Saindo da estufa

Janaína Torres: “Não utilizei a maconha na cozinha por falta de oportunidade”

Janaína Torres observa o cotidiano da cidade de São Paulo passar pela janela do icônico Bar da Dona Onça, que ela abriu em 2008, e também vive intensamente o centro dessa megalópole desde a sua mais tenra infância. A gente bem que podia perguntar a ela sobre a transformação das drogas na vida social do centro de São Paulo que ela tanto vive e constrói. E foi o que a Breeza fez.

Além do fato de que a maconha virou coisa corriqueira, normalizada mesmo, Janaína notou que na Cracolândia, apesar do nome, a droga mais disseminada é o álcool. Numa das suas voltas pela região, levou os dois filhos adolescentes para que tivessem contato com esse espectro da realidade do uso abusivo. Contato que ela, aliás, teve muito cedo, com um pai usuário de heroína.

A Dona Onça, apelido que pegou nela, não fuma maconha, mas é favorável à legalização da erva, porque como ela mesma diz, não é preciso fumar pra entender que outras pessoas podem fumar. E, não, ela ainda não cozinhou com maconha, mas foi só por falta de oportunidade. 

Nesse papo com Anita Krepp, Janaína falou também sobre como ser eleita a melhor chef do mundo impactou a maneira como ela vê a si própria, abriu o coração sobre a separação conturbada com o também chef Jefferson Rueda, e analisou a recuperação de uma doçura que ela tinha esquecido lá atrás.

Jana, você é muito doce, então eu fico me perguntando como é que pode uma mulher tão doce ter sido apelidada de Dona Onça?

Eu sou doce, sim, mas tenho aí meus momentos de seriedade, coisas que realmente me tocam em realmente fazer as coisas com mais seriedade. Então, às vezes a seriedade passa para as pessoas uma entonação de uma mulher não doce, às vezes acontece um pouco isso, né?, das pessoas acharem que uma mulher forte não é doce. Mas, sim, eu tenho uma característica de ser doce, sim. 

Isso é algo que veio com a idade? Você tá prestes a completar 50 anos, e eu queria saber o que você aprendeu nesse tempo. 

Na realidade, o que eu mais aprendi foi nesses meus últimos três anos, né? Porque eu passei por momentos muito difíceis que eu não imaginava que eu fosse passar. Eu comecei a sofrer na pele coisas que eu não imaginaria que eu fosse sofrer. Mesmo com toda a minha resiliência desde criança, de ter nascido em cortiço, de ter sido criada em escola de samba e tudo mais. A gente, muitas vezes, não consegue entender as ingratidões, né? Mas, de certa forma, essas ingratidões que a gente acha que são ingratidões e deslealdades, e o machismo e aquela forma maldosa de lidar com o próximo, né? Principalmente quando uma pessoa é muito próxima da gente, né? De um parente, a gente nunca espera que vá ter deslealdades e traições. E a traição, às vezes, é até flexível. Uma traição, um deslize, porque nós somos humanos, nós somos de carne e osso. Mas as deslealdades, essas machucam a gente à beça. Eu tive que me deparar com muita coisa feia, que eu não imaginava, também senti um machismo muito nu e cru após a minha separação em vários âmbitos. Âmbitos masculinos, femininos, até familiares, tá?

“Tive que me deparar com muita coisa feia, que eu não imaginava, também senti um machismo muito nu e cru após a minha separação em vários âmbitos. Âmbitos masculinos, femininos, até familiares, tá?”

