
Nando Reis acaba de lançar o disco “Uma Estrela Misteriosa Revelará o Segredo” e, ao longo de uma carreira de mais de 40 anos, este é o primeiro projeto feito pelo artista completamente sóbrio.
O uso abusivo de substâncias, especialmente o álcool e a cocaína, interferiu, claro, na vida de Nando, mas, segundo ele, não chegou a ser determinante para a qualidade da sua produção. É o tipo de coisa que se ele não contasse, ninguém perceberia.
Nando, que se considera um dependente químico, está limpo há oito anos e, quando pensa atualmente nos estados alterados de consciência, sente uma certa aflição de quem já não está pra essa brincadeira. Por isso, já não há lugar nem para a maconha, que foi sua companheira de juventude, nem para o LSD, de quem já foi íntimo.
Nessa conversa com Anita Krepp, Nando Reis revisitou as lembranças com a maconha e outras substâncias, analisou o impacto das drogas no seu processo artístico, falou sobre filhos, família e sobre a liberdade de ser um artista independente que acaba de lançar um disco quádruplo, totalmente fora dos moldes comerciais da indústria.
Nando, você trouxe músicos de bandas como Pearl Jam, Nirvana, Guns N’ Roses, R.E.M., e resgata o Jack Andino, que foi produtor lá atrás dos Titãs. Que megalomania foi essa?
Eu acho que a megalomania, se for empregada essa noção, ela está na extensão do projeto. Ele é ambicioso do ponto de vista da quantidade de músicas, da diversidade de sonoridades. Eu acho que é um conjunto de canções que abarca o meu vocabulário, a minha linguagem, mas nas extremidades ele tem muita diversidade. Esses nomes que são de músicos extremamente famosos e conhecidos são participações pontuais, todas elas trazidas pelo Barrett (Martín), que é o produtor, que é um baterista, a quem eu conheço desde do ano 2000, quando gravei o meu segundo disco solo em Seattle. Foi o primeiro disco que o Jack Andino produziu meu, e ele é músico dessa cena, de Seattle, grunge. E é uma turma, né? Na verdade, o Chris Novoselic do Nirvana é muito amigo do Jack Angino. Mas são músicos que chegaram de forma indireta e eles fizeram gravações adicionais. Eu acho que a constelação, ou aquilo que eu julgo a força maior e de maior brilho, tá nesse ponto de vista, tá na junção dos músicos brasileiros que tocam comigo. Criamos uma banda que toca comigo há 24 anos, e essa metade, vamos chamar assim… porque um desses músicos é o Alex Veley, que eu conheci em Seattle em 99, mas mora no Brasil. Então o Barret junto com todos os músicos, a partir das minhas canções, criou toda a sonoridade do disco, que foi ficando tão fluido e tão satisfatório, que foi ganhando quantidade e volume de composições para se tornar, daí, não megalomaníaco, mas grandioso.
E aí, como é que faz para colocar um projeto desse tamanho grandioso no mundo, né? Sendo um artista independente. Na verdade eu me pergunto se ser um artista independente é a única maneira de lançar um negócio desse, tão fora da lógica do mercado, ou se foi difícil justamente por não ter uma gravadora por trás?
A primeira hipótese. Eu acho que só um artista independente, como eu, nem sei se só um artista independente, mas, por outro lado, eu fui contratado de uma gravadora durante 20 anos com os Titãs e com grandes gravadoras, a Warner, a Universal. E, pelo que eu conheço, e eu sei do conhecimento da real, do mercado, da forma como as coisas, o consumo de música, especialmente, se deu, e daí naturalmente, a forma como a música é comercializada e o quanto ela gera de dinheiro, dificilmente alguém investiria tanto. Porque é o pensamento, de um modo geral, são empresas que querem lucro. No meu pensamento, o lucro não é a quantidade de dinheiro, o maior dividendo é uma outra coisa, eu sou um artista. Então, sendo um artista independente, tenho, além da liberdade de criação que sempre tive, mesmo sendo contratado, uma liberdade de autonomia, melhor dizendo, para bancar os meus próprios projetos e lançá-los na medida de um cronograma, dentro de uma lógica estabelecida pelo meu pensamento e não pelo mercado ou por qualquer outro senso de direção que não seja uma concepção de carreira. É um projeto que, para colocá-lo, viabilizá-lo e realizá-lo, ele depende de um cronograma ou de um planejamento extremamente rigoroso, embora conjugue com o imponderável, o imprevisível, que é inerente à arte, pois esse disco eu não imaginava, eu não concebi um projeto no papel, vou fazer um disco quádruplo com trinta músicas, eu imaginava fazer um disco e ele foi se desenvolvendo, ganhando essa dimensão ao longo da sua própria feitura.
