Por Anita Krepp

Débora Cristina Machado tem 35 anos, é tetraplegica há quase 16 anos e tem um apetite que ela descreve como “quase zero”. Além da falta de vontade comer que se tornou quase crônica, a medicação que toma para o TDH apaga o que restava da fome. Há anos, a cannabis — óleo, vapor, ou baseado antes do almoço — é o que a faz conseguir dar umas garfadas. “Você pensa nas coisas que você gosta e não sente nada, sabe? Aí você fuma, dá um tempinho, e ainda que seja a larica, ajuda. Abre o apetite e a gente come com mais gosto.” Para ela, a planta é instrumento terapêutico sem ambiguidade. Seu problema é não sentir fome, e a maconha resolve.
Do outro lado do consultório, existem pacientes que chegam relatando o inverso. Comem por ansiedade, tédio, por estresse ou tudo junto. Assim como a Débora, eles também foram procurar a cannabis, só que buscando justamente o oposto: parar de comer compulsivamente. Ambos os usos da cannabis na modulação do apetite têm funcionado bem com o apoio de profissionais que entendem de cannabis e de gente.
A pergunta que dá título a esta reportagem nasce da convergência entre o boom das canetas emagrecedoras, a expansão do mercado de cannabis medicinal no Brasil e uma série de estudos, frequentemente contraditórios, que ora mostram que usuários crônicos de cannabis têm IMC menor que a média populacional, ora documentam o efeito munchies com toda sua potência calórica. Para entender por que a mesma planta produz efeitos opostos, é preciso começar pelo sistema que ninguém aprendeu na escola.
O termostato do nosso corpo
“A cannabis é como um termostato metabólico”, diz João Normanha, médico membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira de Nutrição Endocanabinoide. “Ela pode aumentar a fome no curto prazo, dependendo da forma como é usada, mas no longo prazo não necessariamente leva ao ganho de peso.” O sistema endocanabinoide, que a planta ativa, existe em todos os vertebrados, distribui-se pelo cérebro, intestino, tecido adiposo e sistema imune, e sua função central é manter a homeostase. É ele que conecta humor, metabolismo, resposta ao estresse e apetite num único circuito.
Vitor Palermo, médico generalista com atuação em medicina canábica, detalha que o sistema “não vai modular só a fome, mas também a alimentação hedônica, aquela alimentação por prazer, por recompensa emocional”. A distinção importa porque a compulsão alimentar, em grande parte dos casos, não é fisiológica, mas emocional. É o ato de comer sem fome como forma de regular os sentimentos.
No início dos anos 2000, pesquisadores observaram que o sistema endocanabinoide tinha papel central na regulação da fome. A hipótese era de que se esse sistema ativa o apetite, um remédio que bloqueie seus receptores CB1 cerebrais reduziria a fome. Então desenvolveram o Rimonabant, testaram e funcionou. As pessoas emagreceram.
O problema é que os receptores CB1 não regulam só o apetite, mas, em paralelo, também regulam o humor, o prazer cotidiano, e o amortecimento da ansiedade. Ao bloquear tudo isso de uma vez para derrubar a fome, o Rimonabant provocou depressão grave e risco de suicídio em parte dos pacientes e foi retirado do mercado. Provou, pelo pior caminho possível, que apetite e emoção são controlados pelo mesmo sistema. “Está tudo conectado por ele”, resume Palermo. O fracasso do Rimonabant deixou uma hipótese científica em aberto que a própria planta foi responder anos depois.
THC abre, CBD fecha
O psiquiatra Alexandre Peixoto sintetiza o que a maioria dos estudos confirma. “De forma simplificada, o CBD emagrece e o THC aumenta o apetite”. O THC ativa os receptores CB1 no hipotálamo, aumenta a liberação de grelina, intensifica o olfato e o paladar e amplifica a percepção de recompensa associada à comida, especialmente à calórica, açucarada e gordurosa. É ele que torna o almoço mais gostoso, vai dizer que você não desconfiava?
