Saindo da estufa

Anelis Assumpção: “Obviamente foi com o meu pai a primeira vez que eu fumei”

A vida pode parecer fácil pra quem é filho de pai famoso, mas a verdade é que a pressão que recai sobre filhos de artistas mais atrapalha que ajuda a se encontrar consigo mesmo. Anelis Assumpção não parece ter se perdido no caminho até si e há vários anos deixou de ser apenas filha do grandíssimo Itamar Assumpção para ocupar o seu próprio espaço no cenário da música brasileira.

O início das experimentações artísticas da Anelis foi lá no começo dos anos 2000, quando integrou a banda Comadre Fulozinha – que até hoje se mantém entre as expressões mais criativas da nossa música – e experimentou também a faceta apresentadora de televisão à frente de programas da TV Cultura.

No próximo sábado, dia 1º de junho, Anelis apresenta no Circo Voador a sua versão do álbum “Legalize It”, de Peter Tosh. Ela sobe ao palco acompanhada de uma banda afinada e talentosíssima (com Saulo Duarte na guitarra e Bruno Buarque na bateria), espalhando e reforçando a mensagem do disco Tosh, que apesar de ter quase 50 anos, continua super atual.

Na entrevista que você lê agora, Anelis Assumpção conversou com Anita Krepp, jornalista desta Breeza, sobre esse tributo tão especial, a vontade louca de conhecer a Jamaica, de sua iniciação na erva (que se deu ao lado do pai), das experimentações com o óleo de maconha para aliviar o câncer da irmã Serena e, claro, outras temáticas ligadas à legalização. Vem com a gente!

Como aconteceu a ideia do show Legalize It em homenagem ao Peter Tosh?

O reggae é a sonoridade que eu cada vez mais me sinto alinhada, sinto que é um som que eu busco, que tá muito dentro de mim, que é um sonho que já vem referenciado da própria música do meu pai, ainda mais num lugar até mais livre que não é o gênero puro, mas ele como uma possibilidade de contar histórias a partir de uma música linda que é muito solar. Eu acho que essa é a coisa do reggae que mais me interessou, sempre me pegou. E aí acho que por conta disso eu faço muitos reggaes, eu tenho muitos reggaes nos meus discos. Eu fui convidada para um projeto que acontecia no Sesc que chamava 75 rotações,  que era uma homenagem a um disco que estaria fazendo 40 anos naquele ano. E aí eu fui chamada para fazer os 40 anos do álbum “Legalize It”. Eu fui convidada, imagino eu, por conta da minha afinidade com o reggae. E eu amei porque eu amo o Marley, muito. Obviamente conheço a obra toda de trás para frente, mas sempre amei também o Peter Tosh, e tinha sempre essa sensação de que dessa super duplas mundiais que acontecem, John Lennon e Paul McCartney, Caetano e Gil, sempre é muito paralelo o pensamento, né? Muito lindo como complementa. E são duas forças muito grandes para uma ilha muito pequena que inventou um gênero e os dois maiores ícones desse gênero… então eu já adorei porque eu gosto do lado mais marginal da coisa, o Marley é muito mais popular, ele é pop mesmo, ele é hoje um ícone pop. Então eu falei “pô, minha cara esse lugar mais do lado B da coisa, e tomei um baita gosto, levantei o show para esse projeto específico e falei putz, que experiência incrível”. Porque interpretar não é muito a minha onda. Eu não faço muitos shows interpretando outros autores. Então é um exercício também muito importante, muito gostoso, como se por nesse lugar, como interpretar essa canção 40 anos depois, eu com o meu corpo em outro país, não sou jamaicana e nem tenho a fluência do Inglês ou do pajubá, os dialetos que eles falam na Jamaica, é muito específico.

Você já foi para Jamaica?

Nunca! Meu sonho da vida, não tem um só dia que eu não falo sobre isso. Tô emanando, uma hora vai acontecer, mas é caríssimo, cara, impressionante! É uma viagem caríssima. Esses dias eu tava falando com um amigo e as pessoas ficaram me dando várias soluções, vai pra Cuba e de Cuba você vai, vai pra Miami e de Miami você vai, e realmente é mais barato fazer o trajeto assim… meu sonho, meu sonho mesmo mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo, mesmo é produzir um disco na Jamaica.

