Saindo da estufa

Erika Hilton: “Legalizando a maconha vamos ter uma sociedade menos criminosa e menos chata”

São poucos os parlamentares que falam abertamente sobre drogas, e o grupo que defende a legalização com todas as letras, em alto e bom som, é ainda menor. Acostumada a fazer parte de minorias e lutar por elas, a deputada federal Erika Hilton é uma das vozes que há anos repetem: o Brasil precisa urgentemente de uma nova política de drogas.

A parlamentar, que é líder da bancada do seu partido, o PSOL, no Congresso, entende que as drogas estão no cerne de várias questões que parecem irresolúveis no Brasil – como a segurança pública, a violência e o tráfico. Se desenrolarmos esse fio das drogas, por meio de uma legalização ou regulação desses mercados, os fios da violência e da segurança pública também desembolam, e a sociedade ganha muito com isso.

Nesse papo entre Anita Krepp, jornalista da Breeza, e Erika Hilton, a conversa visitou lugares inéditos, passou por esbanjar glamour mesmo num ambiente tão pouco glamouroso como a Câmara dos Deputados, pela discussão sobre política de drogas para a maconha, crack e outras substâncias, e também por reflexões sobre se afinal há ou não espaço para o ativismo da maconha na política e sobre como a legalização faria a sociedade brasileira mais segura e divertida.

A nossa convidada fala pela primeira vez sobre os usos que faz da cannabis, uma planta que tem o poder de ajudá-la a relaxar, e também sobre o uso de cogumelos, que ela diz ter provado. “Microdrose, não, big dose.”

Quero começar o nosso papo te ouvindo sobre a descriminalização, finalmente concluída pelo Supremo. Você ficou satisfeita com o rumo que ela tomou e com o desfecho?

Eu acho que foi um desfecho satisfatório, acho que nós não poderemos esperar grandes feitos, né? O Supremo tinha ali um limite até onde ele conseguiria ir e foi muito corajoso em ter ido, mesmo com a tramitação da PEC 45 na Câmara, sabendo qual é o discurso do Congresso Nacional hoje relacionado à liberação da cannabis, mas também de outras drogas de um modo geral. O Supremo ter peitado que, sim, até 40 gramas a pessoa não deve ser enquadrada enquanto traficante, tendo possibilidade de ter uma quantidade mínima de plantas fêmeas em suas casas, para cultivo próprio e etc. Foi um grande passo, foi um avanço significativo na tentativa de conseguir construir um discurso sobre políticas públicas em saúde, legalização das drogas, descriminalização da maconha e etc., foi um pontapé importante para que a gente ganhasse base na sociedade, para que a gente conseguisse traduzir o discurso, olha, o próprio Judiciário reconhece que isso não é o bicho de sete cabeças que muitas vezes é desenhado pela sociedade, pela extrema direita e tudo mais. Então eu acho que foi bom, foi positivo.

Você não achou que ficaram faltando algumas coisas? Logo de cara, cortaram as outras substâncias, definiram as 40 gramas, mas de uma maneira que ainda deixa na mão da polícia e do juiz decidirem… não achou que ficou meio capenga?

