
Erica Malunguinho já fez parte da política institucional, tendo sido a primeira pessoa trans a ocupar um cargo de deputada no Brasil, eleita em 2018 para Assembleia Legislativa de São Paulo. Mas voltar pra lá não está nos seus planos, que agora mesmo estão focados numa viagem “de volta pra casa”, pela África. A trip faz parte do roteiro de gravações do documentário “Mulheres Negras em Rota de Liberdade”, da diretora Urânia Muzanzu, que vai levar Erica de viagem por Togo, Nigéria, Senegal, Angola e Gana, junto com outras pérolas do movimento feminista negro contemporâneo, como Conceição Evaristo e Luedji Luna.
Favorável à legalização da maconha, Erica defende que para além da regulação do uso medicinal, também é urgente a liberação do uso recreativo da erva, o que ela faz desde a adolescência e que a ajudou em um momento especialmente delicado: para recuperar o bem-estar pós-cirurgia de redesignação sexual, que fez na Tailândia há alguns anos.
Nesta conversa com Anita Krepp, Erica Malunguinho falou das suas experiências com a cannabis e da sua prática ritualística com a jurema sagrada, em cuja raíz está o DMT, substância psicoativa também presente na ayahuasca. De quebra, fez ainda uma análise das eleições municipais em São Paulo, onde a também trans Amanda Paschoal foi eleita vereadora com 108 mil votos como um fenômeno, segundo Malunguinho, típico da extrema direita.
Qual análise você faz desse primeiro turno das eleições que acaba de acontecer, especificamente sobre São Paulo?
Nossa, acho que a gente tem um cenário muito preocupante, com o crescimento de discursos vazios na política institucional, e como isso tem tido cada vez mais aderência, e é óbvio que isso é um planejamento da extrema direita conservadora, que encontrou uma falha, um vazio na comunicação entre o campo progressista e as bases. Existe uma falha, um distanciamento de comunicação gigantesco, e aí eu falo tanto do ponto de vista que a gente, no campo progressista, não elegeu pessoas que são totalmente vinculadas aos movimentos sociais de base, a gente tem vivido um momento em que as redes sociais tomaram conta absolutamente de tudo. E aí a gente tá falando do discurso político, da aderência política e etc. Então é óbvio que dentro desse lugar tão abstrato e tão volátil que são as redes sociais, a comunicação do conservadorismo e da direita consegue acessar o sensível das pessoas, isso é bem complexo e óbvio, sem falta de lastro com o movimento social, sem falta de uma comunicação constante. E quando a gente observa, por exemplo, que as maiores votações do Boulos, grande parte, são dos bairros de classe média, a gente vê que há um distanciamento real, porque o Boulos deveria ser o candidato das classes menos favorecidas, até porque todo seu discurso em relação à moradia é super importante, ele é uma figura importante na política, enfim, e isso não está chegando em quem realmente precisa chegar. Então que comunicação é essa? Que caminhos são esses que a política tem desenhado e está delimitado pela volatilidade das redes sociais? Que não tem chegado de forma objetiva para quem mais depende dela? Aí você vê o fenômeno Pablo Marçal, depois de ter sido desmascarado diversas vezes, desde o laudo falso, do exame toxicológico do Boulos, até todo o seu histórico de enganações, de golpes financeiros e etc., mesmo com toda essa força, com toda essa negatividade, todo esse espectro negativo em torno dele, e com a mídia hegemônica também trabalhando para desmascarar ele, mesmo assim ele ter aquela quantidade de votos diz muito sobre a questão de comunicação e como as informações e os sensíveis eleitores estão acessando a narrativa política.
Por outro lado, a Amanda Paschoal foi uma das vereadoras eleitas com uma das votações mais expressivas, com 108 mil votos. Se era impensável ter pessoas trans na política até há poucos anos, hoje a gente observa um aumento desse cenário. O que aconteceu nos últimos anos para que isso fosse possível?
