Na Breeza

A maconha compõe o retrato

Como a erva entra na cena de um dos maiores retratistas do Brasil
13|06|24

Quem diria que os preparativos de uma sessão de fotos importantes pra uma capa de disco, ensaio de revista ou coisa do gênero, em muitos casos incluem um fumo do bom? Daryan Dornelles tá ligado. Um dos poucos fotógrafos brasileiros que a gente ainda conhece de nome, por ter retratado quase todos os grandes nomes da nossa cultura (como Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Elza Soares, Wagner Moura, Ronaldinho Gaúcho, só pra citar alguns),  perdeu a conta de quantas vezes encontrou pura neblina ao chegar nos estúdios onde criou retratos icônicos.

“Geralmente tem [maconha no set], a pessoa tá fumando um e normal, pra mim é como se tivesse bebendo um café”, conta ele, sublinhando que apesar de a maconha ser muito relacionada ao ambiente artístico, é uma substância que “hoje em dia, todo mundo, gente de todas as profissões, usa”.

Os efeitos da erva, segundo ele, transparecem na desenvoltura do personagem, que normalmente fica mais tranquilo e confiante depois de dar um dois. Essa vibe tranquila, segundo ele, é o que vai definir se um ensaio vai dar bom ou não. Claro que se não tiver a cannabis ali pra dar essa força, o fotógrafo vai encontrar outras maneiras de criar um ambiente familiar. Puxar um assunto em comum, agir com respeito e interesse genuínos são as táticas de que ele lança mão. 

Esse clima de conquista entre modelo e fotógrafo, claro, não depende da maconha ou de qualquer outra substância, mas se elas estão presentes, é mais de meio caminho andado. Não foram raras as vezes em que Dornelles foi convidado a entrar na roda. “Ambiente de cannabis as pessoas oferecem. Oferecer é questão de boa educação, né?”, diz aos risos. 

Mesmo gostando do cheiro e dos efeitos da maconha no seu processo criativo, Dornelles diz fumar muito pouco hoje em dia. “Uso pra relaxar, não fumo na rua, por exemplo.” Na nova rotina que mantém em Portugal, pra onde se mudou com a família, segue fotografando os artistas que estão de passo, por alguma turnê ou apresentação. E é sócio do braço de fotografia do Studio Nuts.

No bar com Chico

Chico Buarque clicado por Daryan Dornelles

A maior parte do trabalho que realiza hoje no Studio Nuts é ligado à publicidade, e assim como a maioria de nós, também reflete muito sobre a acelerada evolução da inteligência artificial, e admite que essa é uma preocupação dentro do estúdio. “Você consegue fazer imagens muito boas e para a publicidade não requer um rosto conhecido. Uma pessoa desconhecida pode ser feita em IA, não precisa de fotógrafo, e, às vezes, nem de estúdio.”

É, minha gente, até um dos maiores retratistas brasileiros vem sendo desafiado pelos novos tempos e sentido a necessidade de se reinventar. Para isso, estuda “um pouquinho de inteligência artificial” ao mesmo tempo que segue atento a seguir melhorando o próprio olhar, “porque a importância do olhar vai continuar”.

Esse olhar tão bonito que ele vem cativando há décadas ganhou projeção nacional em 2007, ao retratar a imortal Fernanda Montenegro para a finada revista Bravo!. De lá pra cá, fez incontáveis capas de revistas para Placar, Serafina, GQ, Época, Esquire, Rolling Stone e a lista segue. Além das capas de disco, que se sente especialmente realizado em fazer “porque desde moleque o que eu mais gostava era ter um disco na mão”.

Tá preparado? A lista é enorme. Tem Clarice Falcão, Luiz Melodia, Barão Vermelho, Alice Caymmi, Teresa Cristina, Marcia Castro, João Donato, Ed Motta, Maria Rita, Tom Zé e Chico Buarque, com quem conviveu em diversos momentos para trabalhos diferentes. “Dos artistas, o Chico talvez seja o mais próximo da gente, uma pessoa muito, muito tranquila. Não me vejo num bar tomando um chopinho com Caetano e Gil, mas me vejo com o Chico. Tomar cerveja e falar de qualquer coisa.”

Um baseado pra relaxar

Será que ainda falta fotografar alguém que ele adoraria mas que por um motivo ou outro ainda não rolou? “Queria muito fotografar o Jorge Ben, tava negociando pra fazer isso agora no Coala”, conta Dornelles sobre a oportunidade que rolou há pouco, no festival que aconteceu em terras portuguesas no mesmo fim de semana que o AC/DC tocava em Sevilla. “Era a última turnê da banda e tive que ir, mas quero muito ainda fotografar o Jorge.”

Despedir-se do AC/DC foi um momento especial a ponto de fazê-lo sentir uma vontade rara de postar alguma coisa além de trabalho no Instagram. “Todo mundo postando e eu também quis, mas me perguntei, por que tô fazendo isso?”, conta o fotógrafo que reconhece o lado bom da rede social, de inspirar pessoas a ser mais criativas, a buscar melhores enquadramentos, ao mesmo tempo levando à exaustão com tanta imagem e informação. 

“É muita propaganda. Dá vontade de ter aquela câmera, aquele gato, aquele cachorro, aquela estante, aquela bebida, tanta coisa… acho que deve doer a cabeça das pessoas. Então eu tento evitar, só ponho trabalho, e mesmo assim uma vez ou duas por semana, senão você fica doido.”

Mr Catra retratado por Daryan Dornelles

Essa pegada ostentação é zero a onda de Dornelles, mas isso não o impediu de ver beleza no pai da ostentação, Mr Catra, que quis fotografar desde que soube de sua existência. “Ele tava ali, sempre pronto. Bastava ele olhar. Tinha atitude, confiança, tinha tudo.” Bem, na verdade, não foi sempre assim.

“A primeira vez ele tava nervoso, acendeu vários baseados. Na foto ele tá fumando maconha, inclusive”, relembra o fotógrafo que antes de clicar seus modelos fumando (maconha ou tabaco) sempre pergunta se incomoda. No caso do Catra, nenhum incômodo, “ele fumou o tempo inteiro”. E é muito provável que essa atitude confiante do Catra tenha muito a ver com a maconha. 

Anita Krepp