Isso ia ser massa. E aí você pensa em levar a família? Hoje em dia você é uma mulher de família, né?  Ou você iria só é curtir como se não houvesse amanhã?

Eu sou uma mãe, né? Eu sou um tipo de viajante que… e tenho uma lua em Gêmeos, então ao mesmo tempo em que eu quero estar sozinha, quando eu tô sozinha, eu falo puta, ia ser tão legal se a galera tivesse aqui. Eu gosto sempre de estar com eles. Eu acho ótimo, eu não tenho esse lugar de ah, porque a família atrapalha. E eu consigo ter minha individualidade assim dentro da família, isso é muito bom, mas se eu fosse para trabalhar, eu iria para trabalhar, né?

E se tivessem chamado para fazer um disco do Bob, teria sido diferente a recepção desse convite? No que mudaria?

Não sei, eu já fiz show só do Marley também, um projeto para o Festival do Cultura Inglesa que eram só shows cantados na língua inglesa. E aí me convidaram para fazer o “Bob eu falei pô, mas eu já tenho o show do Peter Tosh” e a galera “mas a gente queria o Marley”, eu falei então vâmbora porque eu amo também, é um tesão. É muito gostoso porque é muito popular, qualquer coisa que você cante do Marley, todo mundo vai junto, pega muito, o Tosh, não. Me instiga apresentar. Eu ainda sinto que ele tá sendo apresentado para muita gente. Então esse lado é muito gostoso. Claro, fazer Bob Marley é como fazer um repertório do Olodum no Carnaval, não tem como dar errado, quer dizer, tem, pode dar bem errado (risos). Mas você solta um “eu falei faraó” e o povo vai embora. O Tosh não é isso.

Fazer Bob Marley é como fazer um repertório do Olodum no Carnaval, não tem como dar errado, quer dizer, tem, pode dar bem errado (risos). Mas você solta um “eu falei faraó” e o povo vai embora. O Tosh não é isso

Você tinha esse disco internalizado ou você teve que dar uma estudada? Rolaram muitos ensaios?

Rolaram muitos ensaios. Eu tinha ele bem internalizado, mas aquela coisa que você tem certeza que você sabe e aí quando você vai cantar você fala “caraca”! Na verdade o meu problema mesmo foi porque justamente como eu não sou intérprete e quando eu vou ouvir esse sons, o Marley ou o Tosh, principalmente eles dois, mas reggae no geral, que tem uma força vocal muito forte, eu estou sempre cantando os vocais. Eu sei todos os vocais mais do que o lide da canção. Ou eu vou misturando, canta um pouquinho do lide, daqui a pouco eu caio pro vocal, daqui a pouco eu volto pro lide, então quando eu fui ensaiar eu me dei conta que eu sabia mais dos vocais, eu tinha uns vocais muito mais internalizados do que a condução da música toda. Tive que preparar bastante mudança de tom, minimamente trazer um pouco do arranjo pra uma linguagem que tivesse mais a ver comigo, não ser exatamente um cover, sabe? Eu consegui a glória de ter três vocalistas exclusivas que não tocam nenhum instrumento. Só cantam. A gente fica se adaptando com músicos que cantam e fazem vocal e tal, mas quando você tem só as vocalistas concentradas só para aquilo, eleva o nível do som.

Coloca esse projeto numa linha do tempo pra gente entender de onde veio, onde tá e pra onde vai.