A gente tem uma história que acontece, tem histórias de movimentos e organizações sociais diversas que foram potencializando discursos, uma luta, uma prática política que foi impulsionando que a imagem e o imaginário sobre a população trans se deslocasse. E aí a gente tem o campo das artes fortemente trabalhando nesse imaginário e a gente não pode desvincular isso e achar que isso está no estricto da luta política institucional, isso é uma mobilização da cultura em relação a esse imaginário. E óbvio que a minha eleição fez uma completa diferença nesse cenário, ainda mais ao mesmo tempo que Bolsonaro foi eleito. E a gente tem, antes de mim, a (Kátia) Tapety, que é da cidade de Colônia, no Piauí. A Tapety foi uma vereadora eleita por dois mandatos, se não me engano, e depois se candidatou à prefeitura. A Tapety é uma mulher trans, mas em nenhum momento ela precisou evocar, ou dizer, ou falar sobre essa pauta. Então, embora o corpo dela seja um corpo político, de ser uma mulher trans, ela não tinha, de forma alguma, um discurso que movimentasse isso. E a gente tem o Thammy, também, que a gente esquece porque ele está na direita, mas ele foi eleito, ele é um cara trans. Mas fui a primeira pessoa trans eleita com discurso e prática radical em torno da discussão de gênero, fiel, lá em 2018. E óbvio que isso faz diferença em termos de imaginário, em termos de alargamento da discussão.
“Fui a primeira pessoa trans eleita com discurso e prática radical em torno da discussão de gênero, fiel, lá em 2018. E óbvio que isso faz diferença em termos de imaginário, em termos de alargamento da discussão”
Acho preocupante que a discussão sobre as identidades e representatividade precisa efetivamente de aprofundamento. E assim, eu acho preocupante figuras que simplesmente apareceram numa eleição. É muito delicado isso que eu vou falar, mas para mim o fenômeno da Amanda ter tantos votos é o mesmo fenômeno, volto à mesma questão, porque eu não a conheço pessoalmente e, obviamente, eu vou respeitar a história dela, porque eu sei que ela está no campo progressista, mas acho complexo uma pessoa que não tem qualquer tipo de envolvimento histórico em movimentações neste campo e na luta chegar assim. Eu acho que é o mesmo fenômeno da ultra direita. É preocupante, porque a gente está trabalhando com o imagético. A disputa ideológica, ela está no campo imaginativo e não está no campo do lastro, do estofo, da construção.
Agora falando sobre o baque da comunidade negra com as acusações de assédio feitas em relação ao ministro Silvio de Almeida e que, infelizmente, também envolveram uma mulher negra?
A minha análise não é tão diferente da conclusão básica. Acho que há uma história de poder centralizada na figura masculina e que se distribui de forma totalizante para todas as pessoas, de forma total e hegemônica para todas as pessoas, sejam elas homens ou mulheres, cis ou trans, héteros ou sexo diversos, sejam brancos ou sejam pretos. Esse poder centralizado na figura masculina, a autorização desse poder masculino, é distribuída para absolutamente todo mundo. E as pessoas vão respondendo a esse poder da forma que elas podem, que elas conseguem, ou elas respondem na oposição a isso, que seria o mais óbvio dos grupos marginalizados, ou elas correspondem a isso de alguma forma. E eu acho que o que aconteceu foi exatamente uma correspondência a esse lugar tão óbvio que é a centralidadde do poder de uma masculinidade violenta. Acho que foi essa correspondência que aconteceu, não foi uma oposição a isso. E acho que ao mesmo tempo que há um algoz aí nesse fazer e que se há o algoz, se houve a prática, deve ser obviamente investigado e receber a devolução que a legislação prevê… da mesma forma que há esse algoz, há uma vítima desse sistema. E aí eu tô falando a vítima, tanto a mulher, que é a Anielle, quanto ele também, que corresponde a esse uso dessa masculinidade para o exercício de uma violência, mesmo ele estando nesse grupo minorizado, inferiorizado, e por isso mesmo ele não deveria efetivamente produzir isso.
E Érica, conta um pouco pra gente o que você tem feito agora. Você é uma intelectual, e também uma artista multifacetada. O que vem por aí?
