
“Seja onde for, eu quero trabalhar mudando a política pública de drogas e facilitando terapias psicodélicas de uma forma sistêmica, ou seja, governamental”, promete o pesquisador Plinio Ferreira, de 36 anos, que deixou o Brasil há uma década para fazer doutorado em Londres, em seguida, um pós-doutorado no Imperial College London e em 2020 começou a colaborar com o Drug Science, um instituto de pesquisa e advocacy da ciência psicodélica baseado em Londres e dentre os mais respeitados na área.
A despeito de ter ser formado em Farmácia Bioquímica na USP, Plinio sempre foi interessado em medicina psicodélica e em redução de danos, na “relação do medicamento ou da droga, legal ou ilegal, com o consciente e com o inconsciente”. Ao passo em que ia se formando na universidade e trabalhando na indústria farmacêutica convencional, Plinio seguia em paralelo com seus estudos autodidatas sobre a psicodelia desde o viés científico ao espiritual, bebendo de Terence McKenna a Carlos Castaneda.
Durante essas pesquisas ele se deparou com o professor David Nutt, fundador e diretor científico da Drug Science, e foi amor à primeira vista. “Virei fã mesmo. Curtia ele, curtia o que ele escrevia desde a época em que eu morava no Brasil”, conta Plinio, que num determinado momento já durante o curso no Imperial College, soube que o Drug Science estava em busca de um voluntário para trabalhar ao lado de Nutt num projeto com óxido nitroso, um gás que não era exatamente a sua especialidade. E já que não custava nada tentar, ele aplicou para a vaga.
Bendito óxido nítrico
Especialista, na verdade, em óxido nítrico, Plinio não tinha lá muita esperança, mas acabou sendo chamado em meio a outras 200 candidaturas. Entre fazer uma revisão bibliográfica para descrever toda a farmacologia do óxido nitroso e seus possíveis riscos, e ajudar o professor Nutt nos pareceres que ele era convidado a dar em casos de acusação de tráfico da substância, Plinio foi também um dos responsáveis por conduzir a atualização de um paper que foi publicado no Lancet (importante publicação científica) com gráficos destacando o grau de periculosidade de várias drogas, um documento muito utilizado como referência de consulta nesse meio.
Tudo bem com o óxido nitroso, mas o brasileiro sabia o que queria quando entrou no instituto e deu um gás no networking com a galera dos psicodélicos para agilizar o processo. “Resolvi mostrar meu interesse para mudar de área e comecei a deixar bem claro”, conta.
Enquanto não rolava, retomou o trabalho com redução de danos com a população em situação de rua, uma parte fundamental da sua vocação. “Eu quero vivenciar a linha de frente, estar mais perto e ajudar pessoas com problemas com abuso de substâncias para depois poder me meter em políticas públicas ou até mesmo para desenvolver pesquisas nesses assuntos”, explica.
No futuro, tem vontade de trabalhar com esses temas no Brasil, como assessor do governo em políticas de redução de danos. “Por ter estudado em universidade pública, eu gostaria muito de contribuir com a sociedade brasileira, devolver o que recebi”, diz ele, que em todo caso não recusaria a possibilidade de trabalhar para outros governos, como o do próprio Reino Unido.
Qual é a régua que mede os psicodélicos?
Antes disso, ele ainda tem um bom caminho pela frente no Drug Science, que há cerca de três meses finalmente o acomodou na equipe de investigação com psicodélicos. Plinio agora é responsável por organizar as discussões que são tratadas em grupos de experts da ciência e do business, os chamados working groups, nas áreas de medicina psicodélica, cannabis medicinal e redução de danos. Esses grupos têm entre 60 e 100 participantes cada.
Sonho realizado, sim, mas isso não impede que Plinio siga exercendo uma mirada crítica à pesquisa psicodélica eurocentrada, que usa métodos científicos tradicionais para entender como os psicodélicos, que seguem uma via fora dessa lógica, podem atuar. “Por exemplo, é preciso dados para gerar comparações estatísticas e muitas vezes são baseados em medidores bioquímicos ou exames de imagem, indicadores que não vão te falar sobre a sua evolução de consciência, que obviamente é uma coisa impossível de medir, mas é onde os psicodélicos atuam, então tem esse dilema”, aponta Plinio.
Também o fato de a pesquisa psicodélica ser desenvolvida em clínicas, segundo o pesquisador, pode limitar o potencial das substâncias. Ele advoga para que as sessões possam ser realizadas na natureza.
Tirar tênis, sapato, pôr o pé no chão, estar ao ar livre, escutar os animais, o vento, vivenciar a potência da integração dos psicodélicos com a natureza. E para o psiconauta que se aventura fora do ambiente médico-científico, “como McKenna defendia, usar psicodélicos em silêncio, num quarto escuro, em dose altíssima e sozinho, para focar total nos seus pensamentos, na desconstrução pela qual você se dispõe a passar.”
No caso de haver música, a trilha sonora das sessões precisa ser encarada com um carinho especial, já que a música representa um papel central nas viagens psicodélicas, quer seja com propósitos científicos ou recreativos. “Deveria ser considerada um pouco mais a preferência pessoal, porque vai que é uma música que remete a uma ex-namorada ou a um parente que perdi e eventualmente isso me traz uma memória que eu não queria acessar naquele momento”, pondera ele, que gosta particularmente de Sun Ra (Heliocentric Worlds of Sun Ra) e de Gil e Jorge (Ogum Xango) para acompanhar as suas próprias experimentações psicodélicas.
Anita Krepp