Eu tive apoio de dois homens maravilhosos que foram meus dois filhos. Então, esses me bastaram pra eu poder voltar lá atrás, na Janaína que começou vendendo sanduíche, vendendo coxinha nas ruas, e recapitular a minha história, me conhecer novamente. E, a partir disso, que muitas vezes a gente acha que é onde as pessoas ficam amargas, né? O meu foi o contrário. Eu realmente me despi daquilo que há muitos anos eu tava sendo espremida. Arranquei uma roupa muito apertada, aonde eu não estava percebendo que essa roupa estava muito apertada e, de repente, eu coloquei minha roupa leve e voltei a ser a Janaína lá de trás. Aquela Janaína com mais doçura, amando muito mais o mundo do jeito que ele é, entendendo que as pessoas têm defeitos e, quando acontecem, é interessante que a gente mesma se trata, né?, nessa questão de “como é que eu não vi, como é que eu não percebi, como é que eu não enxerguei de perto e enxerguei tantas coisas de tão longe, né?” Porque minha vida foi focada em trabalhar o futuro dentro do presente, mas eu não enxergava ao meu redor as coisas que estavam acontecendo e não prestava atenção. Tudo na vida tem que ter equilíbrio e o equilíbrio faz parte do todo, seja da parte boa, da parte ruim. Confiança demais não pode ter, mas confiança de menos também não pode ter, porque ninguém é igual a ninguém. Então, são vários fatores que contribuem para a nossa formação de maturidade. 

E durante esse processo você teve ajuda de alguma substância psicodélica?

Olha só, eu sou uma mulher muito curiosa de tudo, eu gosto de estudar tudo que tem no mundo, as culturas, a ancestralidade, mas eu não, nunca fui… É interessante isso, eu não gosto, eu não tomei nenhum remédio, nenhum antidepressivo, não tomei nenhum calmante e olha que foi muito sofrido, tá? Eu não usei nenhuma substância que pudesse me ajudar ou não. Na realidade, eu quis passar essa dor sola, eu quis passar essa dor sozinha para aprender com essa dor. E eu consegui fazer isso de certa forma e tive êxito nisso. Sempre gostei de entender todas as coisas que têm nesse mundo, mas eu nunca… principalmente se eu tô com algum problema, eu não recorro a nenhuma substância que possa me ajudar, nem remédio, nem para relaxar, nem nada. Eu prefiro entender o que está acontecendo a seco. Eu na realidade não uso nada, para não falar que eu não faço, eu bebo, mas eu bebi muito mais na minha adolescência e, óbvio, experimentei drogas na minha adolescência, né? O que chamam de droga, porque na realidade tudo pode ser droga. O açúcar é uma grande droga e a gente usa praticamente todos os dias na alimentação de um modo geral. Tanto que há aí um processo de diminuição de açúcar na alimentação hoje, adoçar com mel e tudo mais, justamente porque a gente já não sabe mais, ficou tudo muito perdido. O que é droga, o que não é droga, o que faz bem, o que não faz bem. Há de se ter muitos estudos em relação a tudo, pelo fato mesmo de evitar preconceitos e evitar vários danos sociais em relação ao que a gente acha que é certo ou errado.

“Quando eu fui pra Amsterdã, a primeira coisa que eu fui fazer foi conhecer os coffee shops, ver o que eram aquelas ervas todas ali e e entender como é que essa descriminalização estava acontecendo naqueles lugares

Porque não existe certo e errado. Existe a forma como a gente trata aquilo, que a gente, o que nos conforta e como que está o nosso equilíbrio emocional pra que a gente possa dizer se é uma droga pra gente ou não. Então, se faz mal ou se faz bem pra gente, aquilo que a gente está utilizando… o que eu utilizo muito hoje é mais a respiração do que qualquer outra substância que possa me ajudar. Mas, falando do todo, assim, quando eu fui pra Amsterdã, a primeira coisa que eu fui fazer foi conhecer os coffee shops, ver o que eram aquelas ervas todas ali e e entender como é que essa descriminalização estava acontecendo naqueles lugares. Como é que as pessoas estavam lidando com aquilo? Achei muito interessante o contexto geral. E eu me pergunto muitas vezes como é que poderia ser feito algo parecido no Brasil. Porque, obviamente, eu acho que qualquer pessoa que tem aí um pouco de noção de sociologia vai entender que a criminalização sempre vai afetar, ela acaba desprotegendo muitas vezes aquilo que poderia ser mais natural. Assim como você pode comprar corote de cachaça e as pessoas ficam alcoolizadas, alcoólatras e caídas pela rua. E muitos dos moradores de rua, que muitas vezes pensam que é por conta do crack, também, lógico, tem muitos moradores de rua por conta do crack, mas é muito mais pelo álcool. E você compra aquilo que você quiser com o seu dinheiro. A pessoa que vende está vendendo uma mercadoria para quem quer comprar algo que faz bem para essa pessoa ou que ela entende que é uma válvula de escape. Há muitos estudos e muitas pesquisas sobre a cannabis, em relação a muitas doenças a serem tratadas que não foram descobertas. E muitas mães desesperadas para ter as gotas do óleo para poder ajudar essas crianças e adolescentes. De coração, eu não gostaria que nenhuma substância, seja álcool, seja cannabis, seja o que for, fosse banalizada. Acho que tudo isso também reflete naquilo que a gente vai educar as nossas crianças nas escolas. Não existe nenhuma formação, hoje, dentro das escolas públicas, principalmente, em relação aos alimentos, vamos assim dizer.