Ele vem desse convite ali em 2016. Para mim é muito importante também isso, como eu venho trabalhando as memórias e venho amadurecendo cada vez mais a importância de como cuidar e mexer nelas, eu quero sempre que aconteça de um jeito muito especial, não é um show que eu quero fazer de qualquer forma, em qualquer lugar, me adaptando a condições que não rolam porque não é meu trabalho, entende? É como se fosse um meio de transporte, um cavalo, mesmo, da mensagem. Então o meu trabalho autoral, que eu tô aqui viva para defender, eu posso fazer do jeito que eu quiser. Eu digo assim no sentido de mais qualidade, menos qualidade, se adaptar, versão menor… esse show do Tosh é um show que eu quero realmente dar a ele o merecimento que a obra tem, então eu tô caminhando com esse projeto, com essa ideia de levar esse show do mesmo jeito que eu levo a memória do meu pai, do mesmo jeito que eu levo a memória da minha irmã. Tem que ser muito especial. Então a gente faz pouco, até porque eu tenho meu trabalho autoral, os meus discos e o trabalho que eu faço com o meu pai, do museu… então ele é um brilhante. A hora que a gente abre esse porta-joia é para usar numa situação muito bonita e importante.

O que é a mensagem do reggae pra você?

Acho que esse é o ponto focal. Trazer o “Legalize It” à tona, um disco que tem 50 anos e que fala sobre a legalização da maconha, e que fala sobre o uso canábico, e que já falava das violências atreladas a isso, é estimular um pouco o conhecimento da própria história. E toda essa batalha que a gente tá vendo acontecer de um processo de descriminalização que precisa ser mais sério, menos lúdico, porque parece que é uma brincadeira de pessoas que querem viver loucas, entendeu? Eu tenho gostado de pensar na ideia de falar sobre, de trazer o “Legalize It”, que tem músicas incríveis no disco em que ele fala o médico fuma, a enfermeira fuma, o advogado fuma, né? Ele fala da hipocrisia disso, de que a gente tá vivendo… olha só, é 4:20 risos… essa é uma grande hipocrisia que a gente precisa avançar. Lá atrás, quando quando esses caras estavam falando disso, eles estavam falando de uma situação, de um contexto social, de uma ilha onde havia uma perseguição a determinados corpos e a gente sabe que a cannabis foi relacionada a determinados corpos nessa diáspora latina e a gente precisa falar mas seriamente disso. A mensagem desse disco é uma mensagem da breeza, ela é de hoje, ela é de agora, né? E é muito séria porque é um cara que foi assassinado, não obviamente porque fumava maconha somente, né? Claro que também porque era uma uma figura que desafiou o governo e o exército a tal ponto que tava ficando muito forte aquela mensagem. E aí e a gente precisa lembrar que são os movimentos sociais que vão mudar o rumo da sociedade mesmo. E os caras estavam lutando por liberdade e eram pessoas que falavam sobre erva e religião, né? Que aí é um outro lugar, traz um outro contexto cultural um pouco diferente pra gente no Brasil. A relação do uso com uma conexão com algo que tá acima. Mas como eles viraram pessoas perigosas por simplesmente pregar a liberdade. Essa mensagem que eu acho que ela tá contida e não pode ser apagada, não pode ser ignorada. Não é uma música que a gente vai por para dançar e não assimilar nada. Por isso que o reggae é desse jeito, porque ele mexe com qualquer pessoa, e aí através desse som eu posso falar de qualquer assunto, inclusive de violência, de política, de perseguição, não são canções de amor, tem as românticas, claro, mas não é assim que nasce.

A gente sabe que a cannabis foi relacionada a determinados corpos nessa diáspora latina e a gente precisa falar mas seriamente disso

Você está vivendo no Brasil, sendo uma mulher negra e que eu suponho que faz uso da cannabis, como é para você observar tudo isso que nos tem acontecido?

