Já exausto de ter que traduzir meus pensamentos antes de falar, aproveitava meus 10 minutos de descanso trocando palavras com uma amiga brasileira, uma referência absoluta no mundo da psicodelia.

Conversávamos de forma despreocupada, lançando ideias ao vento, sem muita intenção. Era o meu momento de recreio, falando no meu idioma, sem filtro, até que, abruptamente, ela me interrompeu: “Eu lá quero dar ayahuasca para playboy paulista. Ayahuasca pra mim é sagrado.”Ela me deixou falando sozinho. Coberto pelo carinho bruto de suas palavras, fiquei ali, como quem aprende algo profundo, mas ainda não consegue entender totalmente o quê. Me senti um pequeno ninguém, em meio a um mar de estrangeiros.

Minha aproximação ao mundo dos psicodélicos sempre foi guiada por uma curiosidade imensa, uma sede de liberdade e um amor pelo que é proibido. E, como bom curioso, o primeiro passo foi reconhecer minha ignorância e me aproximar de quem realmente sabe. Meses depois, recebi um convite para um retiro chamado “Jornadas de Kura”. Não sabia quando, nem como, mas eu sabia que precisava ir.

Meu contato anterior com a ayahuasca havia sido discreto. Já havia tomado, mas sempre com a preocupação de não vomitar. As histórias sobre os mal-estares me mantinham distante. Eu sempre me orgulhei de ser um bom beberrão, daqueles que aguentam muito álcool sem desmoronar. A ideia de vomitar sem controle, de me desfazer, não me atraía.

No entanto, já havia explorado a maioria dos outros psicodélicos. Adiar a ayahuasca, ela que é tão daqui, já não fazia sentido. Se havia um lugar e um momento para mergulhar nela, seria esse. O retiro começava dois dias após meu aniversário, quando eu completaria a idade que meu pai tinha quando faleceu. Era o momento de renascer.

Desde que aceitei o convite, o universo, com suas lianas invisíveis, começou a conspirar para que tudo acontecesse no exato momento em que eu mais precisava. Uma avalanche de mudanças em projetos, crises pessoais, questionamentos sobre meus propósitos. A rainha da floresta já havia começado seu trabalho, mesmo antes de eu beber um único gole.

Ao chegar ao retiro, perto de Belo Horizonte, vi brinquedos espalhados pelo chão, pude conversar com as crianças sobre dinossauros e a diferença entre um velociraptor e um tricerátopo, sobre carnívoros e herbívoros. Ouvi choros, recebi abraços sinceros. Para um pai de cinco filhos, aquilo era sentir-se em casa.

Se você imagina, querido leitor, um retiro com lençóis impecáveis e travesseiros alinhados, está enganado. Se o que busca é algo semelhante ao que encontra na sua vida diária, não vá. Em vez disso, encontrará uma alimentação especial, não apenas saudável e deliciosa, mas preparada pelas mãos de uma comunidade. Será alimentado por pessoas que vivem o que chamamos de psicodelia em seu estado mais puro. Ali, não há resquício da renascença psicodélica que vemos nos meios de comunicação, mas sim um uso milenar, sussurrado de geração em geração, que, mesmo após anos de proibições e colonização, sobrevive como musgo que cresce sobre as pedras.

Se você pensa que esse é um retiro com uma divisão clara entre participantes e organizadores, mais uma vez se engana. Ali, todos têm seus papéis a cumprir. Os líderes espirituais indígenas não estarão disponíveis como a múmia de Ramsés II no Louvre, à espera de quem paga a entrada. Você terá a oportunidade de um verdadeiro diálogo com eles. E, talvez, depois da cerimônia, seja você quem carregue suas bolsas e utensílios até a cabana, no meio da mata e no escuro, e quem sabe, lave seus pratos.

Cada um tinha sua função, e a minha foi levar a erva sagrada. Lá, renomeei a cannabis no meu dicionário íntimo: Santa Maria. Em uma das rodas ao redor do fogo, após a cerimônia, compartilhei uma Santa Maria com um colega que foi preso por plantar cannabis. Ele nasceu perto das minas de sal e cobre no norte do Chile.

Estavam conosco um líder espiritual indígena, nascido às margens do Rio Jordão, um ex-policial militar que teve uma perna amputada e encontrou sua cura em uma igreja do Santo Daime, e um casal de psicólogas casadas, como Deus manda, numa igreja ayahuasqueira. No dia anterior àquela roda de Santa Maria, eu havia plantado um pé de Jagube. Ao colocá-lo na terra, me lembrei de que fazia mais de sete anos que minhas unhas não se sujavam de terra, eu que sempre adorei plantar.

Foi ali, ao redor do fogo, que finalmente entendi o que minha amiga havia me dito no corredor daquele evento cheio de estrangeiros. A ayahuasca é sagrada. Não é apenas uma bebida, mas uma cosmovisão. Deve ser vivenciada em sua totalidade: com comunidade, natureza, espiritualidade, saberes ancestrais, deuses e comunhão.

E foi ali, dichavando os anos que ainda me restam no segundo tempo da minha vida, que me dei conta, depois de toda a minha trajetória no mundo da cannabis, que a Ganja, a Santa Maria, querido leitor, também é sagrada.


* Marco Algorta é empresário na cannabis e nos psicodélicos