Não, eu acho que poderia ter sido melhor, mas eu acho que nós temos que trabalhar com o que a gente tem. Nós temos hoje um Congresso que é o que é, nós temos uma opinião de um senso comum na sociedade que representa o que ela representa. Não teria como trabalhar a legalização das outras drogas junto com o debate da cannabis. Isso seria inclusive um desserviço, nos prejudicaria no ponto de vista do debate público, porque aí sim a extrema direita conseguiria usar esse discurso para dizer, “olha lá, querem liberar o crack, querem liberar a cocaína, querem liberar o MD, vai ter pessoas na porta das escolas dos seus filhos oferecendo esse tipo de substância”. Nós temos que construir essa ponte para esse lugar com cautela e cuidado. Então ter tirado as demais drogas foi uma tentativa de minimizar os efeitos que isso teria dentro da opinião pública. E mesmo assim a extrema direita continua dizendo que querem legalizar droga, que vão colocar traficante em porta de escola, que vão incentivar as crianças etc. Mesmo com esse cuidado do Supremo, ainda assim a extrema direita consegue transformar isso em um palanque para dizer que “não, não se deve legalizar nenhum tipo de droga”. A definição das 40 gramas, eu acho que ela é importante exatamente porque vai na contramão de deixar com que juízes e delegados façam essa definição. Há uma expectativa, são 40 gramas. Até 40 gramas não pode ser enquadrado no crime de tráfico. Obviamente que se tiver 40 gramas, mas se tiver balança, se tiver elementos que comprovem uma relação com o tráfico de drogas, aí há uma outra característica. Nós temos uma visão sobre política de drogas que ela é uma visão muito mais avançada do que essa votada pelo Supremo Tribunal Federal. Agora, eu reconheço como um avanço importante essa decisão do Supremo Tribunal Federal para que nós possamos, então, construir ao longo dos anos, porque não vai ser daqui para lá, e muito pelo contrário, a Câmara deve correr com essa PEC 45 das drogas para reverter inclusive o que o Supremo reconheceu. Essa decisão do Supremo vai nos ajudar a construir uma ponte para o futuro, para uma política de drogas mais decente.

Temos hoje um Congresso que é o que é, nós temos uma opinião de um senso comum na sociedade que representa o que ela representa. Não teria como trabalhar a legalização das outras drogas junto com o debate da cannabis”

Para além da descriminalização da maconha, você é a favor também da legalização. Como a política de drogas deveria ser, na sua concepção?

É uma política que prende e mata, violenta usuários e não prende e dá a devida punição aos verdadeiros traficantes. A política de drogas que nós temos hoje no nosso país é uma política criminalizadora, uma política que persegue jovens negros nas periferias, uma política que não combate o tráfico e tudo aquilo que está em torno do tráfico de drogas. Eu sou favorável à descriminalização, à legalização da cannabis, mas também obviamente de outras drogas com controle social. Nós temos que tomar cuidado porque sabemos o que a dependência química gera nas pessoas e o ônus que ela é capaz de consolidar em uma família e na sociedade, mas eu acho que a política de drogas tem que ser uma política do âmbito da saúde e não uma política do âmbito da segurança pública. Nós precisamos entender as drogas como algo que faz parte da sociedade e entender como que vamos diminuindo os efeitos nocivos delas nos organismos, mas também na sociedade como um todo. A legalização da maconha, porque acho que maconha não deve ser classificada como uma droga, não acho que maconha deve ser classificada apenas para uso medicinal… eu defendo a legalização para uso recreativo, que as pessoas possam fumar seu baseado, que as pessoas possam plantar a sua planta, que o Estado possa recolher os seus impostos para que tenha um controle sobre isso, para que tenha um lugar decente para ser comprado, para que não precise ser através do próprio tráfico de drogas, a compra, porque o tráfico envolve morte, milícia, crime e uma série de outros elementos. Nós precisamos repensar a política de drogas e pensar uma política de drogas que tenha um olhar preocupado com as pessoas e com os efeitos nocivos que as drogas causam na sociedade e nos indivíduos, a partir de um olhar de saúde pública, entendendo as drogas como um elemento que está aqui e como que é que os espaços de saúde podem lidar para enfrentar com a problemática das drogas.

Como é que tem sido para você estar na liderança do PSOL na Câmara? Os choques são diários, né? Então, qual é a sua maior dificuldade pessoal no exercício dessa função?

Olha, eu acho que a minha maior dificuldade pessoal é conseguir não enlouquecer diante daquela gente tosca. Conseguir me manter firme com o meu propósito, não adoecer, eu tenho adoecido bastante, mas não adoecer emocionalmente, assim, psicologicamente. Não perder o foco daquilo que me levou até a Câmara, dos meus objetivos, da minha construção política. Eu acho que esse é um grande desafio, porque o trabalho deles é tirar a gente do sério. O trabalho deles é mudar o rumo das coisas, é fazer tudo virar uma grande confusão. Então, eu acho que eu elencaria como o maior desafio conseguir resistir a tudo aquilo e me manter no foco.