Então, eu estou indo pro continente africano. Vou passar um mês lá. Estou rodando um filme lá que a gente já começou, chamado “Mulheres Negras em Rota de Liberdade”, da diretora Urânia Muzanzu. Vou pro Togo, Nigéria, Senegal, Angola e Gana. A gente está fazendo uma diáspora ao contrário, começou no Recôncavo Baiano, um grupo de mulheres que estão vivendo a liberdade, falando a liberdade, falando as negritudes por esses territórios. Somos eu, Luedji Luna, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Mirtes Renata (a mãe do menino Miguel, do Recife) e Carla Akotirene. A gente vai pro continente pra fazer as conexões no território africano e experimentar o que são essas mulheres negras em rota dessa liberdade. E vou me dedicar mais profundamente ao meu ativismo político, que sempre esteve calcado no campo da cultura, porque efetivamente incide em tudo. O conceito que eu mais gosto de cultura é o que minha avó sempre me dizia, que é cultivo. Então, eu vou me dedicar a esse campo da cultura, do cultivo, e continuar pensando estratégias e difundindo estratégias de emancipação coletiva.
Falando em cultura e cultivo, a gente sabe que o Nordeste tem uma cultura canábica muito vibrante, então como foi pra você, que é natural de Pernambuco, viver a cultura canábica na sua juventude?
Olha, é tão interessante isso, porque a maconha sempre esteve presente. O polígono da maconha, inclusive, fica em Pernambuco. E, obviamente, essa presença da cannabis, da maconha, ela também está associada a uma presença, a uma imagem negativa. Ou você participa do uso, ou você critica esse uso, porque, obviamente, há um processo de marginalização. Embora eu não consiga entender isso, porque fumaça e cachaça é fundamento, inclusive espiritual. Então, isso corresponde a fatores muito anteriores à discussão política da cannabis. Ela faz parte do cultivo, da cultura de determinadas sociedades e, obviamente, lugares que têm uma ligação, um elo muito forte com a ancestralidade, culturas indígenas e africanas. E, imediatamente, ervas, o uso de substâncias naturais, ela é correspondida. E é na mesma medida que isso traz a marginalização, porque é a marginalização do povo negro, do povo indígena e etc. Então, eu vivia isso. Eu via acontecer, mas eu via também todo esse estigma presente. E a primeira vez que eu usei maconha foi bem interessante, porque foi com um grupo de amigos, a gente estava num dia de Halloween, inclusive, e a gente foi para um cemitério. (risos) Aí, levaram umas abóboras e tal. Era uma coisa muito fake, porque estavam brincando de dia das bruxas, do cemitério e tal. E foi a primeira vez que eu fumei maconha.
“A maconha sempre esteve presente. O polígono da maconha, inclusive, fica em Pernambuco (…) faz parte do cultivo, da cultura de determinadas sociedades e, obviamente, de lugares que têm uma ligação, um elo muito forte com a ancestralidade”
Como é que foi essa experiência, quantos anos você tinha?
Ah, eu acho que 16 anos. A gente viu todo mundo, foi super perigoso, porque a gente tinha que atravessar um muro, assim, um muro para chegar a um lugar onde a gente tinha fumado, uns seis amigos. Ao contrário do que as pessoas possam pensar. Não tinha ninguém de crime, etc. Nada. Era um grupo de adolescentes brincando e se divertindo, indo fazer uso recreativo de maconha. E aí a gente chegou lá, foi interessante. A gente começou a fumar. E foi bem engraçado porque eu tive um ataque de riso lá, assim, absurdo. Meu Deus do céu, que vergonha. Eu tive uma crise de riso e foi gostoso porque, no final, eu me lembrei muito de tanto que o sorriso me fez bem. Ativou algumas coisas muito positivas em mim, assim, em termos de bem-estar, de leveza, e é interessante, porque eu vivi um momento de descoberta desse processo, né?, de um processo de conscientização sobre sexualidade, questões de gênero, etc. e tal. Eu vivia num tensionamento constante, eu vivia uma vida muito calculada, porque eu sabia que eu não podia ser descoberta. E foi bonito porque a maconha me liberou, eu tirei muitos tensionamentos do meu corpo, das ideias e eu simplesmente consegui não pensar nisso. Foi bem terapêutico, foi muito importante, muito importante, porque eu destravei, né?, a tensão, a racionalidade, o medo dessa coisa das pessoas fazerem um julgamento, etc., porque eu simplesmente tava feliz e podia socializar sem me preocupar.
