Na Breeza

Psiconauta da gema

Por Anita Krepp

Num campo tomado por gente que vende iluminação em cápsulas, a terapeuta psicodélica Ana Martins é um contraponto interessante. Às vezes faz quatro sessões de preparação antes de uma única experiência com um paciente, só para desmontar a fantasia de que uma dose vai reorganizar uma vida inteira. Diretora de operações da OPEN Foundation, a organização holandesa que produz a ICPR, a maior conferência internacional de pesquisa com psicodélicos do mundo, a brasileira carrega uma sobriedade que destoa do hype, e isso que faz dela uma das vozes mais interessantes nesse universo.

“Não vejo psicodélicos como uma pílula mágica, mas como uma ferramenta terapêutica, e, como toda ferramenta, pode ajudar muito ou machucar muito, dependendo de como é usada”, diz ela, que é psicóloga de formação e trabalha em duas frentes: em Amsterdam, como integration coach, já que o trabalho clínico com psicodélicos não é legalizado na Holanda, e em Zurique, onde a cada três meses atua como terapeuta com psicodélicos dentro de um programa compassional em grupo que funciona desde 2019.

O que mais a preocupa não é falta de pesquisa nem de interesse nos psicodélicos – o que, a bem da verdade, só faz crescer –, mas um fenômeno que cresce junto com a legitimidade do campo: a medicalização dessas substâncias, como se só servissem em contextos extremamente controlados, sob a lógica farmacológica convencional. À medida que MDMA para transtorno do estresse pós-traumático e psilocibina para depressão avançam pelos corredores regulatórios, as substâncias vão ganhando o vocabulário clínico e perdendo o que as torna singulares. Sempre bom lembrar que o protocolo tem limites, mas a experiência, não.

“Quando tudo vira tratamento, os psicodélicos ficam presos nos protocolos, só que tem uma profundidade nisso que vai muito além. Tem um aspecto espiritual que também é terapêutico. O foco deveria ser a terapia assistida por psicodélicos, não a substância isolada como se fosse um medicamento qualquer”, defende.

Ana não é contra a regulação que ela defende e aguarda com especial interesse na Holanda, mas se recusa a achatar o que é complexo. A preparação e a integração, para ela, são onde o trabalho real acontece. A experiência em si é só um momento dentro de um processo muito maior, e tratá-la como o produto final é, na visão dela, o maior equívoco que o campo vem cometendo.

Sincronicidades

Que Ana chegasse até aqui tem uma qualidade de acidente bem organizada pelo universo. Ela saiu do Brasil aos 17 anos, sem muita clareza sobre o que queria, mas com a cidadania portuguesa do pai e a certeza de que precisava de novos ares. Passou por uma temporada na Itália aprendendo a criar joias com um joalheiro local, ganhou uma bolsa no Diamond Institute of America e passou cinco anos em Londres supervisionando joias de alto padrão numa TV britânica. Uma vida funcional, bem encaixada, digamos.

Em 2015, com casa comprada, emprego estável e relacionamento firme, foi caminhar 30 dias pelo Caminho de Santiago. Ao voltar, mergulhou em Jung, Lacan, Kabala, Ayurveda, foi para a Índia. Terminou o relacionamento e conheceu Noah, o hoje marido americano que já tinha uma relação madura com psicodélicos. Foi por essa porta, sem pressa e com bastante intenção, que ela entrou pela primeira vez, aos 28 anos.

“Eu não fui uma adolescente que tinha curiosidade em explorar estados alterados de consciência. Quando cheguei nos psicodélicos, foi pela saúde mental, pelo desenvolvimento pessoal. E sempre usei com foco, nunca de maneira recreativa”, conta ela, que hoje reconhece nessa entrada tardia e estruturada a mesma lógica que aplica no trabalho com pacientes.

A mudança para Amsterdam veio pela faculdade de psicologia, que ela escolheu depois de descartar outras cidades europeias. Noah gostava da cidade, as mensalidades eram acessíveis, e a decisão foi tomada com aquela mistura de cálculo e intuição que parece marcar todas as viradas da vida dela.

A vaga perfeita

O caminho até a OPEN Foundation começou com um bilhete vendido por um desconhecido num grupo de pesquisadores. Noah, que havia participado do financiamento de uma pesquisa do Imperial College of London com LSD em 2015, fazia parte dessa rede, e alguém estava repassando um ingresso de estudante para o ICPR 2022. Ele comprou um para Ana. Depois comprou um para si. E foram juntos.

Ela havia coordenado dezenas de congressos médicos pela Europa, sabia exatamente como aquele tipo de evento funciona, com toda a hierarquia e protocolo que o ambiente carrega. Mas o ICPR a surpreendeu, era outra coisa. Bill Richards, Rick Doblin, os nomes que ela conhecia de documentários e artigos estavam simplesmente ali, acessíveis, de carne e osso, como qualquer outra pessoa da plateia.

“Foi uma comunidade muito diferente de qualquer congresso que eu já tinha ido. As pessoas não tinham aquela questão hierárquica do meio médico. Me surpreendeu muito”, lembra. No final do verão, viu uma postagem de um meetup da OPEN Foundation no Instagram e levou o marido. No meetup, alguém perguntou se ela não queria aplicar para a vaga de conference manager. Havia visto o anúncio antes, mas não tinha mandado currículo porque a vaga pedia holandês. Timo, o business developer da época, disse: aplica de qualquer jeito. Ela aplicou, conseguiu a vaga e começou a gerenciar o ICPR. Atualmente, Ana trabalha a todo vapor nos preparativos para a edição 2026 do evento.

O que compensa

Os desafios de trabalhar com psicodélicos se parecem muito com os de gerenciar organizações sem fins lucrativos: captar recursos, equilibrar finanças e recusar patrocínios que comprometam a integridade do campo. A OPEN não faz parceria com retreat centers nem com nada que conecte a conferência ao underground da psicodelia, não por julgamento, mas porque sabe que a batalha pela credibilidade clínica se ganha também nas escolhas de imagem.

Por outro lado, há grandes recompensas. Como a profundidade do trabalho com pacientes e a sensação de estar numa comunidade e conviver com colegas que entendem, sem precisar de muito contexto, o que está em jogo. “É muito difícil explicar para alguém que nunca teve uma experiência psicodélica o que é uma experiência psicodélica. Estar nesse meio é estar com pessoas que entendem mais ou menos a sua experiência. Cria uma camada que torna tudo mais acessível e mais acolhedor”, diz ela.

O Brasil, ela acompanha de longe, com o orgulho de quem nunca perdeu a brasilidade, apesar de vinte anos fora. Terceiro maior produtor de artigos científicos sobre psicodélicos no mundo, o país tem pesquisadores relevantes espalhados de Foz do Iguaçu ao Rio Grande do Norte, e Ana tenta trazer esse ecossistema para mais perto da OPEN sempre que pode. Um congresso de cada vez, um paciente de cada vez, sempre com os pés no chão.