Na Breeza

A Brisa da agrofloresta musical no país do agronegócio

Rappera de raízes Mapuche fuma a sua erva antes de tomar decisões importantes e atravessou o puerpério com a ajuda da maconha
12|09|24

Brisa de la Cordillera é o nome mais brisado de que você provavelmente já ouviu falar, e me perdoe a redundância infame. Pois bem, Brisa de la Cordillera é o nome de nascimento da Brisa Flow, rappera que faz as suas rimas desde meados de 2012 e mais recentemente virou queridinha de festivais de música Brasil afora. É claro que se chamar Brisa tem seu preço, pago com piadas tão óbvias quanto divertidas e, por isso, irresistíveis. Brisa tá brisada. Brisa quer brisar? Brisa comigo? E segue a lista.

Se ficasse só nas piadinhas, até que tudo bem. Acontece que a imediata conexão entre brisa e maconha pode despertar certos preconceitos. A artista já perdeu as contas de quantas vezes motoristas de Uber cancelaram a chamada “achando que sou maconheira e vou chegar com quilos de maconha no bolso”, conta, entre a revolta e a ironia. “Essas associações que fazem com o meu nome me incomodavam um pouco. Eu sou uma gata séria, trabalho, faço reuniões. Quero que o cara do Uber me leve, pô.”

Os pais da Brisa não pretendiam homenagear a maconha, nem tampouco sabiam que para os brasileiros brisa tivesse outra interpretação, além daquele ventinho leve de fim de tarde. Descendentes da etnia Mapuche, eles chegaram ao Brasil refugiados da ditadura de Pinochet, desembarcando em Minas Gerais, onde dentro de alguns meses nasceria a esperança renovada dos dois, batizada Brisa. “Me deram esse nome porque eles queriam que fosse leve. Imagina chegar num país que você não conhece pra tentar uma vida nova, tudo o que queriam é que fosse leve.”

Ervaterapia

Sorte que o nome veio a calhar. Brisa gosta mesmo de brisar. Principalmente na música que cria, um soft rap com influências do electropop, e nos shows que apresenta em turnê dentro e fora do país. Depois de ser a primeira artista indígena a tocar no Lollapalooza, Brisa está preparando sua apresentação no Rock in Rio no dia 20 de setembro. Em seguida, parte para o nordeste e, de lá, para o Chile, a primeira parada da turnê latino-americana.

Brisar de mãos dadas com a maconha também faz parte dos hábitos que conserva. “A cannabis foi uma forma muito importante de ter acesso a uma terapia antes de conseguir pagar por uma terapia. Consigo acessar uma terapia muito importante, que é a terapia da troca, não necessariamente com o terapeuta. Aquele clássico de vâmo fumar um e trocar uma ideia funciona muito, nem que seja consigo mesma, ou em roda, na fogueira. Prevalece a cultura do usar uma medicina pra trocar uma ideia e eu levo isso à risca na minha vida antes de tomar uma decisão.”

Sempre aberta a conhecer novas formas de interação com a cannabis, Brisa experimentou diversos usos, inclusive teve uma época em que incorporou no seu armário várias peças de roupas de cânhamo. “Também uso CBD, tenho protetor labial de maconha. Na minha gestação toda eu fiquei pesquisando sobre.” E no puerpério? “Só tenho a dizer uma coisa: obrigada, maconha, sem você eu não sei onde eu estaria.”

O primeiro contato, mesmo, com a maconha foi, claro, como a maioria de nós, com o famoso prensado “hibridozão”. Moradora de periferia, sempre teve medo de ser presa por causa de um baseado. “Desde nova comecei a entender o proibicionismo e ao mesmo tempo fiquei muito ligeira porque o Brasil é muito violento, achar um baseado com um playboy num lugar de rico é muito diferente de encontrar um baseado com uma pessoa racializada no ponto de ônibus”, analisa.

Brisando com a Brisa

O flow da gata também guia aqueles que estiverem buscando uma boa brisa. Pra começar a incursão por esse novo universo, a sugestão é o álbum Selvagem Como o Vento, “que fala sobre essa relação de fumar um e trocar ideia”. Depois, curtir uma sesh no Brisando com a Brisa, uma série de lives, adivinha?, com a Brisa fumando um e trocando ideia com a galera, “numa espécie de terapia em grupo” que ela tá querendo transformar em podcast. “Tô esperando a descriminalização ir um pouco mais pra frente pra poder botar a cara no mundo, porque eu ainda sou um corpo indígena e não posso meter esse loco.”

Com a descriminalização e uma maior aceitação da maconha medicinal ficou mais fácil se reunir com outras mulheres que também usam a cannabis no dia a dia. “Temos grupos onde a gente pode se organizar entre nós, trocar sobre a relação com a terra, o plantio é muito importante, isso vai ajudar a ter uma melhor relação inclusive com o uso da maconha. Quando você planta a sua maconha é uma relação diferente, poder plantar a sua própria maconha é muito mágico”, conta ela, que está estudando como as plantas podem sobreviver juntas sem muita intervenção humana. 

“Assim como a gente usa o celular a gente usa a maconha, mas nem todo mundo, isso as pessoas precisam entender. Mas tá dentro da nossa relação com a terra, e espero que esteja dentro da nossa economia também, quem sabe conseguiremos ter marcas de maconha de parentes, pra que não seja sempre um fazendeiro comprando terras e plantando maconha, continuando a lógica da soja e do milho, que é o meu grande medo e pra onde o Brasil tem ido, e vai continuar o dinheiro na mão do homem branco estrativista que não tá nem aí com a terra”, dá a letra.

Anita Krepp