
A ayahuasca apareceu para Caroline Apple em uma situação que ela define como mística. Tinha 32 anos, ia fazer 33 naquela mesma semana, e estava recorrendo à meditação para lidar com um cenário de fundo do poço, em que se via em depressão, ansiedade, sem se reconhecer em seu corpo. Durante um desses momentos de meditação profunda, em meio ao silêncio, ela nos relata que ouviu um homem em seu ouvido: “Vai no Daime”.
“Achei que tava perdendo as minhas faculdades”‘, nos conta. “Imagina, cética que era, vivendo uma experiência espiritual que eu não buscava”. Carol seguiu a ordem e foi para o Daime, partindo de procurar um amigo já envolvido, e marcou a primeira experiência para o sábado daquela mesma semana de seu aniversário. Desde então, permanece no caminho.
A relação de Carol Apple com as plantas de poder parece presente em muitos passos, escolhas, transformações e elevações. Ela conta que antes da descoberta, vivia uma rotina convencional, em que lazer era “sair e beber, encher a cara”. “Usava bastante droga no sentido negativo, capotando ladeira abaixo. Hoje, uso para capotar ladeira acima (risos)”.
SALVAÇÃO NA DEPRESSÃO
Jornalista paulistana que havia migrado de grandes redações para o trabalho publicitário de agências, ela hoje observa que em seus 20 e poucos anos estava em um momento em que declinava. “Mostrava energia e alegria, mas no íntimo estava bastante perdida, contaminada por sentimentos de raiva e frustração”.
Ela se sentiu então em um situação em que “ou mudava, ou mudava”. Lembra que apresentava crises de pânico, ainda muito jovem, e chegou a fazer exames para checar se havia risco de infarto.
Sentia-se em um breu completo, o que foi agravado pelo término de um relacionamento. Foi aí que começou a perceber que talvez estivesse perdendo mais do que ganhando pelo modo de vida que levava. “Poderia ter sido melhor comigo, mais amorosa”.
Hoje ela nota aquele cenário como um processo de iniciação mística com a qual tinha dificuldade de lidar. Foi aí que recorreu à meditação, ao silêncio e ao Daime. No primeiro contato com a doutrina e com a ayahuasca , diz que sentiu uma mensagem bem física.
“Estava com sobrepeso, comendo emoção há muitos anos. Veio limpando o físico muito forte, uma limpeza que se estendeu no decorrer de minhas histórias. Foi um retorno a um físico que eu tinha perdido”. Para voltar a se sentir em casa no próprio corpo, recorreu a uma vida mais saudável, como à prática da yoga.
BESUNTADA NA CANNABIS
A vida de ayahuasqueira e psiconauta se transformou em um modo de vida, inclusive no lado profissional. Ela se voltou a escrever conteúdos sobre o tema, como em uma coluna no Brasil de Fato e em seu perfil no Instagram (referência para nossa comunidade breezada).
“Tem tudo de cannabis aqui em casa, sou besuntada”, comenta ela, antes de começar a listar produtos como sabonete, cremes e tantos outros. Os primeiros contatos com a maconha vieram na adolescência, no início dos anos 2000, na linha da experimentação, de como costuma ser com jovens que acabam por ter contato ainda cedo (bem mais cedo do que o recomendado pela ciência e do que deveria ser por lei, se legalizado fosse… né?).
Ela diz que “fumava pra caramba”, mas foi deixando de lado por começar a procurar por outras substâncias mais pesadas, em sua fase que a levou à depressão antes do Daime. Após sua redescoberta de si mesma com a ayahuasca, também retomou a relação com a ganja.
“(hoje) Entra na história do ritualístico, me reconecto com a Santa Maria, em uma conexão sagrada. Converso com a planta, tenho respeito e ela sabe que eu sei… e a gente sabe juntas”, diz ela, que tem receita para o uso. Apesar de admitir algumas mentirinhas para conseguir o protocolo médico. “É por ansiedade, mas hoje não está crônica. Acredito no poder e no direito de me cuidar antes de adoecer!”. Sim, acreditamos, Carol.


IDEIAS NO SILÊNCIO
A meditação e as experiências espirituais continuam a guiá-la hoje, aos 39 anos. “Sou teleguiada, atendo chamados”.
Um desses chamados lhe veio em um vipassana recente. Após dias em silêncio, trabalhando em esferas profundas do autoconhecimento, ela sentiu uma parceria surgir daquela quietude. E literalmente nasceu ali, pois foi naquele ambiente que conheceu seu novo sócio, com quem bolou uma parceria para a criação de uma cerveja terpenada “by Caroline Apple”.
“As pessoas se conectam quando se vem dessa caminhada de quem se permite silenciar”, afirma ela, que diz escolher a dedo com quem faz parcerias. “Proibido vir gente de fora, que não sei a caminhada, não sei o que tá acontecendo”.
As plantas de poder foram ferramentas para Carol lidar com a depressão e com descobertas espirituais. Também a tornaram uma referência de quem sabe do assunto e tem o que falar sobre. Agora, servem também de base, incentivo e mote da veia empreendedora, que inclui ainda a recém-lançada Hempreenda, uma plataforma online de produtos e serviços psicodélicos e canábicos. Ela é prova viva de porque é tão válido dizer que há, sim, plantas que nos dão (ou nos fazem redescobrir) poderes.
Filipe Vilicic