A política de droga que nós temos hoje no nosso país é uma política criminalizadora, uma política que persegue jovens negros nas periferias, uma política que não combate o tráfico e tudo aquilo que está em torno do tráfico de drogas e eu sou favorável à descriminalização, à legalização da cannabis, mas também obviamente de outras drogas com controle social”

Você disse que você tá ficando bastante doente fisicamente, você acha que tem a ver com isso? 

Tem a ver com isso, sim. Com a somatização, com a mudança, com ir, com vir, com a rotina, né? Eu acho que tem muito a ver com isso, sim. Aquele lugar é energeticamente pesado.

Como é que você tem lidado com os comentários transfóbicos? Que ainda em 2024, a gente vê isso e é inacreditável. Te ferem ainda ou você já transcendeu?

Não, eu acho que depende, assim, depende muito. Acho que às vezes tem coisas que batem na gente de uma forma… uau! Isso ainda acontece, ainda me pega. Mas na maior parte das vezes eu consigo lidar tranquilamente, porque eu sou um corpo trans que vive num mundo que é extremamente transfóbico, que sempre agrediu a minha existência, que sempre teceu comentários cruéis e violentos contra mim, e isso foi me preparando pra que eu chegasse ali um pouco mais forte. Claro que ali tem outras nuances, né? Porque nós estamos num espaço de poder, tem aquela gente que manipula a internet, tem uma outra característica da violência habitual a qual o meu corpo foi submetido ao longo da minha trajetória de vida. Mas eu acho que não me afeta da maneira como eles gostariam que afetasse. Às vezes, vez ou outra, eu fico meio… puta, que merda, que coisa escrota. Mas passa, passa porque eu acho que eu já tenho uma casca, uma armadura, um preparo pra poder estar ali. Então, obviamente, eu sou humana e aquilo, em alguma medida, pode me ferir, mas não da maneira, eu acho, como eles gostariam que ferisse.

Você cresceu na periferia de São Paulo, como é que foi essa sua vivência na periferia em relação às drogas? A sua mãe abordava o tema com você, tinha um medo de que você se envolvesse com drogas? Porque eu também cresci na periferia e eu tive muito isso, da minha mãe sempre me dizer, deixar muito claro, que o maior medo dela era que eu me envolvesse com drogas ou que eu engravidasse muito cedo…

É, acho que isso é um clássico, né, esses medos. Apesar de que eu era uma criança muito fechada, muito tranquila nesse sentido. Então, claro, minha avó falava, eu tinha tios que eram dependentes químicos, então tinha um pouco esse lugar desse exemplo, do que não ser, do que não fazer. E eram tios que eram violentos, nós tínhamos medo deles e tudo mais. Mas a minha mãe não tinha um discurso forte sobre não se envolver com drogas, porque na cabeça dela, acho que ela achava que, de fato, eu não me envolveria com nenhum tipo de droga pesada e tudo mais. Tinha ali os comentários, tinha os vizinhos, tinha os exemplos, tinha o próprio tio, tinha essa coisa, o orgulho da avó que os filhos nunca se envolveram com drogas, né? Da minha avó paterna, porque da minha avó materna, meus dois tios eram envolvidos com drogas. Mas não era uma coisa que ficava sendo martelada na minha cabeça o tempo todo. Porque eu acho que como eu era uma criança já desviante da norma, já ficava mais no quintal, brincava com as minhas primas, mais de boneca, não tinha muito essa coisa de ir pra rua. Então eu acho que isso dava pra elas uma certa estabilidade emocional, uma certa segurança de que eu não corria riscos de me envolver com os meninos na rua, de ficar lá nas bocas com droga, essas coisas. Então tinha sim essa narrativa, mas não era uma coisa que era falada o tempo todo, sabe?

“Isso ainda acontece, ainda me pega. Mas na maior parte das vezes eu consigo lidar tranquilamente, porque eu sou um corpo trans que vive num mundo que é extremamente transfóbico, que sempre agrediu a minha existência, que sempre teceu comentários cruéis e violentos contra mim, e isso foi me preparando pra que eu chegasse ali um pouco mais forte”

Como é que foi a sua primeira aproximação, seus primeiros entendimentos em relação às drogas e à política de drogas?

