Na Breeza

Maconha é bom pra cachorro (muito antes da Anvisa concordar)

Agência finalmente autorizou veterinários a prescreverem cannabis, o que na prática já ocorria há anos com muitos tratamentos exitosos em pets

A Anvisa descobriu há pouco – e antes tarde do que mais tarde – que a cannabis também é medicinal para uso veterinário, foi lá e chancelou a prescrição por parte dos profissionais associados ao Conselho Federal de Medicina Veterinária, e não deu mais informações a respeito de como implementar os detalhes práticos, coisa que deve cair no colo do Mapa (Ministério da Agricultura). 

O êxito no alcance das reivindicações da classe se deu por dois fatores: tanto o conselho federal e os demais conselhos regionais de veterinária estavam abertos para receber e encaminhar à Anvisa a demanda dos seus federados, quanto aos próprios veterinários, que seguiram prescrevendo, mesmo na ilegalidade e se colocando em risco para garantir o seu juramento primeiro, de proteger pela vida e o bem-estar dos animais.

Essa conquista da veterinária, e da cena canábica como um todo, ilustra bem aquela máxima de que primeiro se dão os costumes sociais para que depois as leis e normas se adequem a eles. Muito anos antes da Anvisa reconhecer o uso medicinal da maconha para os animais, veterinários espalhados pelo Brasil já tratavam os bichinhos e as suas mais diversas patologias com substratos da planta. Alguns profissionais chegaram a sofrer constrangimento com a polícia sob a acusação de tráfico de drogas. É mole?

LARICA ANIMAL

Graças a valentia dessa gente, milhares de animais desenganados pela medicina tradicional, que recebiam sentenças de morte em alguns meses, puderam ter a sua expectativa de vida estendida de meses a anos. Caso do Flocki, um maltês que padecia de um câncer na bexiga que logo virou metastático. As sessões de quimioterapia foram deixando Flocki sem apetite ao ponto de que a sua tutora, Efigenia Helena Dias, precisasse alimentar o animal com comida pastosa através de uma seringa.

“Como estávamos na pandemia, permanecia no estacionamento do hospital veterinário aguardando o término das sessões (de quimio), já muito triste, pois o Flocki estava pesando somente 1,2 quilograma e não engolia sequer a comida via seringa”, lembra Efigenia, sobre o momento em que pela primeira vez pensou na maconha como uma possibilidade de tratamento.

“Sentada no banco do meu carro, chorei e disse ´Deus, o Flocki vai morrer, ele não vai aguentar mais nem uma semana´, assim que terminei de dizer isso, uma voz interna me disse ´quando você estava na polícia, você viu algum maconheiro magro?´. Na realidade, a voz quis me dizer que nenhum usuário de cannabis que eu conheci não fosse saudável ou tivesse qualquer problema de saúde, analisa a ex-policial que hoje atua como advogada.

Entre 1998 e 2010, Efigenia fez parte da Polícia Civil do Estado de São Paulo e participava de operações em apreensões e prisões envolvendo toda espécie de substâncias consideradas entorpecentes, inclusive na detenção de usuários de maconha. Ela aprendeu (equivocadamente) desde cedo que “maconha trazia riscos à saúde e era porta de entrada para outras drogas” e, por isso, sempre condenou o uso da erva sob quaisquer aspectos.

A mudança de paradigma entre condenar os usos da maconha e cogitar tratar o seu cachorrinho com a planta foi calcada no conhecimento, na informação e na revisão dos (pré)conceitos que Efigenia tinha sobre a erva. “Busquei conhecimento, saí da ignorância e vivi a experiência dos inúmeros benefícios que a maconha nos proporciona”, conta Efigenia, que àquela altura “só pedia a Deus duas coisas: que o deixasse viver até os 13 anos e passar um último Natal comigo”. Ambos os pedidos foram atendidos. Flocki partiu em março de 2022.

A ERVA O FEZ ESCAPAR DA EUTANÁSIA

Quem tratou do Flocki e de centenas de outros animais com maconha medicinal foi a Caroline Campagnone, veterinária que liderou o grupo de trabalho do Conselho Federal que discutiu os caminhos para a criação do marco legal para o uso veterinário da cannabis, onde a Anvisa apoiou a sua mais recente decisão. “Foi um efeito comitiva, um trabalho em equipe que conseguiu um resultado importantíssimo na garantia do direito de exercício da nossa profissão.”

Pela clínica da doutora Caroline passa todo tipo de patologias, de enfermidades ósseas a cânceres, além de epilepsias e toda sorte de doenças, basicamente as mesmas de que os seres humanos também padecem. O caso do Flocki “foi bem marcante porque ele chegou até o Natal e ainda teve mais tempo de vida.” Mas têm êxitos ainda mais rotundos, como o de Urso, um pastor alemão obeso que por conta de uma lesão na coluna ficou paraplégico.

Com o desenrolar da condição degradada de Urso, uma equipe veterinária convencional chegou à conclusão de que era preciso encaminhá-lo à eutanásia. Mas a tutora não aceitou a sentença de morte dada ao animal e foi atrás de Caroline. “Em pouco tempo ele voltou a andar, recuperou os movimentos e até hoje nunca mais travou”, comemora. “Animal obeso é muito difícil de recuperar, ainda por cima idoso. Foi uma alegria ter conseguido isso com a ajuda da maconha.”

A veterinária tem por hábito registrar seus relatos de caso em artigos que apresenta em eventos de universidades Brasil afora. Dia desses, foi se apresentar na Universidade Metodista, justamente onde uma tutora de paciente seu também estudava. Nada mais propício para apresentar o artigo do que o próprio paciente, no caso uma golden retriever com câncer ósseo no focinho, que após um mês fazendo inalações e tomando óleo de cannabis, começou a apresentar nítida melhora na redução do tumor. Nesses tipos de câncer a sobrevida é bastante curta, de poucos meses, mas Ashley, a golden, viveu por mais trinta meses com a ajuda dessa santa planta medicinal.

Anita Krepp