Saindo da estufa

Ronaldo Fraga: “LSD eu experimentei, experimento e gosto, principalmente na natureza”

Ronaldo Fraga é zero deslumbrado com o mundo das drogas. Ele até faz um LSD de vez em quando, assim como também gosta de tomar o seu vinhozinho branco, mas não curte maconha e diz que cocaína é uma droga que ele caracteriza como baixo astral.

Essa distância de segurança das drogas ele justifica por ter ficado órfão ainda cedo e não ter pra quem correr caso o bicho pegasse, de modo que tratou de ser prudente. Experimentar LSD, aliás, é coisa recente na vida do estilista, que chegou através de um casal de amigos prometeu que ele muito provavelmente conseguiria ver muito mais cores e detalhes do que normalmente observa pelas lentes da sua miopia.

Nessa conversa com Anita Krepp, Ronaldo Fraga não só falou das suas experimentações e de seus preconceitos com as drogas, mas também sobre como é trabalhar com cânhamo no têxtil e de sua relação com o meio da moda, de onde se considera um outsider.  

Pra começar, Ronaldo, quero saber de qual fonte você bebe pra desenvolver criatividade e inovação?

A fonte que eu bebo é o Brasil, sempre foi o Brasil. Porque, afinal de contas, um país que te dá uma fonte inesgotável daquilo que assombra, mas também que alumbra. Você pode discutir todas as questões contemporâneas do nosso tempo a partir de questões do Brasil. Seja pela cultura brasileira, seja pelo dia a dia, seja pelos problemas, mas o Brasil sempre foi a minha fonte inesgotável.

Como é a sua prática pra desenvolver essas características dentro da sua obra?

Não existe uma prática, né? Na verdade, não existe um critério. Existe algo que tudo que me assombra e tudo que me alumbra me provoca e me leva a pensar, fazer, criar, e eu falo que é através desse caminho que me sinto o homem do meu tempo. Agora, cada criação, cada coleção, cada projeto vem num caminho, que você chama de inovação, de uma forma diferente. Então, por exemplo, eu fiz um projeto uma vez, a coleção “Fúria das Sereias”. Ela foi toda trabalhada com escamas do peixe camurupim, com artesãs da Paraíba, com escamas que eram descartadas no lixo. Mas, na mesma coleção, eu lancei um tecido tecnológico, que foi criado por brasileiros, pela Rodia, do Brasil, que é um filamento biodegradável de poliamida. Quer dizer, a poliamida leva mais ou menos 40, 45 anos no aterro sanitário. A poliamida feita desse jeito leva dois anos. Então, foi produzido num laboratório, aquilo que seria o gosto artificial do caviar dos micro-organismos, do gás de descarte, e as peças feitas disso, eles devoram em um minuto, entendeu? Então, juntei uma história dessa para poder falar de escama de peixe, para poder falar de poluição dos mares e para poder falar da importância de um saber e de um fazer tradicional, que é o trabalho de redes tricotadas, croquetadas, com esse clima. Então, assim, foi um tema, foi uma história que me levou a isso. Eu falo que tudo vem de uma história que se conta, né?

E você sempre tem esse olhar preocupado com o meio ambiente, com os animais e tal. É uma coisa que sempre teve em você? Ou veio a partir de estar na moda e querer atuar para contrabalancear a pegada da moda?

Não, sempre esteve no meu ser. Porque, na verdade, eu acho que a moda tira isso de você. A moda não está nem aí para isso, entendeu? Tudo é uma discussão de vitrine. Tanto é que está aí, que é o setor que mais polui. O setor têxtil, de moda, é o que mais polui no mundo. Mas é algo que eu trago desde a infância. E que foi evidenciado, principalmente, na adolescência, no final da ditadura militar, no Brasil.

“Nunca tive uma relação com drogas como a minha geração teve. Eu acho que por ter perdido meus pais muito cedo, nunca tive a quem recorrer caso a coisa desse uma merda, entendeu?”

E, Ronaldo, maconha e psicodélicos estão na moda? 

