Reportagens

Comida que dá larica?

Influenciadoras participam de jantar canábico em São Paulo. A planta, é o ingrediente principal
14|03|24

Que ambiente melhor para celebrar a chegada da primavera e o fortalecimento de uma das plantas mais poderosas (e polêmicas) do que um jantar breezado? Faltavam três dias para o início da estação mais florida do ano, quando um grupo de mulheres se reuniu em um espaço cultural no centro de São Paulo para apreciar as delícias da cannabis.

O cenário era propenso a uma boa breeza. Sofá confortável, cantinhos com mesas e cadeiras propositalmente pensados para gerar espaço de conversas. A iluminação baixa, playlist calma, tudo para criar o ambiente propício e um clima aconchegante. 

Já na entrada, um shot refrescante de laranja com cúrcuma. Uma ode ao prazer e ao bom humor. Após as convidadas se ambientarem, sentaram ao redor da mesa para o jantar.

Para beber, chá, de capim santo ou de clitoria. De entrada, cinco opções que revelam as influências asiáticas e latino-americanas da chef: puerro quemado com pó de azeitonas; carrot, carrot, carrot; okonomiyaki (apresentado como uma “‘pizza japonesa com molho especial”); sopa de cogumelo com sui gyoza de nirá com tofu; bao bun com tofu e abóbora agridoce. O prato principal continua a mistura de raízes gastronômicas. Foi servido risotto negro com edamame e juba de leão e mix fungi. Para terminar, sorbet de framboesas com creme de chá verde e xarope de umê.

Sim, para a grande maioria é preciso dar um google para saber do que se trata metade (ou mais) dos ingredientes. Para a comunidade breezada, todavia, havia um elemento escondido, que não aparecia no cardápio, e que dava motivo ao jantar: maconha.

“A experiência imersiva, aromática e sensorial é impressionante”, compartilha a astróloga Madama Brona. Com 228 mil seguidores no Instagram, ela ganhou fama fazendo previsões astrológicas de jeito leve e bem-humorado, com a persona de uma drag. “Não sabia que a cannabis era tão versátil, fiquei encantada.”

Brona sentou à mesa com umas quinze colegas influencers, todas de perfis com milhares de seguidores nas redes.  “Pessoas conectadas com o espírito do tempo, progressistas, que desafiam o status quo e trazem novas perspectivas para que vivamos melhor”, afirma Juliana Duarte, a CCO (sigla para “chief creative officer”) da Humora, marca de produtos canábicos que promoveu o jantar. A executiva ainda acrescenta, sobre as influenciadoras à mesa: são “ativadoras do bom humor”.

(Pausa para uma curiosidade. A  lei que garante a distribuição gratuita de cannabis pelo SUS de SP inclui somente três graves patologias: a esclerose tuberosa e as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut. A marca que promoveu o jantar defende não fazer coro pelo uso chamado recreativo, mas investe num filão que é um, digamos assim, meio-termo: o bem estar, com alternativas para dormir melhor, fortalecer o sistema imunológico, ajudar na TPM e até para a hora do clímax.)

“O mais impressionante foi ver como a chef inseriu a cannabis de modo tão sutil, preservando o sabor dos ingredientes sem que a cannabis invadisse o paladar. Isso é uma coisa que a gente não faz ideia quando pensa em comida com maconha, né?”, comenta Hana Khalil, ex-BBB e youtuber. Nos pratos, os principais ingredientes feitos da planta eram farinha, semente e azeite. Como de costume na culinária canábica, na qual a substância costuma ser diluída em manteiga, molhos, temperos.

A CHEF

O menu foi assinado pela chef Marcela Ikeda, que trabalha a cannabis como ingrediente há oito anos. O menu degustação despertou os sentidos e a curiosidade sobre os pratos hiper criativos, de influência japonesa. 

Para elaborar o cardápio, a chef trouxe referências do Japão, onde morou.  “O cânhamo é um ingrediente tão deles, que sempre foi utilizado. Não é uma comida atual, é uma comida antiga”, conta ela. Tanto a maconha que dá uma breeza, quanto aquela que não, o cânhamo, podem ser usados na culinária.

No Brasil, tudo é uma total novidade. Não há, por exemplo, regulamentação que permita a venda de alimentos de cânhamo, que é autorizada em vários países do mundo, como se fosse linhaça ou quinoa. 

Há dois anos, Ikeda viaja o mundo pesquisando os usos da planta. Além do Japão, passou pela Índia, pela Tailândia e por alguns lugares na Oceania. Colecionou aprendizados sobre a culinária canábica.

Ela incorporou a substância na cozinha em 2015, quando se mudou para o Uruguai – onde a legalização já era uma realidade desde 2013. Lá criou a marca Larica, pela qual preparava e vendia brownies “especiais”. Pouco depois, passou a oferecer seus jantares infusionados com cannabis. Inclusive com a molécula psicoativa da planta, o THC. 

Inspirado pelas reportagens gastronômicas desta semana, Caio Cezar, do canal Cozinha 4e20, compartilhou algumas receitas com nossa comunidade. Confira, primeiro, o choripan canábico, clássico pão com linguiça em sua versão canábica. Ingredientes: 15 ml de azeite breezado + 15 ml de azeite de oliva + 1 cebola roxa + 4 tomates sem sementes cortados em cubos + 1 pimentão verde, outro vermelho, outro amarelo + 3 a 4 limões + Salsinha a gosto + Linguiça + Pão francês Preparo: 1. Prepare o vinagrete, com os tomates, os pimentões, a cebola e a salsinha. Adicione os azeites, o limão espremido e o sal. 2. Aqueça uma frigideira em fogo alto. Coloque um fio de azeite de oliva e frite a linguiça. 3. Corte o pão, coloque vinagrete, a linguiça e… mais vinagrete!

