Na Breeza

A menor distância entre o Brasil e a África

Conexão sul-sul: a brisa da brasileira que criou uma agência de viagens canábicas na África do Sul, paraíso maconhístico ainda pouco descoberto
01|08|24

“Sempre sonhei com o mundo legalizado, em fumar uma erva de qualidade”, lembra Larissa Barbosa, que chegou na África do Sul em 2020 para estudar a suculenta Spekboom, usada pra regeneração do solo em Karoo (região semi-desértica do país), para uma de suas pesquisas em desenvolvimento rural, e acabou encontrando um dos lugares onde a cultura canábica é mais desenvolvida no mundo. Ela pôde, enfim, experimentar ganja de qualidade num lugar não exatamente legalizado, mas no mesmo patamar de aceitação social de outros países onde a cannabis é liberada.

A partir daí, a quase doutora em ciências sociais pela USP – que cursou 4 anos de doutorado, mas não chegou a concluir –, experimentou aquela sensação bastante comum nos ervo-afetivos, de querer aprofundar os conhecimentos e saber todo o possível sobre a maconha. No caso dela, entender também como a cultura canábica está inserida na tradição e cultura dos sul-africanos. 

Um novo mundo se abria para Larissa, que começou a viajar pelo país africano “conhecendo pessoas e fumando maconha”. “Tinham vários códigos que eu não estava familiarizada. A gente ouve muito falar em sativa e indica, mas na África do Sul essa classificação não é tão usada. Eles preferem falar em cultivo indoor, green house e outdoor, que são os métodos de cultivo.”

Durante as suas andanças, a brasileira, natural de Brasília, se deparou com uma cultura canábica vibrante e bastante disseminada entre os cidadãos. A boa aceitação da erva na sociedade sul-africana passa pelo fato de que a cannabis faz parte da medicina tradicional, e também pela economia de subsistência que é movida pelo seu cultivo, especialmente na região de Pondoland, no sudeste do país. 

“Como que pode a região mais pobre da África plantar ganja há dois séculos, uma erva que vale ouro, e seguir na miséria? Até onde nos leva o estigma e o proibicionismo?”, ela se perguntava enquanto explorava a região.

Medicina tradicional africana

Mesmo quem não é usuário tem profundo respeito por essa planta de poder cultivada há séculos no país, e cujo uso é protegido por lei. Muito antes da legalização da erva, que só foi acontecer há pouco mais de dois meses, quem quisesse acessar cannabis de forma legal poderia fazê-lo com a ajuda dos sangomas (curandeiros com status parecido ao dos nossos pajés), que lá são autorizados a prescrever tratamentos com plantas medicinais por meio de um artigo de lei que garante a todo cidadão o direito de acessar medicamentos não registrados.

De uns anos pra cá, houve ainda uma expressiva expansão dos clubes canábicos, ambiente preferido pelos sul-africanos para acessar e aprender mais sobre a maconha. “As pessoas já não falam ‘ah, vamos fumar um’, mas ‘ah, vamos fumar o quê, qual strain, cultivada por tal cultivador e de tal forma’”, conta Larissa, que impactada pela rica história e pelo rápido desabrochar do mercado da cannabis na África do Sul, quis mostrar ao mundo o que conheceu.

A melhor maneira de fazer isso, pensou, “é num projeto de turismo canábico”, que no início foi muito planejado para o público brasileiro, mas que na prática acabou recebendo turistas do mundo inteiro, principalmente de europeus, que cansados do modelo de turismo canábico da Holanda, buscam experiências mais genuínas. “Os coffee shops de Amsterdam foram muito criados para o turismo, mas os milhares de clubes da África do Sul são mais espontâneos, frequentados pelos locais. A África mistura Amsterdam com Canadá e Califórnia”, diz, referindo-se às mais variadas apresentações de cannabis e seus subprodutos encontradas nos clubes sulafricanos, como vapes e comestíveis (nenhum deles regulado, aliás, mas mesmo assim comercializados em profusão).

De Breeza para Briza

Assim nasceu a Briza27, agência de viagens que fundou junto com Yanga Fadana, uma sul-africana que conheceu num curso de cultivo e com quem empatizou de cara. “Nossa ideia de turismo canábico é colocar a cannabis dentro de um escopo de produto terroir, como é o vinho na França, e não exatamente atender apenas usuários de longa data.”

Larissa e Yanga só comercializam seus serviços, e não a flor nem outros produtos de cannabis, o que, a bem da verdade, acaba limitando a estratégia da empresa. Nos próximos seis meses, no entanto, a coisa deve avançar, e há esperança, por parte das duas, de que o governo vai regulamentar o mercado e conceder licenças especiais para trabalhar com o turismo da planta, e elas estão mais do que preparadas para conquistar a autorização.

Essa espécie de “ganja safari” tem pacotes básicos, mas não fixos. A brisa das sócias é montar tours personalizados para cada pessoa, dupla ou grupo de acordo com o que cada um deseja. Então, claro, há sugestões de rota, de lugares imperdíveis, mas também adoram produzir pedidos especiais, tipo um picnic de cannabis na praia, com chef preparando um cardápio especial e tudo; ou uma empresa que queira organizar aulas de surf – com uma sesh no meio, claro – para os seus funcionários. 

Por mais diferentes que sejam os tours, os passeios começam sempre mais ou menos parecidos, com a distribuição de uma barrinha de chocolate com CBD como estratégia de redução de danos, “pra pessoa não ficar muito chapada com o THC que ela vai fumar durante o passeio”. 

A redução de danos, a propósito, tem um espaço cativo dentro do estatuto de fundação da Briza27. “O nosso trabalho de redução de danos é bastante válido para mulheres viajando solo que querem ter acesso à maconha. Tudo muda quando você está num contexto não familiar. É preciso estar bem informada e assessorada”, diz ela, que dá vários exemplos de quão perigoso pode chegar a ser se jogar na cultura canábica sul-africana sem a ajuda de um expert local (que cobra entre 100 e 200 dólares por pessoa em cada passeio).

Além de viagens por plantações e lugares onde se processa a cannabis, os tours apresentam os viajantes aos clubes e códigos locais, no sentido de empoderá-los para ter autonomia sobre o seu próprio consumo, um tema importantíssimo quando se trata das embalagens, principalmente de comestíveis, que por se tratar ainda de um mercado ilegal, colocam dados generalistas, e que, segundo Larissa, não são, em absoluto, honestos com a composição dos produtos.

“As marcas colocam só ´full spectrum´ na embalagem, ou dizem que tem menos de 0,2% de THC,  e aí o turista acha que está seguro, pensa que é uma gominha de CBD ou que tem pouco THC, e de repente acaba desmaiando, porque a erva aqui é forte”, adverte Larissa, que, já tendo provado maconha de todos os lugares legalizados do mundo, encontra na da África do Sul a de melhor relação qualidade-preço. “Sem contar que a moeda é desvalorizada em relação ao real, o que faz da África do Sul um paraíso maconhístico para os brasileiros.”

Anita Krepp