O meu pai sempre fumou muita maconha. Um maconheiro nato e, bom, minha história com a cannabis começa na minha casa, com meu pai sendo um usuário que nunca escondeu, que sempre naturalizou muito isso para as crianças, para mim e para minha irmã, os amigos, enfim, até chegar no momento em que a gente questionou “mas não é proibido?”. Mas será que a gente tem que ter medo porque o meu pai faz uma coisa que é proibida? E aí me lembro de uma situação, eu vou só contar isso para contextualizar, a minha irmã chegou em casa muito brava e aí ela falou para mim “você sabia que o papai fuma maconha?”. A gente era muito pequena, sei lá nove e seis anos. Porque o pai do Júlio falou que o papai fuma maconha e agora estou morrendo de vergonha na escola e não sei o quê, e lá fomos falar com ele. Fizemos um motinzinho assim das crianças e falamos “pai, o pai do Júlio falou que você fuma maconha”, aí ele falou “ah, senta aí, chegou a hora”. Não esqueço como foi tão bonito isso dele falar, mesmo a gente sem entender muito bem, mas ele falar politicamente daquilo, e que ele não era um criminoso por fumar. Ele era criminalizado, e foi quando eu entendi a diferença das duas coisas, quer dizer, não foi quando eu entendi, foi quando eu ouvi, e depois eu fui elaborando isso, entendendo a diferença entre, né? Por que relacionavam a imagem dele a um criminoso. Obviamente, era um homem retinto que fumava baseado, fazia arte, que trabalhava com música, que era um artista independente, que não se corrompia para o sistema. Então ele, assim como o Marley, a assim como Tosh, assim como muitos outros, era criminalizado, mas nada do que ele fazia era crime. Nada. Então acho que essa foi a coisa mais forte da minha relação com a maconha. Obviamente foi com meu pai a primeira vez que eu fumei. Eu tinha 16 anos e foi demais.

O convite partiu dele ou de você?

Eu namorava um menino que era muito maconheiro. E aí eu não tinha interesse porque aquilo estava tão dado que eu não tinha realmente curiosidade, não. Tinha uma coisa assim, mas aí, pode ser que agora seja legal, tô com uma idade que acho que dá. Entendendo ali o corpo adolescendo e tal, e aí falei para o meu pai que eu gostaria de fumar. Nossa, que alegria! E aí foi uma tarde inteira, claro, vamos ritualizar esse momento, né, e a gente jogou baralho e foi ótimo, eu ri muito. Só que aí depois eu fui ficando meio para baixo e ele “ow, ow, não é para ir aí não, hein? Sai daí, não entra aí não”. E eu “não quero nada, não quero mais jogar, não quero nada” (risos). Depois a gente ria pra caramba. Hoje eu fumo muito, muito raramente. Eu uso óleo já há um tempo, eu comecei a investigar o uso do CBD e até do óleo mais forte, do óleo que contém THC quando a Serena tava doente, a minha irmã.

E ela usou para para mitigar os efeitos do tratamento do câncer?

Sim, ela usou há 7 anos. Ela faleceu faz 7 anos, então 8, mais ou menos, porque ela começou a usar um ano mais ou menos antes de morrer. Não tinha nada, não tinha nem um pouco dessa oferta, era um caminho assim, como é que eu faço pra conseguir? Aí alguns amigos, pessoas que usam e que estavam mais ligadas e tal, e a gente conseguia um óleo que vinha de Florianópolis de uma procedência que vamos confiar, é o que a gente conseguiu. Foi muito bom para a Serena. Foi muito importante ver a Serena, que também não fumava, não gostava de fumar. E aí eu fiquei falando para ela, olha tem tantos milhões de estudos, já tinha documentários, já tinha mil coisas, mas não era comum. E ela falou “quero tentar, você me ajuda?’” ajudo, aí fui atrás. Comprei uma máquina, uma panela elétrica para tentar fazer. Fiz uma tintura, conseguia chegar a uma tintura que ficou fortíssima e enquanto a gente não conseguia comprar. Aí achei esse lugar, comprei, e ela tava usando essa tintura que eu tinha feito e ela também muito afim de quase catalogar, sabe? O que acontecia, como então ela tava numa fase de químio muito ruim, sem apetite, muitos vômitos, deprimida, né? Toda a situação ali da doença… Então foi muito bonito ver.