Eu acho que foi através dos meus próprios tios. Quando eu comecei a entender por que que eles eram daquela maneira, o que que fazia eles fazerem aquilo, por que que eles tinham aquele ritmo de vida, como se justificava aquilo, eu percebi que aquilo eram as drogas, entendi as drogas, depois nas ruas eu conheci outros tipos de drogas, pessoas envolvidas com drogas, mas não pensando política de drogas, entendendo a existência das drogas e que drogas existiam e que faziam parte do convívio social das pessoas. A droga estaria ali presente. Acho que a política de drogas é olhar pra droga como algo que precisava ser entendido a partir de um viés de política pública, saúde e tudo mais, eu vou entender isso na universidade, onde as drogas são muito presentes, mas com outras características, com outro viés. E aí eu vou, então, entender esse lugar de tipo, olha, drogas, como elas surgem, o que acontece, como discutir as drogas, como pensar uma política de drogas, como outros países do mundo discutem políticas de drogas, países que são mais avançados, países com menos índices de criminalidade, isso se dá no ambiente universitário mesmo.

Falando sobre essa realidade da prostituição que você viu de perto, geralmente as meninas usam alguma substância ilícita até para lidar com a dureza das ruas. Como as drogas estão relacionadas a esse mundo?

A droga é muito presente na prostituição, né? Porque os clientes usam drogas, as próprias meninas usam drogas para conseguirem aguentar os clientes e aguentar a noite, aguentar o psicológico machucado, né?, aguentar uma série de desafios. A droga é muito frequente e ela acaba sendo, às vezes, até um combustível para elas conseguirem trabalhar, para elas conseguirem estar limpas, para conseguirem lidar com os próprios traumas, para conseguirem lidar com as próprias violências, para conseguirem ganhar dinheiro porque passam a consumir drogas com os clientes, porque os clientes pagam mais, porque os clientes acabam pedindo. Então a droga é algo muito frequente na prostituição e eu não tô falando de maconha, né? Eu tô dizendo de outras drogas mesmo, drogas extremamente pesadas.

Como é que a gente pode proteger as meninas? Pelo viés da educação ou é uma outra coisa, mais um acolhimento?

Não sei como a gente pode pensar isso, porque eu acho que também tem uma camada subjetiva e particular de criação, de base de infância, de estrutura familiar e etc. Porque tem muitas meninas que não se envolvem também, não é uma característica obrigatória. Você tá na prostituição, automaticamente você vai se envolver com todos os tipos de drogas que estão ali disponíveis para você. Eu acho que isso tem a ver com uma série de valores que antecedem a sua chegada até aquele espaço. Agora, é óbvio, quando nós já estamos ali, as meninas estão ali, é preciso que tenha uma política de redução de danos, que elas tenham acesso a preservativo, a canudos, a cachimbos, a coisas que ajudem elas a reduzirem a exposição a vírus e a doenças e uma série de outras patologias envolvidas com o consumo de drogas, que hoje a gente não trata, porque discutir política de redução de danos é como se nós estivéssemos discutindo apologia ao consumo das drogas. Quando na verdade, com política ou sem política, o consumo de drogas já vai estar colocado. O que nós estamos debatendo é quais tipos de redução nós podemos garantir para que não haja mais adoecimento pelo consumo de drogas, para que não haja mais problemáticas relacionadas ao consumo das drogas. As pessoas vão continuar usando drogas, ainda que drogas sejam crime. Droga é crime. O que nós precisamos é tirar o véu da hipocrisia da sociedade e dizer “pessoas consomem e ao consumir existem riscos que envolvem esse consumo”. A mistura de substâncias, o compartilhamento de canudo, o compartilhamento de seringa, o compartilhamento de cachimbo, uma série de coisas que envolvem a política de redução de danos. O consumo excessivo de álcool, por que não dialogar sobre isso? Isso traria um benefício até para o próprio sistema público de saúde, porque nós iríamos diminuindo as intercorrências de adoecimentos decorrentes do consumo excessivo ou das combinações abusivas, ou dos compartilhamentos de instrumentos para consumo de drogas. Então, eu acho que incidir para que se diminua o contato dessas meninas com a droga é uma resposta que talvez eu não tenha. Agora, como nós vamos garantir que ao estarem ali e se permitirem viver a experiência com as drogas, elas tenham a sua saúde e a sua segurança respeitada de forma integral?