Menina, eu não sei se já saíram. Já estiveram. Eu não sei se saíram. Mas eu vou te dizer que… tá, vou falar por mim. Maconha nunca foi o meu alucinógeno. Eu não sei fumar, nunca fumei o cigarro normal, então, nem a maconha eu sei fazer, eu não sei tragar. Mas LSD eu experimentei, experimento e gosto, principalmente quando eu estou na natureza. Eu vejo cores que com minhas lentes normais, eu nunca enxerguei, entendeu? Mas eu nunca tive uma relação com drogas como a minha geração teve. Eu acho que por ter perdido meus pais muito cedo, eu nunca tive a quem recorrer caso a coisa desse uma merda, entendeu? (risos) Então, eu acho que isso me salvou, isso me preservou.

Eu tinha uma sensação de que você era da ayahuasca.

Menina, eu nunca experimentei ayahuasca, tá? Mas vou experimentar em algum momento. Não tive a oportunidade ainda direito. E eu não sou muito ligado a… como eu te falei anteriormente, eu não sou uma figura ligada à droga. Eu já acho que eu já sou pirado demais. Eu falo que o que eu falaria, diria ou faria sobre efeito de qualquer droga, faço no café da manhã. Então, eu não preciso de álibi, nunca precisei de álibi nesse sentido. O próprio LSD, fui experimentar tem pouco tempo. E gostei bastante. Mas uma vez ou outra, na natureza.

E como é que foi, pra você, justamente, que é uma pessoa que viveu a maior parte da vida sem recorrer a essas substâncias, como é que foi esse convencimento?

Eu tinha um amigo, um casal de amigos artistas. E falavam de cores que eles viam, que eles não viam de outro jeito. E eles falavam “olha, você que tem miopia alta, você vai ver a cor das penas dos passarinhos”. Aí, numa ocasião, eles estavam com LSD e não acreditavam que eu nunca tinha experimentado. E falei “cara, deixa eu resolver isso aqui”. Nunca tive preconceito em relação a LSD, como eu tenho de outras drogas. Eu tenho preconceito, por exemplo, com a cocaína. Eu acho cocaína baixo astral, nunca experimentei a cocaína. Sempre tive medo da cocaína. Mas o que eu experimentei foi essa, foi o LSD mesmo. A minha droga é um LSD e um vinho branco, vai.

“Falo que o que eu falaria, diria ou faria sobre efeito de qualquer droga, faço no café da manhã. Então, eu não preciso de álibi, nunca precisei de álibi nesse sentido”

Você acha que a moda também tá vivendo um redescobrimento da estética psicodélica? 

Não sei, acho que não. Eu estive agora na Chapada dos Veadeiros. E lá, pra mim, já é uma alucinação a beleza aquele lugar. E eu vi uma loja específica, onde as peças de roupas são criadas com cores e formas como se a pessoa tivesse no torpor da LSD. Achei uma bobagem, acho uma coisa muito feia (risos). Então, não é uma moda que me pega, não é uma estética que me pega, tá? Mas, obviamente, você tem uma coisa de combinações de cores que te sensibiliza mais para tal, né? Mas eu nunca me ative a isso, nunca, enfim, usei isso como um subterfúgio pra poder pensar ou criar uma moda que fosse nessa direção.

Você, que considera a moda um vetor cultural, vê também na cannabis um vetor cultural?

Não, não coloco como um vetor cultural. Eu acho que a moda, pra mim, inclusive eu até digo isso muito, que a moda é cultura, nunca defendi a moda como arte. Eu sempre defendi ela como cultura, tá? E hoje a gente tá passando no mundo, por um momento de entender a cannabis pelo seu sentido terapêutico, e isso também vai afetar a cultura do consumo da cannabis. Mas agora pensar a cannabis como uma cultura e tal eu também nunca me ative a isso, não. Meus filhos, eu tenho dois filhos jovens, de 21 e 23 anos, e eles fumam maconha e eu sempre fui contra. Eu falava assim “deixa pra fumar a partir dos 25, porra, porque tira a ambição das pessoas”. É aquela coisa do tanto faz tanto fez, que não foi o caso deles, eles são muito ligados e tal, mas na ocasião, na época eu ficava assim “não, deixa isso pra mais tarde”. Claro que eles não me escutava. Então eu não tenho essa mágica com a maconha, nunca tive, mas também não recrimino. Acho que ela deveria ser, principalmente no Brasil que tem uma demonização religiosa em torno da maconha, e com isso tantas pessoas padecem por falta de um tratamento terapêutico que poderia ser resolvido com a cannabis… então eu espero que, sim… mas eu vou te dizer que eu não tenho esse amor, essa loucura toda com a maconha, não.