“De coração, eu não gostaria que nenhuma substância, seja álcool, seja cannabis, seja o que for, fosse banalizada. Acho que tudo isso também reflete naquilo que a gente vai educar as nossas crianças nas escolas. Não existe nenhuma formação, hoje, dentro das escolas públicas, principalmente, em relação aos alimentos, vamos assim dizer”

Então, se uma criança, hoje, não sabe o que ela pode ou não pode comer, então, você imagina como é essa questão, você criminalizando e deixando a curiosidade dessa criança muito mais aguçada em relação a drogas sem explicar exatamente o que é. Porque se ela for provar já numa maturidade, já vai provar sabendo o que é, numa dosagem muito menor, ela vai ter essa curiosidade. Mas essa curiosidade já não é tão grande porque já tá ali uma cartilha pra ela, com todos os valores, inclusive, que essas substâncias podem ter em relação ao nosso corpo, em relação à nossa saúde mental. Tudo em demasiado vai fazer mal, mas de modo que as pessoas se relaxem, se sintam bem, também pode fazer muito bem. O problema é que se banaliza tudo e se criminaliza tudo, e aí fica difícil o equilíbrio quando a gente não estuda, quando a gente não sabe o que a gente tá falando, quando a gente cria preconceitos em relação a tudo isso. E olha, eu sou uma mulher que eu não uso cannabis, não me faz bem, porque, pra mim, ela me traz um certo pânico. Eu já provei, e eu fico com pânico, eu fico com medo, eu fico assustada. É  uma substância que pro meu organismo não combinou. Mas isso não quer dizer que, pro organismo de uma outra pessoa não possa fazer bem. Não é porque fez mal pra mim, que eu não me dei bem com essa substância, que vai fazer mal pra todo mundo. Eu tenho assim, na minha cabeça, que hoje todas as formas que a gente tem, todas as ferramentas que nós temos aí, no mundo, e ferramentas milenares, de ervas, medicinais, eu acho que a gente conhece muito pouco, sabe?

Isso que eu ia te perguntar, se você estuda ervas medicinais. Porque a gente começou a entender que a comida é o nosso remédio. Então, falando em comida enquanto remédio, as plantas medicinais têm um papel importante. Você está buscando informação a respeito?

Sim, até o último menu, eu fiz um menu com muitas ervas medicinais. Então, picão, berdroega, vinagreira. Tudo eu utilizei para que as pessoas saíssem muito felizes no dia seguinte, do organismo, da pessoa se sentir feliz no outro dia, quando ela acordasse. Porque, muitas vezes, a gente vai para um menu degustação e acaba comendo tanto que fica muito cheio. E aí aquela digestão não é feita de acordo com o que a pessoa deveria, porque come muita manteiga, come muita gordura, fica muito pesado. No outro dia, para ir no banheiro, complica, já muda tudo. Então, acabei entrando um pouco nos estudos das ervas medicinais. Eu acho super bacana. E vou ser muito sincera, já também estudei a parte da cannabis. Quando as pessoas fumam, por exemplo, depois do café, para muitas pessoas eu sei que ajuda na digestão. Eu não fumo porque eu não me dei bem com a cannabis (risos). É até uma pena. Mas eu acho que pode sim ter aí ativos que ajudam na digestão. E é interessante também você entender lá atrás, a nossa ancestralidade, os nossos povos originários, essa forma de relaxar, de descontrair, né? E não era criminalizado, então era algo muito leve de se fazer. Aquela época dos povos originários, eu acho que era uma coisa tão leve, tão genuína, tão pura. E acabava não fazendo nenhum tipo de dano à sociedade.