Então com 16 teve essa apresentação ao poder da planta, daí, depois, você pegou na mão da maconha e falou “vou usar isso aqui como uma ferramenta pra melhor lidar comigo”?
Sim. Depois daí, eu comecei a usar por alguns anos, até eu vir pra São Paulo, em 2001. E aí, olha que interessante porque, obviamente, eu tinha acesso a uma maconha natural. Inclusive tinha uma coisa muito interessante, porque lá no Recife Antigo tinha um centro histórico de Recife, né?, o Recife Antigo, que era um lugar bem importante de cultura e arte alternativa, tinha bares alternativos também e, ao mesmo tempo, tinha uma burguesia que vivia no Recife Antigo, porque foi até, inclusive, naquele processo falido de revitalização dos centros históricos, que aconteceu no Pelourinho, aconteceu no Recife Antigo, na gestão do Fernando Henrique. Aquele processo higienista que revitaliza o centro histórico, mas não tem a população que mora ali. Então, obviamente, a classe média, ela vai, porque ela vê aquele modismo acontecendo e, daqui a pouco, ela vai embora. Mas tava nesse momento que tava todo mundo vivendo ali no Recife Antigo. Tava lá a patricinha de salto nos paralelepípedos do Recife Antigo, e a galera do rock, do manguebeat, maracatu, que era aquela coisa muito pernambucana. E eu lembro que os meninos vendiam na rua, assim, o cigarrinho pronto, e não era uma coisa escondida. E tinha também o lance que eles tinham um sacão, assim, de açúcar, com muita maconha. E aí você pagava cinco reais e quanto você conseguia pegar com a mão, você levava. Então você vê, existe uma proibição, obviamente, que não tinha legalização. A gente sabe muito bem a perseguição que tinha, mas tinha espaço pra que esse tipo de coisa acontecesse abertamente.
Você vivia isso em Pernambuco, e aí quando chegou em São Paulo, imagino que você teve contato com o prensado do Paraguai.
Exatamente. O que aconteceu, quando eu cheguei em São Paulo, foi tentar ter acesso. Primeiro que a forma de adquirir já me deixava com problemas. Porque assim, efetivamente, é você se vincular e se aproximar de uma cadeia produtiva muito negativa e nefasta. Junto com a criminalização vem a estigmatização, vem a vulnerabilização de pessoas, que vai levando e encostando essas pessoas para a marginalidade e, consequentemente, para atos ilícitos. E eu não estou falando do uso da maconha, estou falando da cadeia produtiva, né?, improdutiva, que gira em torno do tráfico. E aí isso já me dava uma crise, porque assim, poxa… eu já carrego em mim, no meu corpo, muitos estigmas da marginalidade. Preta, trans, etc. Então já carrego isso. E aí estar associada a esse fluxo, para mim, era uma coisa muito impensável porque eu fui criada de uma maneira para me sentir responsabilizada pelos meus atos e exatamente por todos esses recortes e essas identidades que o meu corpo carrega. Então minha mãe, minha avó, enfim, sempre foram muito rígidas em relação a isso. Só que eu parei, porque eu comecei a desenvolver paranoia, fruto, obviamente, dessa maconha ultraprocessada. O que ela tinha me libertado, ela começou a me emprisionar. Comecei a ter síndrome de perseguição. E toda vez que eu me preocupava, eu tinha experiências muito ruins. Aí eu parei de fumar aqui em São Paulo. Eu só fumava quando eu ia pra Recife. Quando eu ia pra Recife, eu voltava e fumava com a galera. Em São Paulo, eu não fumava mais. E aí eu fui deixando. Ao mesmo tempo, a discussão foi melhorando. A gente começou a ter acesso. E foi interessante, quando eu fui pro Uruguai, que lá já estava legalizado. E aí eu voltei a fumar lá. Falei “nossa, tem sabor isso”. Quando eu fui pra Nova Iorque, foi bem interessante, isso recente, uns três anos atrás. Que cheiro de maconha em todo aquele lugar. E não era de qualquer maconha, né? Porque era cheiro de erva boa. E aí foi aí que a gente se deu conta que tinha acontecido a legalização. Aí tinha os coffee shops, aí você vê que é uma outra qualidade de relação com a substância. Com qualidade mesmo, etc. Você tira o plástico do meio. Você limpa, né? Tudo. Mas mesmo assim, eu não consegui mais…
“Junto com a criminalização vem a estigmatização, vem a vulnerabilização de pessoas, que vai levando e encostando essas pessoas para a marginalidade e, consequentemente, para atos ilícitos”
Retomar o hábito, digamos.