“O lucro não é a quantidade de dinheiro, o maior dividendo é uma outra coisa, eu sou um artista“
E aí, sim, entra a qualidade que eu julgo, que eu creio e afirmo ter, na sua totalidade, que vai desde as composições aos arranjos, às interpretações, ao conjunto, à capa e tudo mais. É um disco muito bom, me atende, me satisfaz plenamente. Então, eu, como artista e empresário, estou absolutamente satisfeito com o meu projeto.
Você sempre foi mais tímido e, de repente, lançou um podcast falando sobre a sua vida pessoal, também saiu recentemente um mini-doc. Como rolou essa mudança, essa abertura para você falar mais da sua vida pessoal?
A minha timidez tem uma raiz, uma característica pessoal, uma certa retração social. Eu encontrei essa profissão para ter uma condição, quase uma proteção, estar no palco e, ao mesmo tempo, estar em contato, mas, por outro lado, estar envolto, na verdade, representado por aquilo que é o que eu gosto de apresentar, que é a música. Eu estou ali como um condutor, um intérprete. Quando eu subo ao palco, pouco interessa a minha pessoa, interessa a minha produção, a minha canção que, evidentemente, está estreitamente relacionada a quem eu sou. Então é como se eu tivesse um artifício para lidar com o campo social de uma maneira onde eu sou legítimo, encontro o meu espaço de locomoção no mundo. No entanto, o substrato para as minhas canções sempre foi o meu pensamento, as minhas impressões, minhas emoções, que estão intimamente relacionadas com a minha vida pessoal. E, para mim, isso nunca foi um problema, porque eu nunca interpretei que a canção, no formato da canção, crie qualquer tipo de exposição que perca a dignidade da intimidade ou que seja uma exposição, digamos, constrangedora. Então, assim, há alguns tipos de proteção. A minha música me protege e, ao mesmo tempo, permite que eu me locomova no mundo e viva.
Então, você se sentiu confortável de fazer o podcast e o documentário?
Não é nem pelo fato de eu ser independente, acho que eu sempre estabeleci limites para eu mesmo, daquilo que eu topo ou não topo fazer, aquilo que consigo ou não consigo fazer, quero ou não quero fazer. Todos os documentários, o podcast, de certa maneira, são desdobramentos do que é o meu trabalho. Estou muito protegido por algo que eu tenho certeza, que domino, desejo e me sinto seguro e genuíno, porque é minha música. Para mim, seria estranho. Se fosse a Dança dos Famosos, do Faustão, aí são coisas descabidas que eu mesmo, inclusive, já fui convidado. Tem coisas que eu não faria nunca.
Esse é o primeiro disco que você faz sóbrio. Como é que foi essa experiência de criar sóbrio?
Quando eu digo que é o primeiro disco que eu gravei sóbrio, não estou falando sobre criação. Eu tô falando sobre mudança de hábito, de cuidado e de interrupção de uma rota. Porque, no caso, eu sou alcoólatra, sou dependente químico e essa adicção, como qualquer adicção interferiu muito na minha vida. Mas, diferentemente do que as pessoas creem, ela não é determinante para a qualidade da sua produção. É curioso, porque eu reconheço que o uso que eu fiz de álcool e de cocaína, especificamente, tinha um sentido desinibitório e de quebra de uma espécie de inércia que tem a ver quase com um traço depressivo, de insegurança numa relação angustiada com a própria capacidade de criação. É claro que o uso de drogas ou a alteração da consciência também quebra algum tipo de rigidez, do ponto de vista da expressão, que pode ser tanto benéfico quanto desastroso. Porque fundamentalmente, o que não pode ser, que não é confiável, do ponto de vista especialmente de um estado de alteração, é o seu senso crítico.
