Na Breeza

Um pouco de maconha, um pouco de fruta

Os hábitos canábicos e musicais da DJ do momento, Lys Ventura
19|09|24
Lys e o seu hábito favorito / Por Roger Barbosa

Todo mundo tem seus rituais. Um dos da DJ Lys Ventura, espécime cujo habitat natural é a noite de São Paulo, onde se apresenta em média cinco vezes por semana em festas particulares, shows e residências, “é um baseado e um prato de fruta, queimando um, comendo fruta e ouvindo alguma coisa”, conta, lembrando, em seguida, de uma variação desse ritual que ela só consegue praticar às segundas e terças-feiras, quando o tempo é menos corrido. “Vou tomar um sol, fumo um, boto um disco e aí penso no que vou tocar, no que vou levar pra festa, vou separando os discos. A erva traz esse insight, a erva ajuda muito.”

Lys se criou com o reggae, mas bebeu também de outras referências que complementam esse seu lance com o reggae. Filha de pais baileiros, que se conheceram num baile black no começo dos anos 80, também recebeu influência de outras vertentes da música negra e do gospel, já que sua mãe fora regente de um coral na igreja. Aos 16 anos, antes mesmo de começar na música, conheceu a maconha.  “Aquela fase que a gente fica muito fumero, qualquer prensado que vê já quer fumar”, diz ela, que apesar de amante das flores, segue amiga do prensadinho. “O que bota na roda eu tô fumando.”

De tanto ir a festas de reggae, soundsystem e dancehall, Lys começou a produzir eventos e com artistas da cena nacional e mais adiante, também internacional, como Jah9 e Sister Carol, referências do ritmo jamaicano. “Até que minha agenda de DJ ficou demandada, ali a partir de 2018, e comecei a trabalhar mais pra mim”, lembra. Junto com a agenda, o que também cresceu foi a coleção de vinis dessa virginiana obcecadinha com fazer tudo muito bem feito. A coleção atual da moça gira ao redor dos 4 mil discos.

Música pra brisar

De quarta a domingo, fica mais fácil cruzar com a Lys na noite paulistana do que na sua casa, na zona oeste da capital. Quando não está discotecando, tá preparando as apresentações, garimpando discos raros a bom preço, dando rolês para compor o lookinho dos shows, fazendo aula de dança, treinando para ter disposição… ou na terapia, pra cabeça dar conta.

Segunda e terça ela se dedica à organização da própria vida. A bem da verdade, “segunda normalmente é o dia que eu morro, fico só fumando o dia todo em posição horizontal, dando conta de fazer uma lariquinha, responder WhatsApp atrasado, muito sussa.” Ou seja, segunda é algo como o domingo dela.

Esse momento de autocuidado invariavelmente é acompanhado por uma trilha sonora. Uma não, várias. Lys se interessa por ouvir músicas de tudo quanto é tipo, até mesmo para enriquecer o seu próprio repertório. Mas tem um trabalho baseado principalmente entre música jamaicana, brasileira e norte americana.

Lys tem brisado muito com a Flora Purin, uma jazzista brasileira que canta em português e inglês, misturando samba e jazz. Também se diverte explorando a produção de Tania Maria, outra brasileira, mais conhecida lá fora. “Aqui a arte dela não se expandiu muito, uma cantora marenhense mundialmente conhecida, principalmente na França. Eu não encontrava os discos dela no Brasil e fui achar fora. Toda loja que vou na gringa tem disco dela.”

Uma eterna apaixonada pela obra de Jorge Ben Jor, “esse artista que tem tantos discos, um pra cada fase da vida”, está especialmente capturada pelo álbum “Ben Brasil”, de 1986. E se estamos falando em música boa de brisar, ela faz questão de incluir na lista o multi-instrumentista norte-americano Yusef Lateef, que lançou discos de maneira mais ativa entre as décadas de 50 e 90. “Músicas hoje consideradas antigas, mas que nunca vou deixar de ouvir e tocar. Esse pra mim é um tesouro.”

Maconha é aliada

Antes de entrar no palco, ela curte pensar em cada detalhe, do set ao figurino. E tem estudado a melhor maneira de estilizar peças e desenvolver joias com motivos da maconha pra integrar ao guarda-roupas do show. A atitude legalize da DJ atrai presentinhos interessantes. “Vem vários baseados pro palco, eu experimento ali na hora ou, se não acender ali, acendo em casa. Amo ganhar maconha da galera, por favor, sempre me dêem maconha nos shows”, se diverte. “Ganho maconha, cogumelo, quando chegam presentes, são bons.”

Lys gosta de chapar todos os dias. “‘Fumar maconha antes do show como um gesto de conexão com a minha sensibilidade”, define a artista que considera a planta uma grande aliada nesse caminho bonito que ela vem traçando, apresentando-se em festivais como o Coala e o Rock in Rio, nas residências A Hora da Aventura e Fresh, e em festas VIPs como o que rolou para a celebração do aniversário da socióloga Djamila Ribeiro, que aconteceu há poucas semanas e teve ela como DJ principal.

São poucos os lugares, segundo a DJ, onde não se possa fumar maconha no centro expandido da capital paulista. “E eu espero que assim permaneça até deixarem a gente fumar em qualquer lugar, ser feliz fumando maconha. Se não faz mal pra ninguém? Eu nunca deixei de fumar, e óbvio que esse lance de tocar me trouxe alguns privilégios, né?. Mas a parada tem que ser democrática e todo mundo poder fumar.” Jah te ouça, Lys.

Anita Krepp