O que acontece hoje é que por a maconha ser criminalizada, eu vou ser bem nua e crua com você fica na mão de muita gente que não é séria. Talvez até uma joia que nós temos aí, que é o plantio dessa erva, porque não é uma erva ruim, né? Ela é uma planta que nasce, que cresce e que tem uma finalidade. Quando cai na mão errada de pessoas mais vulneráveis… porque acaba que eles misturam com um monte de coisa. Eu já tenho relatos aqui no centro de São Paulo que eles misturam com tal de melado, né? E vendem para os adolescentes se viciarem mesmo, para poder ter uma venda maior. Isso acontece. Isso é real. Por quê? Porque ela está criminalizada. Então, a partir do momento que ela fica nas mãos erradas, essa droga, ela vai para um lugar realmente onde não vai ser a cannabis em si. Eles vão misturar com substâncias sintéticas e químicas e as pessoas não vão saber. Quem está comprando, está comprando muito barato, porque não sabe nem como é o plantio, como é a comida e vai para uma outra esfera de produto químico, assim como o alimento. Se a gente for fazer uma comparação, as indústrias que colocam muito mais nitrato e nitrito do que se deve nos alimentos, e tantos corantes, tantos emulsificantes. E está legalizado, né? Você imagina. Se legalizado isso acontece, você imagina criminalizado. Então, eu sou uma mulher muito aberta para tudo isso. É um assunto que tem que ser falado. É um assunto que vai ter que ter muito diálogo daqui pra frente. Vai ter que ser muito bem pensado em como fazer. Mas uma hora vai ter que fazer. Não vai dar pra ficar empurrando com a barriga por quantas décadas mais.

Você já fez experimentações com a cannabis na cozinha? 

Eu não fiz porque ainda não me mandaram. Não recebi. Mas claro que se eu receber, eu vou fazer. Agora, quando eu fui pra Amsterdã, lá eu vi muita coisa, né? Cremes de pele, eu vi óleos essenciais pra massagem, chás. Os chás sem THC. Eu comprei os chás e achei bem gostoso, sim. E não utilizei a maconha ainda na cozinha porque não tive a oportunidade. Eu tive em Barcelona também. E em Barcelona tem acontecido algo interessante, que são os clubes que você fica membro e você entra, você pode fumar a sua maconha, que você compra lá. No Uruguai também aconteceu isso. 

Quando você viaja, você já falou de Barcelona e de Amsterdã, você acaba por acaso nesses lugares?