Você falou isso de fumar maconha depois dos 25, que é uma idade mais prudente para começar a se relacionar com a maconha, né? Você já tinha essa informação? 

Eu tinha informação. Tenho uma amiga que é uma médica holandesa e na época eu consultei ela, uma figura extremamente aberta, que falou “olha, Ronaldo, eu sou contra o uso da maconha antes dos 25 anos, porque tem a última formação do cérebro que é a parte responsável pela ambição e ela tira a ambição das pessoas”. E isso é muito ruim, tá?

“Não tenho essa mágica com a maconha, nunca tive, mas também não recrimino”

Se eles te convidassem pra fumar você fumaria junto pela experiência? 

Não, porque eu não sei fumar, não tenho gosto. Eu até gosto do cheiro, sabe? Eles até fumam perto de mim, mas eu não tenho parada com a maconha, não.

A gente sabe que as drogas são populares dentro da moda, qual você acha que é a função delas nesse setor?

Olha, essa mítica que existe de que psicotrópicos fazem com que uma pessoa se torne mais criativa, eu não acredito nisso. Então nunca vi alguém ser mais brilhante pelo uso da cocaína ou do LSD, sabe? Já tivemos momentos na moda da heroína chique, cocaína chique, né?, essa história toda. Mas eu nunca vi nenhum estilista ser mais brilhante, um criador ser mais brilhante por conta disso.

Mas circulam dentro da moda, né?

Sim, mas das artes também, então são pessoas, normalmente ditas liberais, que exercitam mais essas experiências. Mas eu nunca fui do meio da moda, assim, sabe? Eu, morando em Belo Horizonte, morando no Brasil, viajando muito pelo Brasil, sempre ia a São Paulo, lançava coleção e ia embora. Tenho relacionamentos cordiais. Eu falo que tenho um relacionamento cordial com outros colegas, mas nunca fui da moda, de viver a moda, dos bares da moda, da festa da moda. Eu sempre fui uma figura à parte disso.

E a sua relação com o cânhamo? Você já usou cânhamo nas suas coleções, em alguma delas?

Já, já usei há muito tempo, mas eu prefiro o linho puro. Eu acho o linho mais interessante.

Mas o cânhamo é um material sustentável e a moda sempre precisou encontrar um caminho pra sustentabilidade. Você acha que o cânhamo pode ser revolucionário nesse sentido?

Pode, é mais uma fibra natural, mas a cultura também é problemática, entendeu? Então não é tão assim. A mesma coisa que você fala “o algodão é algo que é sustentável?”. Não, não é. Vai depender da cultura disso, tá? E o cânhamo é a mesma coisa, né? Então há o cânhamo orgânico, também como o algodão orgânico. Então os orgânicos são bem-vindos.

Mas me conta um pouco mais dessa sua experiência com o cânhamo. Você prefere o linho porque é mais fácil? O que tem, assim, de diferente entre o cânhamo e o linho? 

É o peso do tecido, sabe? Então o linho é mais leve, o linho, pra mim, ele dá uma costura melhor. Ele dá um aspecto melhor que o cânhamo. Eu gosto mais.

E nas suas andanças pelo mundo, o que você tem visto por aí sobre a cannabis?

Eu não aprendi nada. Aliás, eu não entendi que a entrevista era nesse lugar. Porque você tá perguntando pra pessoa mais errada. Na verdade, eu vou te dizer isso. É uma seara que eu nunca entrei, eu nunca pesquisei, entendeu? Eu nem fumo!

