
Quando sua esposa lhe sugeriu que experimentasse um ritual de ayahuasca para superar pressões da vida que lhe estavam fazendo mal, Alysson Muotri não levou muito a sério. “No máximo terei uma viagem boa”, pensou ele, que já havia experimentado maconha, LSD e cogumelos e não acreditava que, por isso, a ayahuasca iria, falemos assim, bater forte.
A decisão por participar do ritual Voo da Águia, criado pelo estudioso de Xamanismo Léo Artese, naquele maio de 2022, veio como forma de agradar sua companheira, a ex-modelo Andrea Coimbra. À noite, ele viajou de sua casa em San Diego, na Califórnia, para uma fazenda em Escondido, cidade nos arredores. Em doze horas de ritual, teria o que viria a considerar um dos momentos mais definidores de sua vida.
Aos 49 anos, Muotri é um dos cientistas mais renomados de nosso país. Biólogo de origem, formou-se na Unicamp e fez doutorado na USP. Em 2002, mudou-se para os Estados Unidos, onde tem se consagrado. Hoje, após tantas formações e êxitos, sendo citado mais de 22 mil vezes em artigos científicos de seus pares (em academiquês, isso é muito, muito mesmo), é professor e pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), onde coordena um laboratório que leva seu nome e no qual realiza estudos com o que são popularmente conhecidos como minicérebros (recriações minúsculas de redes neurais). Além de liderar algo próximo a quarenta cientistas, sendo que em torno de 80% são de brasileiros e brasileiras radicados, é diretor do Programa de Células-Tronco da UCSD.
Muotri publica estudos pioneiros em revistas científicas de renome como Science e Nature. Em 2016, participou do time responsável pela descoberta da relação do vírus da Zika circulando no Brasil com casos de microcefalia. Dois anos depois, em 2018, ele e colegas fundaram a “neuroarqueologia”, uma linha de estudos que se pode adjetivar como bem brisada: utiliza análises de DNA para criar minicérebros que simulam como eram esses órgãos em neandertais, nossos primos extintos há 40 mil anos.
Um de seus principais campos de atuação tem impacto direto no autismo. Recentemente, realizou um teste clínico de uso de canabinóides para tratamento de efeitos do autismo. “O trabalho ainda é inconclusivo, mas dá para ter confiança que o CBD ajuda bastante em duas coisas: agressividade e ansiedade”, avaliou, na entrevista à Breeza.
Foi o trabalho de pesquisas com o autismo que o levou a conhecer a esposa. Em 2010, Muotri utilizou técnicas de reprogramação celular para reverter alterações morfológicas em neurônios, num achado que abriu novos caminhos e ampliou horizontes na procura por tratamentos para o autismo.
Um ano depois, realizava uma palestra em São Paulo acerca do assunto quando conheceu Andrea Coimbra. Após se casarem, adotou Ivan, hoje com 17 anos, filho dela. O caso de autismo de Ivan é severo, com muitas convulsões diárias, falta de controle do corpo e de habilidades de fala, ele precisa de constante supervisão. Além de diversos outros remédios, experimentou-se o canabidiol com Ivan, mas com o tempo ele desenvolveu resistência à substância.
O VOO DA ÁGUIA
Muito passava pela cabeça de Muotri antes do seu primeiro ritual de ayahuasca. Era uma época em que sentia que lhe faltava focar e valorizar as coisas certas, apesar de então não entender quais seriam essas coisas. “Eu era muito material”, resume. Encontrava-se, por exemplo, sempre mergulhado no disputado e agressivo ambiente acadêmico dos Estados Unidos. “Os colegas brasileiros não sabem o tamanho da competição aqui.” E é possível afirmar que ele queria ser o melhor dentre os melhores dos seus.
Não só isso. Durante a pandemia, pioraram as convulsões de Ivan. “Como cientista, até, me sentia insatisfeito em não conseguir ajudá-lo. Tenho o melhor da ciência em minhas mãos, e não consigo ajudá-lo.”
Andrea, sua esposa, acreditava que o Voo da Águia, que ela havia experimentado anos antes, iria auxiliá-lo a desembarcar desses pensamentos e viajar para um lugar melhor. Ao chegar na fazenda, havia cerca de outras 25 pessoas para o ritual, além dos discípulos do xamã Léo Artese, que conduziam a vivência.