Não, acontece que eu tenho muitos amigos e eu sou uma mulher sem nenhum tipo de preconceito mesmo, real. Acho que cada um faz aquilo que realmente tem vontade de fazer. E eu fui porque eu estava junto, eles queriam parar para fumar o baseado deles e eu acompanhei eles nessa… como se estivessem entrando numa tabacaria para fumar um charuto. Eu não fumo charuto, já fumei, já experimentei. Mas não é uma coisa que eu adoro fazer. Na verdade, fumar não é algo que me seduz. Eu não gosto mesmo. Nem tabaco, nem cigarro. Nunca foi. Quando a pessoa fuma, se é um tabaco gostoso, eu não acho ruim o cheiro. A maconha também, eu não acho ruim o cheiro, não é uma coisa que me desagrada, mas eu também não fumo porque eu não preciso fumar pra entender que outras pessoas podem fumar. E cada um tem que saber aquilo que gosta, o que quer, o seu hobby, sua forma de viver, sua forma de pensar, é isso que falta a gente entender. A gente não precisa fazer pra gente entender e apoiar. E se for pra proibir esse tipo de produto, de erva, então tinha que proibir o álcool. O álcool tem produtos muito ruins no mercado, 70% álcool e a pessoa fica devastada por dentro. É muito dúbio, é muito contraditório. Então, o álcool pode porque é legalizado? Então, eu vou me preocupar mais do meu filho fumar maconha ou eu vou me preocupar com o álcool? Na verdade, eu me preocupo com os dois, entendeu? Porque eu não quero nem que ele caia num vício nem de um lado nem do outro. Se for pra usar, eu não gosto de nenhuma substância que possa causar vícios, que a pessoa não consiga parar. Eu acho que qualquer vício é ruim, experimentar e usar, eu acho normal. Agora, você não conseguir viver sem aquilo, aí vira uma droga, como medicamento, como a Neosaldina, que todo mundo tem que tomar uma. É igual, tudo igual. Se a pessoa todo dia acorda e toma uma Neosaldina ou se ela acorda todo dia e fuma um baseado, pra mim é a mesma coisa. Porque ela tá viciada igual. Se a pessoa todo dia tem que fumar um maço de cigarro ou fumar cinco, seis baseados, é a mesma coisa, se a pessoa não viver sem aquilo, é complicado. Mas como é que você tira esse vício? Como é que você faz com que isso seja social como quem toma uma, duas doses? Quem vai pra casa dormir, né? Porque trabalhou, teve um dia cansativo e usa como recreação, por exemplo. É você tendo saúde mental, tendo educação dentro de casa, tendo diálogo dentro de casa liberal, né? Você não pode simplesmente esconder, achar que não existe, não ter conversa e não conversar sobre o assunto.

“Eu não preciso fumar pra entender que outras pessoas podem fumar”

Pois é, você inclusive levou seus filhos pra darem uma volta na Cracolândia, né? Pra mostrar, olha, isso aqui é a realidade. Nessa volta, aproveitou também pra falar sobre drogas? Vocês tiveram esse tipo de conversa nesse momento? 

É, na realidade, nós tivemos um problema muito sério em relação a drogas dentro de casa, então eu não precisei nem falar quando eu dei essa volta na Cracolândia. Eu já fui, e quando eu mostrei, eles já entenderam o próximo passo do que nós tínhamos passado, entende? Tudo, a gente passou muita coisa feia dentro de casa, então, na realidade, são esses cuidados que a gente tem que tomar. Porque justamente por conta de falta de diálogo aberto e sincero entre as pessoas é que eu acho que muitas pessoas caem no vício durante a adolescência e a infância. Você não tem um diálogo sincero, aberto, honesto e você não expõe as suas preocupações, mas você fica apontando pro vizinho que fumou maconha. Aí você esquece quem tá dentro da sua casa… cara, todo mundo tem curiosidade. Todo mundo vai acabar provando de tudo. O remédio, o álcool, a maconha e tantas outras coisas, que eu não sei nem os nomes mais, né? Tipo, eu tô já com quase 50 anos, eu já não sei mais nome de nada (risos). Tem gente mais jovem trabalhando comigo e às vezes eu pergunto qual é a nova droga aí que vocês estão vendo, que tá sendo utilizada, o que tá acontecendo? Outro dia era não sei o que lá rosa, o outro é não sei o que lá. As pessoas têm medo de falar sobre o assunto. Não querem dar entrevista, não querem falar, têm medo de abordar os assuntos em relação a isso, e têm medo que… Ah, então quem fuma vai achar que eu sou careta, que eu sou conservadora. Ninguém é careta por não fumar e ninguém é obrigado a ser muito louco também, de fumar o dia inteiro. Mas a realidade é que essas coisas existem. Todas as coisas existem. O álcool nasce da fermentação, se existe é porque tem uma razão. Tudo que existe aí de substâncias e tal, existe por alguma razão, se não, por que que existe? Vamos estudar qual é a razão, vamos aproveitar o máximo que a gente pode para o uso medicinal, vamos entender a realidade, vamos falar “olha, você é a favor da descriminalização e tudo mais, mas como é que você enxerga a pessoa também fumar tanto e ficar paralisada, que não consegue trabalhar?” Porque também existe isso daí. Existe quem fuma tanto que não consegue trabalhar, que paralisa, fica com o cérebro parado. E existe aquela que, pô, fuma lá seu baseadinho e tal e consegue criar, trabalhar, fazer um monte de coisa bacana e relaxa e tá tudo bem. Então, é isso, é o equilíbrio mesmo, é a vontade de aprender, é a vontade de estudar sobre o assunto, é a vontade de se inteirar sobre o assunto. Eu entrei mesmo nos coffee shops e vi as coisas todas, achei um barato aquilo tudo, acho que é interessante e, ao mesmo tempo, me dá medo das pessoas também acharem que, uau, agora descriminalizou e começar a querer lacrar com isso, a lacração também não me agrada, eu acho ruim. 