Isso não é um problema, na Breeza a gente conversa com pessoas que fumam, que não fumam, que fumam muito, que fumam pouco, que nunca fumaram… a proposta da Breeza é trazer esse assunto de vários pontos de vista.

As namoradas e namorados que eu tive sempre fumaram, entendeu? E eu prefiro a maconha do que o cigarro branco. Eu não tolero o cigarro branco. E o cheiro da maconha eu adoro. Então eu adoro o cheiro e, talvez, acho que é esse cheiro que, por osmose, eu acabo viajando junto, entendeu? Mas eu adoro quem fuma maconha. São pessoas mais tranquilas. É uma droga mais tranquila, que não enche o saco de ninguém. Ninguém dá bafo, ninguém sobe na mesa e roda a baiana porque fumou maconha.

“Ninguém dá bafo, ninguém sobe na mesa e roda a baiana porque fumou maconha”

Então, nessas suas andanças, eu queria saber se você percebe que os usos da maconha estão se popularizando ou não. É uma coisa que passa por você?

Passa, claro. Eu acho que é uma coisa mais natural, você vê maconha pra todos os lados. Hoje estamos a um passo da liberação e eu espero que liberem. Mais do que era quinze anos atrás, por exemplo.

E, assim como as comunidades indígenas aportam novos elementos à moda, também das comunidades indígenas saíram contribuições muito importantes pra ciência psicodélica, né? No Brasil, com a ayahuasca, no México, com os cogumelos. E, do mesmo jeito que, hoje em dia, se discute a reparação histórica, se discute devolver à comunidade o que lhe cabe dentro desse processo que cada vez mais vai se capitalizando. Eu queria saber se, na sua opinião, como a indústria dos psicodélicos podem aprender com a indústria da moda a retornar às comunidades indígenas o que delas foi extraído?

Você acha que a moda faz isso? A moda, moda mesmo, a moda da produção, a moda do establishment, não faz, não. Eu acho que ela só destrói. Ela usa a imagem indígena como tema, como isso e aquilo, pra poder ganhar sobre isso. A gente viu no Brasil agora, por exemplo, nesses anos tenebrosos que nós passamos, em que 99% da indústria da moda apoiou esse demônio que estava aí no poder. E marcas que cresceram sobre a pecha de sustentabilidade, de Amazônia, de tudo isso. Então, assim, não se iluda, não tem nada a ver.

Vamos falar do seu processo, de como é que você faz pra retornar às comunidades tudo o que elas aportam ao seu trabalho.

O meu trabalho é principalmente focado em saberes e fazeres tradicionais. Eu não tenho um trabalho ainda focado em comunidades de povos originários. Já fiz alguma coisa inspirada, algum trabalho. Fiz um trabalho de biojóias, uma coleção de biojóias, no sudeste do Pará. Na verdade, não foi nem com povos originários, mas com caboclos, sertanejos. Então, nesse sentido, acho que o designer pode funcionar como ponte entre esse Brasil que o Brasil não conhece e o Brasil urbano. E, com isso, sensibilizar as pessoas daquilo que elas estão consumindo. Por exemplo, nesse trabalho com as biojóias, usei muito a jarina, que é conhecida como marfim da Amazônia, que é uma semente branca. Ela é escura, mas se ela é esculpida, ela é branca por dentro. E que, nos altos tempos da borracha, eles usavam como maçaneta de porta e de cabo de guarda-chuva em Portugal. E a jarina é uma semente que está muito rara e muito cara. Por quê? Por que a árvore da jarina só vai dar essa semente quando ela completa 80 anos. E, com o alto índice de desmatamento e queimadas no Brasil, a jarina está em vias de extinção. Então, ela foi trabalhada e ela é trabalhada como estatuto de joia mesmo.

Onde você está colocando a sua atenção e sua intenção atualmente?

Olha, eu tenho trabalhado muito com expedições para o semiárido brasileiro e com comunidades de atingidos pela tragédia do maior crime ambiental do Brasil, que foi Mariana. Então, através do resgate de saberes e fazeres que já estavam em vias de extinção antes da lama, auxiliar essas pessoas na construção de um futuro, da possibilidade de um futuro, através de saberes e fazeres tradicionais.