Exato, exato. Óbvio que eu experimentei essas maconhas de alta qualidade. Que são puras, plantadas, cultivadas, que eu experimentei em Nova Iorque, no Uruguai, mas eu não retomei o hábito disso.
Essa viagem para o Uruguai, ela foi para ver a maconha? Ou foi uma viagem para o Uruguai e aí por acaso encontrou?
Eu tinha ido para uma atividade política.
Você já estava sabendo que era um lugar legalizado ou descobriu lá?
Não, eu já sabia. E toda a discussão que aconteceu. Porque embora eu não faça uso, é uma questão muito importante. Porque geralmente as pessoas só se implicam e só se somam as discussões quando aquilo está diretamente ligado a elas. Mas não precisa ser assim. Eu não deixei de acompanhar a discussão em torno da legalização, do uso medicinal, do uso recreativo e de todos esses tensionamentos que acontecem.
Então, assim, eu consumo essa informação e essa discussão, porque eu sei que absolutamente faz parte de todo esse ciclo, de um ciclo produtivo maior que não é sobre a cannabis, mas sim sobre a sociedade, sobre a humanização, sobre o rompimento de violências, sobre muitas coisas maiores do que o fim em si. Eu venho acompanhando essa informação do Uruguai. E quando eu fui, quando eu estava na iminência dessa viagem, eu falei, óbvio que, inclusive, essa é uma pauta. Então, para mim, era uma pauta, já que o Uruguai para mim era uma pauta, viver a experiência não de fumar, só, mas a experiência de circular e observar a relação da cidade, do território com essa substância na sociabilidade. O mais óbvio de tudo, nada demais no sentido negativo e muito demais no sentido positivo.
E vem cá, durante o seu processo de redesignação sexual, você chegou a usar cannabis para te ajudar nesse período?
Nossa, não lembrava disso. Muito bom você retomar. Eu fumei umas maconhas, sim. Quando eu estava no processo de voltar ao Brasil, que eu operei na Tailândia.
Você fez na Tailândia, você voltou para o Brasil e retomou isso da cannabis na intenção de recuperar o bem-estar ou foi para diminuir a dor?
Foi para recuperar o que eu precisava. No processo inicial, você precisa fazer dilatação para o canal vaginal adquirir o tamanho, para o canal vaginal acontecer. E para ele se manter, precisa fazer as dilatações. E a dilatação é um processo incômodo, porque você está colocando um negócio ali dentro rígido, por mais que você está no processo de descoberta daquele órgão, como é o funcionamento da zona de prazer, etc, você está colocando ali. E é óbvio que a maconha, dá uma relaxada. Faz com que esse processo seja menos tortuoso, porque você está expandindo, literalmente, nas ideias e no corpo também. Porque é isso, o relaxamento do corpo, eu não ficava centrada naquela consciência, naquela racionalidade bruta de que eu estava enfiando uma coisa dentro de mim. Eu ficava percebendo e elaborando que aquilo fazia parte do meu processo de cura. Estava me curando, meu corpo estava em processo de cura e a maconha me ajuda a caminhar para essa cura.
Você diz que sem radicalização não há transformação. Que tipo de radicalização pode acontecer no tema da pauta canábica para que o status da planta perante a sociedade seja, enfim, transformado?
