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Observatório da Planta

O que esperar do mercado da cannabis daqui para a frente?

Por Murilo Nicolau

Essa semana estive em São Paulo em uma das maiores feiras de cannabis medicinal da América Latina e recebi a seguinte pergunta de um leitor da Breeza: o que esperar do mercado da cannabis daqui para a frente?

Achei a pergunta bastante oportuna. Estávamos em um oásis canábico em plena era da proibição brasileira, algo que apenas esses eventos 420 podem nos proporcionar atualmente.

Penso que ainda teremos muitas dificuldades pela frente, respondi a ele. Sem dúvidas o crescimento exponencial de pacientes ainda impulsionará muito esse mercado, e o debate da maconha pelo viés medicinal tem a vantagem de carregar consigo temas de direitos constitucionais importantíssimos como o da saúde e da vida digna.

Me parece, porém, que esse crescimento fortíssimo do mercado também causará, e já causa, reações contrárias e tentativas de criações de restrições, burocracias e mais desrespeitos a direitos básicos.

Em poucos anos seremos um dos maiores mercados de maconha do mundo. É só olhar o tamanho da nossa população e de pessoas que poderiam se beneficiar com tratamentos de saúde com a planta. Como exemplo disso um levantamento do Ministério da Previdência Social de 2023 aponta que depressão e ansiedade foram responsáveis por 149,3 mil afastamentos de trabalho.

Então sim, um dos maiores mercados da cannabis do mundo é proibicionista. E pior, está ensaiando aprovar uma Emenda Constitucional que apenas reitera o discurso da guerra às drogas e não oferece solução nenhuma para os problemas causados pela proibição.

Sem dúvidas é um contrassenso grotesco: nossa indústria já fatura (muitos) milhões com a planta enquanto 1 a cada 3 pessoas no sistema prisional brasileiro responde por crimes relacionados à Lei de Drogas. 

Além do mais, adicionei à conversa com aquele leitor, falta lei pra tudo que envolve a indústria da maconha medicinal. Não podemos nos contentar com regulamentações apenas para a importação excepcional de produtos e para a canabidiol na farmácia. É muito pouco.

Acontece que a sanha proibicionista do nosso legislativo atual impede que esse debate vá para frente com a força e seriedade que a saúde do nosso povo merece. É um mercado que floresce nas brechas legais que vão ficando pelo caminho. 

De qualquer forma acredito que já vivemos em um Brasil melhor do que há uma ou duas décadas. Alguns (poucos) anos atrás era impensável que essas feiras acontecessem por aqui, ou que seria possível comprar canabidiol na farmácia ou realizar a importação de milhares de produtos de maconha medicinal.

Mesmo assim não é suficiente. Pacientes têm seus direitos desrespeitados diariamente pelo governo brasileiro, que ignora a necessidade de tratamento com apresentações diferentes das disponíveis no mercado, como as flores in natura, e que esquece que grande parte da população não pode pagar mais de R$ 600 por um frasco de óleo.

Muitas pessoas, inclusive, se incomodam com a existência desse tipo de evento canábico, acham também um absurdo alguém falar abertamente de maconha no Brasil. 

Fica o aviso, porém: é melhor se acostumarem, pois estamos apenas começando.

Tem dúvidas jurídicas sobre a planta? Toda terça, responderei às perguntas enviadas pela comunidade breezada. Envie DM pelo Instagram da @breeza_revista. Ou pelo meu, o @omurilonicolau.