
Não, “música, poesia, droga e macho” não foram exatamente inspirações na criação dos memes musicais mais divertidos da internet, mas um dos recortes de uma fala de Luana Piovani que a multiartista Amanda Magalhães escolheu para compor um dos melhores vídeos que circulam nas redes sociais neste 2024. E que por sorte, não é o único.
Lá no perfil da Amanda tem vários outros vídeos que seguem um mesmo formato, com colagens de falas de celebridades que vão formando frases nonsense, acompanhadas de arranjos musicais que vão do reggae ao house. As composições, da própria Amanda, se tornaram virais por vários motivos, mas principalmente pela qualidade dos arranjos, pela performance da gata e, claro, pelas frases inusitadas saindo da boca de pessoas inimagináveis.
“Recortes de cenas da vida que acho divertidos, coisas de ordem política que transitam num lugar do absurdo e que portanto também beiram o cômico, como aquele ´quem fuma 200 baseados´, que rolou no plenário”, conta Amanda, listando o caldo que serve como base criativa para seus vídeos de live looping. No estilo dela, camadas de arranjo são introduzidas ao vivo, numa técnica musical que artistas gringos como Marc Rebillet e FKJ utilizam, mas Amanda dá aquela comicidade brasileira.
Antes de cair nas graças da internet, a carioca já era relativamente conhecida pelo trampo como atriz, cantora, musicista e também como produtora musical badalada, em parcerias com Seu Jorge, Paula Lima, Liniker, Rincon Sapiência, dentre outros. Além de ter nascido em berço musical, sendo filha e neta de dois artistas notórios da nossa MPB: William e Oberdan Magalhães, da icônica Banda Black Rio.
Mas nem mesmo a graça, o humor e a familiaridade com o showbiz fizeram da sua arte uma unanimidade: ela já até precisou tirar do ar uma colagem musical que tinha feito com o Tim Maia. “Peguei uma fala duma entrevista dele, musiquei em cima e por algum motivo os herdeiros não gostaram, e acho que eles tão no direito deles e eu respeito. Quis tirar pra não dar treta com ninguém, porque o meu objetivo é fazer as pessoas se divertirem, dar risada, não quero tretar”, afirma a artista, que nem sequer lucra em cima das colagens.
Live Looping
Esses remixes, que invariavelmente caem no gosto da galera em questão de minutos, além de milhares de curtidas, recebem também dezenas de comentários, inclusive alguns estrelados, como de Giovana Ewbank, Nanda Costa e Fernanda Paes Leme.
Até o William Bonner deu as caras por lá com uma extensíssima risada no comentário do vídeo que protagoniza, apelidado de “Bateu”. “Eu queria que fosse um vídeo sobre aborto e no fim virou sobre maconha, e achei que ficou melhor do que originalmente eu tinha imaginado.”
Além do live looping com o grande ícone do jornalismo brasileiro numa colagem com o tema drogas, há diversos outros vídeos com a mesma temática e personagens diferentes como Ana Maria Braga e Guga Chacra. “Eu venho de um lugar onde isso não é um tabu, todo mundo sabe que no meio artístico o olhar para as drogas é outro. Eu própria, na minha adolescência, tive minhas experiências com as drogas sociais todas”, conta ela, que já não fuma um faz anos.
“Tudo o que estudei sobre o assunto segue me apontando numa direção de legalização. Embora eu não seja mais usuária, esse é o meu ponto de vista.” E assim, provando que o ativismo não é exclusividade de quem usa, Amanda exerce a sua cidadania esclarecida com o fim de gerar debates sobre temas tabu.
“Lideranças religiosas, políticas e conservadoras não deixam a conversa chegar porque você não pode nem se aproximar desse tema senão você vai pro inferno, e é a mesma coisa com o aborto”, aponta, dando como exemplo as campanhas de desinformação deflagradas sobre esses tópicos, normalmente por alas da direita tresloucada.
Meme não é bagunça
A tal da desinformação, as fake news, é o pavor de Amanda, que tem consciência de que as mentiras que se espalham não são apenas notícias inventadas, histórias inteiramente fabricadas, sem qualquer raiz de verdade, mas também recortes de entrevistas apresentados fora de contexto e com objetivos escusos.
Os memes musicais que ela cria também trazem recortes da realidade, e apesar do objetivo ser fazer rir (e em alguns casos, também refletir), Amanda tem todo um cuidado para deixar claro de que se trata de um meme e que em nada tem a ver com a realidade. Ou seja, ela fez uma sátira que mistura maconha e William Bonner, mas… isso não quer dizer que o Bonner fuma um, né? Pode parecer óbvio, mas há muitos na internet que não veem o óbvio.
“Eu tento fazer o meu rolê de um jeito onde até na eventualidade do meu conteúdo chegar numa pessoa que tenha outro olhar crítico pra essa linguagem de internet, que até ela possa sacar de imediato que aquilo é uma brincadeira, que fique claro que aquelas falas foram tiradas de contexto”, explica a artista. Amanda faz questão de deixar as colagens o mais artesanal possível – até porque, o estilo trasheira fica muito mais engraçado – e, além disso, reforça o caráter cômico do post na legenda ou num comentário fixado no post.
“Pra gente, que cria esses conteúdos de grande alcance, há que se ter essa responsabilidade. Tento não falhar com isso, se tô imune eu não sei, mas acho que é imprescindível a preocupação, um olhar atento pra isso”, defende ela, que pretende expandir o trabalho satírico com os memes para além das fronteiras da internet e, para isso, trabalha na preparação de um show audiovisual que deve ganhar os palcos ainda no primeiro semestre de 2025. Quem vamos?!
Anita Krepp