Discutir política de redução de danos é como se nós estivéssemos discutindo apologia ao consumo das drogas. Quando na verdade, com política ou sem política, o consumo de drogas já vai estar colocado. O que nós estamos debatendo é quais tipos de redução nós podemos garantir para que não haja mais adoecimento

Na cena canábica tem uma mulher trans que conta que a cannabis foi de grande ajuda para ela conseguir lidar com toda a depressão e ansiedade que ela teve que lidar quando se deparou com as questões de gênero e orientação sexual (a @transcanabica no Intagram). Você chegou a usar alguma substância nesse seu processo particular? 

Não. Eu acho que a cannabis é uma substância que está aí, que faz parte desse processo. O óleo de CBD também, como um relaxante e tudo mais. Mas eu nunca usei como parte do processo. Eu usei como parte da vida mesmo. Do mesmo jeito que você toma um Donaren, que você toma um óleo de CBD, você fuma um beque, você faz algo pra relaxar, você faz algo pra ficar bem, pra se sentir confortável, pra ter um momento lúdico com você. Mas eu não atrelei isso ao meu processo, sabe? Pra mim é inerente da vida. Tá ali, tava disponível, é maravilhoso, defendo a legalização pra uso recreativo e me faz bem. Então é porque me faz bem, mesmo.

O uso recreativo te leva a que lugares? É um lugar de ficar tranquila, só contemplando? Ou você produz, desperta a sua criatividade?

Ah, eu acho que eu fico mais zen, porque eu acho que eu já sou uma mente muito produtiva sem cannabis. Então eu acho que com cannabis eu fico uma mente mais relaxada, mais tranquila. É que também depende muito, cada planta tem um sentido. Tem um lugar, bate de uma forma, digamos assim. Eu nunca imaginei que eu diria isso pra uma entrevista, mas é fato, né? Cada planta bate de uma forma, cada uma tem um lugar. Tem umas que são mais excitantes, tem outras que são mais relaxantes. Mas de um modo geral, eu me sinto mais relaxada, menos produtiva, mais contemplativa.

Do mesmo jeito que você toma um Donaren, que você toma um óleo de CBD, você fuma um beque, você faz algo pra relaxar, você faz algo pra ficar bem, pra se sentir confortável, pra ter um momento lúdico com você

E que lindo seria se a gente pudesse no Brasil ter acesso a essas variedades e saber exatamente o que a gente tá consumindo. E escolher se eu quero essa daqui que me deixa mais tranquila, ou essa daqui que me deixa um pouco mais eufórica. Você acha que a gente vai chegar lá?

Olha, eu não sei se eu e você, mas talvez as gerações futuras. Talvez nós duas, não. Porque acho que ainda precisa de muito pra conseguir avançar nesse sentido. Mas eu acho que nós estamos caminhando.

Você, que chegou na política pelo ativismo, considera que tem espaço na política de hoje pra ativistas da maconha?

Ah, eu acho que tem espaço na política pros ativistas de todas as causas, de todas as bandeiras, se trabalhar de maneira correta a narrativa, né? Não pode fazer um discurso sem ser muito bem amarrado. Sem conseguir pedagogizar e educar a sociedade. Porque o pânico da sociedade hoje com relação à maconha é a criminalidade, é o tráfico, são as outras drogas. As pessoas são enganadas por esse discurso. Elas são levadas por essa narrativa. Nós temos o trabalho de reeducar e dizer “olha, não é sobre isso”. Nós não estamos incentivando o tráfico de drogas. Nós não estamos empurrando jovens e crianças inocentes pra uma vida sem volta. Maconha é isso, ela representa isso, ela significa isso. Inclusive criminalizá-la é o que leva o tráfico a enriquecer, é o que empurra os jovens para as outras drogas, é o que não reconhece todo esse debate. Eu acho que se nós conseguirmos fazer essa discussão de forma pedagógica, profunda, consciente, há espaço para ativistas de defesa da legalização da cannabis.

