
De umas semanas pra cá, notícias sobre a alta do dólar dominaram os jornais, alardeando uma subida dramática. A moeda norte-americana disparou e a cotação, que já há um bom tempo orbitava a casa dos R$ 5, subiu para quase R$ 6 o valor da compra de US$ 1.
Esse movimento afeta os consumidores de cannabis no Brasil, sejam eles usuários ou pacientes, inclusive nas relações comerciais das marcas que estão nas grow shops e tabacarias, nas empresas de medicinal e também as associações. A Apepi, por exemplo, terá de adiar a compra de uma máquina de trima, que seria feita em dólar.
Esse não é um fenômeno que acontece somente no Brasil. Sem precisar ir longe, a cotação do dólar na Argentina foi de 800 pesos há uns poucos meses para 1.360 pesos nos últimos dias, o equivalente a uma alta de 70%, enquanto que no Brasil foi de 20%.
Se a marca de acessórios para fumar maconha lá da Argentina hipoteticamente optasse por repassar integralmente os custos, então os nossos hermanos passariam a pagar 2.890 pesos por um papel de seda pelo qual antes pagavam 1.700 pesos. Já no caso brasileiro, dando o mesmo produto como exemplo, saltaria de R$ 8 para R$ 10. Menos periclitante, é verdade, mas ainda assim um impacto considerável, e sem contar outros objetos para o consumo ou materiais para o cultivo da cannabis, roupas de cânhamo, medicamentos e outras cositas más.
Ouvir falar em alta do dólar por vezes pode parecer algo distante e os impactos desses movimentos econômicos globais inesperados até tardam, mas não falham quando se trata dos reajustes que o varejo repassa, mais cedo ou mais tarde, ao consumidor. Alguns usuários e pacientes de cannabis já sentiram o peso desse repasse e os que ainda não, melhor irem se preparando, porque vem aí.
“A influência do valor do dólar na importação de produtos de cannabis é significativa e impacta tanto os custos diretos quanto os indiretos. A valorização do dólar afeta diretamente os preços dos produtos importados, elevando os custos de aquisição para as empresas brasileiras”, explica Ricardo Teixeira, diretor da Tristar Express, empresa de logística que desenrola o meio de campo para mais de 80 empresas que importam cannabis no Brasil.
Saúde na ponta do lápis
Ainda segundo o empresário, com a alta do dólar, os produtos de cannabis medicinal e suas matérias-primas tornam-se substancialmente mais caros. Os custos de transporte e logística internacional, cotados em dólar, também aumentam, pressionando ainda mais as margens das importadoras.
Isso acontece tanto para as empresas de cannabis com autorização para venda por importação através da RDC 660, quanto com as já autorizadas a vender diretamente no balcão da farmácia via resolução 327. Isso porque apesar de não ser permitido cultivar cannabis em território nacional (com excessão de algumas poucas associações), os produtos adquiridos nas drogarias são suscetíveis a variação de preço, justamente por terem compostos importados.
Para a farmacêutica Ease Labs, que é autorizada a vendar nas farmácias e também fornece cannabis para o SUS de São Paulo, a preocupação com a subida do dólar sempre esteve no radar, e foi um dos motivos pelos quais a empresa adotou a estratégia de verticalizar as etapas da cadeia produtiva e nacionalizar a produção de insumos conhecido como IFA, ou, em outras palavras, a “alma” do medicamento.
Esse processo, que incluiu a compra de uma empresa na Colômbia, desonerou parte da operação da empresa, que ainda não está completamente livre das oscilações cambiais. Segundo a Ease Labs, porém, até o momento esses custos não foram repassadas aos pacientes que utilizam os produtos de cannabis da marca.
“Devido à estrutura regulatória do Brasil, as etapas de cultivo e primeira extração etanólica realizadas na Colômbia estão mais expostas à variação do dólar”, conta Fernando Franco, gerente de novos negócios da farmacêutica, que produz os insumos no país vizinho e termina o produto final em Belo Horizonte. “Mas também se deve considerar a variação cambial entre real e peso colombiano, com o real se valorizando nos últimos meses”, conclui.
Enquanto a tendência de repasse de custos das empresas que atuam no medicinal é de certa forma lenta e controlada (por se tratar de tratamentos de saúde), as marcas dedicadas ao consumo adulto da erva têm chegado às tabacarias e lojas de cultivo com preços mais altos do que o consumidor encontrava há dois ou três meses.
Dinheiro não dá no pé (nem de maconha)
“Nos últimos 10 anos, temos visto uma tendência constante de aumento nos preços dos produtos devido à alta do dólar. A cada importação, o preço muda”, contextualiza Lucas Schmidt, proprietário do Cultiva Grow Shop, que exemplifica comparando o preço de 1 litro de fertilizante que em 2016 custava R$ 89,90 e hoje está por mais de R$ 200,00. Segundo Schmidt, os produtos mais impactados pela alta do dólar são os fertilizantes e os equipamentos de iluminação.
Aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados, grande parte deles da Rússia, que é um dos principais fornecedores brasileiros. O recente aumento do dólar se somou à instabilidade política e à guerra na Ucrânia para piorar a situação, fazendo com que as marcas nacionais se tornem atrativas para o público que comprava fertilizantes de marcas gringas.
Mesmo a marca brasileira Smart Grow Nutrients, que tem sua produção de fertilizantes no Brasil, já sentiu o impacto da volatilidade cambial por utilizar matérias-primas importadas na formulação dos produtos. “A queda do petróleo e alguns outros insumos equilibra um pouco, mas não neutraliza uma alta, mesmo que menor que a do câmbio. É possível que tenhamos um aumento de custo real no segundo semestre”, esclarece o diretor da marca, João Lordello, estimando que será de algo entre 5% e 10%.
Basta dar uma volta pelas head shops pra constatar que praticamente todos os itens estão mais caros. “Mesmo as marcas nacionais acabam aumentando por conta do custo da matéria-prima, como no caso das empresas de vidro, alumínio, plástico”, ilustra Rodrigo Barreira, sócio da tabacaria Diboa.
Cada marca do cenário canábico desenvolve uma maneira própria de lidar com a flutuação do dólar, e no caso da Squadafum, uma das mais antigas do ramo, o jeito foi apelar à boa relação com os fornecedores. “Com muito esforço, conseguimos explicar para um dos nossos principais fornecedores da Ásia a situação do dólar no país. Com esse entendimento por parte deles, houve um congelamento nos valores das peças”, revela o fundador Jarrão, que conseguiu frear o repasse ao consumidor em alguns produtos, mas não em todos.
Anita Krepp