Você falou agora que teve essa questão na sua casa, eu imagino que com algum dos seus filhos…

Não foi com os meus filhos, não, nenhum deles.

Então foi com alguém que frequentava a casa?

Isso, muito próximo, bastante próximo mesmo, era uma pessoa que morava com a gente mesmo. 

E antes você teve essa questão também com o seu pai, né? Ele era usuário… 

Meu pai, ele tomava baque e morreu com AIDS em (19)89, usava todos os tipos de drogas, e eu acho que é por isso também que eu nunca quis me envolver, assim, muito com essa história, eu sempre tive muito medo dos vícios.

Ninguém é careta por não fumar e ninguém é obrigado a ser muito louco também, de fumar o dia inteiro. Mas a realidade é que essas coisas existem. Todas as coisas existem

Mas quando é que você entendeu que aquilo que o seu pai tinha vivido tinha relação com as drogas, quando você entendeu a função social das drogas ou, enfim, onde você tinha que ter um pouco mais de cuidado? Teve um momento específico ou desde sempre, assim? 

Desde sempre, né? Imagina você ver seu pai definhando com 14 anos, tendo que dar banho no seu pai, meu pai definhou, entendeu? E eu vi meu pai a vida inteira fumando maconha e tudo mais, né?, e outras pessoas de muito perto, que só foi uma repetição daquilo que meu pai fez no passado. E a gente sempre acha que a gente vai salvar as pessoas dos vícios e, nada disso, ninguém salva ninguém, ninguém é dono de ninguém, ninguém tem o poder de nada sobre ninguém, o que realmente precisa existir é o que eu falo para os meus filhos, eu nunca tive problema nenhum com droga com os meus filhos, mas às vezes com álcool, e eu falo “cara, assim, o álcool para mim é realmente o que a gente mais tem que tomar cuidado”. Já tomei vários porres de felicidade, numa festa e tudo mais, mas para ser bem sincera, no outro dia eu acordo bem ruim por conta disso, fico “ai, porque merda que eu bebi tanto”, que é uma dor de cabeça terrível, então quer dizer, você bebe sabendo que vai te fazer mal.

Jana, você tem um sítio, já pensou em plantar maconha lá?

Não pensei, não pensei. Mas eu sei que tem muita gente aí pensando em plantar, pensando em ter algo puro, né?, algo que a pessoa saiba, quem gosta de fumar… eu, se eu fumasse, eu ia querer plantar. Óbvio, porque eu vou ficar comprando da mão, vai passando de mão em mão. Você não sabe nem o que tem mais ali. E é aquela história que eu te falei, por ser criminalizado, passa de mão em mão, e mão em mão errada, com misturas, com coisas que realmente eu teria muito medo de fumar maconha, comprando da mão de quem eu não conheço e não sei de onde vem. Tudo tem que ter procedência, de onde vem, como faz, quem plantou. A cannabis é igual o alimento, você tem que saber de onde vem, é muito menos arriscado, é muito mais protetor, isso, né?, do que você deixa aí nas mãos erradas, de gente aí fazendo coisa feia com a cannabis. E às vezes nem tem cannabis… pega aí um pouquinho de maconha e mistura com um monte de coisa horrorosa.

E, Jana, você é uma mulher que vive a noite de São Paulo há mais de três décadas, a maconha é uma realidade?

