Reportagens

Resiliência e florescimento em meio ao desastre

Relatos de associações, empresas, pacientes e usuários da comunidade canábica que foram duramente impactados pela tragédia das chuvas do Rio Grande do Sul
06|06|24

O casal tinha voltado ao Rio Grande do Sul (RS) há três anos. No meio da pandemia, Pétala La Maison e Augusto Salvadoretti, ambos hoje com 32 anos e casados faz nove, resolveram sair da cidade de São Paulo para retornar a Porto Alegre. Após experimentarem alguns negócios, recentemente abriram a própria marca, a 1a4, que comercializa itens úteis a brisados, como cinzeiros, mas com preocupação com design, estilo, durabilidade. Nos últimos trinta dias, porém, foram obrigados a paralisarem o sonho que estão construindo juntos. Isso porque eles estão dentre as centenas de milhares de pessoas cujas vítimas foram bruscamente e brutalmente transformadas pela devastação da tragédia das chuvas que vêm assolando o estado gaúcho.

A equipe de Breeza vinha se questionando sobre como abordar a urgente pauta que preocupa os brasileiros dia e noite, com olhar para a comunidade de pacientes, associações, empresas, usuários. Pétala chegou a enviar uma mensagem para a redação na qual alertava para a questão: “Ajudem a fazer um movimento canábico para ajudar marcas e pessoas que foram atingidas pelas enchentes (…) Nós, marcas canábicas, sofremos do preconceito”.

Ainda mais por nossa redação não estar no RS, o melhor caminho do bom jornalismo é ouvir relatos de quem lá está e foi diretamente impactado pela tragédia. Fizemos isso na última semana, em conversas com pacientes, representantes de associações e donos de marcas ligadas ao nosso setor, por meio de chamadas de vídeo e WhatsApp.

Pétala e Augusto entraram para o ramo canábico por motivos também pessoais. Ambos são pacientes, ou seja, usuários com prescrição. “A cannabis mudou nossas vidas e esse [a 1a4] é o jeito de expressar nossa  gratidão”, comenta ela. Pétala iniciou tratamento com remédios tarja-preta aos 8 anos de idade para controlar o TDAH. Aos 17, passou a tomar ainda mais pílulas para transtornos de ansiedade e bipolaridade. Só a partir dos 23 que se libertou de preconceitos, descobriu a maconha e, com orientação médica, passou a usar como substituta das drogas mais pesadas.

“Foi um desmame dos medicamentos.” Após as enchentes em Porto Alegre, ainda tem um estoque de óleo e gummies, porém está com medo que acabe e fique sem. Os produtos vêm dos EUA e não estão mais chegando à cidade. 

Apesar de o ateliê da 1a4 não ter sido destruído pelas águas, o trabalho foi completamente afetado. O casal tinha acabado de comprar móveis novos e de pintar o espaço. Tudo isso foi comprometido pelas goteiras e pela umidade. Além disso, a pausa na infraestrutura básica, como nos Correios, impede que a marca continue a vender e entregar. A falta de luz, água, fornecimento de materiais e internet também levou à paralisação.

Todavia, o casal segue firme, inclusive em trabalhos voluntários e auxiliando em entregas de doações. “Não tem ninguém em Porto Alegre que, se não foi diretamente afetado, não conhece um amigo que teve a casa destruída, que perdeu tudo, que precisa de abrigo”, comenta Augusto. O casal diz ter recebido pessoas próximas para dormir em casa. “Ficamos também apenas com a água de uma torneira da rua por quase um mês”‘. Faz poucos dias que voltaram a tomar banho no próprio lar.

“Não sabemos quando vamos voltar a produzir, mas não desistiremos. Chegamos até aqui e vamos seguir”‘, afirma Pétala.

Perdas e resiliência

A notícia logo chegou à terapeuta Patrícia Dobler, presidente da Acuracan, associação de pacientes em Porto Alegre: um o alerta de que a água iria entrar na sede. Logo na sequência, vieram as mensagens de amigos e pacientes que diziam que a enchente estava destruindo suas casas, que estavam perdendo tudo. “Um de nossos diretores ajudou a socorrer pessoas, conseguiu se mobilizar rapidamente. Um dia ele viu um posto de gasolina explodir do nada”, recorda ela, sobre os primeiros momentos da tragédia.

O foco passou a ser em ajudar as pessoas ao redor, o que fez com que ela deixasse de lado a sede da Acuracan. A água também já havia subido rápido e engolido a recepção, as salas, quase tudo. “‘Nos preocupamos primeiro com as pessoas, com nossos pacientes. Contatamos um por um para saber se estavam bem e seguros, se tinham conseguido levar os remédios consigo”.

Com o próprio material comprometido, a Acuracan abriu uma campanha de doações para conseguir óleos, gummies e outros produtos para quem estava sem. “Muitos são crianças, idosos, PCDs que dependem do óleo para controlar crises que, sem o remédio, podem voltar a ser diárias”.