“O uso de drogas ou a alteração da consciência também quebra algum tipo de rigidez, do ponto de vista da expressão, que pode ser tanto benéfico quanto desastroso“
É muito comum, especialmente em um processo de uso abusivo, de que você vá se chamando de autoindulgente ou desleixado, então por mais que eu tenha usado e elas tenham, inclusive, atuado como elementos significativos na produção, eu nunca publiquei nada antes de ter um crivo, um crítico, que eu só consigo conseguir ter e sempre, e isso foi idêntico a vida inteira, lúcido, sóbrio, então, essa mudança, ou melhor, o período da minha adicção e o comprometimento que a minha adicção teve nas minhas relações pessoais, familiares e profissionais afetou muito uma coisa que estava relacionado ao meu trabalho e a perda de senso crítico nas apresentações, e isso eu acho horrível. Então, tenho uma verdadeira aversão e acho lamentável a forma como eu mesmo apresentei músicas que criei com tanto trabalho, e depois lapidei com tanto trabalho e tanto rigor, para serem tratadas dessa forma. Há um paralelo, essa ideia de que você fica espontâneo, tem um mito de achar que você fica natural, pelo contrário, acho que você fica artificial, caricato. Mas, voltando ao disco, de fato há um dado, um objetivo muito diferente, muito importante, que é o seguinte, dois aspectos. Eu parei de usar cocaína há oito anos, e a cocaína é uma desgraça para a voz, para tudo, para as vias aéreas e tudo mais. E o estado de embriaguez, de alteração, ele inviabiliza uma etapa do trabalho muito importante, que chama-se a mixagem, no qual eu sempre fui relapso. Na mixagem, há decisões artísticas importantíssimas a serem tomadas, que exigem o mesmo rigor e senso crítico. Só a lucidez é capaz de produzir bons resultados. Portanto, eu sempre me evadi de fazer as mixagena. Desse ponto de vista, eu considero esse disco um estágio de desenvolvimento, de sofisticação, inclusive na minha atuação, no conjunto de etapas que compõe um disco. Para mim é indiferente as músicas que eu fiz alterado ou as músicas que eu fiz sóbrio, a criatividade é minha, o talento é meu, o desenvolvimento da linguagem é meu. O assunto da minha música está muito relacionado a questões existenciais, angústias, temores e tudo mais. As minhas perturbações, os meus tumultos emocionais estão lá, estão todos retratados, eu acho que está tudo presente, a interferência na qualidade da criação é ínfima. Você pode fazer muita bobagem no momento, achar que está incrível e depois você olha e fala “nossa, não está bom”, e desenvolve-se. Então, esse disco não teve realmente nenhuma influência nem na composição, nem na mixagem. Há duas músicas nesse disco, “Daqui Por Diante” e “Desmente”, que abordam isso, abordam a adicção, abordam o pensamento compulsivo, o sofrimento decorrente de anos de dependência do álcool, de alcoolismo. Essa questão está muito mais presente, mas há músicas que eu fiz em 1996, 2005, um período que eu bebia, cheirava. Quando eu digo isso não é para ser interpretado do ponto de vista do puritanismo, antes eram discos bêbados e esses são discos sóbrios, não, eu nem vejo diferença. Eu acho que as diferenças estão mais em aspectos secundários. E eu reconheço, eu vejo, falo que saco isso aqui, decorrente de uso contínuo de cocaína, mas, do ponto de vista do público, acho que se eu não falasse, ninguém nem ia notar nada.
“É indiferente as músicas que fiz alterado ou as que fiz sóbrio. A criatividade é minha, o talento é meu”
E como é a sua relação com a maconha? Ela fazia parte da sua vida?
Fazia muito, fez parte na minha adolescência. Eu parei de fumar, porque eu tive pânico, acho que com 18 anos. Eu devo ter fumado, digamos, continuamente com a maior quantidade dos 14 aos 18. E eu adorava, né? Era uma coisa bacana, tinha uma coisa quase que estética. Tinha vários componentes comportamentais, de transgressão, ao mesmo tempo de descoberta, num determinado momento. Porque eu acho que, quando eu estou falando de alcoolismo e dependência química, é uso abusivo, que tem uso contínuo, não é uso recreativo, ela se mistura com o seu todo, o seu cotidiano. E o uso abusivo e constante, por décadas, ele tem um comprometimento, do ponto de vista do seu corpo, da sua saúde mental, que vai escorrendo. Todas essas minhas observações são de ponto de vista pessoal, daquilo que vejo, mas, obviamente, posso dizer que eu acho que o uso de cocaína e de álcool da forma comum, não só eu, muita gente usa, ele não é benéfico. Mas voltando para a maconha, era recreativo, era divertido, mas eu tive paranoia. Um dia, estava no ônibus e fiquei completamente paranoico, falei “nossa, está todo mundo olhando para mim”, me senti muito mal. E, a partir dessa, os episódios se repetiram, até mais tarde, porque eu me lembro de ver muitas pessoas no meu entorno, usam, fumam e tudo mais, e eu me lembro de um dia que eu estava já embriagado, daí falei “vou dar um tapa”. E é a mesma coisa, é horrível, eu não me sinto bem.
