Na Breeza

Funkeiro, maconheiro e pai de família

Menor da VG coloca a erva nas suas letras para conversar com a “molecadinha que curte funk e fuma maconha nas esquinas”
05|09|24

“Os pais, com medo, fizeram o grande marketing da maconha”, brinca Menor da VG, com fundo de verdade, sobre o resultado da repressão que os pais e mães de gerações passadas incutiram nos filhos, que muitas vezes estimulados pela própria repressão, ficavam com ainda mais vontade de provar o proibido. Experimentar o proibido foi justamente o que levou Renato Lima Rodrigues, que ficou conhecido como o Menor da VG (Vila Gustavo, bairro da zona norte de São Paulo), para a maconha. “Em alguns momentos fumei muito mais pra me enturmar do que por prazer. Daí fui gostando, fui entendendo, acho que tem alguma coisa instintiva, milhares de anos as pessoas fumando ativa a sua mente… que é daora fumar.”

O MC, uma das principais figuras do funk atual, nunca escondeu o fato de ser usuário da erva e desde a adolescência pôde contar com o apoio da mãe, que apesar de não gostar da ideia e ter sido, a princípio, contra o novo hábito, o liberou para fumar em casa com o intuito de evitar que ele fumasse na rua. “Legalizei pra minha mãe logo cedo.”

Conhecendo seus limites, o funkeiro diz que sempre soube dosar as quantidades de qualquer substância, de álcool a maconha, e nunca deu PT. A principal referência que observa para sacar em que ponto está, é a sua capacidade de seguir acompanhando e ativo no papo. “Sempre olhei pra maconha como um instrumento de conversa. Ir pro bar bater um papo, sabe? Fumar um beque é igual”, compara o artista, que fumou muito prensado na vida, mas que ao longo de quase duas décadas como usuário foi experimentando outras coisas. 

Começou com o chamado “comercial”, depois passou para o gold, para o Colômbia, até chegar nas extrações. “A primeira vez que eu fumei maconha de verdade eu já tinha fumado muita coisa ruim, e descobri na real que nunca tinha fumado maconha na vida. Eu queria ser maconheiro, mas o tráfico me obrigava a fumar uma coisa que não era maconha e eu pensava que era.”

Aos 32 anos, VG, que hoje é casado e pai de família, se sente cada vez mais à vontade para defender a normalização da maconha como artista e também como cidadão. Dentro de casa, ele se sente confortável para fumar a sua erva e, quando chegar o momento, vai explicar aos filhos que se trata de uma planta que vem da natureza, e que causa menos danos que várias substâncias legalizadas, como o tabaco, o álcool e o açúcar.

Na rua, ele também fuma, mas com certos limites, como sempre fez. “Não gosto de fumar na frente de quem não fuma, gosto de respeitar os outros”, conta Menor da VG, que leva o hábito consigo para dentro dos estúdios de gravação e para os clipes. “Se o estúdio é legalize, eu fumo, mas se não, não fumo e tudo bem”, explica o MC, que lançou o clipe do single “Só Observando” em junho. Assim como em outras das suas letras, nessa ele também traz a maconha para a conversa.

Conscientização pelo funk

“Tiveram muitas músicas que fiz na brisa e deu muito bom, mas algumas não deram em nada”, admite VG, que acredita que a maconha potencializa o momento que está vivendo. “Então faço das palavras da Rita Lee as minhas: as melhores e as piores músicas eu fiz chapado”, diz, fazendo referência a uma entrevista da rainha do rock brasileiro ao programa “Conversa com Bial” em 2017.

Para VG, a relação entre o funk e a maconha é delicada e “precisa ser explorada no íntimo, no boca a boca, no olho a olho”, com a introdução do tema de maneira natural. “Quando a gente deixa isso muito complexo é difícil da rapaziada compreender, mas se começarem a entender dos próprios direitos, a entender que existe uma medicina mundial sendo explorada nos canabinoides, dos receptores. Cada dia se descobre uma patologia diferente que pode ser tratada com maconha.”

O uso medicinal da cannabis, segundo VG, tem tudo para ser o discurso mais eficiente e positivo para uma primeira abordagem nas periferias, pelo poder de quebrar o preconceito dentro de casa. Quando a vizinha, a avó, uma tia ou uma criança da comunidade tiver uma questão em que a maconha possa ser uma chance de melhora da saúde, estar bem informado pode ser o ponto de inflexão do paradigma ultrapassado que associava a maconha nas periferias apenas ao crime. 

“O funk pode instruir os interessados na maconha para que cheguem em casa e possam discutir isso com seus familiares, trazendo dados, vídeos e estudos de caso”, afirma o funkeiro que além de colocar a maconha em evidência na sua arte, decidiu também empreender no mercado medicinal, enquanto ainda não é possível abrir um negócio no âmbito recreativo da erva.

Medicinal e recreativo na quebrada

A Cream Social nasceu há poucos meses com um propósito que segundo VG vai além do negócio, puro e simples, e tem o objetivo de dignificar o acesso à cannabis medicinal. Para cumprir essa promessa, a empresa promove mutirões de atendimento gratuito com médicos nas periferias. O primeiro mutirão se tornou realidade graças ao apoio de velhos conhecidos da cena, como a clínica CBDoctors e a Bem Bolado, marca que é apoiadora desta reportagem.

O próximo mutirão não tem ainda uma data confirmada, mas deve acontecer ao longo do mês de setembro na favela do Caxeta, em São Vicente. “A gente vai lá montar ambulatório móvel e fazer atendimento grátis de pessoas que não têm condições de pagar. Buscamos a judicialização, entrar com HC pro governo bancar o medicamento dessas pessoas, pra garantir o direito delas de serem tratadas com cannabis, porque se eu acredito nas propriedades da maconha, eu tenho que ter acesso a ela.”

Ainda que o apelo medicinal tenha o seu peso no processo de normalização da maconha, e VG tenha a consciência de que esse peso é grande, o funkeiro não abre mão de discutir o viés recreativo da planta e está planejando criar eventos específicos misturando o universo do funk, da música urbana e do trap com a conscientização do que é a cultura canábica. 

“Se eu, como MC, não começar a introduzir esse assunto, mesmo achando que é um assunto delicado, estaria negligenciando o nosso povo e a gente não pode negligenciar essa molecadinha que curte funk e fuma maconha nas esquinas. Eu preciso dizer pra rapaziada ‘não fuma maconha na esquina, procura um lugar melhor, evita tomar enquadro de polícia, procura saber dos seus direitos, que hoje você pode ter uma plantinha na sua casa, cultivar a sua planta pra não fortalecer o tráfico’.”

Anita Krepp,
em conteúdo apoiado pela Bem Bolado