Eu sinto bastante cheiro de maconha aqui no centro de São Paulo. Sinto, assim, né?, nas ruas, vejo que as pessoas estão fumando. É uma realidade, isso daí não tem jeito. Tem que descriminalizar e ver no que vai dar. Eu sou a favor, sim, da descriminalização. Acho que talvez com uma forma educacional, com campanhas, pra descriminalizar, você tem que ter campanhas. Assim como as vacinas, assim como tudo. Tudo tem que ser falado, os danos e os bônus. 

Como é que foi esse rebranding de Janaína Rueda pra Janaína Torres? Teve gente que deixou de associar o nome à pessoa?

Eu me separei e eu não posso ficar com o nome da outra pessoa, não é agradável, eu não tive uma separação amigável, foi tumultuado, foi complicado. Não foi legal. Poderia ter sido melhor, né? Poderia ter sido amigável. Poderia ter tido vários acordos, mas não deu pra ter. Hoje eu tava vendo a entrevista, o documentário do Jô Soares. Eu achei tão bonito a Flavinha falando que ele pediu pra ela ficar com o sobrenome dele, e ela se emocionou na frente do juiz. Olhou pra ele e falou assim “nossa, eu vou ter o maior orgulho de carregar seu sobrenome”… poderia ter acontecido comigo? Poderia, mas não aconteceu. Porque eu não tive nenhum orgulho de puxar esse nome pra mim. Eu não tive nenhuma razão pela qual eu puxasse esse nome pra mim. Uma pena porque eu gostaria de ter continuado, talvez. Pelo histórico, pelo que construímos juntos. Mas foi muito… tá sendo ainda muito difícil essa separação. Não tá sendo muito boa. Então, é… que bom que eu mudei. Que eu mudei a página. E que eu mudei o disco. E que eu trouxe meu nome de quando eu não era casada de volta. Quando eu mudei o meu nome, aquela Janaína doce parou de existir, e ela ficou 20 anos aí, um pouco amarga, sem saber a razão pela qual ela estava amarga. Então ela volta, a Janaína de sempre, de lá de trás, que gosta de gente, que entende mais as pessoas, que fica mais leve, que entende melhor a vida e leva a vida mais amena. Lógico, com todos esses anos, essa seriedade minha, ela continua muito à tona, mas eu precisava mesmo resgatar a minha doçura, como você mesma percebeu, e talvez, se você tivesse conversado comigo antes, talvez você não tivesse percebido que talvez eu fosse essa mulher um pouco mais doce do que as pessoas imaginam. Mas foi muito bacana, mesmo sendo mais dura. Talvez se eu tivesse sido tão doce, eu não tivesse construído tudo que eu construí.

Você nasceu num cortiço e hoje é uma mulher que circula pela alta sociedade. O que essa mobilidade social te trouxe no seu entendimento sobre, por exemplo, o dinheiro?