Você, com vários filhos adolescentes, chegou a conversar com eles a respeito disso?
Não, nunca conversei muito. Eu sempre soube que todo mundo fuma maconha, quase faz parte do ritual da vida das pessoas. Eu e Vânia, a gente sempre observou o quanto isso tinha um componente temerário, nunca incentivei. Eu acho que era importante, do ponto de vista da educação. O pai está muito no lugar de estabelecer os limites, de alertar. Claro, quando observei em alguns deles, em determinado momento, um uso excessivo, que me parecia criar um torpor, me incomodava. E eu, como tinha já, mesmo sem reconhecer, noção das minhas questões com a adicção, sempre olhei do ponto de vista de alerta. Falei “que perigo, isso pode dar merda”. Eu nunca fui um apologista, e ao mesmo tempo o que eu tinha e percebia em mim era uma patologia, uma doença, eu sabia que o uso, para mim, fazia mal, e eu não conseguia me controlar, e olhava para eles sempre com preocupação. E, mais tarde, com eles mais adultos, sempre conversei “olha, você tem que tomar cuidado, porque eu tenho dependência e isso é horrível, é um sofrimento”. E se você tem, não é bom, você perde o poder de decisão e a sua vida entra num rodamoinho. E, ao mesmo tempo, meus filhos sempre me viram sofreram com isso.
“Todo mundo fuma maconha, quase faz parte do ritual da vida das pessoas”
Durante o processo de deixar a cocaína e o álcool, você chegou a ter alguma trava criativa?
Quando você é dependente ou se vincula a uma coisa, quando você desvincula, em geral, entra em angústia. Mas a minha relação com a minha criatividade, com a minha produção, melhor dizendo, sempre foi de extrema incerteza, insegurança. Eu vivo isso até hoje, sempre tive medo de não conseguir fazer e sempre tive períodos onde eu não consegui fazer. Os momentos de dificuldade, de bloqueio criativo, vamos chamar assim, estão associados à minha própria neurose, eu não tenho dúvida em afirmar isso. Às vezes, o cérebro de um adicto é tão hábil que ele encontra e cria pretextos, em qualquer coisa a seu favor para justificar o uso e para atenuar a sua culpa. E eu fiz isso com tanta maestria que eu mesmo me enganei. A mente de uma pessoa adicta tem uma complexidade, tem um pensamento permanente que age sempre de forma sofisticada e não necessariamente isso acaba derivando numa sofisticação de criatividade, mas um outro uso, a outro serviço.
Você falou uma vez que a sua facilidade em criar o seu mundo interno tinha muito a ver com a relação com as drogas, como é isso?
Eu refaço então essa afirmação. Eu acho que o mundo onírico ou fantasioso da criação, que é uma transcendência de um pensamento muito objetivo e onde você dissolve a concretude das coisas e dá a elas múltiplos significados, é uma característica minha que associo muito com a minha infância. A criatividade, no meu caso, é um trabalho. Mas eu não sei me aprofundar porque é um assunto que não tem muita clareza, e eu tenho sempre um pouco de dúvida de afirmações assertivas ou conclusivas e de generalizações.
E você nunca fez psicodélicos?
Já, eu já usei. Eu acho que a melhor experiência que eu tive com drogas ou a mais prazerosa foram duas. Uma com mescalina, outra com peiote. Uma com mescalina na minha juventude, mas foi uma coisa dessas de viajar e ficar horas embaixo do chuveiro e a água batendo na pele, aquilo era uma maravilha. Tive viagens com cogumelo na juventude também, que foram dessas malucas, muito lúdicas, todas elas, em recreativos. Usei LSD nos anos 70, 80… nunca tive exatamente uma bad trip, felizmente. A gente tem uma casa lá em Jaú, e daí a gente tem cogumelo, pasto. E eu, depois de eu ter parado de beber, eu comi e, puta, foi um pânico, foi horrível. Atualmente, tenho muita aflição de qualquer alteração. Estou muito distante dessas investidas. Mas, sim, na juventude, tive e me diverti.