“Ninguém bate na mulher porque fumou maconha, ninguém estupra o outro porque fumou maconha, ninguém faz acidente de carro porque estava louco de maconha, entende?”

O meu ativismo sempre foi um ativismo em defesa da legalização da cannabis e eu nunca escondi isso. Sempre tive adesivo de legalize a maconha, participei de Marcha da Maconha, falo abertamente e defendo desde sempre a legalização da maconha como uma política de Estado de enfrentamento ao crime, de enfrentamento ao tráfico, de enfrentamento aos danos de outras drogas causadas por não discutirmos uma política de drogas decente no nosso país. De alguma maneira, ainda que esse não seja o meu primeiro ativismo, esse ativismo esteve em torno das minhas causas o tempo todo e seguirá em torno das minhas bandeiras o tempo todo como alguém que acredita que legalizando a maconha nós teremos uma sociedade muito melhor, muito menos criminosa e muito menos chata também, porque se as pessoas fumassem mais maconha, elas seriam mais legais, elas encheriam menos a porra do nosso saco. Então eu defendo isso como uma política, inclusive de conseguir fazer com que a sociedade seja mais amigável, mais legal. As pessoas quando fumam maconha, elas são muito legais. Elas não são legais quando elas enchem a cara de cerveja, de álcool. Aí isso sim que é uma droga que é legalizada e uma droga que tem estudos clínicos que comprovam que os defeitos nocivos no organismo são mil vezes maiores. Ninguém bate na mulher porque fumou maconha, ninguém estupra o outro porque fumou maconha, ninguém faz acidente de carro porque estava louco de maconha, entende? Então, assim, acho que há espaço para esse ativismo com certeza.

A maconha é uma substância já difundida, pelo menos por onde a gente anda na sociedade, pode ser que numa bolha, mas já é bastante difundida. E aí tem uma outra coisa que também está cada vez mais acontecendo, que é a microdose de psilocibina. Você já experimentou?

Há estudos que comprovam que essa microdose faz um bem ao organismo, diminui ansiedade. E veja, mais uma vez, nós estamos falando de um recurso natural, né? Nós estamos falando de algo que vem da própria natureza, pega ali do cocôzinho da vaca, pega ali da estufa, pega ali não sei da onde, consome, não faz mal a ninguém, não mata ninguém, não causa dependência química em ninguém, não tem componentes químicos para desenvolver dependência química, né? Então eu acho que tudo aquilo que possa ser usado dentro do âmbito da natureza para diminuir ansiedade, dano, ajudar as pessoas ou para elas simplesmente terem 30, 40 minutos de lazer e diversão, eu sou super favorável, né? Eu não sou favorável ao crack, à cocaína, às drogas sintéticas, porque eu acho que elas precisam ser usadas de forma controlada. Eu acho que aí nós temos uma dependência que ela é grave, ela é profunda e ela destrói a vida do indivíduo. Ela não é um recurso natural. Ela é algo pensado para ser destrutivo. Ela é algo planejado como destrutivo, mas mesmo assim eu não acho que nós devemos criminalizar. Eu acho que nós devemos trabalhar o controle desse consumo. Nós devemos trabalhar o tratamento dos indivíduos que são dependentes dessas drogas para que eles consigam desintoxicar com qualidade, com tranquilidade, com respeito. E não prender, bater, internar de forma compulsória. Mas eu acho que a gente tem que separar mesmo o debate de drogas. Porque as pessoas morrem por crack. As pessoas morrem por cocaína. Ninguém morre por maconha. Ninguém tem uma overdose de maconha. Sabe, eu nunca ouvi ninguém dizer que foi trocar um celular para comprar um baseado ou para comprar um cogumelo. Isso não existe. Não faz parte do que dispara no sistema nervoso central do indivíduo o consumo dessas substâncias. Então eu acho que deve ser sim melhor trabalhada, melhor analisada, regulamentada, para que a gente possa ter um consumo saudável, consciente e controlado.