Quase uma hora após tomar a primeira dose, Muotri olhou ao redor e viu os outros participantes viajando, cada um na tua. Achava que a brisa não tinha chegado a ele.
“Sou resistente, não vai bater, magina”, pensava. Ele acredita que há dois tipos de cientistas. Um, aquele que não experimenta, que se fecha. “Ótimo que existam, você não vai querer um neurocirurgião operando teu cérebro depois de tomar um ácido.” Não, não queremos.
Só que há também outro tipo, os dos que não têm medo de sair de suas zonas de conforto. São exploradores, inovadores e experimentadores. Ele é desse tipo, unindo-se a um grupo de brisados geniais que incluem nomes como Humboldt. Freud, Richard Feynman, Carl Sagan. Recentemente, Breeza conversou sobre o assunto com o também neurocientista Sidarta Ribeiro.
“Desde a graduação entendi que tinha de ter não só as descrições dos livros, mas viver minhas próprias experiências para conseguir realmente estudar o funcionamento do cérebro.” Sua primeira vivência psicodélica foi com um chá de cogumelos. “Eu mesmo coletei, preparei.” Já provou maconha, LSD e tipos diferentes de cogumelos. Algumas substâncias ficam mais tempo com ele. “O café, uso cronicamente. Maconha? Aqui na Califórnia é legalizado, assim como a psilocibina. Então passo no dispensário e compro às vezes quando preciso relaxar ou para dores crônicas que aparecem.”
Acreditava que as experiências anteriores o haviam blindado mais para a primeira dose de ayahuasca. Será? “Numa hora, fechei o olho e tava em outro universo. Nunca perdi completamente a consciência. Sentia vontade de fazer xixi, ia no banheiro. Mas percebia as coisas de forma diferente: a cor das chamas do fogo da fogueira, o rostos das pessoas, a textura de tudo.”
Era o chá agindo em seu cérebro. O psiconauta começava a ter visões. Quando fechava os olhos, surgiam formas geométricas. E uma entidade, de voz feminina e que se manifestava como animais. Na primeira vez, uma serpente ameaçadora.
A SERPENTE
“Por que tem de se mostrar de forma tão amedrontadora?”, perguntou Muotri.
“Se for mais confortável para você, posso mudar”, respondeu ela, antes de se metamorfosear em uma cobrinha de aparência dócil. Noutras vezes, ela voltaria a contatar o cientista, mas como uma raposa ou uma gata. A entidade e o explorador teriam vários papos, naquela noite e em futuros rituais do brasileiro com ayahuasca. Depois das revelações que viriam naquele primeiro voo, viraria adepto.
Naquela madrugada, sob efeito, fez muitas perguntas para a misteriosa entidade, que nunca revelou seu nome, apesar dele a ver como uma manifestação feminina de si mesmo. “No momento em que você formula uma pergunta, a resposta vem de dentro de você.”
Algumas eram questões científicas que se mesclam com os terrenos da filosofia. “O cérebro é o centro da consciência?”. A entidade animalesca lhe explicou que a consciência não emerge do cérebro, pois nosso cérebro seria receptáculo da consciência cósmica universal, da qual participamos e com a qual interagimos. “Desafiou meu pensamento científico e biológico. Realizações como essa me jogaram contra a parede e me mostraram que eu não estava certo em muito.”
Qual é a próxima pesquisa na qual devo focar? Como melhorar o meu modelo de organóide? Como funcionam as convulsões no cérebro? Por que meu filho não pode falar? “As respostas vinham detalhadas, surgindo na mente. Achei legal que a entidade era honesta ao falar. Inclusive ao dizer coisas como ‘Isso, ninguém sabe e jamais vão descobrir. A ciência é limitada'”.
Foram doze horas de ritual, pela madrugada toda na fazenda californiana que é também região sagrada para tribos nativas da região. Após a primeira dose, vieram outras três, bem espaçadas entre elas. O consumo vinha acompanhado de rituais com danças, músicas, tambores. Na segunda dose, o grupo se reuniu ao redor da enorme fogueira e lhes foi ofertado um desafio: peguem seus medos e queimem!
Há quem joga maços de cigarro nas chamas e jamais volta a fumar. “O que revela o poder anti-viciante da ayahuasca”, opina Muotri. Cada um escolhe um item que representa o receptáculo de seus pavores externos e internos. O cientista ergueu um graveto e nele lançou um de seus maiores horrores: “Tenho medo de entrar num foguete e ir pro espaço. O que acontece com o Ivan, meu filho, se eu não voltar?”.