Ela precisa ser colocada como um uso natural na sociedade. Não é só sobre a questão medicinal, é sobre o uso recreativo também. Ela precisa ser defendida a pauta de que essa substância faz parte do conjunto de substâncias que as pessoas utilizam na vida. E ela necessariamente tem uma funcionalidade. É muito importante o discurso da medicina, dos benefícios que a cannabis traz para diversas questões, mas não está só aí. A naturalização do uso recreativo da maconha, de que essa substância faça parte de forma não marginal e não periférica da construção da sociabilidade. Assim como existe em outras substâncias que estão aí. Ponto. Eu acho que a radicalização está nesse lugar, de naturalizar a substância no conjunto da sociedade.
“É muito importante o discurso da medicina, dos benefícios que a cannabis traz para diversas questões, mas não está só aí. A naturalização do uso recreativo da maconha, de que essa substância faça parte de forma não marginal e não periférica da construção da sociabilidade”
Naturalizar radicalmente.
Totalmente. Totalmente.
A origem de Malunguinho tem raiz na jurema sagrada, não é isso?
Sim.
Explica pra gente então o que é jurema, porque até onde eu sei, a jurema produz o DMT, que é aquele composto psicodélico que é considerado a reconexão espiritual com outros mundos. É isso mesmo? Essa jurema que a gente está falando?
Exatamente.
Você escolheu por conta disso?
Não. Não escolhi. Eu tenho um legado, recebi uma herança ancestral, familiar, não é artístico, não é uma coisa que eu escolhi numa roleta. Ele me foi dado. E obviamente que essa nossa cultura ocidental foi tentando apagar e eliminar os nossos lastros com o nosso ethos e com a nossa humanidade, povos originários, povos africanos, etc.
E o nome é uma ferramenta muito pesada pra você apagar a identidade de alguém. Então, assim, foi apagado, tentaram apagar, mas aí me devolveram novamente. Eu sentei na cadeira que me pertence.
A sua família tem uma experiência ancestral com o DMT?
Com as juremas. Por que, assim, quando a gente, porque a gente está falando por um princípio de racionalidade aqui, quando a gente está falando do que compõe ali, o que produz, mas as pessoas estavam tomando a jurema, elas faziam uso da jurema, que nos eleva à reconexão da espiritualidade. Bom, assim, papo de racional, é discurso acadêmico, eu acho ok, não tem problema a gente fazer essas associações, mas pra eles nunca foi isso. É substância, é uma erva, é o mato, é o chá, é a comida, é o alimento, é a natureza, aquilo ali é a natureza, como a cannabis também é a natureza, não é nada além disso, sabe? E é por isso que a jurema, a maconha, enfim, deveriam estar dentro do nosso repertório como algo tão natural, porque isso é natureza, sabe? É a camomila que você sabe que vai te acalmar, mas então, a camomila poderia ter sido proibida também, enfim, é o chá, é a planta, é a erva, é a natureza que te alimenta e que te cura.
Então eu queria que você contasse um pouco dessa sua experiência com a jurema.
Então, isso, se usa jurema em processos ritualísticos, exatamente, dentro do culto a malunguinho. Eu não sei, eu preciso falar com o meu babá, eu falar sobre isso e pensar se isso pode ser publicado. Não é por mim, assim, mas, eu tenho um babalorixá muito sério, ele é muito sério. E, inclusive, a gente critica muito a exposição de certos processos litúrgicos do candomblé e da jurema nas redes sociais. Então, eu não sei em quais dimensões eu posso falar sobre isso.
Entendo total. Falemos um pouco do Aparelha Luzia. Quando surgiu, eu já não morava no Brasil, então eu nunca cheguei a visitar o espaço. Tenho muitos amigos que frequentam e gostam muito. Mas também lembro de uma amiga preta que disse que foi lá e sentiu que foi tratada como branca por ela ser uma preta mais clara. Então, como é esse convívio entre brancos e negros dentro de um espaço de referência da cultura negra?
