Na Breeza

Tributo à xamã Maria Sabina: o 1º disco brasileiro pra ouvir numa sessão com cogumelos

Músico da banda Ponto de Equilíbrio produziu álbum com músicas que serão usadas em ensaios clínicos com psilocibina; direitos autorais foram registrados no nome da curandeira mexicana

Quem já tomou psicodélicos sabe bem o valor do “set e setting” no desenrolar da experiência. “Set”, diz respeito ao estado mental do paciente (ou do psiconauta). “Setting”, dá importância ao ambiente da sessão. As pessoas, as cores, a organização do espaço e, por suposto, os sons jogam um papel importante nas sessões de psicodelia – tanto as feitas em contexto de psicoterapia quanto as dedicadas à recreação.

Os cânticos e as músicas têm um poder especial nessa dinâmica e por isso estão sempre presentes nas diversas tradições em todo o mundo onde se faz uso ritual das chamadas plantas de poder. A curandeira e xamã mexicana Maria Sabina, conhecida mundialmente como a rainha dos cogumelos e que ajudou o mundo a “redescobrir” a psilocibina, também cantava nos rituais que conduzia. A xamã viveu por 91 anos, morreu em 1985, pobre e com problemas de desnutrição. Seus cânticos foram gravados e, assim como ela, perduram pelo tempo como parcos registros sonoros daquele momento e época.

O músico e antropólogo Lucas Kastrup foi atrás desses registros para produzir o álbum Tribute to Maria Sabina, lançado há poucas semanas nas plataformas de streaming. A ideia do tributo pintou quando o irmão de Lucas, o neurocientista Stevens Rehen, comentou com ele sobre uma pesquisa clínica com psilocibina que a startup Scirama, pioneira nesse ramo no Brasil, estava preparando. 

E por que não aproveitar a oportunidade para criar uma trilha sonora para acompanhar as sessões de estudo com a substância? Kastrup plantou a ideia e assim nasceu, sob encomenda, o primeiro disco brasileiro dedicado ao acompanhamento musical de um estudo clínico com psicodélicos. 

Ele realizou uma pesquisa prolífera ao lado de Marcelo Bernardes, co-produtor do disco e músico experimentado que, entre outros artistas, já tocou com Maria Bethânia, Moraes Moreira e há mais de 40 anos está na banda de Chico Buarque. Ao encontrar os registros sonoros de Maria Sabina, selecionaram alguns para trabalhar no que viria a ser as sete faixas que compõem o disco-tributo. Primeiro, Bernardes botou na partitura todas as melodias escolhidas para depois pensarem juntos sobre quais instrumentos incluir em cada canção.

Reparação é importante, sim

“Eu e Marcelo temos alguma experiência com o uso da psilocibina e isso foi muito importante pra ter uma familiaridade com a proposta”, conta Kastrup, enquanto rememora as fases de produção do álbum que tem músicas e melodias muito diferentes entre si, propiciando um mergulho em universos dessemelhantes. “Em algumas faixas nos permitimos improvisar, mas sempre indo ou voltando pra melodia original da Maria Sabina, que foi transposta para a partitura.”

Todas as faixas foram nomeadas com uma referência ao título original da canção, como estava registrado nos arquivos originais “pra facilitar a pesquisa de quem estiver interessado nessa busca, poder comparar e entender o caminho criativo e artístico que foi tomado”. Mas também traz complementos que diferenciam o tributo do original, já que se trata de uma inovação, e não da mesmíssima música.

O álbum foi lançado e registrado no nome de Maria Sabina como “uma forma de tentar preservar os direitos e possíveis arrecadações que eventualmente essa obra possa gerar”. Depois do disco já lançado, os produtores conseguiram acesso a um tataraneto da curandeira mexicana e estão no processo de regularizar tudo em nome de seus herdeiros.

Essa é a prática de um discurso de reparação sobre o qual muito se ouve mas pouco se vê nas iniciativas que envolvem psicodélicos em todo o mundo. “Existe um histórico de violências de vários tipos onde o saber ocidental muitas vezes esteve numa perspectiva etnocêntrica de superioridade em relação aos demais saberes”, pontua Kastrup. “Um tributo feito por uma startup de ciência psicodélica ajuda a que possamos refletir sobre essa hierarquização histórica que muitas vezes prejudicou e deixou inúmeras sequelas nos povos tradicionais até hoje dizimados em suas culturas, em suas existências.”

Música e devoção

O disco tributo a Maria Sabina inaugura o selo Música Ritual, uma gravadora independente que se compromete a divulgar saberes ancestrais reservando sempre os direitos autorais às comunidades-berço de tradições que misturam espiritualidade e cultura. E embora este seja o primeiro álbum completo dedicado às substâncias que alteram a percepção, não é a primeira vez que o músico oferece seus dons artísticos para essa temática.

Ao longo dos 25 anos de carreira, Kastrup, que é também baterista da banda Ponto de Equilíbrio, viu uma composição sua, “Santa Kaya”, virar “uma espécie de hino canábico”. O vídeo da música já ultrapassou 3,5 milhões de visualizações no Youtube e foi usado em trocentas versões no Tiktok.

Mas é longe do Tiktok que ele encontra satisfação. Bem longe. Nos rincões do Brasil, em comunidades praticamente esquecidas pelo próprio país, onde o músico se embrenha exercitando a sua faceta antropólogo. Ele recarrega as energias e busca inspiração para o músico e o pesquisador que vivem dentro de si, que chegou inclusive a ganhar o prêmio de melhor trilha sonora no 16º Festival de Cinema dos Sertões, como pesquisador e produtor da trilha do filme “Santo de Casa”, com uma proposta musical de junção das raízes rítmicas maranhenses com melodias daimistas.

Lucas Kastrup, produtor, ao lado de Marcelo Bernardes, do disco-tributo

O interesse pelos psicodélicos vem de longa data, mais especificamente desde 2002, quando aos 22 anos passou a comungar da bebida ayahuasca. Hoje ele faz parte, junto com a esposa e os três filhos, da igreja daimista Flor da Montanha, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. 

No seu segundo pós-doutorado, pesquisou a origem do mestre Irineu, fundador do Santo Daime, a mais antiga religião ayahuasqueira brasileira, no interior do Maranhão. Deu um mergulho nas tradições típicas da localidade, como o baile de São Gonçalo, tambor de crioula, Caixeiras do Divino, e concluiu a pesquisa em janeiro passado. 

Fruto desse trabalho, uma exposição fotográfica intitulada “Baile de São Gonçalo, Retrato da Baixada Maranhense”, acompanhada de músicas típicas, foi inaugurada no Céu do Mapiá, a mais icônica igreja de Daime no país. Uma nova versão dessa exposição vai fazer parte do evento de aniversário do Museu Nacional do Rio de Janeiro em junho deste ano. 

“Música e ritual, música e devoção, esse é meu interesse como pesquisador. Minha faceta músico e a faceta antropólogo andam juntas porque meu interesse são rituais musicais. O tempo todo vou ligando música e tradição, tentando unir essas coisas.”

Anita Krepp