Ikeda é especialista em jantares que deixavam os convidados chapados. Modalidade que faz muito sucesso no Uruguai, no Canadá e nos EUA, com um ticket médio de 150 dólares por pessoa para o menu degustação, com tudo incluso. Em uma única noite, Ikeda costuma receber em torno de dez comensais. 

Nos últimos tempos, o cânhamo, a versão não psicoativa da planta, também ganhou destaque em sua cozinha, pelo sabor e pelos nutrientes que aporta às receitas. “Antes as pessoas só queriam a psicoatividade, mas foi rolando um processo educativo.  Passaram a entender que há opções para além disso. E eu também compreendi que o público hoje quer mais é bem-estar”, avalia a chef.

Além de fonte incrivelmente rica de proteínas, vitaminas A, C e E, e betacaroteno, o cânhamo adiciona um sabor único. No caso das sementes, bastante parecidas com as da castanha, dá um retrogosto que, dependendo da qualidade, pode ter um fundo amargo; mas quando é de alto nível, chega a ser adocicado.

Dessa semente também se faz uma manteiga similar à de amendoim. Assim como um azeite, extremamente umectante. “Sempre levo um frasquinho para o pessoal passar na pele, no cabelo, e depois na comida”, comenta Ikeda.

Ainda sem previsão de quando o cânhamo será finalmente liberado para consumo no Brasil, a chef, que mora no Uruguai e passa pelo Brasil algumas vezes por ano, apresenta para os compatriotas o que consegue, viajando sempre com uma bagagem enorme. Nela, leva fibra  “para o pessoal tocar”, farinha “para sentirem a crocância” e gominhas que “deixam todo mundo extremamente impressionado com a textura”. Tudo com cânhamo.

INFORMAÇÃO NA MESA

“CBD não é CDB, apesar de ser um belo investimento. CBD = canabidiol”. Pela mesa do jantar, plaquinhas passavam algumas pílulas de informação sobre a planta. “THC é tetrahydrocannabinol. Agora tenta falar isso em voz alta.”

“Foi lindo ver as pessoas se dispondo a interagir com o desconhecido. Com uma pauta que todo mundo acha que conhece, mas ninguém conhece a fundo”, diz Ana Júlia Kiss, fundadora da Humora. “Na China, existem registros de uso de maconha há mais de 5 mil anos”, informa a plaquinha na mesa. No Brasil, é bem menos, mas já há alguns séculos: “Existem mais de 2 mil pessoas plantando maconha no Brasil (legalmente, tá?)”, também registrava a plaquinha.

Na mesa, pintaram conversas das mais sérias. “A gente esclareceu as RDCs 327 e 660, que autorizam a importação e a venda de cannabis nas farmácias. Falou sobre outros canabinoides para além do THC e do CBD. Esclarecemos mitos sobre a sativa”, comenta Ana Júlia Kiss. Em uma das plaquinhas na mesa, outra informação: “Quando flagradas com maconha, pessoas pretas são presas 3 vezes mais do que as pessoas brancas”.

Entre dúvidas mais básicas e mais complexas, o jantar se desenrolava com a chegada de novos pratos, apresentados e explicados um a um pela própria chef, orgulhosa de descrever sabores, texturas e informações nutricionais que despertavam curiosidade. 

Pouco a pouco, a mesa foi ficando mais leve, mais íntima. Como também informava a plaquinha: “Um dos endocanabinóides chamado Anandamida significa felicidade em Sânscrito”.

Manteiga, do Caio Cezar, da Cozinha 4e20: Versátil, pode ser utilizada em doces e em salgados. Ingredientes: 200 g de manteiga sem sal + 10 g de breeza descarboxilada. Preparo: 1. Coloque 115 g de manteiga clarificada em um recipiente sobre uma panela com água fervendo, em banho-maria, e adicione a breeza; 2. Deixar em fogo baixo por entre 1 hora e 6 horas; 3. Retire do fogo e deixe esfriar o suficiente para coar em uma peneira fina; 4. Leve o líquido coado para a geladeira; 5. Descarte a água e seque bem a manteiga com um papel toalha.
Space Brownie, do Caio Cezar, da Cozinha 4e20. Ingredientes: 100g de manteiga breezada (ou 50, mais 50g de tradicional) + 180g de chocolate meio amargo picado ou cortado + 90g de açúcar refinado + 9 g de açúcar mascavo + 3 ovos + 1 colher (chá) de extrato de baunilha (opcional) +3g de sal += 20g de cacau em pó + 105 g de farinha de trigo + Manteiga para untar + Farinha de trigo para untar (ou papel manteiga). Preparo: 1. Preaqueça o forno a 200°C; 2. Derreta o chocolate em banho-maria; 3. Quando estiver totalmente derretido, coloque a manteiga; 4. Em outro recipiente, coloque os secos (farinha, cacau, açúcar, açúcar mascavo e sal) e misture; 5. Acrescente o chocolate com manteiga derretidos e misture bem até formar uma massa firme; 6. Coloque os ovos, um de cada vez; 7. Unte a forma; 8. Despeje a massa na forma e leve ao forno por 20 minutos; 9. Retire do forno e deixe esfriar; 10. Corte em 16 fatias e sirva.