E você tem alguma experiência pessoal com microdose, por exemplo? 

Ah, microdose não, big dose (risos). Eu gostava muito de cogumelo quando eu era mais jovem. Eu achava que eram experiências muito boas, visuais, maravilhosas. Eu gostava muito. Faz muito tempo que eu não consumo. Mas não por nada, assim. Só por não, só por não.

Você comprava, alguém te fornecia, ou você pegava da bosta e tal?

Não, eu nunca fiz essa coisa mais rústica, não (risos). Eu não tenho essa aptidão pra ser tão rústica, não (risos). Não, eu não vou na bosta, no mato de manhã, pegar isso. Não tenho esse dom. Chega limpinho, né? Chega limpinho, limpinho, limpinho. Tem pessoas que vendem e tem sites na internet que vendem, né? Um monte. Então, eu comprava desses sites ou de amigo de amigo que tinha. Geralmente do amigo do amigo era sempre muito melhor do que esses sites, que eu acho que a fabricação desses sites eu não sei como é a procedência e é muito em grande escala. Não sei. Mas geralmente de alguém que indicava era sempre melhor.

“Ah, microdose não, big dose (risos). Eu gostava muito de cogumelo quando eu era mais jovem. Eu achava que eram experiências muito boas, visuais, maravilhosas”

Falando dessa sua falta de aptidão de acordar de manhã e mexer na bosta (risos), como é que você consegue conciliar a política e todo esse glamour que você tem?

Eu acho que é importante pra pra poder tirar um pouco daquela cafonice do que a política representa. Acho que, pra mim, sempre fui uma pessoa muito, eu sou assim, eu sou glamourosa, vaidosa, me cuido, sou toda cheia de penduricalhos, toda cheia de mania, toda cheia de coisa. Então isso pra mim é meu, mesmo, inerente da minha existência, de quem eu sou. Mas eu trabalhei isso com a política porque eu acho que isso atrai olhares de pessoas que nunca olharam pra política, e renova a política. A política é muito feia, a política é muito cinza, a política é muito sem graça, e eu trago esse frescor pra trazer um pouco mais de glamour, de close, de jovialidade, de beleza. Pra mim é importante, até pra que eu me sinta confortável e bem, estando naquele lugar.

Há vinte anos era impensável que pessoas trans pudessem ser eleitas no Congresso e etc. E, assim, como isso se tornou uma coisa real, você acha que daqui vinte anos a gente vai evoluir a tal ponto de que seja viável uma candidatura trans à presidência da República?

Menina, olha, eu espero que sim, viu? Não sei se eu, porque eu de fato olho pra esse Congresso hoje e tenho pavor de pensar nesse lugar. Mas eu espero muito que nós estejamos construindo esse lugar. Até ontem não podíamos nos imaginar vereadora, nos tornamos vereadora, a mulher mais votada do Brasil, depois nos tornamos deputada federal, podemos nos tornar senadora e por que não, nos tornarmos presidente da República. Eu acho que ser glamourosa na política também é ajudar com que a sociedade olhe pra esse corpo como alguém que não é só os estereótipos que foram pensados. Nós podemos ser e representar muitas outras coisas e muitos outros grupos para além dos grupos identitários ao qual nós fazemos parte. Nós estamos trabalhando na construção desse lugar, nós estamos limpando o imagético das pessoas, nós estamos colocando travestis e transexuais e a comunidade LGBT num outro patamar, ainda muito longe do que deve ser, porque o preconceito, o ódio, a discriminação e a violência são o que governa a relação de poder com a gente, mas eu acho que a gente está mudando uma estrutura poderosa. Quem sabe daqui vinte, trinta anos, por que não? O Brasil ter superado minimamente o olhar horroroso e odioso que tem contra pessoas trans e travestis e colocar na presidência da República uma mulher transexual ou travesti para representar os interesses da nação.