Olha, é muito interessante isso daí, porque eu sempre andei na alta sociedade por causa da minha mãe. Nós éramos muito pobres, mas a minha mãe trabalhava no Gallery, no Hippopotamus, então eu circulava mesmo. Eu tive uma festa de aniversário no Gallery, eu andava igual uma princesa pra cima e pra baixo, mesmo sem um tostão. Às vezes minha mãe não tinha um tostão na carteira, mas a gente sempre frequentava lugares bonitos e coisas legais. E as casinhas que eu morava, os cortiços, sempre muito arrumadinhas, muito limpas, tudo organizado. Eu sempre gostei de cozinhar. Então eu sempre cozinhava. Lógico que hoje eu tenho uma condição melhor do que eu tinha antes, mas o dinheiro foi consequência do meu amor pelo meu trabalho. E aí eu tive uma condição um pouco melhor de poder ter minhas coisas, de poder comprar uma roupa melhor, de ter… mas eu sou uma mulher que não gosto de ostentar nada. Vivo muito bem com pouco. Eu não tenho, assim… eu gosto de viajar, né? E aí eu também acabei viajando pelo trabalho, que também acabou me facilitando muito a vida, de nem gastar tanto dinheiro assim, porque eu conheço o mundo inteiro a trabalho, então acaba também que eu não precisei gastar muito dinheiro em relação a isso. Mas eu invisto muito nessa questão cultural da minha vida. Viajar e conhecer coisas novas é o que me alegra, o que me deixa feliz. Poder conversar com você e falar desse tema, que para todos nós é importante, não só para vocês que trabalham com isso, mas acho que para a sociedade de modo geral. E ter conhecido lugares como Amsterdã, Barcelona, tantas vezes fui para lá, tudo a trabalho, e olha quantos assuntos eu, uma mulher que não estudei formalmente, mas na prática eu estudo através de tudo isso, dessa forma minha de enxergar o mundo. Eu nunca me senti rejeitada pelo mundo, essa é a verdade, sempre me senti acolhida pelo mundo como um todo. Talvez eu tenha sido privilegiada, eu nasci num cortiço, mas eu nasci uma mulher branca, de olhos claros. Então, obviamente, eu lutei muito para chegar onde eu cheguei, e muito mesmo. Mas, ali no contexto que eu vivia… as portas se abriram para mim de uma forma diferente do que para algumas amigas, tirando algumas muito resilientes mesmo e muito fortes, que bateram o pé na porta e abriram mesmo. Afinal, a nossa escola foi a escola de samba. A escola de samba é talvez hoje a melhor escola do mundo para você ser uma pessoa resiliente. Eu sempre indico às pessoas para conhecerem uma escola de samba, se aprofundarem, porque é interessante o aprendizado dentro de uma comunidade, porque na comunidade você vai ter que conviver com tudo, de um modo geral e é difícil você criar preconceitos dentro de uma comunidade, porque todo mundo é tão vulnerável a tantas coisas, né? Uns mais, outros menos. Então, o diálogo fica mais fácil também quando você vive em comunidade. Eu sempre indico, assim, mesmo quem nasce aí com um certo privilégio de uma classe social mais alta e tal, é que vai conviver mesmo dentro de comunidades para ter aí a parte humana mais assertiva lá na frente.

“Isso é uma coisa que sempre me interessou muito, exaltar aquilo que o meu país traz de genuíno. E o que o meu país traz de genuíno hoje é justamente técnicas alimentares mais ancestrais”

Em março você foi eleita a melhor chefe do mundo pela Awards 50 Best, além de outras premiações que você vem colecionando ao longo da sua trajetória. Que impacto tem esse tipo de premiação na imagem que você tem de você mesma?

É interessante, porque eu fiquei muito feliz, muito realizada, porque eu entendi a razão pela qual, nesse momento, eu ganhei essas premiações. O mundo está indo para um caminho de identidade cultural mesmo. E, querendo ou não, agradando ou não a algumas pessoas, acaba que a identidade cultural está muito ligada na forma como você exalta os seus alimentos e as técnicas do seu país. E isso é uma coisa que sempre me interessou muito, exaltar aquilo que o meu país traz de genuíno. E o que o meu país traz de genuíno hoje é justamente técnicas alimentares mais ancestrais. Então, eu lutei muito por isso, bati muito o pé por isso. E, quando nós somos reconhecidos com isso, eu acredito que a gente vai desagradar muitos colonizadores, inclusive, mas nós vamos, de certa forma, mostrar a nossa identidade mais genuína. Batendo de frente com essas barreiras, a gente vai atravessando esses obstáculos, essas barricadas que vão nos colocando para que a gente se enfraqueça. E eu acho que foi uma força muito importante para a cultura da vida cotidiana brasileira, principalmente, acho que existem milhões de grandes mulheres cozinheiras no Brasil, e mulheres que estão completamente desconhecidas desse mundo. Acredito que eu tenha sido eleita justamente por eu bater tanto pé nessa cozinha cotidiana. Mas é óbvio que vai desagradar a muita gente que pensa que alta gastronomia é outra coisa. E aí precisa rever os conceitos. É igual pensar que você não pode fumar, ou que você não deve, ou que tem que ser proibido. A cozinha brasileira não pode viver só de técnicas estrangeiras, ela tem que viver com a sua técnica genuína também. Então, vamos passando barreiras, vamos tirando essas barricadas e vamos caminhando para o futuro. Um futuro melhor para todo mundo, com diversidade, com as pessoas dialogando sobre o todo e não julgando o próximo, o que também é bastante importante.