Para pacientes oncológicos com náusea induzida por quimioterapia, para pessoas com caquexia associada ao HIV ou ao Alzheimer, esse efeito é, sem sombra de dúvida, terapêutico. “Esse é o principal motivo para nós indicarmos o THC em pessoas que têm náuseas induzidas por quimioterapia”, confirma Peixoto.
O CBD, por sua vez, não ativa diretamente o CB1. Age como modulador e, em doses mais altas, com predominância sobre o THC, tende a reduzir o apetite. As nutricionistas Julia Menezes e Maria Fernanda Oliveira descrevem mecanismos adicionais que raramente aparecem nas manchetes: o CBD pode converter gordura branca em gordura marrom ou bege, tipo que queima calorias em vez de armazená-las; atua no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, envolvido na regulação hormonal e metabólica; e reduz a inflamação crônica que, por si só, dificulta o emagrecimento mesmo com ingestão calórica controlada.
“Pacientes que claramente são inflamados no sentido comportamental, com estilo de vida estressante ou que consomem alimentos muito inflamatórios, se beneficiam dos canabinoides anti-inflamatórios”, aponta Júlia.
O endocrinologista Caio Urzelin, o mais cauteloso do grupo, pondera que esses dados observacionais representam “a menor das evidências científicas na hierarquia metodológica” e que “a cannabis não deve ser considerada uma estratégia terapêutica para emagrecimento” com base na literatura atual. Qualquer efeito sobre o peso “parece ser indireto, variável e dependente de múltiplos fatores, incluindo composição dos canabinoides, dose, via de administração e características individuais do paciente”. A ressalva é legítima e necessária num mercado que tenta transformar cada achado preliminar em promessa de produto.
O herdeiro do remédio que falhou
Dentro da planta cannabis existe um fitocanabinoide que atua em mecanismo parecido com o do Rimonabant, mas sem a parte trágica. O THCV age como antagonista moderado dos receptores CB1 cerebrais, bloqueando o núcleo da fome com uma intensidade que não compromete as funções psicológicas que o medicamento destruiu. “Além desse bloqueio mais moderado no receptor, ele também tem uma ação ansiolítica, trazendo menos interferência para condições psicológicas”, explica Urzelin.
É essa combinação, redução de apetite mais controle de ansiedade, que o torna o fitocanabinoide com maior potencial específico para manejo de peso, mas Normanha nos coloca os pés no chão e nos lembra onde a ciência está. “A gente ainda engatinha nesse contexto do THCV, os estudos existem e a hipótese é sólida, mas a evidência clínica robusta ainda está sendo construída.”
Apesar de ainda falta mais evidência clínica, a nutricionista Julia já o usa na prática e coloca o THCV numa cadeia terapêutica mais ampla. “Junto com o CBD, ele tem a capacidade de reduzir colesterol, diminuir pressão arterial e melhorar a saúde metabólica como um todo, exatamente por esses efeitos anti-inflamatórios e calmantes.” A planta, nesse sentido, ativa o sistema endocanabinoide inteiro, ou seja, regula todos os outros sistemas e não só o digestivo. “Praticamente sem efeitos colaterais, e quando aparecem é uma questão de ajuste de dose”, ela explica.
Peixoto fecha o quadro com uma observação clínica relevante para entender por que o THCV interessa especialmente a pacientes com componente de ansiedade ou impulsividade na relação com a comida: ao contrário do THC em doses altas, que pode “reduzir a inibição e facilitar episódios de perda de controle” em pessoas predispostas, o THCV age em direção oposta, modulando tanto o apetite quanto o estado emocional que o aciona. Não é dizer que funciona para todos. É dizer que, para o perfil de paciente certo, é a molécula mais precisa que a planta oferece para esse fim específico.
A fome que não vem do estômago
O psiquiatra Alexandre Peixoto ilumina um perfil clínico que a conversa sobre peso raramente contempla. Pacientes com TDAH têm déficit de dopamina basal e buscam estímulos de satisfação imediata, e a comida cumpre esse papel com frequência. “Às vezes a alimentação está dentro desse contexto.”