Eu me lembro de um dia que ela me ligou e falou ´Anelis, agora eu consigo entender porque tanta gente procura essa paz, eu estou em um estado de paz que eu não consigo te explicar, que eu nunca tive. E ela ficava hilária. Eu e minha mãe, a gente ria muito, ela ficava engraçada, ela ria, ela realmente ficou leve, tinha vontade de comer. O sono melhorou, o humor melhorou. Não foi curativo no processo dela, foi realmente um paliativo muito, mas muito importante. Muito mais leve do que outros paliativos que podem ser usados também nessa fase. Desde que eu comecei a pesquisar o óleo para a Serena eu fui me aproximando e a coisa foi evoluindo. E aí quando a Serena morreu, a minha mãe ficou muito deprimida, muito. Ficou uns dois anos muito difíceis, e minha mãe é hipertensa, e várias questões, já uma idade, tem 84. E aí eu falei para ela ´mãe, você não gostaria de experimentar, tentar fazer um tratamento para essa depressão?´. Falei ´você não quer experimentar?´, e ela “quero”, aí a gente fez. Eu filiei ela e também me filiei numa associação de pacientes. Passou com o médico, fez consultas, tudo com receita. Eu tenho um olhar muito para esse lugar, porque fumar para mim não bate bem. Eu fico muito ansiosa com muita taquicardia, eu quero que passe, eu quero sair logo, e aí vai me dando mais angústia. O óleo não, o óleo me dá outro lugar. Eu queria ter virado uma super maconheira, mas não consegui. Tentei muito. Meu pai falava “meu deus, nem parece que é minha filha” (risos). Ai, pai, não quero. 

Eu queria ter virado uma super maconheira, mas não consegui. Tentei muito. Meu pai falava “meu deus, nem parece que é minha filha” (risos)

Como foi fazer o óleo, você foi buscar na internet como fazer? Como é que você encontrou a fórmula?

Tutoriais na internet, na deep web da cannabis, e eu tinha uma conhecida que plantava para uso próprio e ela me deu flores bem puras. É uma das pessoas que mais me ajudou. Hoje ela faz parte de um super coletivo com advogados, com médicos, dessas pessoas que realmente se dedicam à planta, e foi ela que me ajudou, que me trouxe algumas plantas. A gente nunca tinha feito, ela também nunca tinha feito o óleo. Eu não cheguei no óleo, né? Eu cheguei numa tintura. Tinha ainda mais um pouco de processo, mas quando eu cheguei na tintura, eu achei que já tinha conseguido. E perdi muita flor (risos), perdi sim, mas cheguei, porque aí juntou com meu tesão em cozinhar, tipo, eu quero entender como quimicamente eu vou extrair isso.

Hoje você então é paciente de cannabis com autorização da Anvisa etc e tal. Qual é o seu cid? Qual que é a sua questão ali como paciente?

Cabeça, né? Sono! Insônia braba. Eu falava para o médico “eu quero não lembrar do sonho, eu quero conseguir dormir num nível tão profundo que eu não me lembre”. Eu sonho muito e eu demoro muito para dormir e aí quando eu pego no sono é muito sonho, acordo exausta, a qualidade do meu sono é meio mais ou menos assim, sempre foi, desde criança. Não uso constantemente até para ajudar meu corpo a criar uma dinâmica. Fico mesclando com outras coisas, alguns fitos, umas ervas calmantes e tal que são boas para insônia. Quando vejo que tá dando muito bom, eu paro. E também crises de ansiedade, né? Essa novas sensações aí mais modernas. Me ajuda muito.

Curioso que você disse que não fuma, mas a sua obra tem ali uma coisa canábica, né?