Para a grandíssima, enorme maioria, quase todas as pessoas, essa questão seria figurativa, tanto exagerada, talvez filosófica. No caso dele, pode-se entender no literal.
O PSICONAUTA E O ASTRONAUTA
Como muitos de seus colegas cientistas, Muotri cresceu com o sonho de explorar o espaço. Seu personagem favorito da Turma da Mônica era, claro, o Astronauta. Só que para nós esse é um sonho tão distante quanto, sei lá, receber uma carta para ir pra Hogwarts. Para Alysson Muotri, o convite chegou no fim daquele mesmo ano de 2022. Mas em seu primeiro Voo da Águia, ele já podia ter a ambição de voar tão longe. Ele vinha construindo essa conquista fazia anos.
Seu envolvimento com pesquisas espaciais começou em 2016, de forma ousada: após ler análises da Nasa sobre o cérebro de astronautas que passaram longos períodos longe da Terra, na ISS (sigla em inglês para Estação Espacial Internacional), discordou de algumas conclusões. Os resultados mostravam que nossas células, nossos neurônios envelhecem mais rápido no espaço. Para a Nasa, isso seria um efeito temporário. Para ele, não, era algo permanente.
Como a Nasa não concordava, não quis financiar seu primeiro experimento no espaço. Ele então hipotecou sua casa para financiar o envio de um experimento com minicérebros, à bordo de um foguete de uma empresa americana, em 2019. Os resultados comprovaram sua hipótese.
A Nasa passou a lhe dar atenção e financiou três de seus experimentos para a ISS, em quatro anos. Lá no cosmo, um robô criado pelo seu laboratório realiza os testes. Só que descobriram um problema: tem alguns procedimentos que, de tão delicados, só podem ser feitos por mãos humanas. E quem iria viajar até o espaço para isso? Algo em Muotri o fazia desconfiar que seria mesmo ele. Foi quando jogou na fogueira o graveto com seu medo e a entidade voltou a se manifestar em sua frente.
“Ela me deu parabéns por queimar meu medo. Me explicou que eu e Ivan somos parte desse todo, a natureza, e nunca ficaremos sem um ao outro. Por isso, não preciso ter medo. Nossos vínculos transcendem o físico”.
Ao voltar pela manhã para casa, após as doze horas de ritual, foi recebido pela esposa, Andrea, que acordava e estava toda curiosa. “Como foi?”. Ele respondeu, transformado: “A coisa mais maravilhosa, uma experiência que me mudou”. Então se questionava: “Será que essa transformação vai durar?”. E durou. Hoje, sente-se mais leve, menos pressionado, livre de vontades como de competir com colegas cientistas, focado em seus objetivos e pronto para embarcar em uma viagem espacial. Quando sente receios, bem, volta a experimentar o ritual do Voo da Águia, do qual se tornou frequentador.
“Se não fosse por essa experiência, não sei se teria coragem de embarcar nessa aventura”. Nas duas últimas semanas de 2022, dois astronautas da Nasa o visitaram em seu laboratório. Queriam aprender sobre suas técnicas e pesquisas para realizá-las na ISS, eles próprios. O objetivo da Nasa é incentivar estudos do brasileiro que podem de descobrir caminhos promissores para curas para doenças como autismo, a achar soluções para preservar o cérebro de cosmonautas em (vindouras) viagens a Marte.
O trabalho do cientista em laboratório é complexo demais para ser aprendido em pouco tempo e a Nasa desistiu desse caminho. Em vez disso, fizeram outra proposta: preparar o brasileiro Alysson Muotri para virar astronauta e ele mesmo fazer seus experimentos na Estação Espacial.
Em breve, Muotri deve começar seu treinamento físico e mental. A primeira de suas viagens (se os experimentos tiverem resultados promissores, outras já estão na programação) deve ocorrer no ano que vem, ao longo de 2025. Se tudo der certo, será o primeiro cientista brasileiro a sair da órbita do planeta (os outros dois únicos conterrâneos que realizaram o feito foram o hoje senador Marcos Pontes, piloto da Força Aérea, em 2006, e um sortudo que ganhou um sorteio para ir como turista, em 2022). Um voo de um psiconauta preparado para ir muito além dos limites da Terra e de sua própria mente.
Filipe Vilicic