
“Eu não entendia por que a minha empresa, mesmo sendo tão controlada pelo Ministério da Agricultura e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, não podia plantar cânhamo”, conta Kiara Cardoso sobre o início do processo que moveu como CEO da DNA Soluções em Biotecnologia, para ser autorizada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) a cultivar cannabis medicinal em solo nacional, em decisão que fundamentou um novo marco regulatório para a cannabis no Brasil.
“Eu sou cientista de sementes, já trabalho com uma regulamentação muito pesada, um controle muito alto para trazer novas sementes para o Brasil, então aproveitei e usei todo o meu conhecimento para avançar com a cannabis”, diz Kiara que, aos 45 anos de idade, dedicou 20 deles ao estudo e à prática de trabalho com genética de plantas, atendendo farmacêuticas e empresas agrícolas brasileiras e liderando avanços em pesquisa, desenvolvimento e cultivo de variedades como o lúpulo, primo-irmão da maconha.
O processo que rolava no STJ e culminou em decisão celebrada recentemente, teve início lá atrás, em 2017. “Eu perdi em Curitiba, perdi em Porto Alegre, fui perdendo em todas as instâncias até chegar ao STJ”, que o escolheu em meio a centenas de outros processos abertos por diferentes empresas que pleiteavam recursos similares.
O palpite de Kiara é de que a escolha da ministra Regina Helena Costa se deu pelo embasamento técnico apresentado pela empresa. “Como pesquisadora, na ação eu mostrei a possibilidade de utilizar o sistema do Brasil, a gente já tem de arcabouço regulatório para que não se onere mais o governo, e sim se utilize e acomode o controle do cânhamo no país”, pontua ela, que considera o avanço tímido, mas ainda assim um avanço. “Não existe um país que começou com cannabis de alto THC. Primeiro se começa com o cânhamo. Daí a sociedade entende e as coisas se acomodam.”
MACONHA EXERCITA A PACIÊNCIA
Se tudo der certo, num futuro próximo a empresa – que hoje trabalha com biossegurança de sementes de cana, algodão sorgo, soja e milho –, poderá se dedicar exclusivamente à cannabis, na produção de flores e extratos para suprir a demanda de marcas que atendem aos atuais 670 mil pacientes da erva no Brasil.
Várias dessas marcas já foram bater na porta da DNA para comprar flores e extratos, inclusive algumas internacionais, de países como Canadá e Portugal, “querendo saber como é a nossa safra, só que na Caatinga, onde a gente tá, não tem safra, a gente produz o ano inteiro, os gringos ficam chocados”.
Kiara está deixando tudo organizado para iniciar o plantio e os processos de transformação da planta em extratos, “mas ainda não posso fazer o cultivo efetivo porque precisamos das diretrizes da Anvisa”, que segundo prazo estabelecido pelo próprio STJ, tem seis meses para ser publicadas. E, afinal, o que são seis meses para quem esperou o desenrolar da ação durante sete anos? “Infelizmente, a gente não consegue fornecer flor amanhã, mas logo, logo”, promete.
Paciência, por sinal, é uma das qualidades que a Kiara jura que a planta a ajudou a desenvolver. “Porque pra trabalhar com a cannabis no Brasil é preciso ter muita paciência, muita resiliência, mesmo.” Essas duas características também costumam ser requisitadas no enfrentamento a um tipo de tumor no cérebro que ela descobriu há cerca de dez anos, quando começou a notar alterações na visão, que evoluíram para a quase cegueira. “Na mesma semana eu ia de miopia a estigmatismo, e já não tinha controle, até equilibrar o tratamento convencional à cannabis, que não foi a cura, mas me ajudou a reencontrar um equilíbrio.”
PIONEIRA, DE NOVO
Hoje, o tumor no cérebro de Kiara está controlado, mas já não é o único em seu corpo. Apesar de não ser metastático, surgiram outros tumores de característica semelhante em outros órgãos. Todos, por sorte, controlados e sem malignidade.
A cannabis, portanto, além de ser um apoio terapêutico, é também um ativo profissional com o qual a empresária está prestes a pôr as mãos na massa. “Eu acabei conseguindo dentro da minha estrutura de vida ter uma relação com a cannabis de muito amor, de muito cuidado, de muito respeito pela planta e também com um olhar de que pode ser uma opção de commodity, uma opção de trabalho, de geração de emprego, de fomento a agricultura familiar”, resume.
“Poderia ter sido qualquer outra empresa, o que importa é que o marco está feito. Agora basta todo mundo trabalhar junto, basta todo mundo se respeitar, basta a gente não achar que um tem que ser melhor que o outro”, aconselha a empresária, que não tem medo de ousar, e foi pioneira não apenas em inspirar a ampliação da regulação do plantio de cannabis para fins medicinais no Brasil, como também foi a primeira pessoa a conquistar um habeas corpus de cultivo do estado do Paraná, em 2018.
Foi através dessa autorização de cultivo que, no ano seguinte, Kiara montou uma associação de pacientes, a AMO (Associação de Cânhamo e Cannabis Medicinal), para atender ou ajudar a encaminhar outras pessoas com condições que podem ser beneficiadas pela maconha e que chegavam até ela pedindo ajuda. Atualmente, a instituição atende mais de 700 pacientes em situação de vulnerabilidade, com foco no nordeste, e tem sido o tubo de ensaio para o trabalho que ainda no primeiro semestre de 2025 a marca vai desenvolver, tornando-se, muito provavelmente, a primeira empresa a plantar, produzir e vender cannabis no Brasil.
Anita Krepp