Muitas das vezes que os brancos se aproximaram de espaços pretos, historicamente falando, eles tomaram pra eles, eles roubaram. Fizeram com que essas economias, eu não tô falando economia de dinheiro, mas economia de afeto, economia de sociabilidade, se desvirtuassem para girar em torno novamente da branquitude. E aí, a gente pode pegar tantos espaços culturais e políticos importantes como o Carnaval, que a economia do Carnaval, ela está absolutamente toda dentro de um circuito capitalístico que é voltado para alimentar a branquitude, grandes empresas e muito menos para o que fica para a comunidade. Isso aconteceu com o samba, aconteceu com o jazz, aconteceu com o blues, aconteceu com o rock, absolutamente todas as vezes que a gente decidiu compartilhar nossas coisas e abriu nossas portas, a gente foi novamente saqueado. Então, a gente não tem bons históricos de pessoas brancas acessando territórios da negritude. Óbvio que isso não é um negócio estático, acho que precisamos todos aprender com isso, a branquitude precisa aprender, e desde que não haja essa usurpação, esse saqueamento, tudo bem. E é interessante, porque você vê que começou a surgir lugares muito parecidos com o formato da Aparelha Luzia, lugares geridos por proprietários brancos, cheios de dinheiro e colocando cultura negra lá dentro. E aí você vê, novamente, o saqueio. Em nenhum momento eles pensaram vamos potencializar esse lugar que é de uma mulher preta, trans, que está à frente, etc. Eu olhei, achei bonito, vou fazer o meu. Você entende que isso não muda? O saqueio intelectual, material, imaterial, ele permanece. Eles mostram novamente que não têm condição de sentar na mesa junto à negritude, porque não têm etiqueta pra isso. Isso é muito triste. E aí, em relação às discussões sobre colorismo, eu acho que é extremamente positivo. As pessoas negras de pele clara que ficam um pouco perturbadas com isso, tem um nome pra isso, se chama negritude frágil. Assim como existe a masculinidade frágil, existe uma negritude frágil, que não está ainda, ou não está consolidada dentro daquilo que significa e que conduz o que é ser uma pessoa negra numa sociedade estratificada no Brasil, que é diferente dos Estados Unidos, que é diferente de muitos lugares, e diferente do Nordeste para o Sudeste. Talvez tenha uma negritude aí em formação, frágil. Por exemplo, eu não sou uma negra escura e eu lembro no início da Aparelha, foram as meninas do Rio de Janeiro lá “ah, preciso conhecer a Aparelha”, e quando me viram falaram “nossa, parece papel”. Gente, eu dei muita risada. Isso em nenhum momento me abalou, me abala, me deixa fragilizada, porque eu tenho muita consciência dos processos de subjetivação que me levaram a construir uma negritude dentro da minha família, dentro da cultura que eu participo, de absolutamente tudo que não me deixa margem pra dizer não sou tão negra. Eu posso ser mais clara, até porque faz parte, inclusive África é multicolorida, né?, no sentido de graduações da negritude. Essa coisa pra mim sempre me assusta, de “ai, me descobri negra”. Assim, eu me assusto com essa informação, eu respeito e tal, mas quando a pessoa fala que descobriu, tem alguma coisa nesse processo formativo que tem lacunas. Só que não devolva isso para a comunidade preta, para a população preta, porque já é muito difícil a solidez, é muito difícil se assegurar nesse lugar enquanto comunidade. E ficar sendo questionada e fragilizada por conta dessa negritude em processo de formação, acho que é muito injusto. As pessoas precisam olhar o que foi construído, ler o que foi construído, acessar, já que não teve um processo de subjetivação da negritude orgânica, baseada numa família, baseada na cultura que você emerge, no seu jeito de corpo em função de elementos que constituem essa negritude, já que não foi desse jeito, então vai se formar num outro lugar, mas não se colocar num lugar de ruptura e de disrupção disso que foi construído, porque a negritude, ela não está formada, ela está constantemente em formação. Eu acho fantástico que haja um lugar para que essas discussões aconteçam. Se esse lugar precisa ser o Aparelha, que seja. Ou a gente vai viver fingindo que essas coisas não existem e que não há negociações a serem feitas em torno da discussão de raça?