
João Berlofa vive para e por Jesus. Assim como pela maconha.
Primeiro veio a religião, nascido e criado dentro da igreja. Na real, em várias igrejas, pois a família ia e vinha entre católicos e evangélicos. Isso até completar 10 anos de idade e se fixar na raiz evangélica.
Tempos depois, em 2015, o agora teólogo e filósofo foi ordenado pastor do Movimento Vineyard, de origem californiana e bem mais descolado que o usual. “Nunca fui um pastor de terno, sempre usei boné”, nos conta ele, resumindo esse lado mais leve.
Mesmo assim, não se sentia no seu ambiente. Apesar do visual despojado, a igreja continuava a pregar preconceitos, como contra gays e maconheiros. Ao mesmo tempo, Berlofa descobria e revelava cada vez mais o seu lado liberto dessas amarras.
“Em 2018, pelas questões políticas (eleição de Bolsonaro e a disseminação de bolsonaristas pelo país), passei a me expor ainda mais como progressista. Pois de forma alguma compactuava com o que estava acontecendo com a Igreja Evangélica, que de maneira geral estava apoiando o que considero ser um novo fascismo”.
INFLUENCER
Frente à onda reacionária que começou a se disseminar forte naquele ano – e parece longe de parar –, com ações e repressão contra usuários de drogas, a comunidade LGBTQIA+, o povo preto, pobres e todos aqueles que não agradam aos radicais, Pastor Berlofa resolveu não ser passivo. Recorreu às redes, principalmente ao Twitter (agora, o X de Musk), ao Instagram e ao seu canal no YouTube, para pregar bom-senso e progresso nas ideias.
Em um grupo no Facebook, respondeu a comentários preconceituosos dizendo ser contra tudo aquilo. “Postei ‘pô, galera, sou pastor, mas a favor da legalização do aborto e da maconha, do lado da comunidade LGBT’”.
A mensagem viralizou, o que pegou mal no Movimento Vineyard. Foi aí que, em 2018, pediu para sair. Pouco depois, em fevereiro de 2019, promoveu o primeiro encontro de sua própria igreja, a Garagem. Nela, muitas coisas são diferentes: não há dízimo e nem salários para pastores (a renda de Berlofa vem do trabalho de influenciador digital, da venda de cursos e dos livros que escreve, nos quais apresenta sua ótica sobre o cristianismo); doações vão para ações beneficentes, como em ajudas a uma creche em Brasília; e todos e todas são aceitos.
Pelo o que calcula, metade dos cerca de 250 fiéis que hoje seguem a Garagem são LGBTQIA+. “Por isso, primeiro fiquei conhecido como o pastor dos gays. O que não ofende, para mim é elogio”. Ele afirma que há macumbeiros, umbandistas e até ateus em seu séquito.
O enfrentamento aos reacionários teve ápice em 2020, no auge da pandemia da Covid. Foi quando, em uma atitude pensada e em nada impulsiva, escreveu no Twitter, sobre quem naquela época acampava em frente a hospitais: “Em nome de Jesus, como pastor evangélico, dentro de minha espiritualidade, vai tomar no cu”.
E MACONHEIRO
Até muito recentemente, Berlofa admite que era cheio de preconceitos sobre a cannabis. “Só comecei a quebrar isso após os 30 anos”, admite ele, hoje com 38. Mas quando virou adepto, mergulhou de cabeça.
Em 2020, no início da pandemia, procurou um amigo maconheiro e perguntou se ele arranjaria um pouco. O objetivo era fumar para aliviar tensões, numa forma de terapia de improviso.
Começou no prensadinho, fumando dia sim, dia não. “Notei melhora na qualidade de vida, comecei a beber menos e a perceber que dores que eu tinha começaram a sumir. E isso com um prensadinho de péssima qualidade”.
Na época, encarava uma lesão no joelho esquerdo, consequência dos treinos de muay thai. Andava de muletas e os médicos achavam que ele teria de passar por uma cirurgia, porém isso antes dele começar a consagrar a maconha.
“Larguei a muleta e a dor foi passando”, conta ele. Seria um milagre? Não, é o efeito da erva, que Berlofa começou a usar também como remédio.
O pastor passou a pesquisar mais sobre e logo conheceu as flores in natura. “Aí fui aprender a utilizar o óleo, a cultivar, passei no médico. Em três anos, fui do prensadinho para cultivar com HC (habeas corpus)”.
Apesar de ter virado maconheiro em 2020, o pastor confessa que demorou para ele sair da estufa de forma pública. “Foi só há uns 6 meses. Mas aí minha comunidade reagiu assim ‘tá bom, faz sentido, tá tudo bem’”.
Só que aí Pastor Berlofa não parou na simples confissão. Ele logo abraçou a causa de forma bem pública e decidiu falar até de cultivo em seu Instagram, seguido por 153 mil pessoas. Agora, apresenta-se com orgulho como “o pastor dos maconheiros”.
Para o futuro da Igreja Garagem, diz que “não tem projeto, nem um sonho, nem perspectiva de expansão”, porque “qualquer igreja com projeto não é igreja, é empresa”. Para ele, seu templo, que conta com outros cinco pastores e cujas pregações são majoritariamente online (e ocasionalmente até em shows de comédia stand-up), deve crescer “de acordo com a necessidade (dos fiéis), não somos proselitistas”.
Mesmo assim, há ao menos um plano possível já em curso e que ele compartilha com a Breeza. Em janeiro, tem na agenda uma conversa com o comediante e influencer Tiago Santineli. Segundo o pastor, a ideia é bolar uma estratégia para fundar o primeiro espaço físico de sua igreja, que também serviria de estúdio para a produção de conteúdos digitais da Garagem. “Meu desejo é no centro de São Paulo. Na Rua Augusta, seria um sonho”.
Filipe Vilicic