Nos últimos dias, nos quais a água começou a baixar, Patrícia pôde voltar a atentar à sede da associação. “Foi um choque muito rápido”, compartilha. “Caiu até uma parede. Ainda não conseguimos calcular todas as perdas, não sabemos quanto tempo vai demorar para nos reestruturar, mas, junto com nossa comunidade de pessoas, vamos nos recuperar”.

O espírito de resistência é compartilhado por Eduardo Thum, proprietário da Flor do Sul. Durante vinte dias, ele só conseguia chegar em sua loja de barco, também em Porto Alegre. Especializado em cultivo indoor, perdeu cerca de metade de seu estoque. “Só de substrato, foram 12,5 mil litros”‘.

Autodeclarado como paciente de cannabis desde os 15 anos de idade, Thum, que hoje tem 56, garante que não desistirá. “‘São muitos anos na cena. Se todo mundo comprar um pouquinho [dos produtos das marcas gaúchas], ajudará bastante”. Isso não quer dizer, por certo, que o abalo não é enorme. “Destrói o cara, né? Mas é coisa que se recupera, ao custo de muito trabalho, e tâmo fazendo”.

Conhecida no Instagram como Lilica 4.20, a cozinheira gaúcha por trás do perfil que passa dicas de culinária canábica e que mora na capital e é dona de um restaurante em Porto Alegre, relata dias de muita tristeza e insegurança.

A água invadiu sua casa e o restaurante. “Acordei e estava quase na metade [da parede]”‘. Ela está no Quarto Distrito, uma das regiões mais atingidas da capital. Sem acesso a TV, internet, luz, pois tudo havia sido cortado em consequência do desastre, conta ter demorado para compreender a magnitude da calamidade que se espalhou pelo estado.

“Fui resgatada de minha casa em um bote, com meus quatro cachorros, um outro do vizinho, e meu marido ajudando a empurrar”. Quando o tempo esfriou, teve de retornar de barco para sua casa para resgatar roupas de frio. “Havia muitos assaltos na região. Tivemos de pagar 200 reais por dia para um vigilante passar de barco pela área e impedir que levassem nossas coisas”.

A cozinha de sua residência também foi destruída. Após a água baixar, ela, o marido e amigos fizeram um mutirão para uma faxina de dez dias. Por ora, ela parou com as aulas de culinária canábica, além de outros trabalhos. Como paciente, ela mesma prepara suas medicações à base de cannabis, e agora está com medo de ficar sem estoque de ingredientes para a produção. “Aos poucos vou me organizando. Tô tentando reconstruir”.

Esperança

A marca aLeda, conhecida entre usuários, e sua empresa-mãe, a Handmade Brazilian Tobacco (HBT), ficam em Santa Cruz do Sul, em RS. Em entrevista para Breeza, Giorgio Volonghi, CEO da marca, afirma que “em 47 anos, nunca havia experimentado esse sentimento, é dor 24 horas por dia”.

Ele conta que famílias de funcionários da empresa foram afetadas, perderam bens materiais e estão, obviamente, abaladas emocionalmente. A sede da HBT não foi alagada, saiu ilesa nesse sentido. Nos arredores, contudo, é um cenário que ele descreve como “de guerra”. “Sem água, sem estrutura, mais do que não ter o que comer ou o que vestir, as pessoas não tem fogão, geladeira, onde cozinhar a comida.”

A empresa escolheu paralisar por sete dias para que os cerca de cem funcionários pudessem se dedicar a familiares, amigos, doações e voluntarismo. “Deus, essa esfera que cada um dá um nome, ainda me privilegiou com um baita presente. Contratei 22 pessoas. Pude dar esse presente pra minha comunidade, abraçar essas pessoas nesse momento. Foi um privilégio”. Apesar de terem parado alguns dias, Giorgio afirma que o negócio foi afetado “em tempo, não em dimensão”. Forte no mercado, a marca possui estoque de segurança, além de outras estratégias para encarar momentos difíceis. Evidentemente, não se esperava por uma calamidade, mas o time da empresa teve força para se manter resistente no processo. 

Localizada em Caxias do Sul, a Flowermind, marca também de nosso setor, foi outra que não teve perdas materiais diretas. “A barragem próxima não arrebentou por pouco”, comenta Fernando Velho, fundador da empresa. “Mas tivemos prejuízos indiretos, como com corte de luz, internet, entregas. Parceiros foram impactados. E não tem como não se abalar no psicológico”. Com o site suspenso para entregas desde o início do desastre, a empresa tem incentivado clientes a procurar por produtos da marca em revendedores. 

Neste ano, a marca completará uma década de estrada e, por isso, Fernando acredita que “está segura e resistente”. Diante disso, vê agora a necessidade das pessoas do setor se uniram e se auxiliarem como podem. “É preciso dar voz a quem está aqui, para que as pessoas sejam ouvidas. Precisamos fazer tudo voltar a girar”, diz ele. Giorgio, da HBT, vê um caminho parecido para a recuperação: “Alianças! Essa calamidade nos joga na cara isso, o quanto as pessoas são mais importantes que tudo, são as sementes para tudo”. 

Filipe Vilicic