Para esses pacientes, a cannabis pode oferecer uma via de modulação dopaminérgica que compete com o ato de comer compulsivamente, não como substituição de um vício por outro, mas como regulação do circuito que estava na origem do problema. O risco existe na direção oposta e Peixoto não o omite. O THC em doses altas pode reduzir a inibição, amplificar o valor de recompensa da comida e atrapalhar a percepção de quanto já foi consumido, especialmente em pessoas com histórico de transtorno alimentar.
Julia Menezes entra com uma distinção que ancora tudo isso na prática clínica. Antes de qualquer prescrição, ela precisa saber com qual tipo de fome está lidando. A fome física é um sinal fisiológico genuíno, o corpo pedindo o que precisa. A fome emocional não tem relação com necessidade metabólica, dirige-se a alimentos afetivos e calóricos. A cannabis pode ajudar a modular o segundo tipo, mas só se o uso estiver integrado a mudanças de rotina, sono e comportamento alimentar. Tratar a planta como atalho, sem esse contexto é repetir a mesma lógica das canetas emagrecedoras que ela critica.
Modular o cérebro e distender o estômago
A comparação com o Ozempic e com o Monjaro, que já disputa o posto de caneta emagrecedora mais popular no Brasil, é inevitável. Mas os mecanismos são distintos o suficiente para que a metáfora do “novo Ozempic” seja mais enganosa do que explicativa.
Urzelin explica a diferença de lógica entre os dois tratamentos de forma direta. O Ozempic age no corpo, retardando o esvaziamento do estômago, melhorando a resposta à insulina e fazendo o paciente sentir que comeu antes de ter comido muito. É um mecanismo periférico, mecânico, que funciona de fora para dentro.
Os fitocanabinoides, especialmente o CBD e o THCV, por sua vez, atuam de dentro para fora, no cérebro, no núcleo da fome, na ansiedade que antecede o episódio de comer, no impulso que faz a pessoa abrir a geladeira sem ter fome. São ferramentas que apontam para alvos diferentes, o que explica por que, na prática clínica, podem funcionar juntas.
“Cannabis e canetas emagrecedoras podem ser utilizadas em conjunto”, observa o endocrinologista. Na prática clínica, pacientes em uso de semaglutida que continuam com comportamento compulsivo podem se beneficiar do CBD como estratégia complementar. A nutricionista Maria Fernanda acrescenta um dado prático relevante para quem já usa a caneta emagrecedora: óleo rico em THC pode neutralizar o efeito do Ozempic, enquanto o CBD age como coadjuvante. A combinação exige orientação, não autogestão.
Uma ferramenta, não uma solução
Nenhum dos sete especialistas ouvidos para esta reportagem defende a cannabis como a nova caneta emagrecedora. O que descrevem é uma ferramenta com múltiplas entradas, metabólica, emocional e comportamental, que pode ser extremamente útil para perfis específicos de pacientes, desde que prescrita com cuidado e acompanhada de mudanças reais de hábito.
“A cannabis não é boa nem ruim por si só. Isso vai depender de quem usa e como usa”, resume Normanha. Prescrita de forma errada para alguém com compulsão alimentar ativa e comportamento impulsivo, pode piorar o problema. Prescrita com cuidado para quem tem ansiedade como gatilho alimentar, pode ser transformadora.
Débora não precisa de hierarquia de evidências para confirmar o que vive. Para ela, a cannabis é o que permite almoçar, comer comida de sal apesar do cheiro do alho, baixar a ansiedade o suficiente para que o corpo lembre como é sentir fome, e prazer ao comer. “Atua no espasmo, na dor, na fome, no sono, na questão de prazer, de estar bem mesmo. É um santo remédio, mais ou menos por aí.” Sem romantismo, mas com a autoridade de quem experimenta na pele o que os estudos ainda tentam medir.