Você lembra de alguma boa brisa?
Eu lembro de uma, sim, eu tinha tomado ácido e a gente foi para uma praia lá em Ubatuba, na baía de Fortaleza, e era uma praia boa para pegar jacaré. E eu adoro pegar jacaré. Aconteceu um negócio que era maravilhoso, eu estava viajando, que era o seguinte. A gente ia subir, estava no mar, dava para ver a ilha. Daí a onda crescia, tapava a ilha. Daí, quando subia na crista da onda, virava para trás e via a ilha e descia na onda. Essa manhã, pegando jacaré e vendo a ilha sumir, desaparecer por conta do mar, foi memorável.
Como é que está o seu pique para esse próximo turnê?
Tá bom. É puxado, é um ritmo cansativo. Os shows da divulgação desse disco são shows muito especiais, que é quando a banda que gravou o disco, o Berrett e o Peter Buck, estão no Brasil. E são coisas episódicas, pontuais. Isso não é uma coisa que é comum na minha vida. Então isso é muito prazeroso e acaba atenuando qualquer desgaste, porque é muito cansativa a minha vida. Mas eu tenho pique. Essa é uma das coisas, se eu estivesse bebendo, não resistiria a isso, seria um desastre. A coisa mais chata da vida na estrada é esperar em aeroporto e há poucas horas de sono, ou a não regularidade da quantidade de horas e nem o período que você dorme, isso é extenuante. Por outro lado, tenho um prazer enorme na minha atividade, na minha profissão, e tudo isso tem uma razão.
Seus shows têm intérprete de libras e acesso garantido a pessoas em cadeira de roda com baixa mobilidade. Isso foi uma coisa que partiu de você?
Isso foi uma associação, um encadeamento, uma disposição que eu tinha, mas não tão atento e determinado, empenhado nisso. A forma como estou realizando está diretamente associada à minha relação ao conhecimento e à presença de Vanessa Bruna, que é uma cega, uma mulher preta carioca, maravilhosa, que ficou cega há 10 anos, que tem um trabalho que chama Incluir Pela Arte, e a gente está atendendo em todos os shows. A gente tem um trabalho prévio, tanto de organização, de ir em contato com as pessoas locais, com os intérpretes, para os mediadores, enfim, e com as casas, e para não deixar num canto qualquer, botar num lugar decente, digno para assistir ao show. Isso também está relacionado a uma experiência pessoal minha, familiar. Tenho dois irmãos, um que é surdo, outro que tem paralisia cerebral. Essa questão da inclusão e do preconceito, da dificuldade, da mobilidade, da acessibilidade, ela estava presente na minha vida, não da forma como está hoje em dia, com essa consciência que eu tenho, e com esse voluntarismo de praticar e entender, a juntar uma coisa que também intuitivamente havia no meu discurso, na minha atitude, mas não da forma como está, então isso tem sido um negócio incrível.
Tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar a respeito das suas tatuagens, porque você começou a se tatuar há pouco tempo, não tinha nada e de repente apareceu com vários. Isso tem alguma relação com uma nova compreensão, por exemplo, sobre a finitude do corpo?
Como te falei, eu sou um cara adicto. A primeira experiência com tatuagem foi terrível, eu quase desmaiei, doeu demais, e depois eu quis fazer uma outra em cima. Por outro lado, eu gosto, tenho uma relação com signos, símbolos, imagens, isso é a parte do meu trabalho, e daí as coisas se juntaram, eu nunca pensei nisso em relação a finitude, embora evidentemente tenha uma coisa de perenidade. A tatuagem é um negócio que você faz, e obviamente tem algumas tatuagens que eu me arrependo, que não ficaram tão boas quanto eu desejaria, uma delas eu tive que cobrir. Por outro lado, isso vai te dando uma espécie de experiência sobre o que você faz, a decisão se aquilo por si só já tem um significado, e se esse significado é melhor do que a imagem, ou seja, a tatuagem feita, ter tido esse impulso. Ou é uma questão estética puramente, é uma somatória de coisas, mas faz tempo que eu não faço, eu tenho retocado algumas, porque perde a cor. Todas as minhas tatuagens são coloridas, elas vão desbotando, e me incomoda, me dá aflição. E gosto da cor vibrante, então essa talvez eu passe agora só a retocar, não sei.