
Xapa Xana é a marca que virou sinônimo do produto, e por mais que seja lisonjeante, no caso específico de um lubrificante íntimo feito a base de maconha, num país onde a venda desse tipo de produto é ilegal, pode ser, na verdade, um problema. Há poucos dias saiu em toda parte a notícia da prisão de um grupo no Distrito Federal que vendia um lubrificante canábico, um tal de Xapa Xana.
Se a Danone, o Sucrilhos e a Durex muito se beneficiaram de ter virado sinônimo dos produtos que comercializam, a Débora Mello, que criou a marca em 2017, no Uruguai, vira e mexe precisa explicar que nem todo Xapa Xana é o original. Nesse caso específico do DF, a marca do grupo que foi preso se chama Aruanda e foi aventada pelos jornalistas como Xapa Xana sem qualquer checagem, acusa Débora.
“Eu acredito que a confusão toda começou a partir dos jornalistas, que não consideraram que Xapa Xana é uma marca registrada de um projeto que foi desenvolvido no Uruguai, onde já é legalizado”, diz. Segundo Débora, uma matéria sobre o Xapa publicada em 2018 pela Vice ainda é muito popular, o que colabora para a tentação do clickbaite. “O jornalista queria visualização da matéria, então foi lá e colocou Xapa Xana, e todos os outros jornalistas fizeram copy paste, assim começou”, explica ela, que passou os últimos dias respondendo a centenas de mensagens de familiares e amigos preocupados com a situação por conta de um provável erro jornalístico.
Além do lubrificante, a operação da polícia no DF também encontrou outros subprodutos de cannabis e partes da planta em poder da Aruanda, enquanto o Xapa Xana original trabalha apenas com o lubrificante. “A Aruanda provavelmente fez o produto inspirado no Xapa, como muitos outros produtos também foram, e assim como o Xapa também foi inspirado em outros produtos a base da planta.”
O diferencial do Xapa Xana original, além de ser portador de uma fórmula testada e aprovada pela vox populi, é a conexão que Débora, que é arquiteta e artista visual, faz questão que a marca tenha com as artes. “Sempre convidando artistas latino-americanas para desenvolverem ilustrações, colagens e fotografias para compor o kit de entrega do produto, para aplicarem suas artes e falarem sobre a conexão que elas têm com a sexualidade delas, com o sagado feminino”, diz a empreendedora, que está prestes a lançar o produto registrado pelos órgãos sanitários do Brasil, coisa que deve acontecer na ExpoCannabis Brasil, em novembro.
No início, era a brisa
A gênesis da Xapa Xana já foi contada e recontada inúmeras vezes, mas quais serão as brisas da Débora, essa mulher pioneira na arte de desbravar o mundo da erva, testar, quase sempre na própria pele, o que vale, o que não, e criar um produto bem avaliado pelo público? Evidentemente, Débora é possuidora de uma infinidade de memoráveis histórias, várias delas da época da faculdade, que cursou em Curitiba.
“Tinha uma casa de uns amigos que ficava no fundo da facul, a gente se encontrava lá pra fumar um no intervalo ou no fim das aulas”, conta ela, lembrando que nesse QG de histórias hilárias nasceu a ideia de dar baseados de presente de natal para a vizinhança. “Cada um doava um beque, era o dízimo”, conta, rindo. “E a gente doava pra galera porque a gente sabe que o que você dá, volta em dobro. E nunca faltava, então é isso, circulando a energia de forma positiva e colaborativa.”
Os sortudos dos presenteados eram vizinhos da universidade que davam alguma pinta de maconheiro e recebiam seu baseado surpresa direto na caixinha do correio na véspera do Natal. “A gente imaginava que as pessoas iam ficar felizes, a única questão poderia ser algum careta que talvez jogasse fora ou ficasse com raiva, ou talvez as pessoas não soubessem que aquilo é um baseado, mas a gente sempre imaginava a história com um final feliz.”
Também naquela época, há mais ou menos 15 anos, fez o seu primeiro cultivo caseiro, e ficou maravilhada com o avanço do plantio. “Eu falei ‘vou comer essas folhas verdinhas, deve ser bastante ferro’. Eu colocava na tapioca e um dia resolvi fazer uma salada”, recorda, absolutamente desacreditada da própria ingenuidade.
“Daí eu misturei com alface, com rúcula, eu comi a salada e de repente comecei a ficar muito chapada porque como já estavam nascendo as flores e essas folhas tavam com tricomas. Eram folhas nevadas, digamos assim”, conta ela, que preocupada com o descontrole da situação, mandou áudio pra uma amiga contando do ocorrido e dizendo que se ela não aparecesse em 24h… “Já sabe o que aconteceu”.
Receita da família
Tão vastas quanto as histórias do tempo da universidade são as histórias que Débora coleciona das vivências em família, uma família de raízes religiosas, diga-se. “Hoje em dia tá mais normalizado até com o meu irmão, que é pastor.” Uns meses atrás, por exemplo, seus pais pediram pra que ela ficasse cuidando de uma tia com mais de 80 anos, enquanto eles fariam uma viagem rápida.
Pois bem, lá estava Débora, que no bate papo com a tia, soube que a senhorinha não tinha uma boa noite de sono fazia tempo. Débora não pensou duas vezes e botou extrato de cannabis debaixo da língua da tia, explicando que se tratava de um extrato de ervas. “No dia seguinte perguntei se ela tinha dormido bem e ela disse que tinha dormido maravilhosamente bem, então é sobre isso. Às vezes as pessoas têm preconceito com uma planta que elas nem conheciam, mas depois que conhecem, agradecem.”
Uma das histórias que une as duas melhores palavras-chave da busca pelas brisas da Débora, tempos de universidade e família, remontam a um fim de semana prolongado que seus pais a haviam convidado a uma viagem em família a Campos do Jordão. “Uma viagem bem terceira idade, e eu falei ‘cara, não vai rolar fumar um, então vou ter que fazer alguma coisa’”, recorda ela, que em seguida foi lá lavar o prensadinho para cozinhar uns biscoitinhos mágicos.
Tirou a fornada de biscoitos do forno para esfriar antes de embalar e disse à mãe que tinha feito biscoitos pra levar pra um evento na faculdade, que a receita tinha dado menos, que estavam contados, enfim, um monte de desculpas pra que a mãe não comesse os biscoitos mágicos. “E por quê eu falei isso pra ela? Porque a minha mãe é taurina, certeza que se ela visse essa fornada ela ia comer uma e ia ficar mucho loca.”
Quando a Débora voltou pra contar os biscoitos… adivinha? Faltavam dois. “Pô, mãe, você comeu dois? E ela ‘não, minha filha, eu dei um pra sua sobrinha’.” O resto da tarde foi inteira de olho na mãe, que capotou no sofá e só acordou à noite, e na sobrinha, que para o quintal foi e no quintal ficou interagindo com a natureza. “Essa sobrinha fuma um comigo hoje e eu tenho certeza que ela acostumou com a cannabis desde aquele momento.”
Anita Krepp