Cara, eu vivo esse mundo da música muito canábico. A música que eu ouço é canábica, a minha referência maior, meu pai, que era um usuário de cannabis, eu acho que eu não tenho muito como escapar e eu não me sinto me apropriando de alguma forma, até porque eu autoralmente não falo desse lugar com a propriedade de quem usa, mas na propriedade de quem vive esse mundo que é o mundo que eu acredito, que eu realmente estou na minha vida individualmente, não como artista. Como mãe, como mulher, meus filhos fumam, né? Rubí e o Bento gostam muito. Muito mais do que álcool. Inclusive acho que é uma geração que vai muito mais para o uso da cannabis do que para a bebida. Cria uma outra relação que me parece realmente mais livre. Eu como mãe, como mulher nessa sociedade, é esse caminho que eu estou traçando para mim, para os meus filhos, uma sociedade que não vai criminalizar e que deve haver o livre desejo em relação a dois polos, né? O do uso recreativo e do uso medicinal. Eu quero que a gente possa chegar a uma sociedade onde eu quero poder escolher fazer esse tratamento sem ser como fiz com a Serena, sabe, com medo, sem saber de onde estava vindo, quem tava produzindo, se fazia bem. E também ter a liberdade de quando eu vou na esquina e quero tomar uma cerveja e quero fumar um baseado. Eu acredito nisso, eu acredito que a gente tem que buscar essa equidade. Então acho que a minha música ou o meu eu artístico tá muito embuído de um mundo canábico. Eu acredito realmente no poder, na força. Como uma pessoa que tenta ser mais alinhada, mais naturalista, mais alinhada com o que é mais natural em relação às nossas trocas como ser humano e planeta Terra. Eu acredito fortemente, assim como o boldo para o fígado.

Você teve a mesma naturalidade que seu pai teve para falar com você?  Rolou também esse momento de você fumar com a Rubi?

Não, nunca fumei com a Rubi, nunca. Doido, né? Uma hora talvez. Mas acho que isso também é uma coisa que vai muito naturalmente acontecendo entre pais e filhos, mães e filhos. A hora que tá todo mundo à vontade para ficar louco na frente do outro, né? Não é uma coisa muito simples.

Em Taurina (disco de Anelis) você invocou essa força do touro que gosta dos prazeres e dá comida, né? E aí eu vejo tanto o prazer de fumar quanto o prazer de comer depois de fumar, e acho que tem essa coisa também no disco, não tem?

Eu acho que tem muito né, cara, mas eu praticamente dedico minha vida para pensar em comida, então é uma mistura de taurina com maconheira. Acho que pode passar essa sensação que é uma coisa muito bonita mesmo da cannabis. Como é gostoso esse cheiro. Como é gostoso esse sabor, que gostoso esse toque, que bonita essa luz. Olha, como tá caindo bonito o dia essa flor, essas cores. Esse sensorial é tão importante, e a gente tem vivido num ritmo de mundo passando por cima disso, né? Comendo sem sentir o gosto porque precisa comer alguma coisa. E aí não vou passar o dia sem comer, então como qualquer bobagem, em qualquer lugar, e outro dia eu vi um meme que é a minha cara, que o Curumin (marido de Anelis) me fala” isso é o caralho”, eu fico muito mal humorada de gastar dinheiro com comida ruim. Ah, não, cara, não acredito que eu gastei 70 reais com aquele restaurante, eu teria feito muito melhor e não é só o dinheiro gasto, eu perdi toda uma energia possível, não só de alimentar o meu corpo, mas uma coisa mais especial. Quando meu pai tava doente, no final, já em sofrimento por conta do problema dele ser no intestino, ele tinha uma restrição alimentar fodida. E aí ele falou “quero comer uma feijoada, pelo amor de Deus”. Eu falava para minha mãe, vamos dar uma feijoada para ele, cara. Não dá para tirar da pessoa isso, para mim também vai muito para esse lugar. O estado de cura pode ser um pequeno estado de cura que venha através dessas sensações. Quando a Serena me fala agora eu tô entendendo porque que o papai buscava essa paz, porque que tanta gente procura essa paz. Não é o tempo todo eu tô sentindo essa paz, é quando consigo acessar, eu sei que ela existe. Você sabe que existe um gosto que provoca tantas coisas boas, eu sou um tipo de gente que eu choro com algumas comidas, eu fico emocionada a ponto de chorar, eu passo vergonha (risos).

Deu vontade de provar a sua comida…

Nunca chorei com comida minha (risos). Choro fazendo, me emociono muito fazendo, preparando principalmente peixe. Choro com peixe, já a hora que eu pego ele na feira, já me emociona muito quando eu vejo um peixão. Me emociono com o peixe mais do que com qualquer outra carne, me emociono muito fazendo comida. Chego num ponto, caraca, olha como ficou essa massa! Desenformar um pudim. Agora, chorar de comer comida dos outros, já chorei várias vezes.